Lírio entre espinhos

Uma família católica buscando a santidade

E quando a mãe precisa trabalhar fora?

Tempo de leitura: 4 minutos

Há algum tempo eu venho meditando sobre a grande graça que é poder estar em casa. E, ao mesmo tempo, sobre como hoje há um discurso quase unilateral a respeito da mulher, como se ela se santificasse apenas no lar. Isso não é verdade. Cada um de nós se santifica dentro da realidade tão particular em que Deus nos colocou. Eu pude escolher ficar em casa e eu sou tão feliz por isso, que é o que eu desejo a todas as mulheres. Mas, infelizmente, muitas adorariam ficar em casa e não podem, pois a realidade é mais dura do que apenas escolher.

Este texto é um testemunho belíssimo de uma vida entregue à vontade Divina. A santidade não está em cumprir regras e em sermos todos iguais, mas sim em, acolhendo as particularidades que a Providência nos dá, nos abandonarmos totalmente nas Mãos Daquele que sabe dispor tudo para o nosso Bem.


 

Pensei  em inúmeras formas de começar esse texto, mas ainda não sei qual seria a mais adequada, por isso, não será algo apenas sobre mães que trabalham fora, mas mais que isso, é um pouco da minha história.

É verdade que cresci em meio católico, mãe católica, Missas, etc., mas minha história de conversão verdadeira começa com a maternidade. Não podendo desconsiderar o terreno em que essa vocação foi germinada, iniciamos um pouco antes. Apesar de nos dar pouca catequese propriamente dita, minha mãe sempre foi uma mulher de muita oração e de um coração ancorado no Senhor. Eu não sei como eu teria enfrentado tantos problemas se estivesse no lugar dela. E aqui encontramos meu modelo. Com o coração no alto e os pés no chão, minha mãe nunca aceitou que não estar conosco em tempo integral fosse justificativa para não ser presente, menos ainda de não amar a Deus.

Há muitos anos minha vida é tocada pela providência divina. Há quem limite esse dom a seus aspectos materiais, mas a ação de Deus vai além disso. Quando me casei jamais pensei que hoje teria 5 filhos e que esperaria com o coração aberto e desejoso ter ainda mais, se Deus assim o quiser; Jamais pensei em me enamorar do “papel tradicional” de mulher; Jamais pensei em ter que renunciar a isso e o quanto isso poderia custar. A providência veio me contemplar com a melhor inspiração que pudesse ter: almejar o ideal.

Parece-me que cada filho que o Senhor me deu, veio me arrancar pedaços, seguranças, medos, juízos de valor deturpados; Veio modificar minha realidade, dilatar o amor e revelar aquilo que realmente importa; Veio lançar luz sobre a Verdade e me fazer deseja-la acima de qualquer outro bem. E então, junto à verdade, a renúncia. Encarar a realidade antiga com um novo olhar é libertador, mas também pode ser profundamente doloroso.  Tive que aprender a me dividir, a oferecer e o fazer com alegria. “Ninguém faz bem o que faz contra a vontade, mesmo que seja bom no que faz.” (Santo Agostinho)

A providência me alcançou um curso superior e depois, um trabalho. Mas e aí? Será que não era apenas um teste para a minha fé? Tire as conclusões que quiser, pois a dinâmica do seio familiar cabe ao casal. A nós, foi um grande sinal do amor de Deus. Resposta a orações que eu nem pensei que seriam atendidas, tamanha a improbabilidade. A providência nos concedeu um novo rumo: nova casa, nova cidade, mais bebês… Mais amor de Deus. Foi nesse tempo que a condição de trabalhar fora mais pesou;  Foi nessas condições que Deus forjou ainda mais a minha fé e me abriu os olhos para o modo como eu precisaria conduzir minha vida. Assim como a minha mãe: com os pés no chão e o olhar para o céu.

Aprendi que é preciso fazer valer a pena. Primeiro que, se acredito que foi a providência que me concedeu o que tenho hoje, seria um grande pecado desonrar meu emprego ou desdenhá-lo. Depois, se já passo parte do dia longe das minhas crianças, que sentido teria  essa renúncia se fosse por algo sem valor? Hoje trabalho com famílias vulneráveis e as tomei como missão. É preciso ser luz, é preciso disseminar a verdade e, se eu não estivesse onde estou hoje, muito provavelmente essas pessoas a quem eu assisto com meu trabalho, estariam sendo assistidas por pessoas despreparadas, ou pior, doutrinadas como tantos outros profissionais que vemos por aí. Já disse Santa Teresa que “é justo que muito custe o que muito vale”, então é também pelas minhas crianças que eu honro o trabalho que Deus me deu.

