Lírio entre espinhos

Uma família católica buscando a santidade

Tag: catolicismo

O Senhor nos leva ao horto

Tempo de leitura: 3 minutos

 

Há duas coisas que nos são tão distantes e vistas, de certa forma, como ruins hoje em dia: o silêncio e a solidão. Mais do que ao silêncio, se há algo que em geral somos avessos é à solidão, que toma logo significado e proporções relacionadas à doenças.

Nessa mudança para a França, deparei-me com a solidão de uma forma nunca antes vivida. Mais do que uma solidão física, uma solidão da alma.

Depois de um período de aridez extrema, percebi que o Senhor me trouxe não ao deserto, onde Ele foi tentado ou aonde o povo caminhou rumo à terra prometida, mas sim, ao horto das oliveiras, onde enquanto todos dormiam, Ele sentia-se só.

Uma solidão doída que, com o estresse, angústias, medos, fez com que o Senhor suasse sangue.

Assim também o Senhor me trouxe ao horto, com nenhum outro fim senão o de levar-me a entender que para amá-Lo, devo deixar todas as coisas e nada é mais difícil do que deixar a minha vontade própria. E entregar ao Senhor a nossa vontade é conformar-se totalmente com a vontade Dele e nisso consiste a perfeição.

“É necessária a solidão para aumentar nosso amor e intimidade com Deus.”

Entendi que na maior parte das vezes andei como uma criança mimada esperando consolo, atenção e que as coisas corressem ao modo da minha vontade. Mas o Senhor me quis ensinar que se quero ser santa, se quero ser como Ele, em meio a noite mais escura devo dizer: Pai, faça-se em mim a Vossa vontade.

Enquanto não aceitei esse sofrimento, me debatia como um pássaro preso na gaiola. Deixar as coisas materiais é um sacrifício fácil. Mortificar a nossa vontade é como um rasgar-se com a espada. Quando entendi e aceitei que o Senhor queria me tirar todas as coisas e mostrar-me o Seu Senhorio, a minha alma tornou-se serena e dócil. Estou vivendo um tempo em que nada está sob o meu controle. E dou graças a Deus por isso.

Queremos sempre companhia, buscamos sempre consolo e ajuda, mas na vida espiritual estamos sozinhos (de certa forma) com Deus, pois se por um lado a graça divina vem em nosso socorro, do outro está apenas a nossa vontade firme de fazer o bem e ir subindo nos degraus do Amor.

O Senhor nos leva ao Horto. Na solidão, encontramos a paz: seja feita a Vossa vontade. Na solidão, encontramos a Fonte Escondida. Na solidão, encontramos a nós mesmos: um poço de miséria sem fim.

Certo dia um anjo conduziu uma alma piedosa ao Horto das oliveiras, onde Jesus agonizava, e disse: “Para consolar Jesus, necessita-se das almas vítimas. Onde estão elas, aquelas que consentem sofrer com ele até a agonia e o suor de sangue?” O Anjo então a fez se aproximar de Nosso Senhor. “Eu me aproximei, me prostrei e compreendi quanto vale o amor reparador e compassivo: tinha encontrado o local do meu repouso”.

“Eis as palavras que Nosso Senhor me deu para meditar. “Meu Pai, seja feita vossa vontade”. Durante a Santa Missa, Ele me fez entender tão distinta quanto intimamente duas queixas e uma promessa.
Primeira queixa: Poucas almas querem compadecer-se de minha agonia.
Segunda queixa: Poucas almas, mesmo as consagradas, sabem compadecer-se da Agonia do meu Coração.
Promessa: Faço grandes confidências as almas que querem consolar-me em minha agonia.” (Bem-aventurada Dina Belánger 1897-1929)

Tudo isso pode parecer distante, mas todos temos ocasiões em que somos levados ao horto. Uma grande ocasião é o puerpério, período pós nascimento do bebê, a solidão que se sente, as noites em claro, as angústias, os medos, a dificuldade na amamentação que nos faz literalmente sangrar. Também tantas outras, como mudar-se para um lugar novo longe dos amigos, da família; as esposas que ficam sozinhas enquanto seus maridos viajam a trabalho ou trabalham embarcados; as viúvas e tanto mais.

É verdade que um Anjo consolou o Senhor, e também nós, em meio às nossas agonias, recebemos algum consolo (humano ou espiritual). Mas, o consolo só veio depois da total conformidade com a vontade do Pai. De qualquer modo, não podemos viver dependentes de consolo cada vez que experimentarmos o sofrimento. A vida espiritual não é sensorial e baseada em sentimentos. Não tenhamos medo de fazer companhia ao Senhor no Horto, de esquecer o nosso sofrimento e consolá-Lo. Não cresceremos espiritualmente enquanto formos tão dependentes das criaturas e enquanto quisermos que seja feita a nossa vontade. Devemos aprender de Jesus a forma perfeita de orar e viver: que se cumpra fielmente a vontade do Pai e, para isso, teremos de ser crucificados.

As mortificações para alcançar a paciência

Tempo de leitura: 4 minutos

 

No último post falamos um pouco sobre os meios de  viver a paciência: ir além de suportar, saber esperar, saber calar, saber falar. Hoje trataremos do último meio: as mortificações para alcançar paciência.

