Lírio entre espinhos

Uma família católica buscando a santidade

As pequenas virtudes do lar

O matrimônio e a família não carecem de dificuldades. Reconhecia com honestidade Paulo VI: “Não é nossa intenção ocultar as dificuldades, as vezes graves, inerentes à vida dos cônjuges cristãos; para eles, como para todos, estreita é a porta que leva à Vida. A esperança desta vida deve iluminar seu caminho enquanto se esforçam animosamente para viver com prudência, justiça e piedade no tempo presente, conscientes de que a forma deste mundo é passageira” – Humanae Vitae, 25.

Os conflitos mais duros se dão no plano dos afetos e das vontades. Talvez sejam receios, desconfianças, discussões, rancores, faltas de perdão. Talvez se trate de faltas morais graves como infidelidade, mentiras, violências, fortes discussões, etc. Contudo, com frequência, os atritos são de ordem menor, ainda que possam terminar ocasionando sérios danos, rachaduras familiares, incluindo dolorosas separações. Não deveríamos estranhar que pequenos atritos façam tão mal ao casamento visto que pequenas rachaduras, quando não cuidadas a tempo, terminam por causar grandes desabamentos. Mesmo que não cheguem a tanto, são suficientes para tornar a vida familiar amarga e, certamente, são um obstáculo sério para a felicidade.

Onde há dois, há material suficiente para uma discussão

Não busquemos desculpas sem sentido para justificar discussões. “É que pensamos diferente” – dizem. E onde é que vamos encontrar duas pessoas que pensem exatamente igual em tudo? Se a harmonia dependesse disto não haveria esperança de concórdia nesta vida. Não há duas pessoas exatamente iguais nesta vida, é justamente por isso que as pessoas se casam! Não há duas coisas mais diversas do que uma chave e uma fechadura, e trabalham perfeitamente juntas!
Podemos concluir daqui que os principais problemas familiares e matrimoniais não são psicológicos e de temperamentos (ainda que causem distúrbios) mas sim, espirituais. Dito de outro modo, são problemas de virtudes. De um dos dois ou dos dois.

E isto tem solução? Claro que sim! uma solução fácil de formular e difícil de cumprir. Mas que vale a pena sendo seu resultado a felicidade.

A solução consiste na prática das pequenas virtudes. Tomo a expressão “pequenas virtudes” de São Marcelino Champagnat, que por sua vez se inspirou em São Francisco de Sales.

São Marcelino explicou este tema em certa oportunidade em que um irmão foi ter com ele incomodado por algo que achada inexplicável. Poucos dias antes havia sido destinado a uma comunidade de religiosos que era, segundo seu próprio parecer, virtuosos, cumpridores de todas as regras e desejosos de santidade, mas para sua surpresa a união que reinava entre eles estava longe de ser perfeita. Via, de um lado, religiosos virtuosos e do outro numerosas misérias domésticas, sem poder precisar qual era a raiz do problema nem tampouco sua solução.

Se isto vale para os religiosos também se ajusta aos leigos, especialmente aos casados. Há muitos que pensam que bastam as coisas principais para que reine a paz, mas não é assim. As pequenas virtudes são essenciais e necessárias e, se faltam, nunca se conseguirá a felicidade diária!

Para resolver estes problemas, nosso santo amigo nos trás uma lista destas pequenas virtudes e suas descrições:

1 – O perdão

Desculpe as falhas do próximo, as diminua, as perdoe facilmente e não espere que faça o mesmo para si. A vida familiar não é uma competição, não fique anotando as vezes que perdoou para perdoar na mesma medida. Lembre-se, amamos o próximo porque Deus nos ama!

2 – A caridosa dissimulação

Haja como se não soubesse dos defeitos, insensatez, falhas e palavras pouco atentas do próximo e suporte sem dizer nada ou queixar-se. A correção fraterna não engloba todos os defeitos senão apenas os mais graves. Além disso, depois de ter corrigido seu próximo, é necessário sofrer e suportar pois há defeitos que só são curados desta forma. Há almas virtuosas que, por mais que se esforcem, não conseguem corrigir certos defeitos, Deus as usa como exercício de virtude para aqueles que devem suportá-los.

3 – A compaixão

Compartilhe do sofrimento dos que padecem para suavizá-los: isso nos impulsiona a tomar parte nos trabalhos de todos e a intervir os fazendo  nós mesmos.

4 – A santa alegria

Compartilhe também do gozo dos que estão felizes! Mas com intenção de aumentá-los.

5 – A flexibilidade de ânimo

A não ser por motivos muito sérios, jamais imponha a alguém suas opiniões senão que admita o bom e racional que há nas ideias dos demais e aplauda sem inveja os bons entendimentos do próximo para conservar a união e caridade fraternas. É a renúncia voluntária de seus intentos pessoais e a antítese da obstinação e intransigência das próprias ideias. Se ainda assim insistir no pensamento “Eu tenho razão e não posso sofrer com os disparates e erros dos demais” lembre-se da resposta de São Roberto Belarmino, doutor da Igreja: “Mais valem duzentos gramas de caridade do que cem quilos de razão”.

6 – A caridosa solicitude

Ajude o próximo antes que ele peça,  para facilitar-lhe a vida e evitar a humilhação de pedir ajuda. É belíssima esta bondade de coração de quem nada sabe negar, que está sempre pronto para servir e presentear a todos.

7 – A afabilidade

Responda aos importunos (chatos rs) sem mostrar a mais leve impaciência! Sempre esteja pronto para ajudar os que pedem seu auxílio, instruir os ignorantes sem se cansar e com toda paciência! Numa oportunidade, São Vicente de Paulo interrompeu uma conversa que levava com pessoas “importantes” para repetir cinco vezes a mesma coisa a alguém que lhe interrompera e não o entendia bem, instruindo, na última vez, com a mesma tranquilidade com que o havia feito na primeira.

8 – A civilidade e a cortesia

Se antecipe a todos nas demonstrações de respeito, atenção e cortesia e ceda sempre o primeiro lugar para os demais. As demonstrações de estima manifestadas com sinceridade fomentam o amor mútuo, assim como o óleo serve de alimento ao fogo de uma lamparina e sustenta a chama que produz a luz, sem isto não há união possível nem caridade fraterna.

9 – A tolerância

Se incline para agradar aos inferiores, escute suas observações e mostre que as aprecia mesmo que nem sempre sejam perfeitamente fundadas. A tolerância, diz São Francisco de Sales, “é não buscar o próprio interesse, apenas o do próximo e a glória de Deus”.

10 – O interesse pelo bem comum

Prefira o proveito da comunidade e ainda o dos demais ao seu próprio, se sacrifique pelo bem dos irmãos e pela prosperidade do lar!