Ainda almejo poder cuidar da minha casa exclusivamente, mas me dedico de coração ao que tenho hoje por acreditar que realizar a vontade de Deus é também encontra-lo nas pequenas adversidades, nas contrariedades. Talvez, se eu não precisasse renunciar a isso, eu nunca conseguiria perceber o valor de viver assim, do modo ideal, o desempenho da minha maternidade. Os santos nos deixaram bons testemunhos e o caminho das pedras. Santa Teresa e Santa Teresinha foram chamadas ao mesmo carisma e viveram sua vocação de modos tão diferentes. Quantas Santas foram rainhas, quantas outras, donas de casa.

“O pedido mais importante que devemos fazer a Deus é a união da nossa vontade com a d’Ele.” (São Francisco de Sales)

Não desperdicemos nossa energia insistindo em nos colocar em formatos pré-determinados ou sendo medíocres em fazer aquilo que nos custa. Lembremos-nos do jovem rico que já cumpria todos os preceitos, mas se entristeceu ao ser constrangido por um único pedido feito por Jesus. Almejemos o ideal, não o convencional, mas aquele único que importa: responder ao chamado que o Senhor faz exclusivamente a nós.

Encerro com uma frase de São Josemaria Escrivá que ficou impressa no meu coração desde que descobri o preço a pagar, a minha renúncia: “Fazei tudo por amor, assim não há coisas pequenas: tudo é grande. A perseverança nas pequenas coisas, por amor, é heroísmo.”

 

Parto normal: uma realidade espiritual

Tempo de leitura: 8 minutos

 

“Acaso faço chegar a hora do parto e não faço nascer?”, diz o Senhor. “Acaso fecho o ventre, sendo que eu faço dar à luz?”, pergunta o seu Deus.  (Isaías 66, 9)

Talvez você nunca tenha parado para pensar sobre a escolha entre ter um parto normal ou uma cesárea. Talvez você tenha crescido ouvindo as pessoas dizerem que parto normal é muito ruim, que dói demais. Talvez todos os médicos com que você tenha se consultado tenham lhe informado apenas com mitos a respeito do parto normal e lhe dado a cesariana como a melhor opção. Talvez você nunca tenha refletido sobre o lado espiritual de se trazer um filho ao mundo. Na iminência do meu segundo parto, achei tão importante falar sobre isso.

A cesárea

Infelizmente estamos inseridas em uma cultura cesarista. O Brasil é um dos países campeões em realizações de cesarianas, com uma taxa de 55,6% de cesáreas. Aparentemente o parto normal ficou para trás e isso parece ser tão… normal. A cesárea, que é um procedimento cirúrgico, passou a ser tida como escolha pessoal e a via mais comum de se trazer um bebê ao mundo. Será que isso está certo?
Em primeiro lugar, tratemos da cesárea. Cesárea é um procedimento cirúrgico que salva vidas, mas nem por isso deixa de ser uma cirurgia. Há muitos efeitos colaterais e até mesmo riscos, por isso ela deve ser feita com indicação de real necessidade, pois não é a via natural de nascimento e também não é a melhor.

A Karen Mortean, na página Fertilidade Inteligente, fez um post resumido sobre as indicações reais para uma cesariana. Nessa página, e em outras, como a Auxílio no Parto, vocês poderão encontrar uma infinidade de bons materiais a respeito do assunto. Também indico a página do meu obstetra, o dr. Frederico Bravim.

Benefícios do parto normal

São tantos os benefícios do parto normal:

  • em primeiro lugar, o de não precisar passar por uma cirurgia de médio porte,
  • menor risco de infecção,
  • o trabalho de parto favorece a produção de leite materno,
  • a mãe pode segurar o bebê assim que o bebê nasce e estimular a amamentação,
  • o vínculo deste momento é fundamental para a mãe/pai e bebê,
  • o útero volta ao seu tamanho normal mais rapidamente,
  • há benefícios psicológicos para a mãe,
  • as complicações são menos frequentes,
  • recuperação rápida após o parto,
  • não há necessidade de separar mãe-bebê,
  • menos problemas respiratórios para o bebê,
  • além de menor risco do bebê nascer prematuro, etc.