Algumas dessas mortificações que podemos oferecer diariamente a Deus:

  • Fazer o esforço de escutar pacientemente a todos (ao menos durante um tempo prudencial), sem deixar que se apague o sorriso dos lábios, nem fazer expressão de tédio ou indiferença;
  • Não andar comentando a toda hora e com todos, sem razão plausível nem necessidade, as nossas dores e mal estares; propondo-nos firmemente a não nos queixarmos da saúde, do calor, do frio, do abafamento no ônibus lotado, do tempo que levamos sem comer nada…;
  • Renunciar decididamente a utilizar frases típicas do dicionário da impaciência: ”Você sempre faz isso”, ”De novo, já é a terceira vez que você faz isso”, ”Outra vez!”, ”Já estou cansado”;
  • Evitar cobranças insistentes e antipáticas e prontificar-nos a ajudar os outros;
  • Não implicar com pequenos maus hábitos dos outros;
  • Saber repetir calmamente as nossas explicações a quem não as entender;
  • Aceitar as contrariedades com alegria;
  • Não reclamar;
  • E tantas outras!

Após identificar as situações que nos impacientam, devemos esforçar-nos por ser pacientes justamente nessas situações específicas. Na maior parte das vezes teremos de dar mais do que o nosso 100%. E justamente por isso a mortificação é um sacrificar-se.

Um pequeno caso

Uma mãe impaciente tornou-se <<rezadora>>. Uma mulher de nervos frágeis tinha se proposto rezar a Nossa Senhora a jaculatória: ”Mãe de Misericórdia, rogai por nós (por mim e por esse moleque danado!)” a cada grito das crianças. Quando começava a ferver uma crise conjugal, tinha igualmente preparada uma oração própria que dizia: ”Meu Deus, que eu veja aí a cruz e saiba oferecer-Vos essa contrariedade! Rainha da Paz, rogai por nós!” E quando ia ficando enervada e ríspida, rezava: ”Maria…., vida, doçura e esperança nossa, rogai por mim!”. Depois, comentava com certo espanto: – Sabe que dá certo? Fico mais calma!. E ficava mesmo, conta o padre Francisco Faus.

“Recomendo que tenhas calma com os filhos, que não lhes dês uma bofetada por uma ninharia. Os filhos ficam irritados, tu aborreces-te, sofres porque gostas muito deles e, ainda por cima, tens de te acalmar. Tem um bocadinho de paciência, chama-lhes a atenção quando já te tiver passado a irritação, e sem ninguém por perto. Não os humilhes diante dos irmãos. Fala com eles apresentando algumas razões, para que se dêem conta de que devem atuar de outra maneira., porque assim agradam a Deus”. (São Josemaria Escrivá)

Quando começamos a meditar sobre as nossas impaciências, descobrimos que a única coisa que as pessoas nos estão pedindo a toda a hora (mesmo quando não nos pedem nada) é precisamente o nosso amor. Na realidade, todos os exercícios de paciência consistem em exercícios de amor.

Padre Francisco Faus diz que ”é possível que, ao voltarem a casa com toda a carga do cansaço do dia, se vá rezando o terço no trânsito ou carreguem consigo um livro de pensamentos espirituais, para lerem e meditarem uma ou outra frase ao pararem no semáforo demorado ou no engarrafamento incontornável. Ao mesmo tempo, vão espremendo os seus cansados miolos, tentando concretizar: “Que iniciativa, que detalhe, que palavra posso preparar para que a minha chegada a casa seja um motivo de alegria para a minha mulher, ou para o meu marido, e para os meus filhos?” E, assim, homens e mulheres cujo retorno ao lar era antes soturno e irritado, tornam-se – em virtude do amor a Deus e aos outros, que se esforçam por cultivar – corações pacientes, que espalham a paz e a alegria à sua volta.”

Como diz Santo Tomás de Aquino, ”manifestum est quod patientia a caritate causatur”: ”é evidente que a paciência é causada pelo amor”, ou, por outras palavras, ”só o amor é causa da paciência”.  Esse grande amor que, com a ajuda da graça divina, nos dá forças para aceitar, sorrindo e com os olhos fixos em Jesus, as pequenas contrariedades e também as grandes dores. Esse grande amor que nos dá energia para sermos fiéis e persistir pacientemente na luta um dia após outro, é o mesmo amor que acende na alma os grandes ideais e nos impele a realizá-los com a maior vibração e prontidão possíveis.

A mesma paciência que aceita,  torna-se divinamente impaciente em seus desejos de amar. Não se atira atabalhoadamente à ação, mas quer andar, como dizia São Josemaria Escrivá, “ao passo de Deus”, ao ritmo das graças e das oportunidades que o Senhor dá, sem nada perder, sem nada atrasar. Tem uma serena e enérgica prontidão em se doar e aceitar aquilo que o Senhor manda.

