Lírio entre espinhos

Uma família católica buscando a santidade

E quando a mãe precisa trabalhar fora?

Tempo de leitura: 4 minutos

Há algum tempo eu venho meditando sobre a grande graça que é poder estar em casa. E, ao mesmo tempo, sobre como hoje há um discurso quase unilateral a respeito da mulher, como se ela se santificasse apenas no lar. Isso não é verdade. Cada um de nós se santifica dentro da realidade tão particular em que Deus nos colocou. Eu pude escolher ficar em casa e eu sou tão feliz por isso, que é o que eu desejo a todas as mulheres. Mas, infelizmente, muitas adorariam ficar em casa e não podem, pois a realidade é mais dura do que apenas escolher.

Este texto é um testemunho belíssimo de uma vida entregue à vontade Divina. A santidade não está em cumprir regras e em sermos todos iguais, mas sim em, acolhendo as particularidades que a Providência nos dá, nos abandonarmos totalmente nas Mãos Daquele que sabe dispor tudo para o nosso Bem.


 

Pensei  em inúmeras formas de começar esse texto, mas ainda não sei qual seria a mais adequada, por isso, não será algo apenas sobre mães que trabalham fora, mas mais que isso, é um pouco da minha história.

É verdade que cresci em meio católico, mãe católica, Missas, etc., mas minha história de conversão verdadeira começa com a maternidade. Não podendo desconsiderar o terreno em que essa vocação foi germinada, iniciamos um pouco antes. Apesar de nos dar pouca catequese propriamente dita, minha mãe sempre foi uma mulher de muita oração e de um coração ancorado no Senhor. Eu não sei como eu teria enfrentado tantos problemas se estivesse no lugar dela. E aqui encontramos meu modelo. Com o coração no alto e os pés no chão, minha mãe nunca aceitou que não estar conosco em tempo integral fosse justificativa para não ser presente, menos ainda de não amar a Deus.

Há muitos anos minha vida é tocada pela providência divina. Há quem limite esse dom a seus aspectos materiais, mas a ação de Deus vai além disso. Quando me casei jamais pensei que hoje teria 5 filhos e que esperaria com o coração aberto e desejoso ter ainda mais, se Deus assim o quiser; Jamais pensei em me enamorar do “papel tradicional” de mulher; Jamais pensei em ter que renunciar a isso e o quanto isso poderia custar. A providência veio me contemplar com a melhor inspiração que pudesse ter: almejar o ideal.

Parece-me que cada filho que o Senhor me deu, veio me arrancar pedaços, seguranças, medos, juízos de valor deturpados; Veio modificar minha realidade, dilatar o amor e revelar aquilo que realmente importa; Veio lançar luz sobre a Verdade e me fazer deseja-la acima de qualquer outro bem. E então, junto à verdade, a renúncia. Encarar a realidade antiga com um novo olhar é libertador, mas também pode ser profundamente doloroso.  Tive que aprender a me dividir, a oferecer e o fazer com alegria. “Ninguém faz bem o que faz contra a vontade, mesmo que seja bom no que faz.” (Santo Agostinho)

A providência me alcançou um curso superior e depois, um trabalho. Mas e aí? Será que não era apenas um teste para a minha fé? Tire as conclusões que quiser, pois a dinâmica do seio familiar cabe ao casal. A nós, foi um grande sinal do amor de Deus. Resposta a orações que eu nem pensei que seriam atendidas, tamanha a improbabilidade. A providência nos concedeu um novo rumo: nova casa, nova cidade, mais bebês… Mais amor de Deus. Foi nesse tempo que a condição de trabalhar fora mais pesou;  Foi nessas condições que Deus forjou ainda mais a minha fé e me abriu os olhos para o modo como eu precisaria conduzir minha vida. Assim como a minha mãe: com os pés no chão e o olhar para o céu.

Aprendi que é preciso fazer valer a pena. Primeiro que, se acredito que foi a providência que me concedeu o que tenho hoje, seria um grande pecado desonrar meu emprego ou desdenhá-lo. Depois, se já passo parte do dia longe das minhas crianças, que sentido teria  essa renúncia se fosse por algo sem valor? Hoje trabalho com famílias vulneráveis e as tomei como missão. É preciso ser luz, é preciso disseminar a verdade e, se eu não estivesse onde estou hoje, muito provavelmente essas pessoas a quem eu assisto com meu trabalho, estariam sendo assistidas por pessoas despreparadas, ou pior, doutrinadas como tantos outros profissionais que vemos por aí. Já disse Santa Teresa que “é justo que muito custe o que muito vale”, então é também pelas minhas crianças que eu honro o trabalho que Deus me deu.

Ainda almejo poder cuidar da minha casa exclusivamente, mas me dedico de coração ao que tenho hoje por acreditar que realizar a vontade de Deus é também encontra-lo nas pequenas adversidades, nas contrariedades. Talvez, se eu não precisasse renunciar a isso, eu nunca conseguiria perceber o valor de viver assim, do modo ideal, o desempenho da minha maternidade. Os santos nos deixaram bons testemunhos e o caminho das pedras. Santa Teresa e Santa Teresinha foram chamadas ao mesmo carisma e viveram sua vocação de modos tão diferentes. Quantas Santas foram rainhas, quantas outras, donas de casa.

“O pedido mais importante que devemos fazer a Deus é a união da nossa vontade com a d’Ele.” (São Francisco de Sales)

Não desperdicemos nossa energia insistindo em nos colocar em formatos pré-determinados ou sendo medíocres em fazer aquilo que nos custa. Lembremos-nos do jovem rico que já cumpria todos os preceitos, mas se entristeceu ao ser constrangido por um único pedido feito por Jesus. Almejemos o ideal, não o convencional, mas aquele único que importa: responder ao chamado que o Senhor faz exclusivamente a nós.

Encerro com uma frase de São Josemaria Escrivá que ficou impressa no meu coração desde que descobri o preço a pagar, a minha renúncia: “Fazei tudo por amor, assim não há coisas pequenas: tudo é grande. A perseverança nas pequenas coisas, por amor, é heroísmo.”

 

Católica, esposa, mãe e psicóloga.

1 Comment

  1. Jaqueline Andreza

    26 de junho de 2018 at 12:39

    Que belíssimo testemunho.
    Que bom ler esse texto.

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