11 – A paciência

Sofra, tolere, suporta sempre! Nunca se canse de fazer o bem mesmo que aos ingratos, chegando a dar graças aos que te fazem sofrer. Santa Teresa de Calcutá repetia constantemente a Deus: “Vos amo não pelo que me dais, mas pelo que me retirais”. Este é o verdadeiro caminho para ter paz e conservar a união com todos.

12 – A igualdade de ânimo de de caráter

Seja sempre o mesmo, não se deixe levar por alegrias loucas, cóleras, melancolias, maus humores. Permaneça sempre bondoso, alegre, afável e contente!
Estas são as chamadas pequenas virtudes. Como se percebe,  são virtudes sociais, logo, são muito úteis a qualquer um que viva em sociedade. Sem elas as comunidades e famílias estão em desordem e agitação contínua e, por consequência, assim também está o país e o mundo. Sem elas não é possível alcançar a paz familiar que é nosso maior consolo neste vale de lágrimas.

Pratiquemos estas pequenas virtudes para tornar nosso lar e nossa vida amáveis!


Referências

A importância da rotina – parte 2

Hoje retorno com a segunda parte do texto sobre a importância da rotina. Esta importante característica de uma vida virtuosa da qual muitos querem fugir, além dos efeitos já citados na parte 1 também ocasiona as seguintes vantagens:

Propicia o descanso

Ter uma rotina básica pré estabelecida descansa qualquer cérebro! Não é preciso gastar energia programando cada passo de cada dia. Podemos aproveitar essa energia pra outra coisa. No começo parece cansativo estabelecer objetivos, cumpri-los e ficar se programando, organizando. Mas depois, quando a rotina está efetivamente implantada, é um alívio. Automaticamente já sabemos o que devemos fazer e a melhor forma de realizar as atividades. Inclusive é aí que começam a sobrar minutos preciosos de descanso nos dias! Ou que servirão para realizarmos nossos hobbies. No meu caso, um tempo de leitura ou de cozinhar algo!

Além disso, o próprio ambiente ordenado já nos oferece descanso. Um ambiente em ordem traz paz, aconchego, serenidade, tranquilidade. Ele educa e traz o senso de beleza.

Precisamos ter em cada dia alguns momentos de descanso. Esses momentos não são tempo perdido, principalmente se forem dedicados a conversar e distrair-nos em família. O descanso não é ausência de ação, mas diversão, isto é, mudança de trabalho: uma leitura instrutiva ou amena para aquele cujo corpo está esgotado, o cultivo de um pequeno jardim, trabalhos de agulha, cozinhar, escrever, caminhar, e por aí vai.

Depois de alguns dias de observação, percebi que eu descanso muito enquanto cozinho. Dessa forma, principalmente em dias tenebrosamente difíceis, me esforço, apesar do cansaço desolador, em ir para a cozinha preparar um bom jantar: simples e delicioso. E tanto eu como meu esposo percebemos que não importa quão ruim tenha sido o dia, depois que estamos juntos, tendo rezado o Santo Terço e podendo apreciar uma refeição saborosa, parece que todas as coisas difíceis e ruins que aconteceram, são esquecidas e, assim, o dia termina bem. É uma de nossas estratégias de sobrevivência! Tem funcionado muito bem!

E também, quando o cansaço é extremo, como em momentos da chegada de um recém nascido, não há prejuízo em se substituir certas atividades pelo repouso. Nesse momento de alegria, mas também de dificuldade, a rotina deve tornar-se bastante flexível e básica até o bebê ir aos poucos tomando o ritmo da família.

Auxilia na quebra de vícios como procrastinação e indisciplina

O fato de um dever ser prioritário não significa, via de regra, que seja preciso dedicar-lhe a maior quantidade de tempo. Há duas maneiras de dar prioridade a alguma obrigação:

  1. Quando se dá importância primária à “qualidade” com que se realiza. Assim, a um homem que deve trabalhar por longas horas para sustentar a família, Deus muitas vezes lhe sugerirá: no dia de hoje, é prioritário dar ouvidos às preocupações da sua esposa, dedicar uma palavra de estímulo àquele filho. Isto não significa que Ele nos peça um tempo de que não dispomos. Pede-nos, sim, que, dentro do pouco tempo disponível, demos maior qualidade – qualidade de carinho, de interesse, de afabilidade – ao relacionamento com os da nossa casa. E isto é sempre possível.
  2. Prioridade “cronológica”. Não a que consiste em dedicar longo tempo, mas a que consiste em fazer o que é mais importante “quanto antes”, sem atrasos desnecessários.

Basta pensarmos na facilidade com que empurramos para depois deveres que certamente julgamos (mentalmente) primordiais. Temos consciência de que alguma coisa é importante e não pode ser largada; mas iludimo-nos, dizendo: “Mais tarde”; ou então: “Logo que me sobrar um pouco de tempo”. Infelizmente, esse tipo de reação é frequente quando se trata de deveres para com Deus: Missa dominical, oração, etc., ou de deveres relacionados com o serviço do próximo.

Superar a Preguiça

Um passo importante para sermos senhores de nós mesmos é o de superar a preguiça, um vírus silencioso que pode nos paralisar pouco a pouco. A preguiça se fortalece em quem não tem um norte, ou também em quem, tendo-o, não começa a andar em sua direção. Pôr a cabeça no que requer nossa atenção, evitar fugir do que supõe um pouco de esforço, não deixar para depois o que podemos fazer agora… Sobre esses hábitos se constrói uma personalidade ágil, forte e serena.

Também convém estar atento ao outro extremo, o ativismo desordenado, como diz São Josemaria: “Filho, que tua atividade não esteja em muitas coisas: se te apressares, não estarás isento de delito; se perseguires, não alcançarás e, se correres, não escaparás”. Para que a vida não nos afogue com seus infinitos requerimentos, será melhor tomar a iniciativa para distribuir nossa atividade nos tempos adequados, ou seja, planejar – sem ficar quadriculados – dando prioridade ao que deve estar em primeiro lugar e não ao que aparece em cada momento. Assim evitamos que o urgente se sobreponha ao importante. Logicamente, não é preciso programar tudo, porém evitar que a improvisação leve à perda de tempo porque simplesmente nos dedicamos a correr atrás do que acontece durante o dia. Neste sentido, dizia São Josemaria que “é preciso ter ordem porque não temos tempo de fazer tudo de uma vez”.