”A paciência! Não é por certo a virtude que no decorrer do dia se oferece com maior freqüência à mãe de família, qual fruto esplêndido e fecundo? Colhei este fruto celeste avidamente e fazei penetrar até o íntimo da vossa alma. Ele vos fará morrer para vós mesmas! O exercício dessa virtude mudará de fato o curso de vossa vida, para reconduzi-la ao domínio do Pai Celeste. (…) Ah! como a vida das mães, geralmente sobrecarregadas de trabalho e renúncia, tonar-se-ia doce e até mesmo jubilosa, se elas vivessem o seu cristianismo! A dificuldade do momento, longe de ser um obstáculo à sua ascensão, passaria a ser, em vez disso, como um sorriso de Deus, um apelo para o Alto, um motivo a mais de esperança infinita!” (G. Joannés)

O cultivo da paciência é um exercício diário. Muitas vezes, o processo é lento, mas nem por isso devemos desanimar. Deus é extremamente paciente com as nossas limitações. Cabe a nós uma vontade firme de seguir adiante, não importa quão difícil ou quanto demore! A graça de Deus vem sempre em nosso auxílio! Peçamos incessantemente ao bom Deus que nos dê um coração dócil, terno, ”manso e humilde”, semelhante ao de Nosso Senhor.

Referências

São Josemaria Escrivá, Bell-lloc del Plá (Gerona), 24-XI-1972

A paciência, padre Francisco Faus

Padre Paulo Ricardo

Suma Teológica, Santo Tomás de Aquino

Há um ano o amor nasceu e eu renasci

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Trago o relato do parto do Bento, escrito pouco tempo depois de ele ter nascido:
“Por aqui os dias foram tempestuosos porém felizes e só agora tive tempo para escrever sobre esses dias para mantê-los aquecidos com a boa nova que recebemos em nossa família.
O relato do nascimento do Bento começa cedo. Desde o dia 30 de julho comecei a ter sinais de que ele estava pronto para nascer. Porém, apesar de pronto, eis que nossa primeira flecha esteve com preguicinha de vir ao mundo. Foram 4 semanas de alarmes falsos, mas em nenhum deles chegamos a ir para o hospital. Eu sentia contrações, inúmeras delas, porém elas não tinham ritmo.
Os dias foram passando e com eles fomos nos esgotando física e psicologicamente. É muito difícil trabalhar a mente nesses dias em que todo dia parece dia de nascer. Um mundo desconhecido se espreitava à minha frente e às vezes, me sentia perdida. Era preciso romper com tantas expectativas e viver abandonada em Deus. ”A cada dia basta o seu cuidado.”
De fato as coisas seriam muito mais fáceis se eu entrasse em trabalho de parto logo e ele nascesse. Mas, o bom Deus tem caminhos insondáveis. Esperar é um grande exercício de paciência, virtude que tanto me faltava nessa altura (e também, nesta vida). Essa espera me deixou abalada e cansada. Gabriel, meu esteio, e eu rezávamos e tentávamos caminhar em paz. No começo estávamos mais tranquilos, porém, na última semana eu já estava tão cansada… Mas o bom Deus sabe o tamanho da cruz que precisamos e aguentamos carregar! Que doçuras encontramos na Cruz quando decidimos abraçá-la!
Padre Fábio, nosso querido e amado diretor, foi um grande pai nessa última semana antes do nascimento do Bento. Pude compartilhar com ele meus medos, inseguranças e cansaço. Acho que poucas vezes me senti tão abraçada espiritual e psicologicamente como me senti na minha ultima direção antes do Bento nascer. Isso foi na sexta, dia 19 de agosto, onde graças ao bom Deus pude me confessar e seguir confiante para o meu grande calvário.
Na segunda feira, dia 22, tive consulta e a médica fez um procedimento para ver se o parto engrenava, pois eu já tinha dilatação mais do que suficiente para estar em trabalho de parto. Apesar da dilatação evoluída (já tinha 6 cm) até então eu não havia sentido dor alguma. Mas na noite desta segunda já não consegui dormir. As contrações eram mais regulares e intensas, porém ainda sem ritmo. E isso me deixava cansada… queria tanto que o Bento nascesse! Eu já estava com quase 41 semanas!
Terça-feira de manhã as contrações pegaram ritmo! De 3 em 3 minutos! Eeeee.. Bento vai nascer! Fomos para o hospital e…. NADA. As contrações pararam. Eu definitivamente me sentia subindo o monte calvário de ré. Frustrada, impaciente, ansiosa.
Passei a terça-feira com dores, mas nada de pegar ritmo. Na madrugada de terça-feira para quarta-feira as dores ficaram muito intensas e era impossível dormir ou ficar deitada. Mas continuávamos sem ritmo. Minha médica me viu de madrugada, tomei medicação para cólicas mas as contrações não cederam. Voltamos para casa, mas precisávamos tomar uma decisão. O trabalho de parto poderia começar a qualquer hora, mas também podia demorar dias. A médica nos disse que podíamos esperar ou tentar induzir o parto.
Voltamos para casa e novamente não conseguimos dormir. Eu já sofria com as contrações. Decidimos induzir o parto, rompendo a bolsa. Não dava para continuar com essas dores e sem descansar. Se continuasse assim certamente não conseguiria um parto normal.
Fomos para o hospital as 6:30 da manhã do dia 24 de agosto de 2016. Às 7:30 a médica rompeu a bolsa. Às 8:30, graças a bondosa Virgem, as contrações engrenaram!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Às 10:39 nosso Bento nasceu!!!!! Ao som de Panis Angelicus! Dia de São Bartolomeu!
Foram poucas horas de trabalho de parto ativo, sem analgesia, tudo muito intenso! Vivi cada contração unida ao bom Jesus! Como rezei à Santa Coleta!
Gabriel esteve comigo todo o tempo! Nem sei dizer o que seria de mim sem o companheirismo e a força dele.
Bento nasceu e veio direto para os meus braços! Ainda sem me dar conta do que tinha acontecido, imediatamente o ofereci ao Sagrado Coração de Jesus e a Santíssima Virgem.”
E assim nasceu nosso menino…
O nascimento do Bento foi uma grande graça de Nosso Senhor. Definitivamente, quando olho para trás, não me reconheço. Ter um filho é, antes de tudo, um encontro com nós mesmos. Como se houvesse uma lupa, nossos defeitos são enfatizados. Nossas qualidades parecem não ser suficientes. É preciso decidir-se: ”o Reino dos Céus pertence aos violentos”.
Mas, ter uma criança, é sobretudo um grande valor por ela mesma. Quando penso no Bento, penso: que grande milagre! É um presente para o mundo, é um louvor à Deus! Uma criatura tão perfeitamente modelada, uma personalidade ímpar, que me garantes infindos sorrisos pelos dias afora. O Bento sempre mereceu existir e depois nascer, ser bem educado e alcançar o Céu.
Quando alguém me pergunta: ”Mas você quer mais filhos?” ”Um não está bom?” ”Já não tem trabalho que chega?” Eu sinceramente, nem sei o que responder. Eu não sei o que as pessoas esperam dessa vida, a não ser um vazio crescente. Eu realmente não acredito que ter um filho, ou muitos deles!, seja mais trabalhoso do que competir freneticamente para manter uma carreira, virando noites em claro por algo material, que é o dinheiro, ou por uma ilusão, que é o sucesso.
O casamento é uma grande ocasião de santificação, mas somente depois que os filhos chegam, ele alcança sua maturidade e nos eleva para além de nós mesmos. Ter um pequenino ser que exige de nós não muito, mas tudo, é o que faz a diferença, afinal, “Amar é tudo dar e dar-se a si mesmo”, como diz Santa Teresinha.
E no fim da vida, como nos diz São João da Cruz, não seremos julgados pela carreira, pelo sucesso, pelo corpo atlético, pelos livros lidos, pelos filmes assistidos, pelas viagens feitas, mas sim pelo Amor, que é o pleno e fiel cumprimento da vontade de Deus e a doação total de nós mesmos.