Infelizmente, além de uma cultura cesarista, nosso país tem um sistema de saúde em que práticas ultrapassadas ainda são feitas e tantas mulheres ainda sofrem violência obstétrica ao escolherem um parto normal. Muitas mulheres desejam um parto natural, mas esbarram em tantas dificuldades, principalmente a de encontrar profissionais que ofereçam como uma opção válida, real, como a melhor opção.

Muitos profissionais são desonestos e enganam as mulheres para não terem de se sacrificar ao acompanhar uma gestante em trabalho de parto por horas a fio, por exemplo. Por isso, é importante estudar e buscar equipes realmente confiáveis.

Outra grande dificuldade são as taxas tão altas que muitas equipes médicas cobram para estarem disponíveis para atender nosso parto. Ir para os plantões obstétricos que muitos hospitais oferecem tem sido cada vez mais difícil, pois a maior parte das equipes não está disposta nem a tratar as mulheres com respeito, muito menos a esperar o desenrolar de um trabalho de parto. Vivemos tempos difíceis, mas será que a cesárea é a nossa única opção?

Uma questão espiritual

Em poucos anos a nossa sociedade sofreu mudanças profundas e rápidas em tantas esferas. Uma delas, de forma especial, é que a vida encheu-se de facilidades e de conforto, nos deixando moles, frouxos e fugindo a qualquer custo do sofrimento.

Ter facilidades e conforto não é tanto o problema, já que muitas das invenções vieram como uma ajuda e as condições financeiras deram aporte a uma vida um pouco menos dura, no sentido de se poder desfrutar de algumas coisas boas que antes eram impossíveis.

Mas, a principal consequência dessa mudança é que desaprendemos a sofrer, desaprendemos a dar valor ao quanto as coisas custam, passamos a encarar qualquer pequeno arranhão como uma dor insuportável e a nos incomodarmos com tudo.

É certo que há uma grande influência médica durante o pré-natal na decisão das mulheres levando-as a optar pela cirurgia, até por motivos como mais conforto para o próprio médico, que não precisará passar horas com a gestante durante a madrugada, por exemplo, podendo apenas agendar a retirada do bebê num horário confortável para ele.

Mas, além disso, muitas mulheres optam pela cesariana justamente para fugir da dor. Pensemos bem, se nos colocarmos diante de perigo de morte é pecado grave, submeter-nos a uma cirurgia com tantos riscos sem motivos justos também parece se encaixar nesta situação.

A dra. Alice em seu livro O privilégio de ser mulher, escreveu:

”O parto é também um acontecimento que goza de sacralidade. Embora as dores agonizantes que muitas mulheres suportam sejam uma terrível consequência do pecado original, a beleza do ensinamento da Igreja Católica deixa claro que seus esforços femininos e seus gritos de agonia, que precedem a chegada ao mundo de outra pessoa humana, têm um profundo sentido simbólico. Assim como Cristo sofreu as dores agonizantes da crucifixão para reabrir as portas dos céus para nós, assim também a mulher recebeu o rico privilégio de sofrer para que outra criança feita à imagem e semelhança de Deus possa entrar no mundo.”

Não se sinta menos mãe ou menos mulher por ter feito uma cesárea necessária,  ou por ter sido enganada, por ter tido medo de sofrer violência obstétrica e tanto mais. Deus conhece nosso coração e a nossa realidade. O que venho trazer nesse texto é uma provocação, uma reflexão.

O Senhor nos dá graças específicas para cada situação na vida. Não podemos dizer que confiamos no Senhor apenas a respeito do número de filhos, mas devemos ter essa confiança filial de que Ele nos auxiliará na hora de trazê-los ao mundo. O que não significa que não devemos colocar os meios necessários para alcançar um bom parto, como nos informarmos, rezarmos, cuidarmos da saúde, procurarmos locais e equipes confiáveis, etc. Inclusive, há muitas maternidades públicas muito boas e defensoras do parto normal.

Nas Sagradas Escrituras está escrito: “Quando a mulher está para dar à luz, sofre porque veio a sua hora. Mas, depois que deu à luz a criança, já não se lembra da aflição, por causa da alegria que sente de haver nascido um homem no mundo.” (João 16,21). E é verdade! Se é o medo da dor que te afugenta dessa experiência tão grandiosa e cheia de significado, saiba que há inúmeros meios de amenizar a dor, como: a presença de uma doula, massagens, exercícios, respiração,  banho e, por fim, uma analgesia.