Em nosso dia há alguns momentos chave que podemos fixar previamente: a hora de dormir, a hora de acordar, os tempos que vamos dedicar exclusivamente a Deus, a hora de trabalhar, a hora das refeições. Depois está o campo de fazer bem o que devemos fazer, com rendimento, atenção e perfeição, ou seja, com amor. “Cumpre o pequeno dever de cada momento; faz o que deves e está no que fazes”, já ensinou São Josemaria. Trata-se, em última análise, de um programa de santidade que não tem limites, porque se ordena a um grande fim: fazer feliz a Deus e aos outros. Ao mesmo tempo, esse amor que nos leva a ter um horário nos indicará quando devemos “quebrar” o plano, porque o bem de outras pessoas o exige, ou por tantos outros motivos que se apresentam com claridade para quem vive em presença Deus.

Quem é laborioso aproveita o tempo (…). Faz o que deve e está no que faz, não por rotina nem para ocupar as horas, mas como fruto de uma reflexão atenta e ponderada. Por isso é diligente. O uso normal dessa palavra – diligente – já nos evoca a sua origem latina. Diligente vem do verbo diligo, que significa amar, apreciar, escolher alguma coisa depois de uma atenção esmerada e cuidadosa. Não é diligente quem se precipita, mas quem trabalha com amor, primorosamente. – São Josemaria Escrivá

A santidade “grande” está em cumprir os “deveres pequenos” de cada instante. (Caminho, 817)

Fazei tudo por Amor. – Assim não há coisas pequenas: tudo é grande. – A perseverança nas pequenas coisas, por Amor, é heroísmo. (Caminho, 813)

Promove a harmonia familiar

A ordem torna o lar habitável, permite que cada um tenha seu espaço em boas condições, favorece a harmonia no funcionamento de cada parte da casa. Quando alguém entra em um lugar limpo e ordenado, tende a respeitar essa limpeza e ordem; mas se chegamos a um lugar sujo e desordenado, não sentiremos nenhum respeito por esse ambiente. O verdadeiro luxo de uma casa está no cuidado com que todos se esforçam para fazer bem todas as coisas.

Os pais devem tornar a casa funcional e agradável, a fim de que o trabalho de conservação que ela requer seja rápido e racional, sem atropelar as pessoas que dela se ocupam, tomando-lhes o tempo e a energia. É conveniente que a mãe procure economizar seu tempo mantendo a casa em ordem, virtude quase fora de moda, mas tão prática e eficaz: aquela ordem que, segundo diz o ditado: coloca cada coisa no seu lugar e faz economizar tempo, fadiga e palavras destemperadas. O pai, por sua vez, deve procurar não considerar a casa somente como lugar onde finalmente pode enfiar os chinelos.

A ordem, a regularidade, a programação, adequada, a divisão do trabalho – de que os filhos participarão gradualmente – farão do lar um lugar de convivência feliz e serena, donde desaparece todo o tipo de mau humor. É necessário, pois, aprender a programar o tempo em função dos objetivos a que nos propomos. Se não tivermos objetivos, é fácil que o tempo se torne um tirano: estaremos sempre muito ocupados e qualquer coisa nos deixará aborrecidos.

Saber o que acontece nos dias e horários habituais torna mais fácil a transição de uma tarefa para outra. As crianças aprendem a cooperar com as atividades e até mesmo a antecipá-las, sentindo-se satisfeita por sua colaboração e sucesso.

A rotina permite uma melhor divisão de tarefas e abre espaço para organizar momentos juntos: como as refeições, distrações (como filmes, jogos, passeios), as orações e momentos de conversa. Traz a segurança e evita a ansiedade do que esperar de cada dia. Além disso, a ordem material nos dá a tranquilidade de saber onde encontrar cada coisa, o que evita a insatisfação, a insegurança e o mau humor.

Não é porque a rotina existe que deve ser exatamente cumprida sempre. Quebrar a rotina vez por outra é necessário para o ser humano. Às vezes uma louça pode ser deixada na pia para que um filme seja assistido em família, por exemplo. O rigor da rotina não deve transmitir a sensação de perda de liberdade. O bom senso e equilíbrio sempre devem ser mantidos.

O nosso século – escreve Jacques Leclercq – orgulha-se de ser o da vida intensa, e essa vida intensa não é senão uma vida agitada, porque o sinal do nosso século é a corrida, e as mais belas descobertas de que se orgulha não são as descobertas da sabedoria, mas da velocidade. E a nossa vida só é propriamente humana se nela há calma, vagar, sem que isso signifique que deva ser ociosa (…) Acumular corridas e mais corridas, não é acumular montanhas, mas ventos.

Façamos um horário, um “plano de vida”, bem meditado e bem distribuído– melhor se for por escrito –, que crie canais efetivos para todos os nossos desejos de fazer as coisas bem e de fazer o bem; vivamos fielmente esse plano, e então entenderemos por experiência o sentido destas palavras de São Josemaria Escrivá: “Quando tiveres ordem, multiplicar-se-á o teu tempo e, portanto, poderás dar maior glória a Deus, trabalhando mais a seu serviço” (Caminho, n. 80).


Referências

Tríduo Pascal em família – como viver bem?

A Semana Santa é uma boa ocasião para incutir na família, especialmente nos filhos, o espírito de piedade cristã hoje tão em falta nas famílias. Por ser uma Semana Santa que toca de maneira forte a nossa sensibilidade, pois é a semana da Paixão de Cristo, torna-se uma ocasião oportuna para fazer de algum modo um retiro espiritual em família. Esse retiro pode ser realizado a partir de atitudes como:

1. Confessar-se

Para quem ainda não teve oportunidade ou protelou, ainda é tempo de fazer uma boa confissão e se possível, uma confissão geral.

2. Ter a consciência da importância de participar das cerimônias da Igreja

A Semana Santa é o ápice da vida cristã. Nós pais precisamos não só viver mas também envolver ao máximo nossos filhos nas celebrações litúrgicas. Uma das formas de se viver o Evangelho em família é justamente comprometer-nos nestes momentos fortes da nossa Igreja.
Crianças pequenas não são pensadores abstratos. Para aprender, eles precisam ver. Por isso é importante desenvolver atividades práticas com as crianças e levá-las às celebrações para que vejam e participem concretamente:

  • Na quinta-feira, da Missa de Lava Pés ou In coena Domini, da Ceia do Senhor; seguindo de um tempo de adoração a Nosso Senhor;
  • Na sexta-feira, na Via Sacra, Celebração da Paixão, Procissão do Senhor Morto (a depender da programação de cada paróquia);
  • No sábado, da Vigília Pascal;
  • No domingo, da Assembleia Pascal (a depender da programação de cada paróquia).