 

Direção Espiritual

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Recebi com alegria o convite de meus queridos filhos espirituais, Gabriel e Rayhanne, para compartilhar um pouco a minha modesta experiência de diretor espiritual. Considerei bem oportuno aos leitores deste blog falar sobre direção espiritual (DE), já que esta é uma ferramenta eficaz para o cultivo da vida espiritual, infelizmente desconhecida e pouco utilizada pelos cristãos de hoje, que mais do que nunca necessitam de ajuda para discernir o trigo do joio, para precaver-se de tantos erros, para adiantar na virtude e para formar os santos que o mundo tanto precisa. Devido a urgência e importância do assunto em questão, propus ao casal de abordá-lo em duas breves partes: a primeira, uma exposição sobre a natureza da DE; a segunda, um pouco da minha experiência como diretor espiritual de leigos, especialmente jovens e casais.

Para a primeira parte, mais teórica, prescindo mais de mim e me baseio em quase toda a exposição no esplêndido e atualizado livro do Pe. Miguel Ángel Fuentes, colega sacerdote do Instituto do Verbo Encarnado, que hábil e sabiamente como ninguém, oferece aos diretores espirituais La ciencia de Dios, manual para diretores espirituais1 (San Rafael, Argentina, EDIVE, 3ª ed., 2013).

A Direção Espiritual

A prática da DE é um dos tesouros mais valiosos destes dois mil anos de tradição da Igreja, é uma sementeira de vocações à vida consagrada, de sacerdotes fervorosos, de leigos de alto voo e incidência social, de apóstolos de todo gênero, enfim, de genuínos Santos.

O que é a DE

A DE consiste na arte de guiar acertada e progressivamente as almas ao fim da vida espiritual, quer dizer, à perfeição; também pode definir-se como a ajuda que se presta a um cristão para que amadureça em sua fé e vida espiritual. Este ofício exige tanta preparação do diretor que, adverte São João de Ávila, se chama ‘arte de artes’”2.
Hoje, como sempre, –ou talvez mais que nunca– é necessário promover a genuína DE, quer dizer, a guia sobrenatural de almas de maneira séria, científica e exigente, ou simplesmente, católica.

Necessidade da DE

A necessidade da DE tem seu fundamento remoto na Sagrada Escritura, sua proclamação na Tradição da Igreja e sua razão íntima na natureza de nossa vida espiritual e no modo ordinário de obrar da Providência divina.

O Magistério da Igreja confirmou esta prática com sua autoridade, recomendando-a e inclusive prescrevendo-a em determinados casos.