É impossível não relacionar o alto índice de cesáreas com um controle de natalidade velado. É certo que partos normais sucessivos são muito melhores para nós que desejamos uma família numerosa. Cesáreas sucessivas apresentam riscos e quantas mulheres não foram enganadas, desestimuladas a ter mais filhos ou a tentar um parto normal e até mesmo submetidas a laqueadura por causa disso?

É claro que há muitos casos de 8, 9 cesáreas, mas isso não significa que não haja riscos.

A questão maior é que existem mulheres que acreditam mesmo que não podem ter mais de três cesáreas, por exemplo, e os médicos usam disso para o controle de natalidade, fazendo até mesmo um terrorismo psicológico.  É importante que o parto normal seja estimulado e buscado mesmo com cesáreas anteriores. É totalmente possível, há relatos incríveis! E mesmo se não for o caso, há sim como ter mais de três cesáreas. Indico esse post sobre a quantas cesáreas uma mulher pode ser submetida.

Reflexão

Apesar da ”bandeira” do parto normal ser levantada em grande parte pelas feministas, isso não significa que seja uma luta apenas delas e que devemos ignorar este assunto. O parto normal é antes de tudo algo criado por Deus. Foi assim que o Criador pensou que os bebês viriam ao mundo, e, após o pecado original, que viriam ”em dores de parto.” O parto não é um assunto ideológico, mas natural, pois existe desde a criação.

Quando começamos a adentrar o mundo do parto natural, do parto humanizado, enfim, tantos termos, encontramos um discurso que vem no mesmo pacote: um suposto empoderamento da mulher, protagonismo, uma luta, uma bandeira. Mas o parto está muito além disso. Todo esse viés ideológico deve ser descartado por nós. Devemos reter e retomar aquilo que nos pertence, aquilo que é naturalmente bom, que conduz ao Bem: o parto que respeite o processo fisiológico natural, que tenha uma equipe médica competente e honesta, que se baseie em evidências científicas e que proporcione não só à mulher, mas também ao bebê e à família uma experiência feliz.

É preciso entender, antes de tudo, que o parto normal é um processo fisiológico e não patológico. São João Paulo II, na Carta Mulieris Dignitatem, nos diz: ”A análise científica confirma plenamente o fato de que a constituição física da mulher e o seu organismo comportam em si a disposição natural para a maternidade, para a concepção, para a gestação e para o parto da criança.”

Um parto não precisa de intervenções desnecessárias: todas fomos feitas para dar à luz. Infelizmente há tantas histórias de partos traumáticos, até mesmo violentos, que levam tantos casais à fecharem-se a novas vidas. E também, tantos casos de cesarianas desnecessárias e em seguidas vezes que acabam diminuindo a possibilidade de novas gestações seja por riscos verdadeiros ou porque os médicos assim o dizem.

Além disso, será que já paramos para entender a profundidade da experiência de dar à luz um filho? Submeter-nos voluntariamente a uma entrega tão grande que nos custará não pouco, mas muito. Ou como disse a Kimberly Hahn em seu livro Amor que dá vida:

“O que uma mulher faz ao dar à luz um filho é, à imitação de Cristo, dar a sua vida pelo amigo’.”

O Venerável Fulton Sheen nos ensina: “Todo nascimento reclama submissão e disciplina. Na mulher, a submissão não é passiva, é sacrifical. Nem só os dias da mulher, mas também as noites, não só a alma, mas também o corpo hão de partilhar do Calvário da maternidade. É por isso que a mulher tem da doutrina da Redenção uma compreensão mais nítida que os homens, ela, ao dar a luz, pôde associar com a vida o risco da morte e compreender o sacrifício de si mesma por outro ser, nos meses incômodos da gestação.” E “As dores que a mulher suporta no trabalho de parto ajudam a expiar os pecados da humanidade e extraem seu significado da Agonia de Cristo na Cruz. As mães são, portanto, não apenas co-criadoras com Deus; são corredentoras com Cristo na carne.”

Não é que quem faça uma cesárea necessária não passe por sofrimentos ou não seja uma oferenda viva, afinal muitas vezes desejamos um parto normal mas acabamos passando pela cirurgia por necessidade e isso não diminui a entrega, mas quem opta por uma cesárea apenas para não passar pelo trabalho de parto, pelo conforto de escolher o dia e hora do nascimento, sem sequer respeitar o tempo certo de nascimento do bebê, não está fazendo uma escolha razoável nem virtuosa. É apenas um capricho, uma fuga.