3. Manter um verdadeiro espírito de recolhimento e oração

Algumas atividades simples ajudam a tornar o ambiente da casa mais propício ao tempo da Semana Santa:

Cobrir as imagens sacras

Assim como em nossas igrejas, devemos cobrir ou guardar (caso não se tenha o tecido roxo) as imagens sacras desde o V Domingo da Quaresma.
Ao velar o crucifixo (até a Sexta-feira Santa) e as imagens dos santos (até a Vigília Pascal) a Igreja antecipa o luto pela morte de seu Senhor, incutindo nos fiéis uma mortificação à sua visão. Além disso, em casa, essa atitude visual auxilia principalmente as crianças a perceberem que ‘algo diferente’ está acontecendo.

Meditar a Paixão de Cristo

Deve ser dada maior ênfase em meditações da paixão. Aqui usamos o “A paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo”, de Santo Afonso. Como o Bento ainda tem 7 meses, não desenvolvemos uma atividade específica para ele, além das atividades que normalmente já participamos em nossa paróquia.

Manter um clima de silêncio

Apesar das atividades rotineiras, podemos, contudo, diminuir a nossa agitação, as nossas atividades em casa, o uso de meios de comunicação e dedicar mais tempo a uma leitura piedosa do Evangelho da Paixão e outros livros como o livro II da Imitação de Cristo, especialmente capítulos 11 e 12.

O clima da casa deve ser de recolhimento, evitando-se todo barulho ou atividade supérflua, mantendo o espírito de silêncio, através da moderação de palavras, festas e tudo que dissipe o espírito em divagações supérfluas.

De quarta feira até depois da Páscoa nenhuma atividade desnecessária será feita em nossa casa. Esses dias são reservados para Nosso Senhor.

Intensificar a oração e as penitências

Aproveitemos esse tempo de silêncio e sobriedade, intensifiquemos a nossa vida de penitência e meditemos sobre o infinito amor do Senhor, o qual, “amando os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13, 1). Além disso, são oportunas as orações e penitências em família definidas em comum acordo entre pais e filhos.

Aqui, por exemplo, escolhemos ter uma alimentação simples durante a semana santa para que no domingo de Páscoa tenhamos um belo almoço bem alegre! Assim aproveitaremos para sofrer junto com o Senhor e nos mortificarmos e também celebraremos com grande alegria a Ressurreição!

A sexta-feira da Paixão

Cozinha

A sexta feira da Paixão é um dia bastante quieto para nós. Há pouco para se fazer na cozinha, já que o jejum é rigorosamente observado nesse dia. Como eu amamento e o Bento ainda é bebê, eu faço um jejum mais leve. Já o Gabriel cumpre o jejum completo.
Uma dica é deixar praticamente tudo preparado já na quinta-feira, como os legumes e temperos picados, para não ter imprevistos ou atividades exageradas durante a sexta-feira.

Crianças

Durante as refeições todos podem ser incentivados a comer em silêncio e a ter pouco barulho pela casa – a respeito de barulhos que podemos controlar, é claro. Quem tem crianças pequenas sabe que há barulhos inevitáveis, o que é completamente normal.
A vivência familiar não é uma regra engessada, devemos lembrar que crianças são crianças, e também nem por isso devem ser flexibilizadas demais e esperar que não possam alcançar altos ideais. Mas também devemos ter expectativas baixas para não nos frustrarmos. O fato é que a própria piedade exprimida pelos pais nesses dias, a ausência de barulhos, como os de eletrônicos, ensina e educa a criança a vivenciar o clima de recolhimento, o que não significa que ela ficará imóvel de boquinha fechada.

Podem ser feitos desenhos para colorir, leituras de passagens sobre a Paixão, filmes. Além disso, é oportuno incentivar as crianças a deixarem as frivolidades nesse dia, como os desenhos animados e as guloseimas.

Adultos

Entre os adultos a conversa fica reduzida ao essencial, como se alguém muito amado estivesse deitado morto dentro de nossa casa. Nós usamos esse dia para participar ativamente das atividades paroquiais como a Via Sacra, a Celebração da Paixão, a encenação do Descendimento da Cruz e o Sermão da Solidão de Nossa Senhora.
À noite, antes de dormir, lemos ou assistimos algum filme sobre a Paixão.

Para aqueles que não conseguem participar dos ritos por causa de doença, bebês pequenos, é bom planejar atividades que ajudem a manter o espírito de recolhimento.

O sábado de Aleluia

Já no Sábado Santo as atividades começam a ser retomadas aos poucos, como o preparo dos ovos de Páscoa.
Mas lembre-se, ao contrário do que fazem muitos brasileiros, o sábado ainda não é dia de comemoração. Parece-me que, por ignorância, há uma confusão com o nome Sábado de Aleluia e parte-se para o churrasco durante todo o dia. Guardemos a alegria para após a Vigília Pascal! Pode-se fazer uma bela ceia após a Santa Missa, mas para nós fica muito tarde.

A alegria da Ressurreição

Devemos dar um adeus ao consumismo reinante em nossa sociedade, principalmente em época pascal e natalina. As famílias precisam voltar às tradições e à manufatura, ensinando aos filhos o valor do trabalho e a alegria de viver a fé.
Podem ser feitos ovos de chocolate caseiros ou pintar ovos de galinha por exemplo. Eles são uma boa maneira de expressar a Boa Nova da Ressurreição, pois são símbolo da vida nova.
A alegria é a marca do cristão, por isso o grande dia da ressurreição deve ser vivido como tal. Para isso podem-se colocar músicas alegres que remetam à ressurreição, usar as melhores roupas, fazer um grande almoço pascal e, se possível, convidar amigos ou familiares.


Referências

A virtude da ordem

Disse Santo Agostinho: sem ordem não há virtude ou como disse São Josemaria Escrivá: ”Virtude sem ordem? – Estranha virtude!”. Santo Agostinho também escreveu “pax omnium rerum tranquillitas ordinis” – “a paz de todas as coisas é a tranquilidade da ordem” .  A ordem é algo que vamos construindo na batalha de todos os dias: “começar pela tarefa menos agradável e mais urgente (…), ser perseverante no dever quando era tão fácil abandoná-lo, não deixar para amanhã o que temos de terminar hoje… E tudo isto para dar gosto ao Nosso Pai Deus!”

Falar nessas palavras – organização, planificação, rotina – evoca de imediato, nos tempos atuais, a frieza empresarial da produtividade e da eficiência. Parecem soluções muito boas para a indústria e o comércio e muito ruins para o coração e para a vida familiar. Muitos pensam assim e isso acontece porque não compreendem o verdadeiro sentido da virtude da ordem, uma virtude que precisa ser resgatada dos preconceitos que a desmerecem. Se não a reabilitarmos (a virtude da ordem) no nosso mundo de valores, veremos como a espontaneidade do amor e dos bons propósitos – que aparentemente é tão bonita e autêntica – se desvanecerá em ilusões e omissões.