Por exemplo, o Catecismo da Igreja Católica diz:

O Espírito Santo dá a certos fiéis dons de sabedoria, de fé e de discernimento em vista do bem comum que é a oração (direção espiritual). Aqueles e aquelas que têm esses dons são verdadeiros servidores da tradição viva da oração:

Por isso, se a alma deseja avançar na perfeição, conforme o conselho de S. João da Cruz, deve “considerar bem em que mãos se entrega, pois, conforme o mestre, assim será o discípulo; conforme o pai, assim será o filho”. E ainda: “O diretor deve não somente ser sábio e prudente, mas também experimentado… Se o guia espiritual não tem a experiência da vida espiritual, é incapaz de nela conduzir as almas que Deus chama, e nem sequer as compreenderá”3.

A Exortação Pastores dabo vobis, falando da DE, diz:

“É preciso redescobrir a grande tradição do acompanhamento espiritual pessoal, que sempre deu tantos e tão preciosos frutos, na vida da Igreja: esse acompanhamento pode, em determinados casos e em condições bem precisas, ser ajudado, mas não substituído, por formas de análise ou de ajuda psicológica. As crianças, os adolescentes e os jovens sejam convidados a descobrir e a apreciar o dom da direção espiritual, e a solicitá-lo com confiante insistência aos seus educadores na fé. Os sacerdotes, pela sua parte, sejam os primeiros a dedicar tempo e energias a esta obra de educação e de ajuda espiritual pessoal: jamais se arrependerão de ter transcurado ou relegado para segundo plano muitas outras coisas, mesmo boas e úteis, se for necessário para o seu ministério de colaboradores do Espírito na iluminação e guia dos chamados”4.

O que falar na DE

O objeto ou matéria da DE são todos os assuntos relacionados a saúde da alma onde tem lugar o desenvolvimento da perfeição cristã. Santo Afonso Maria de Ligório falando aos confessores resume dizendo: “Quatro pontos principalmente atenderá o confessor na direção das almas espirituais: a meditação, a contemplação, a mortificação e a frequência dos sacramentos”5. Outros acrescentam também a prática das virtudes e a santificação das ações ordinárias6. Pode-se acrescentar ainda o trabalho para moldar o próprio caráter e temperamento, discernimento de situações meramente humanas como relacionamentos, decisões, estudo, trabalho, mas que poderiam afetar direta ou indiretamente a vida espiritual ajudando-a ou atrapalhando-a.

Finalidade da DE

A DE tem como fim último levar as almas à perfeição. Tem também fins intermédios, segundo as diversas etapas da alma. Podemos indicar quatro finalidades subordinadas, que são curar e fortalecer as fraquezas humanas, precaver dos perigos, discernir os espíritos que movem à alma e prepará-la para que responda com docilidade às exigências da graça.

Qualidades da DE

A DE para que seja autêntica e frutuosa tem que reunir várias características. As principais com relação ao diretor são: que seja científica, prudente, firme, caridosa e adaptada ao dirigido.

Quem pode ser diretor espiritual

Ordinariamente o sacerdote porque se dá propriamente um encargo por parte da Igreja; ele exerce uma direção ministerial, cuja missão está implícita na missão de santificar às almas por todos os meios possíveis, que recebe no momento da ordenação sacerdotal.

Qualidades do diretor espiritual

As qualidades do bom diretor espiritual se deduzem das qualidades que deve ter a boa DE: santidade, prudência, experiência, ciência e qualidades humanas7 , como: um sadio e cordial afeto, o dom de entender às pessoas, a arte de sugerir com simplicidade e eficácia, a magnanimidade e a confiança.

 

Se Deus quiser, em breve votarei para falar um pouco da minha experiência como diretor espiritual de leigos, especialmente jovens e casais.

Que Deus abençoe você!

Pe. Fábio Vanderlei, IVE


Referências

  1. La ciencia de Dios, manual para diretores espirituais.
  2. São João de Ávila, Audi filia, 4.
  3. Catecismo da Igreja Católica, nº 2690.
  4. São João Paulo II, Pastores dabo vobis, 40.
  5. Santo Afonso María de Ligorio, A prática do confessor, nº 99. Cf. 100-133.
  6. Cf. Garrigou-Lagrange, As tres idades da vida interior, Vol, I.
  7. Cf. Mendizábal, Dirección espiritual.

Elogio da mulher forte

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“Uma mulher virtuosa, quem pode encontrá-la? Superior ao das pérolas é o seu valor. Confia nela o coração de seu marido, e jamais lhe faltará coisa alguma. Ela lhe proporciona o bem, nunca o mal, em todos os dias de sua vida. Ela procura lã e linho e trabalha com mão alegre. Semelhante ao navio do mercador, manda vir seus víveres de longe. Levanta-se, ainda de noite, distribui a comida à sua casa e a tarefa às suas servas. Ela encontra uma terra, adquire-a. Planta uma vinha com o ganho de suas mãos. Cinge os rins de fortaleza, revigora seus braços. Alegra-se com o seu lucro, e sua lâmpada não se apaga durante a noite. Põe a mão na roca, seus dedos manejam o fuso. Estende os braços ao infeliz e abre a mão ao indigente. Ela não teme a neve em sua casa, porque toda a sua família tem vestes duplas. Faz para si cobertas: suas vestes são de linho fino e de púrpura. Seu marido é considerado nas portas da cidade, quando se senta com os anciãos da terra. Tece linha e o vende, fornece cintos ao mercador. Fortaleza e graça lhe servem de ornamentos; ri-se do dia de amanhã. Abre a boca com sabedoria, amáveis instruções surgem de sua língua. Vigia o andamento de sua casa e não come o pão da ociosidade. Seus filhos se levantam para proclamá-la bem-aventurada e seu marido para elogiá-la. Muitas mulheres demonstram vigor, mas tu excedes a todas. A graça é falaz e a beleza é vã; a mulher inteligente é a que se deve louvar. Dai-lhe o fruto de suas mãos e que suas obras a louvem nas portas da cidade.” (Provérbios 31, 10-31)