Sejamos mulheres de coragem, façamos da nossa vida e do nosso corpo uma oferta viva, um sacrifício vivo, como foi o Manso e Divino Cordeiro. Benditos os filhos que são gerados na Cruz! Somente aquilo que passa por ela é fecundo. Nossos rebentos serão frutos de santidade quanto mais nos oferecermos por eles.

Deixemos para trás esse discurso fraco, vitimista, caprichoso, mesquinho e sombrio de que o parto é algo terrível. O parto normal é algo maravilhoso! Entendido e vivido como deve ser, dentro de uma ótica e realidade católica, o parto é para nós, a morte de nós mesmas entre dores, suores e sangue, como morreu Nosso Senhor que jorrou sangue e água no alto da Cruz, para que o outro tenha vida. Que escolha mais feliz poder dar a vida pelos que amamos. Ou como nos ensina São Josemaria: “O amor é sacrifício e o sacrifício, por Amor, gozo.”

Planejamento Financeiro Familiar Católico – Diretrizes

Tempo de leitura: 7 minutos

No último artigo, explicamos sólidos fundamentos pelos quais as famílias católicas devem realizar um bom planejamento financeiro. No artigo de hoje, trazemos boas diretrizes para bem fazê-lo.

Diretrizes para um planejamento familiar católico

Tal como aponta o (Compêndio da Doutrina Social da Igreja) CDSI em seu artigo 360:

“Para contrastar este fenômeno [do consumismo] é necessário esforçar-se por construir ‘estilos de vida, nos quais a busca do verdadeiro, do belo e do bom, e a comunhão com os outros homens, em ordem ao crescimento comum, sejam os elementos que determinam as opções do consumo, da poupança e do investimento’. É inegável que as influências do contexto social sobre os estilos de vida são notáveis: por isso o desafio cultural que hoje o consumismo apresenta deve ser enfrentado de modo mais incisivo[…].”.

Como adquirir uma casa maior para nossa família crescente, se mal conhecemos nossas despesas mensais, não realizamos ajustes e não poupamos o suficiente? Se posso economizar algum valor por mês e utilizá-lo para um investimento de médio e longo prazo (aluguel ou compra de uma casa maior, o pagamento de uma boa educação para os filhos, por exemplo), para que comprar itens supérfluos (roupas, celulares, etc.) quando o que já temos nos atende? Se podemos fazer as refeições em casa, com nossas famílias, conversando e fortalecendo o convívio, por que fazê-las fora de casa, sozinhos, pagando mais caro e comendo, muitas vezes, alimentos não sempre saudáveis? Como reservar recursos para a ajuda aos necessitados e às obras da Igreja se mantemos o hábito de consumir bens supérfluos?

O ponto crucial das questões acima é: qual o custo de oportunidade das opções que renuncio e qual o impacto disso no equilíbrio financeiro da família e alcance de seus objetivos conjuntos. O custo de oportunidade é um conceito de ampla utilização em economia, relacionado à ideia de otimização.

“Acordamos com o custo de oportunidade todos os dias. Quando o despertador toca, pensamos na melhor escolha a fazer: dormir mais 10 minutos ou ‘pular’ da cama e chegar no trabalho no horário? Comparando a satisfação do sono extra com a de chegar cedo no trabalho, muitos travam o despertador e dormem mais 10 minutos! (GONÇALVES, 2010, p. 20).”. “[…] Um consumidor que compra um bem [ou faz uma escolha], mas poderia comprar [ou escolher] outro, incorreu num custo de oportunidade. O bem comprado [ou escolha feita] lhe dá satisfação, mas o que deixou de comprar [ou de escolher] foi uma oportunidade que também lhe daria satisfação. O custo de oportunidade de escolher o primeiro é a satisfação perdida por ter desistido da melhor alternativa seguinte à escolha que fez. […] O custo de oportunidade permite comparar o que se obteve (satisfação ou lucro) e o que se deixou de obter. […] (GONÇALVES, 2010, p. 19-20).”.

Nesse contexto, o artigo 358 do CDSI aponta que

“[…] hoje, mais do que no passado, é possível avaliar as alternativas disponíveis não somente tomando por base o rendimento previsto ou ao seu grau de risco, mas também exprimindo em juízo de valor sobre os projetos de investimento que os recursos irão financiar, na consciência de que ‘a opção de investir num lugar em vez de outro, neste setor produtivo e não naquele, é sempre uma escolha moral e cultural'”.