“Sujeitar-se a um plano de vida, a um horário… é tão monótono! – disseste-me. E respondi-te: há monotonia porque falta Amor.” – São Josemaria Escrivá

A virtude da ordem, para o cristão, é uma maneira de praticar melhor o amor. O Senhor certamente nunca nos vai sugerir que abandonemos ou descuidemos das obrigações básicas diárias. Mas é bem possível que, se soubermos escutar a sua voz no fundo da consciência, percebamos que nos diz:  também é preciso saber parar, meditar e orar.
Em linhas gerais, são cinco os campos de atividades a serem ordenadas na vida de cada homem e todas estão inter-relacionadas:

  1. a religião (virtude da piedade),
  2. a família (virtude do amor e da amizade),
  3. o trabalho (virtude da laboriosidade),
  4. a sociedade (virtude da solidariedade, colaboração, convivência e amizade) e
  5. o descanso, esporte e cultura (virtude da convivência, alegria e inteligência).

”Se não tens um plano de vida, nunca terás ordem.” São Josemaria Escrivá

Ordem não é ativismo nem doença

Todos temos a experiência de que existe uma ordem que não é boa e que se poderia chamar «defensiva»: é a da pessoa que organiza muito bem os seus horários, mas não tolera que nada nem ninguém interfira neles, e se alguém tenta, cai sobre ela a ira do interrompido. Isso não passa da carapaça com que o egoísta se protege. Bem sabemos que essa ordem pode tornar-se doentia e atingir requintes de neurose, de mania.

Talvez já tenhamos conhecido pessoas que ficavam transtornadas porque alguém – esposa, filho, empregada – tenha tido ‘a ousadia’ de deslocar em poucos centímetros a posição exata que um livro devia ocupar na mesa do escritório. Da mesma forma que não faltam os que dramatizam qualquer interferência que lhes altere o horário de sono ou o fim de semana cuidadosamente planejado. Isto não é virtude, é doença espiritual e, talvez, psíquica. Assim como também não é virtude a ordem dos escravos da eficiência, que sobre o altar da “produtividade” ou do “sucesso” profissional sacrificam Deus, a saúde, a família e as amizades.

Todos deveríamos estabelecer e manter – e defender como algo de sagrado – pelo menos dez ou quinze minutos diários dedicados à meditação e ao exame de consciência: de manhã, antes de iniciar as atividades; ou pouco antes de nos recolhermos para descansar; ou aproveitando a possibilidade de visitar uma igreja numa hora tranquila, quando o silêncio do templo convida à intimidade com Deus.

Nesses momentos, a alma, com a graça divina, se torna transparente, se liberta da terrível força centrífuga do ativismo, e consegue voltar para o seu centro, esse “centro da alma” de que falam os santos, onde ela se encontra a sós com Deus. E essa voz de Deus, honestamente escutada, é a que nos esclarece quais são as prioridades e nos ajuda a hierarquizar, pela ordem de importância, os deveres a cumprir. Assim, estamos em condições de escolher o que é bom e grato a Deus.

Não ignoramos os obstáculos que existem para alcançar esta harmonia interior e exterior. Apesar de apreciarmos a grande atração que uma vida cristã plena constitui, muitas vezes experimentamos tendências diversas e, às vezes, contrárias. São Paulo o expressou com força:

“Quando quero fazer o bem, é o mal que se me apresenta. Como homem interior, ponho toda a minha satisfação na Lei de Deus; mas sinto em meus membros outra lei, que luta contra a lei de minha mente e me aprisiona na lei do pecado, que está nos meus membros.” –  Rm 7, 21-23.

Sentimos uma coisa e queremos outra, notamos que estamos divididos entre as coisas de que gostamos e o que devemos fazer, e, às vezes, a nossa vista acaba perdendo um pouco de luz. Como todos estamos expostos a esses pequenos desvios de rumo, o caminho é sermos simples e corrigirmo-nos com perseverança.

Melhor aproveitamento do tempo

Estabelecer prioridades é, certamente, uma das formas mais nobres da virtude da ordem: é colocar a ordem na mente e no coração. O cristão – e, em geral, todo homem ou mulher responsável –deve cuidar da prática da ordem no seu sentido mais simples e corriqueiro: a organização das atividades dentro dos horários de cada dia, a adequada planificação do aproveitamento diário do tempo. Ter um horário nos leva a aproveitar o tempo. Viver com um horário não nos ata, ao contrário: abre as portas para uma grande variedade de atividades diversas.

A ordem também nos leva a concentrar-nos no que estamos fazendo, não pretendendo fazer várias coisas ao mesmo tempo – o que geralmente leva a não concluir nenhuma. É muito mais eficiente terminar uma coisa e iniciar a seguinte. O verdadeiro trabalhador não se preocupa apenas de terminar a sua tarefa logo que possível; preocupa-se de produzir uma obra que esteja acabada, sem defeito, tão perfeita quanto possível. Não abandonemos uma tarefa enquanto houver algum detalhe que retocar.

Ter uma rotina evita o ócio, a preguiça e diversos outros vícios e nos impulsiona a crescer em virtudes. Permite que façamos uma vasta quantidade de atividades e com qualidade. Com a internalização da rotina vamos descobrindo que realmente temos tempo para tudo: mas ter tempo não significa ter muito tempo. Às vezes, por exemplo, o tempo que se tem para leitura diária são 5 minutos, mas sem esses 5 minutos não se leria absolutamente nada e se descuidaria da formação.

A rotina nos permite uma organização e melhor execução das atividades relacionadas ao nosso trabalho, evitando acúmulos, permitindo avanços e nos deixando flexíveis para lidar melhor com imprevistos. É necessário não omitir trabalhos que nos repugnam, nem inventar deveres adicionais que nos levariam a negligenciar e adiar os nossos deveres reais

Segurança e bem estar para os filhos (e também para os adultos)

O tempo para a criança algo complexo. É através das suas rotinas que a criança antecipa o que irá acontecer e adapta o seu comportamento à tarefa seguinte. As rotinas transmitem segurança à criança, deste modo a criança já sabe, por exemplo, que antes de jantar deve tomar banho. As principais rotinas que se devem manter com as crianças são: horas de refeição; hora de dormir; hora de estudar; hora de brincar e tempos em família.

Ter rotina é importante para desenvolver bons hábitos de sono e de alimentação. Além disso, diminui a ansiedade e transmite segurança. Afinal, saber o que vem em seguida elimina a curiosidade e a incerteza do depois, principalmente para as crianças. Ao desconhecer o que vem em seguida, uma dose de estresse é gerada inclusive nos adultos. Com a rotina adequada as crianças não ficarão aflitas pois saberão exatamente o próximo passo.