O que significa uma mulher forte?

“Uma mulher forte, quem poderá encontrá-la? Superior ao das pérolas é o seu valor.”

O primeiro louvor para a boa mulher é dizer que ela é coisa rara, ou seja, dizer que é preciosa e excelente, digna de ser muito estimada, porque tudo aquilo que é raro é precioso.
Mulher forte, quando traduzida do grego, significa mulher varonil. Frei Luis de León, em A perfeita casada, que é um comentário desse poema aplicado as esposas de seu tempo, usou a expressão “mulher de valor”. Valor no sentido de ânimo, que move a abraçar resolutamente grandes ideais e a enfrentar os perigos. Quer dizer virtude de ânimo e fortaleza de coração, um ser perfeito e completo naquelas coisas a quem essa palavra se aplica. Não é insegura, mas sim senhora de si e de seus princípios. E tudo isso tem como um tesouro em si quem é boa mulher e não o é quem não o tem. Não devemos entender o valor de força como força física, mas sim como a virtude cardeal da fortaleza, com a firmeza e o esforço da alma. Exatamente no mesmo sentido usava Santa Teresa quando pedia que suas monjas parecessem “fortes varões”.

Com grandíssima verdade, o Espírito Santo não chamou a mulher apenas de “boa” mas sim de mulher “de valor”. Isso significa dizer que a mulher boa é mais do que boa e que isso que dizemos como boa é uma forma mediana de falar, que não expressa aquela excelência que há de ter e tem em si a mulher boa.
Dizer mulher perfeita, no fundo, é como dizer a ‘mulher-mulher’: a mulher realmente como tal. Não se refere tanto a um papel ou outro senão a sua essência feminina.

Uma boa mulher é um acúmulo de riquezas, e quem a possui é rico só com ela e somente ela pode fazê-lo venturoso e afortunado; o marido há de levá-la sobre sua cabeça, e o melhor lugar no coração do homem deve ser para ela, ou, para dizer melhor, todo seu coração e sua alma; e há de entender que ao tê-la, tem um tesouro geral para todas as diferenças de tempos que é a varinha de virtudes, como dizem, que em qualquer tempo e conjuntura responderá com seu gosto e preencherá seu desejo; que na alegria tem nela doce companhia com quem acrescentará seu prazer, comunicando-o; e na tristeza, amoroso consolo; nas dúvidas, conselho fiel; nos trabalhos, repouso; nas faltas, socorro; e medicina nas doenças, aumento de seus bens, vigia de sua casa, mestra de seus filhos, provedora de seus excessos; e finalmente, nas boas e más situações, na prosperidade e adversidade, na idade florida e na velhice cansada, e, durante toda a vida, doce amor, paz e descanso.

Temos aqui um bom fim ao que deve apontar a educação feminina: formar mulheres fortes, mulheres de valor e não simplesmente mulheres boas, que, apesar de não ser algo pejorativo, dá a ideia de conformar-se com pouco.

Mulher de confiança

“Nela confia o coração de seu marido.”

Desta mulher perfeita, a primeira virtude que o poema traz é que é uma pessoa de confiança. Confiar, aqui, tem um sentido intenso, entendido como “depositar a confiança”. O marido pode descansar o coração em sua mulher.

Ser uma pessoa de confiança é algo muito importante na vida. Uma pessoa de confiança é alguém que sabemos que busca o nosso bem e, sobretudo, protege-nos e não nos abandona no perigo. É alguém que se arrisca por nós e não falha quando precisamos.

Para que se possa colocar a confiança em uma pessoa, esta deve estar revestida de qualidades que a façam confiável. A primeira coisa é o respeito e o amor pela verdade. Em segundo lugar, o respeito pela justiça, honestidade, pela fama do próximo e seus bens, a sinceridade, etc. Se a mulher não possui honestidade, não é mulher. A mulher que não é honesta é torpe e abominável.

Não se pode confiar em uma pessoa que tem discurso dúbio, que recorre às meias verdades ou mentiras, que é caluniadora. Uma pessoa de confiança é alguém honesto, reto e responsável. Alguém a quem confiaríamos o que temos de mais preciosos com a segurança e a certeza de que o cuidaria como nós cuidamos.

Para educar pessoas de confiança é imprescindível saber delegar com confiança, encarregar coisas e supervisionar sem invadir. Se não confiamos, nunca forjaremos corações confiáveis.