Considerando o exposto propomos um “passo a passo” para auxiliar as famílias católicas a exercitarem um bom planejamento financeiro:

PassoComentário
1) Conhecer detalhadamente a receita da família

 

É preciso ter em conta que esforços de trabalho poderão ser maiores em alguns momentos para aumentar a receita e alcançar objetivos definidos ou menores em função de flutuações econômicas e de emprego – nesse caso, será necessário proceder com ajustes nas despesas correntes.

 

2) Conhecer detalhadamente as despesas da família

 

É de bom alvitre manter a prática de identificar oportunidades de enxugamento de despesas e de negociação de preços e formas de pagamento.

 

3) Estabelecer objetivos e metas familiaresa) Objetivo é o propósito de realizar algo, é aonde se quer chegar. É ele que fornece a direção do que se deseja fazer, serve como guia. É a posição que se deseja ocupar no futuro, o sonho que se deseja realizar (LOBATO et al., 2012). Ex.: Objetivo: adquirir uma casa maior para a família crescente.

 

b) Metas são tarefas específicas para alcançar os objetivos. A meta é o objetivo de forma quantificada. Após priorizar os objetivos, eles precisam ser transformados em desafios intermediários no curto prazo, ou metas. As metas são temporais e estritamente ligadas a prazos. Uma boa dose de estímulo e desafio deve ser colocada na determinação das metas, porém, é preciso elaborar metas factíveis (LOBATO et al., 2012). Ex.: Objetivo: adquirir uma casa maior para a família crescente; Meta 1: Economizar x em y anos (meses); Meta 2: Trocar a casa w para a z, no valor h, em j anos.

 

c) Devem ser estabelecidos objetivos e metas familiares de curtíssimo (menor que 1 ano), curto (1 ano), médio (2-5 anos) e longo (maior que 10 anos) prazos.

4) Definir as melhores opções financeiras para o alcance dos objetivos e metas definidos e com base no conhecimento de receitas e despesas familiaresComprar à vista ou a prazo? Utilizar cartão de crédito ou dinheiro? Utilizar capital próprio ou empréstimo? Aplicação em renda fixa ou variável?
5) Definir plano de ação para alcance dos objetivos, por meio do detalhamento das metas

 

a) Os objetivos e metas estabelecem o que será alcançado e quando os resultados serão obtidos, mas eles não dizem como os resultados serão alcançados. Para cada objetivo, portanto, é necessário que se definam as estratégias para a sua viabilização. Esse conjunto de conceitos e ações pode ser organizado com a elaboração de um plano de ação. O plano de ação é uma ferramenta significativa no processo de desdobramento, organização e execução de estratégia. O processo de elaboração envolve aspectos técnicos, administrativos e pedagógicos, estabelecendo um balanceamento entre a responsabilidade individual e o compromisso coletivo (LOBATO et al., 2012).

 

b) Para uma rápida identificação dos elementos necessários à sua implementação, o plano de ação pode estruturar-se pela ferramenta 5W2H, que significa: what (o que será feito?); who (quem fará ?; when – quando será feito?; where – onde será feito?; why – por que será feito?; how – como será feito?; how much – quanto custará?) (LOBATO et al., 2012).

6) Monitorar constantemente receitas e despesasPara auxiliar o monitoramento, devem ser utilizadas planilhas e programas específicos de gestão financeira.
7) Realizar ajustes no planejamento familiar

 

Os itens 3, 4 e 5 devem ser analisados constantemente e revisados de acordo com eventuais mudanças de objetivos da família.

 

Felizmente, são cada vez mais comuns os serviços de assessoria financeira que podem ajudar às famílias, principalmente, no início de sua caminhada. Quem não tem condições de contratar tais serviços pode obter informações resumidas na internet, tal como pretendeu este artigo.