Uma família desorganizada, com horários irregulares – em que as refeições são servidas em horários diferentes, o banho e a hora de dormir não seguem nenhuma regra- forma crianças inseguras e desorientadas. A organização das atividades diárias não impedirá que a criança desenvolva autonomia. A coerência e a flexibilidade devem fazer parte do processo de estabelecimento das regras. Regras são essenciais e a rotina é referência na vida de crianças e adolescentes, porque direciona, organiza e equilibra suas vidas para mais tarde tornarem-se adultos diligentes.

Lembro-me que quando o Bento nasceu, senti muita dificuldade em estabelecer rotina. Mas com o passar dos meses fui percebendo que as tarefas começaram a se encaixar e a fluir melhor. Aos poucos fui retomando atividades antigas como leitura, fazer as unhas e também inserindo atividades novas, como um tempo reservado a levá-lo para brincar ao ar livre.

To be continued…

Continuarei este assunto tão importante numa próxima postagem, a parte 2!


Referências

A Indissolubilidade do Matrimônio

É fácil observar que o casamento tem sofrido ataques ferozes nos últimos anos. Política, cultura, meios de comunicação, todos parecem estar sempre prontos para atacar o matrimônio a qualquer momento. Já no início da década de 1980, São João Paulo II escreveu:

“Entre os sinais mais preocupantes deste fenômeno, os Padres Sinodais sublinharam, em particular, o difundir-se do divórcio e do recurso a uma nova união por parte dos mesmos fiéis (…)” – São João Paulo II

Durante toda nossa vida somos bombardeados por ideias contra os pilares do matrimônio: amor livre, total, fiel e fecundo. Pretendo falar sobre cada um destes, mas hoje escreverei em favor do amor fiel!

Eu não te deixarei. Nunca. Não importa o que aconteça!

Este é o voto da fidelidade matrimonial. Um pouco assustador, não? Eu sei, mas é justamente este voto que permite a segurança necessária para a formação de uma família saudável para o casal e para as crianças.

O voto de fidelidade impõe restrições às discussões do casal.  Por causa dele não se pode dizer “basta para mim” toda vez que o outro manifestar um de seus defeitos, o que fará tão frequentemente quanto você mesmo.
Se, por outro lado, a possibilidade do divórcio rondar todas discussões, os dois viverão como animais ariscos. A possibilidade do término do relacionamento fará com que cada um viva num constante clima de vigilância, com medo de que suas atitudes desagradarem ao cônjuge, o que tornará a vida muito difícil e estressante. Consequentemente tendendo ao fracasso do casamento. Logo, a possibilidade do divórcio aumenta a probabilidade dele acontecer!

O casamento é um voto de união por toda vida, por isso se faz em frente de muitas pessoas e, principalmente, diante de Deus! Também por isso os noivos devem se preparar muito bem para receber o sacramento do Matrimônio, pois é um passo definitivo, com consequências para toda vida e, claro, também para a eternidade. O Papa Francisco já chamou a atenção para este problema da falta de preparação adequada:

“A preparação próxima do matrimônio tende a concentrar-se nos convites, na roupa, na festa com os seus inumeráveis detalhes que consomem tanto os recursos econômicos como as energias e a alegria. Os noivos chegam desfalecidos e exaustos ao casamento, em vez de dedicarem o melhor das suas forças a preparar-se como casal para o grande passo que, juntos, vão dar.” – Papa Francisco

Confiança plena para se entregar aos filhos

Outro ponto importante da fidelidade é a confiança que surge entre o casal (e passa para os filhos). De que outro modo uma mulher poderia abandonar uma carreira profissional para se dedicar integralmente à família?

Mesmo que a lei do divórcio dê algumas “garantias”, uma separação costuma ser injusta pois a mulher que deixou a carreira profissional fica dependente da pensão dada aos filhos e da divisão dos bens enquanto o homem segue com suas receitas provenientes de seu trabalho.

Liberdade

A ideia de que o divórcio significa liberdade não poderia ser mais falsa. Me parece muito mais uma tentativa de racionalizar que o fracasso em construir uma família, no fundo, foi algo bom.

Como já explicado, só somos realmente livres quando podemos agir sem medo, sempre tentando acertar, é claro, mas também sem medo de assumirmos nossos defeitos para assim podermos consertá-los, sem medo de nos entregarmos completamente ao cônjuge e aos filhos.

A indissolubilidade do casamento também é o único modo de assumir responsabilidades. Afinal, se você não pode fugir então você irá resolver seus problemas. A alternativa é viver num campo de batalha pelo resto da vida!

Velhice

A fidelidade é a segurança que precisamos para não vivermos uma vida volátil, onde tudo pode acontecer a qualquer momento. Veja o que acontece com pessoas que se divorciam frequentemente aos 50, 60 anos. É triste: família fragmentada, não têm uma narrativa continuada da vida, sem falar no mal que traz para os filhos.

Segurança emocional dos filhos

A possibilidade do divórcio atinge diretamente o sentimento fundamental para a felicidade doméstica: o propósito de um futuro tranquilo e seguro. Os filhos recebem dos pais três bens fundamentais: a existência, o alimento e a educação, eles são essenciais para o desenvolvimento normal das crianças e jovens e isso tudo só é possível graças à fidelidade dos pais. Sem ela, as crianças se veem com corações divididos, sem os irmãozinhos que naturalmente viriam, sem um teto para chamar de seu, enfim, envenenadas pela separação entre a lei civil e a lei Natural, que é a Lei de Deus.

Sociedade moralmente saudável

Também são a legalização e a difusão do divórcio causas da degradação moral que decaiu sobre grande parte do mundo.  As obras e leis de Deus exercem ações benéficas à toda sociedade, mas quando os homens viram as costas para elas, estas ações desaparecem e uma série de males surgem, como se a própria Natureza se revoltasse contra  as obras dos homens contrárias à vontade Divina. Por isso, ao atingir diretamente os jovens, o divórcio enfraquece também a sociedade e a nação que encontram neles – os jovens – o escudo e o braço da prosperidade.