A mulher deve ser honesta e simples no seu proceder, nas suas palavras, nos pensamentos para consigo mesma e para com os outros. Simples para fazer de Deus seu objetivo, para se apoiar em Deus como meio, para reconhecer que nada pode fazer por si mesma; e na maneira de se portar, de se vestir e de se adornar.

Econômica

“Não lhe farão falta os despojos.”

É próprio da mulher poupar. Por isso é chamada de economia do lar.

Bondosa

‘’Pague-lhe com bem, não com mal, todos os dias de sua vida.’’

O ofício natural da mulher é que ajude o homem. A mulher deve ser o reduto da bondade para com todos. Deve ser o doce e perpétuo descanso, a alegria do coração e um agrado tênue.

A mulher deve ser terna. A ternura é o amor que se manifesta na doçura e delicadeza dos gestos, do olhar, da presença amorosa.

Significa que a mulher deve se esforçar, não para causar problemas ao marido e sim para livrá-lo deles e em lhe ser perpétua causa de alegria e descanso. Porque, que vida é a daquele que vê consumir seu patrimônio nos desejos de sua mulher, que seu trabalho é levado todos os dias pelo rio, pelo esgoto, que tomando cada dia novos caminhos, crescendo continuamente suas dívidas, vive vil, escravo, aferrado ao joalheiro e ao mercador?

Deus, quando quis casar o homem, dando-lhe a mulher, disse (Gênesis, 2): “Façamos-lhe um ajudante que seja semelhante”, de onde se entende que o ofício natural da mulher, e o fim para o qual Deus a criou, é para que ajude seu marido e não para que seja sua calamidade e desventura: ajudante e não destruidora. Para que o alivie nos trabalhos que acarreta a vida de casado, e não para que acrescente novas cargas. Para repartir entre si os cuidados, tomar sua parte. E finalmente, não as criou Deus para que sejam rochas onde quebrem os maridos e naufraguem os bens e as vidas, e sim portos desejados e seguros onde, chegando em suas casas, repousem e se refaçam das tormentas dos trabalhos pesadíssimos que realizam fora delas.

Como dissemos, de cuidar de sua casa e de alegrar e distrair continuamente seu marido, nenhuma má condição dele a desobriga; mas não por isso devem pensar eles que têm permissão para ser ferozes com elas e fazê-las escravas; antes como em todo o resto o homem é a cabeça, por isso todo esse tratamento amoroso e honroso deve partir do marido; porque há de entender que é sua companheira, ou melhor dizendo, parte de seu corpo e a parte fraca e tenra, e a quem pelo mesmo motivo se deve particular cuidado e zelo.

Ainda há nisto outro inconveniente maior: como as mulheres são menos enérgicas, e pouco inclinadas às coisas que são de valor, se não as alentam, quando são maltratadas e não levadas em conta pelos maridos, perdem o ânimo e não conseguem colocar as mãos nem o pensamento em alguma coisa, por melhor que seja.

O marido sensato não deve oprimir nem envilecer com más obras e palavras o coração da mulher que é frágil e modesto, mas ao contrário, com amor e com honra há de elevá-la e animá-la, para que sempre conceba pensamentos honrosos. E a mulher, como dissemos acima, foi dada ao homem para alívio de seus trabalhos, e para repouso e doçura e afago, pela mesma razão e natureza pode ser tratada por ele de modo doce e afetuoso porque não se consente que se despreze alguém que lhe dá conforto e descanso, nem que traga guerra perpétua e sangrenta com aquilo que tem o nome e o ofício da paz.

Laboriosa

‘’Ela procura lã e linho e trabalha com mão alegre. Semelhante ao navio do mercador, manda vir seus víveres de longe. Levanta-se, ainda de noite, distribui a comida à sua casa e a tarefa às suas servas. Ela encontra uma terra, adquire-a. Planta uma vinha com o ganho de suas mãos. Cinge os rins de fortaleza, revigora seus braços. Põe a mão na roca, seus dedos manejam o fuso. Vigia o andamento de sua casa e não come o pão da ociosidade.’’

A preguiça é a mãe de todos os vícios. Na ordem espiritual a preguiça é filha da ascídia, e faz estragos, como nos fizeram notar os padres do deserto.

Laboriosidade não significa somente trabalhar, senão que trabalhar com gosto, que se ame o trabalho. Isso é o que significa “com mãos diligentes”, ou, como diz outra tradução, “suas mãos trabalham com gosto”. A mulher elogiada no poema é uma pessoa que não está quieta: se senta, tece, vende, sabe comercializar e planta.

Há que se ensinar a trabalhar e a amar o trabalho. Há que se ensinar a trabalhar bem. Não se transforma o mundo sem um bom trabalho. Temos que trabalhar para crescer em perfeição e nos santificarmos e isso só acontece quando se faz bem o que se tem que fazer. Hoje em dia perdeu-se notavelmente a cultura do trabalho, porque se trabalha unicamente na medida em que seja necessário ganhar algo.

Há ainda uma falsa ideia de que somente trabalha a mulher que se emprega fora de casa. As tarefas de dona e senhora de sua casa não são consideradas como um trabalho. Muitas mulheres acabam saindo de casa para trabalhar não por necessidade, mas procurando realizar-se, desconhecendo, assim, o trabalho que mais as realiza segundo seu gênio feminino. Precisamente, a laboriosidade que elogia o poema sagrado é a que a mulher exerce no âmbito maravilhoso do mundo caseiro a que ela está chamada a transformar em paraíso familiar.