É necessário, como explanado anteriormente, cultivar bons hábitos que possibilitem uma católica gestão financeira familiar, tais como:

  • Criar na família uma cultura de diálogo e de planejamento financeiro familiar;
  • Contribuir com o dízimo e com outras obras da igreja;
  • Incentivar os filhos a participarem de trabalhos de ajuda ao próximo, preferencialmente em ações da igreja, criando uma cultura de caridade e solidariedade;
  • Incentivar aos filhos a ajudar nas atividades domésticas, criando uma cultura de disciplina, organização e co-responsabilidade, bem como a participarem de trabalhos remunerados, desenvolvendo o hábito do planejamento, trabalho em equipe, respeito à hierarquia e da meritocracia;
  • Incentivar desde cedo os filhos a participarem na construção e no alcance dos objetivos e das metas familiares;
  • Criar o hábito de poupar na família (diferentemente da avareza, um dos pecados capitais, a poupança possibilita o alcance dos objetivos familiares), evitando gastos com bens supérfluos;
  • Criar o hábito de acompanhamento de receitas e despesas, ajustando-as aos objetivos e metas familiares.

A necessidade das Virtudes: Naturais (adquiridas) e Sobrenaturais (infusas)

Como nos direciona claramente o artigo 359 do CDSI, o

“uso do próprio poder aquisitivo há de ser exercido no contexto das exigências morais da justiça e da solidariedade e de responsabilidade sociais precisas: Não se há de esquecer o dever da caridade, isto é, o dever de acorrer com o ‘supérfluo’, e às vezes até com o ‘necessário’, para garantir o indispensável à vida do pobre”.

Para fechar este ensaio optou-se por retomar a ideia das Virtudes, pois tudo o que fazemos deve ser para a Maior Glória de Nosso Senhor Jesus Cristo. Para tanto, recorramos ao que o Padre Royo-Marín nos explica sobre as virtudes naturais e sobrenaturais.

As Virtudes Naturais são aquelas adquiridas naturalmente, independentemente da graça e da ordem sobrenatural. Por mais estimáveis que sejam em sua ordem e plano correspondente, são totalmente desproporcionadas e ineptas para a vida sobrenatural que há de viver o cristão. Se os atos constantemente repetidos são bons, adquire-se pouco a pouco o hábito bom correspondente, que em teologia moral recebe o nome de virtude natural ou adquirida. Tais são, por exemplo, a prudência, a lealdade, a sinceridade, a honradez natural, etc., adquiridas naturalmente a custo da repetição de seus atos correspondentes.

Já as Virtudes Sobrenaturais, ou Infusas, são aquelas infundidas por Deus juntamente com a graça, para que possa operar sobrenaturalmente, e o divino, com ajuda dos dons do Espírito Santo. Possuem dois grupos fundamentais: Virtudes Teologais (apenas três: fé, esperança e caridade) e Virtudes Morais (subdivididas em: cardeais – prudência, justiça, fortaleza e temperança; potenciais ou derivadas – ex.: humildade, obediência, paciência, castidade, perseverança, etc.). As Virtudes Morais estão em perfeita analogia e paralelismo com as correspondentes Virtudes Naturais (adquiridas). As Virtudes Teologias são estritamente divinas, porque têm por objeto direto e imediato o próprio Deus, e não têm, pela mesma razão, virtudes correspondentes na ordem natural adquirida.

A família deve, portanto, por meio da oração, pedir a Deus que a infunda de Virtudes Sobrenaturais (Teologais e Morais) e praticar as Virtudes Naturais, adquiridas por meio da repetição constante. Assim, poderá controlar seus vícios e evitar pecados, tais como, preguiça, avareza, ganância, inveja, em busca de sua santificação.


Referências

  • Catecismo da Igreja Católica. Edição Típica Vaticana. São Paulo: Edições Loyola, 2000.
  • Compêndio da Doutrina Social da Igreja. São Paulo: Paulinas, 2005.
  • LOBATO, D. M. et al. Estratégia de empresas. 9. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009. 208 p.
  • GONÇALVES, A. C. P. et al. Economia Aplicada. 9. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010. 152 p.
  • DUHIGG, C. O poder do hábito – por que fazemos o que fazemos na vida e nos negócios. Rio de Janeiro, Objetiva, 2012. 407 p.
  • ROYO-MARÍN, A. Ser santo ou não ser… eis a questão – Compêndio da obra Teología de La perfección cristiana. 1 ed. Campinas, SP: Ecclesiae, 2016. 371 p.
  • AQUINO, F. R. Q. Família: santuário da vida – vida conjugal e educação dos filhos. 23. ed. Lorena, SP: Editora Cléofas, 2016. 232 p.
  • LINDENBERG, A. Uma visão cristã da economia de mercado. São Luís, MA: Resistência Cultural, 2017. 247 p.
« Older posts