A própria violação dos votos matrimoniais tem consequências maiores, vejamos o que nos diz o Venerável Fulton Sheen:

(…) Seria terrível demais contemplar o que aconteceria ao mundo se nossas promessas não fossem mais vínculos. Nenhuma nação poderia estender crédito a outra Nação se o acordo de reembolso foi assinado com reservas. A ordem internacional desaparece enquanto a sociedade doméstica perece pela quebra dos votos. Dizer, dois anos após o casamento: “Eu fiz meu juramento no altar, sim, mas já que estou apaixonado por outra pessoa, Deus não quer que eu mantenha meu juramento”. É como dizer: “eu prometi não roubas as galinhas do vizinho, mas como me apaixonei por aquela bela Plymouth Rock (uma raça de galinha), Deus não quer que eu mantenha minha promessa”. Uma vez que decidimos, em qualquer assunto, que a paixão tem precedência sobre a verdade, e o impulso erótico sobre a honra, então como impedimos o roubo de qualquer coisa caso se torne “vital” para alguém? – Venerável Fulton Sheen

E Chesterton dá razão à Santa Igreja, falando sobre o divórcio:

A Igreja sempre esteve certa em negar até mesmo a exceção. O mundo admitiu a exceção, e a exceção se tornou regra. – G. K. Chesterton

Salvaguarda da dignidade da mulher

O papa Pio XII nos deixou textos esplêndidos sobre a família:

“Vede a sociedade moderna, nos países em que se permite o divórcio e perguntai-vos: te o mundo a clara noção de que a dignidade da mulher é ultrajada e ofendida, violada e corrompida, sepultada – é preciso dizer – na degradação e no abandono? Quantas lágrimas secretas molharam corredores e quartos! Quantos gemidos, quantas súplicas, quantos chamados desesperados em encontros, caminhos ou trilhas, em cantos e passagens desertas! Não, a dignidade pessoal do marido e da mulher – sobretudo a da mulher – não têm melhor defesa e tutela que a indissolubilidade do matrimônio. É um erro funesto acreditar que se possa conservar, proteger e elevar a digna nobreza da mulher e sua cultura feminina sem o fundamento do matrimônio uno e indissolúvel. Se a Igreja, cumprindo a missão recebida de Seu divino fundador, com gigantesco e intrépido uso de uma santa indomável energia, afirmou sempre e difundiu pelo mundo o matrimônio indissolúvel sai-lhe glórias, porque com isso contribuiu enormemente para defender o direito do espírito contra os impulsos dos sentidos na vida matrimonial, salvando, com a dignidade das núpcias, a dignidade da mulher e também da pessoa humana.” – Papa Pio XII.

Portanto, façamos nossa parte, confiantes na Graça santificante, para edificarmos uma família que seja rocha firme onde os filhos possam crescer e formar uma sociedade temente a Deus, de onde surgirão muitos santos e santas!


Referências

Dona de casa – nem por isso desinteressante ou infeliz!

Um dia, quando eu ainda era noiva, disseram-me que se eu escolhesse ser dona de casa, me tornaria uma pessoa desinteressante com o passar dos anos.  Na época simplesmente ignorei, mas acabei relembrando deste dito no dia 8 de março desse ano quando vi tantas pessoas considerando suas mães, tias, avós e amigas pessoas desinteressantes e, no fundo, indignas de comemorarem o suposto dia da mulher.

De acordo com o que vi,  esse dia é reservado para as mulheres que conquistam coisas como dinheiro, sucesso, carreira, independência. Não é reservado às ‘pobres’ mulheres que a cada dia labutam e conquistam virtudes nas crianças indóceis, avanços nos filhos problemáticos, repouso para os pais idosos e cansados, bodas longínquas em seu casamento, comida fresca num dia difícil, roupa cheirosa em semana chuvosa, casa limpa com bebê novinho.

Não há lógica nesse pensamento feminista que levanta sua bandeira em favor das mulheres que são oprimidas por um suposto sistema patriarcal, quando na verdade os patriarcas são aqueles que elogiam, agradecem e ajudam suas esposas todos os dias enquanto as feministas são essas que no dia internacional da mulher deixam essas mulheres esquecidas, ignoradas e humilhadas com seu discurso político e materialista.

Por isso eu escrevo: para ressaltar como nós, donas de casa, somos pessoas interessantíssimas, felizes e repletas de conquistas grandes e diárias!

Há um grande mito que ronda as mulheres hoje em dia: de que ser dona de casa é uma condição infortuna imposta pela vida. De fato, conheço alguns casos assim. Mas não é esse o único lado da moeda. Há muito mais histórias felizes do que tristes! Algumas pessoas já me perguntaram o porque de deixar o meu diploma de lado e escolher ficar em casa. Outras já me perguntaram se sou feliz assim ou se é meu marido que não quer que eu trabalhe fora.

Razões para ser dona de casa

Eu escolhi ficar em casa porque não conheci nenhum chefe que tenha me tratado tão bem quanto meu esposo. Nem conheci trabalho tão gratificante quanto o de ser mãe. São as horas mais bem empregas da minha vida! Não encontrei futuro tão promissor e que ofereça tanto crescimento espiritual e humano quanto o de estar em casa. Não encontrei escola, babá ou familiar que vá educar e amar meus filhos tão bem como eu. Nem casa que fique tão ordenada quanto pelas minhas mãos. Não encontrei nada que me desse tanta satisfação! Eu sou feliz pela vida que escolhi e a escolheria mil vezes! Não sou infortunada e nem caí de paraquedas nessa condição ”pobre”. Sou consciente da minha missão, da minha vocação e sei que em nenhum outro lugar serei tão digna, amada, eficiente e cheia de valor quanto na minha casa, com a minha família. Isso quer dizer que eu me considero melhor do que alguém? Não. Apenas que sou feliz com minha escolha.

Nunca me considerei tão interessante e vitoriosa como quando me tornei esposa, e mais ainda, quando fui mãe. Se antes, eu, por ser formada em biologia, era conhecedora das leis da vida e além disso tinha meu tempo para estudar idiomas, doutrina e dedicar-me a literatura, agora o meu campo de conhecimento se ampliou em um horizonte tão vasto como jamais havia pensado ou sequer reparado nessa graça reservada em grande parte à condição feminina.

Se uma mulher se casa e vive conforme os planos de Deus, ela encontra um amplo campo de estudo. Engana-se quem pensa que as mulheres do lar são pessoas emburrecidas pelo tempo: ao contrário, elas se tornam sábias com o tempo.

A sabedoria do lar

Nós, donas de casa, somos experts em nutrição. Conhecemos os benefícios de cada alimento e o que cada chá cura. Sabemos sobre cozimento, fermentação, corte, tempero, temperatura. Sabemos preparos simples como papinhas de bebê até grandes banquetes, como ceias de Natal. Sabemos sobre cultivo. Sobre sementes, raízes, podas e mudas. Sobre estações, pragas, terras e adubos. Sobre flores! Sabemos sobre doenças, remédios farmacológicos e naturais.

Sabemos sobre bebês, crianças, adultos e idosos. Sabemos sobre psicologia infantil, do homem e da mulher, do desenvolvimento natural e da morte. Sabemos sobre educação dos filhos, temperamentos, tolerar os aborrecentes. Sabemos conselhos valiosos, temos experiências duras, vivências felizes e também dias tristes.  Entendemos de química: usamos um trilhão de produtos e muitas misturinhas milagrosas que garantem roupas mais brancas do que a neve, macias como algodão e perfumadas como as flores primaveris!

