Lírio entre espinhos

Uma família católica buscando a santidade

O Senhor nos leva ao horto

Tempo de leitura: 3 minutos

 

Há duas coisas que nos são tão distantes e vistas, de certa forma, como ruins hoje em dia: o silêncio e a solidão. Mais do que ao silêncio, se há algo que em geral somos avessos é à solidão, que toma logo significado e proporções relacionadas à doenças.

Nessa mudança para a França, deparei-me com a solidão de uma forma nunca antes vivida. Mais do que uma solidão física, uma solidão da alma.

Depois de um período de aridez extrema, percebi que o Senhor me trouxe não ao deserto, onde Ele foi tentado ou aonde o povo caminhou rumo à terra prometida, mas sim, ao horto das oliveiras, onde enquanto todos dormiam, Ele sentia-se só.

Uma solidão doída que, com o estresse, angústias, medos, fez com que o Senhor suasse sangue.

Assim também o Senhor me trouxe ao horto, com nenhum outro fim senão o de levar-me a entender que para amá-Lo, devo deixar todas as coisas e nada é mais difícil do que deixar a minha vontade própria. E entregar ao Senhor a nossa vontade é conformar-se totalmente com a vontade Dele e nisso consiste a perfeição.

“É necessária a solidão para aumentar nosso amor e intimidade com Deus.”

Entendi que na maior parte das vezes andei como uma criança mimada esperando consolo, atenção e que as coisas corressem ao modo da minha vontade. Mas o Senhor me quis ensinar que se quero ser santa, se quero ser como Ele, em meio a noite mais escura devo dizer: Pai, faça-se em mim a Vossa vontade.

Enquanto não aceitei esse sofrimento, me debatia como um pássaro preso na gaiola. Deixar as coisas materiais é um sacrifício fácil. Mortificar a nossa vontade é como um rasgar-se com a espada. Quando entendi e aceitei que o Senhor queria me tirar todas as coisas e mostrar-me o Seu Senhorio, a minha alma tornou-se serena e dócil. Estou vivendo um tempo em que nada está sob o meu controle. E dou graças a Deus por isso.

Queremos sempre companhia, buscamos sempre consolo e ajuda, mas na vida espiritual estamos sozinhos (de certa forma) com Deus, pois se por um lado a graça divina vem em nosso socorro, do outro está apenas a nossa vontade firme de fazer o bem e ir subindo nos degraus do Amor.

O Senhor nos leva ao Horto. Na solidão, encontramos a paz: seja feita a Vossa vontade. Na solidão, encontramos a Fonte Escondida. Na solidão, encontramos a nós mesmos: um poço de miséria sem fim.

Certo dia um anjo conduziu uma alma piedosa ao Horto das oliveiras, onde Jesus agonizava, e disse: “Para consolar Jesus, necessita-se das almas vítimas. Onde estão elas, aquelas que consentem sofrer com ele até a agonia e o suor de sangue?” O Anjo então a fez se aproximar de Nosso Senhor. “Eu me aproximei, me prostrei e compreendi quanto vale o amor reparador e compassivo: tinha encontrado o local do meu repouso”.

“Eis as palavras que Nosso Senhor me deu para meditar. “Meu Pai, seja feita vossa vontade”. Durante a Santa Missa, Ele me fez entender tão distinta quanto intimamente duas queixas e uma promessa.
Primeira queixa: Poucas almas querem compadecer-se de minha agonia.
Segunda queixa: Poucas almas, mesmo as consagradas, sabem compadecer-se da Agonia do meu Coração.
Promessa: Faço grandes confidências as almas que querem consolar-me em minha agonia.” (Bem-aventurada Dina Belánger 1897-1929)

Tudo isso pode parecer distante, mas todos temos ocasiões em que somos levados ao horto. Uma grande ocasião é o puerpério, período pós nascimento do bebê, a solidão que se sente, as noites em claro, as angústias, os medos, a dificuldade na amamentação que nos faz literalmente sangrar. Também tantas outras, como mudar-se para um lugar novo longe dos amigos, da família; as esposas que ficam sozinhas enquanto seus maridos viajam a trabalho ou trabalham embarcados; as viúvas e tanto mais.

É verdade que um Anjo consolou o Senhor, e também nós, em meio às nossas agonias, recebemos algum consolo (humano ou espiritual). Mas, o consolo só veio depois da total conformidade com a vontade do Pai. De qualquer modo, não podemos viver dependentes de consolo cada vez que experimentarmos o sofrimento. A vida espiritual não é sensorial e baseada em sentimentos. Não tenhamos medo de fazer companhia ao Senhor no Horto, de esquecer o nosso sofrimento e consolá-Lo. Não cresceremos espiritualmente enquanto formos tão dependentes das criaturas e enquanto quisermos que seja feita a nossa vontade. Devemos aprender de Jesus a forma perfeita de orar e viver: que se cumpra fielmente a vontade do Pai e, para isso, teremos de ser crucificados.

3 Comments

  1. Maravilhosa meditação! Creio muito na força do silêncio e da solidão, fontes de encontro e transformação. Abraço, Ray…

  2. Rayhanne, louvo a Deus por sua vida e pelo seu sim ao apostolado desse blog. Deus já falou muito comigo por aqui e hoje não foi diferente. Há quatro meses estou morando em uma cidade bem distante da minha. Passei exatamente por essas “fases” que você descreveu no texto e até agora não criamos vínculos de amizade (mesmo frequentando paróquias e grupos de oração). Desde o início peço a Deus que nos mande bons amigos, amigos santos e até agora nada. O que consigo enxergar é Ele me poupando de más companhias e me querendo mais unida à Ele, à sua dor. Lembrar da agonia de Jesus no Horto define muito bem o que tenho vivido e o desejo do meu coração de amá-lo sempre mais. Também me encontrei comigo mesma e percebi o mesmo: sou um poço de miséria sem fim. Quantas vezes “gritei” por consolo e não encontrei, achava que a minha agonia deveria ser “paga” de alguma forma, mas hoje vejo que o meu consolo é saber que Ele cuida de mim, que se me permite viver isso é porque me ama e me quer unida à sua dor e que estou com Aquele que venceu a morte. Não tem sido fácil, mas não quero deixar passar a oportunidade de amar ainda mais a Jesus, não quero sair “ilesa”. Tudo passa, só Deus basta! Que a Virgem Santíssima interceda por sua família e por este novo tempo na vida de vocês, que seja frutuoso!!

  3. Rayanne, que texto providente em minha vida. Muito obrigada!

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