Entendemos de histórias infantis, atuação, brincadeiras de carrinhos e casinhas de bonecas. Sabemos impor limites e dar aconchego a quem precise. Sabemos de viagens e finanças. Economizar, reaproveitar, reciclar! Entendemos de orações, preces, serviço comunitário. De rotina, planejamento, criatividade! Entendemos de beleza, ordem e conforto! Enfim, de tanto!

Todos os dias precisamos de uma gama de conhecimento para realizar nossas nem tão simples atividades diárias: cuidar de um bebê, de um filho crescido, do pai, da mãe, do esposo, de alguém doente, lavar e passar roupas, limpar a casa, cozinhar, educar, catequizar, e por aí vai. E todos os dias conquistamos tantas vitórias principalmente sobre nós mesmas e a respeito daqueles que amamos. Nós fazemos o mundo melhor. O futuro da sociedade passa pelas nossas mãos.

Como diz a dra. Alice von Hildebrand em seu livro O Privilégio de Ser Mulher:

”Quando chegar a hora, nada que tiver sido produzido pelo homem subsistirá. Um dia, todas as realizações humanas serão reduzidas a um monte de cinzas. Por outro lado, todas as crianças nascidas de mulher viverão eternamente, pois a elas foi concedida uma alma imortal, feita à imagem e semelhança de Deus. Sob essa luz, a afirmação de Simone de Beauvoir de que “as mulheres não produzem nada”, mostra-se especialmente ridícula.”

E o Pe. Pedro Félix:

”Mulher cristã, tu não nasceste para fazer obras mestras. As grandes obras da política, da guerra, da ciência, da literatura, da arte, não brotaram das tuas mãos, nem do teu engenho. Tudo isso é obra dos homens. Todavia, tu fizeste o que mais vale, formaste esses homens. Não só porque o geraste com o teu sangue, mas também porque o modelaste com tua paciência e com teus encantos.’

Senhoras e Rainhas

Essa é a nossa coroa de glória: a família. Coroa que tantas vezes floresce, mas na maior parte das vezes é de espinhos. As pequenas recompensas recebemos todos os dias, mas a grande recompensa está guardada para o entardecer da vida. Só quem tem os olhos voltados para o Alto consegue entender e enxergar coisas que passam tão despercebidas para aqueles ”que tem olhos mas não veem” (cf. Salmos 113, 13). Verdadeiramente, a Cruz para o mundo é loucura, mas para nós que cremos, é salvação.

Talvez nunca tenhamos parado pra pensar o quanto somos interessantes e o quanto temos para compartilhar. Que a chatice do mundo não recaia sobre nossos ombros! Não é interessante só quem ganha promoções em sua carreira ou quem tem a liberdade que o mundo prega. Para o mundo parecemos escravas sem opinião formada. Mas somos inteligentes e livres: na nossa família, no nosso cotidiano, nas nossas amizades. E mais do que isso, somos senhoras de nossos lares: somos rainhas.

Como lírio entre os espinhos

No Ofício da Imaculada Conceição há o seguinte trecho: “Qual lírio cheiroso entre espinhas duras, tal sois vós Senhora entre as criaturas”. A Virgem Maria já havia recebido esse título nas Sagradas Escrituras: “Qual o lírio entre os espinhos, tal é a minha querida entre as donzelas.’’ (Cantares 2,2)

Comentando esta passagem, Santo Afonso Maria de Ligório, no seu livro Glórias de Maria, imagina Deus dirigindo-se a Virgem Maria com estas palavras: “Filha por excelência entre o resto das minhas filhas, sois como o lírio entre os espinhos, pois todas as outras foram manchadas pelo pecado, e só vós fostes sempre imaculada e sempre minha amiga”. Outra comparação faz Santa Brígida: “Assim como o lírio cresce entre os espinhos, assim cresceu Maria entre os sofrimentos”. 

O lírio, por sua beleza pura e sublime perfume, é usado com frequência para designar as virtudes. Ele pode, porém, ser aplicado também a uma porção de coisas boas que, em nossas vidas, restam no meio dos espinhos. Esta é a nossa interpretação da missão a qual o Senhor nos chamou e chama a todas as famílias: “Sicut lilium inter spinas’’, ser como lírio entre os espinhos. Assim como Nossa Senhora, devemos crescer entre os sofrimentos.

A Exortação Apostólica ‘Familiaris Consortio’ nos traz o que é essa missão: 

§50. «Cada família comunicará generosamente com as outras as próprias riquezas espirituais. Por isso, a família cristã, nascida de um matrimônio que é imagem e participação da aliança de amor entre Cristo e a Igreja, manifestará a todos a presença viva do Salvador no mundo e a autêntica natureza da Igreja, quer por meio do amor dos esposos, quer pela sua generosa fecundidade, unidade e fidelidade, quer pela amável cooperação de todos os seus membros» .

§52. «A família, como a Igreja, deve ser um lugar onde se transmite o Evangelho e donde o Evangelho irradia. Portanto no interior de uma família consciente desta missão, todos os componentes evangelizam e são evangelizados. (…)Uma tal família torna-se, então, evangelizadora de muitas outras famílias e do ambiente no qual está inserida». «A família cristã proclama em alta voz as virtudes presentes do Reino de Deus e a esperança na vida bem-aventurada».

§54. Animada já interiormente pelo espírito missionário, a Igreja doméstica é chamada a ser um sinal luminoso da presença de Cristo e do seu amor mesmo para os «afastados», para as famílias que ainda não crêem e para aquelas que já não vivem em coerência com a fé recebida: é chamada «com o seu exemplo e com o seu testemunho» a iluminar «aqueles que procuram a verdade».”

Quando nos dispomos a amar como Nosso Senhor nos ensinou, podemos dizer, em parte, como nos diz Santa Teresa: ‘’cum dilatasti cor meum’’, dilatastes o meu coração. O amor tem essa característica e capacidade de se dilatar em todas as direções porque não se encerra em si mesmo, senão que transborda ao encontro do outro. 

Dessa forma, acolhemos, por sugestão do nosso amado diretor espiritual, esta missão e também experiência de dilatar o coração da nossa família para tantos outros corações. 

Que o bom Deus nos dê a Sua benção e a Santíssima Virgem nos acompanhe! E que todos sejam bem vindos, como diria São Josemaria, ao nosso lar “luminoso e alegre”!


Referências

  1. Ofício da Imaculada Conceição
  2.  Cantares 2,2
  3. Glórias de Maria
  4. Familiaris Consortio
  5.  É Cristo que passa