Não diz que o marido comprou linho para que ela lavrasse, mas que ela o procurou para mostrar que a primeira parte de ser prendada é saber aproveitar o que tem em casa.

Tenha valor a mulher e plantará a vinha; ame o trabalho e acrescentará em sua casa, ponha as mãos no que é próprio de seu ofício e não se despreze dele, e crescerão suas riquezas; não amoleça, nem se faça de delicada, nem tenha por honra o ócio, nem por estado o descuido e o sono, mas ponha força em seus braços e acostume seus olhos ao desvelo, e saboreie o trabalho e não se prive de pôr as mãos no que se refere ao ofício das mulheres, por baixo e miúdo que seja, e então verá quanto valem e onde chegam suas obras.

Oração e esperança escatológica

“Não se apaga de noite a sua lâmpada.”

Quem não associa essa expressão com a parábola das jovens prudentes? As jovens prudentes mantiveram a lâmpada acesa, estiveram alertas em oração esperando a chegada do Esposo Celestial. Jesus, com aquela parábola, nos incitava a orar constantemente e a estar preparados, vivendo em graça, porque em qualquer momento se pode apresentar a nossa porta o “Senhor que vem”.

Devemos ter os olhos levantados em direção ao horizonte e um pouco ainda mais alto, como quem espera a alguém que há de vir de longe e do alto. Devemos tender sempre à Eternidade, conscientes de um juízo final e convencidas de que este mundo, com suas aparências, passa depressa e que a verdadeira vida começa depois desta.

Se não conseguirmos isso, seremos pessoas ancoradas no mundo, homens e mulheres fincados no mundo temporal, cidadãos da cidade terrena. Mundanos.

Misericordiosa

‘’Estende os braços ao infeliz e abre a mão ao indigente.’’

O mundo em que vivemos é um mundo anti-solidário, duro de coração. Precisamos de mulheres capazes de privar-se do seu apara ajudar aos demais, capazes de sacrificar seu tempo, seus bens, suas coisas.

Deixa bem aos seus

“Seu marido é bem considerado nas portas.”

A Sagrada Escritura louva muito a mulher que deixa seu marido bem e se lamenta muito do pobre marido que não pode apresentar-se em público porque todos o zombam pela mulher que tem.

Sábia

“Abre sua boca com sabedoria”.

Ao contrário do que se pensa de que a mulher ocupa-se apenas com o funcionamento do lar e mal tem tempo ou interesse de estudar, a mulher de Provérbios não só era sábia porque tinha conhecimento, mas também por sua experiência e vigilância dos preceitos divinos.

Para dar um bom conselho, para corrigir bem aos filhos, fazer bons pedidos, negociar, educar, se relacionar com os familiares e amigos, para tudo isso é necessário que a mulher abra a sua boca com sabedoria e não com coisas torpes, sujas, indecentes, maldosas.

Caridosa

“Lição de amor há em sua língua.”

A mulher de provérbios não usa seu dom de falar para insultar as pessoas, difamá-las, provocá-las, gerar contendas, confusões, intrigas, maledicências, fofocas, mentiras, e por aí vai. Também não murmura ou reclama. Da boca da mulher deve sair nada menos que uma Lição de Amor.


Referências

Nossa rotina de oração

Tempo de leitura: 8 minutos

    “Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo.”  (São Mateus 6, 31-33)

Devemos rezar

Como diz Santo Afonso Maria de Ligório: Quem reza certamente se salva; quem não reza certamente se condena.

A queixa mais frequente das pessoas diz respeito ao tempo: “Deveria rezar mais, gostaria de fazê-lo, mas não tenho tempo”.  Principalmente na vida familiar, há a alegação de que o tempo é sempre pouco, não basta nunca, há tantas coisas a fazer.

É verdade! Mas de que adiantam todos os esforços e conquistas humanas se o essencial fica distante, por último, esquecido? Que são as coisas de ordem material diante da grandeza da alma e da vida eterna? Sempre arranjamos um tempinho para ir ao shopping, ficar nas redes sociais, assistir a um filme. Tudo isso leva bem mais de meia hora, mas rezar o Santo Terço em família, que leva uns 20 minutos, não podemos porque ‘nos falta tempo’.

Está errado quem pensa que a vida de oração nos rouba tempo. É justamente a vida de oração que nos mantém fortes e nos sustenta nas dificuldades, que faz crescer a comunhão entre o casal, que catequiza os filhos, que nos faz crescer em santidade, nos auxilia a ver nossos defeitos e nos emendarmos, nos dá forças para vencer as tentações, entre tantas outras coisas. Mas a vida de oração não é algo feito por interesse, mas sim na plena liberdade de saber-se amado por Deus e querê-Lo amar sem medidas. Sem a graça de Deus, que seríamos? Sem ela, sem a vida de intimidade com Nosso Senhor, sem a frequência aos Sacramentos, a família está condenada ao fracasso.

Que possamos fazer um sério exame de consciência sobre qual tem sido a nossa prioridade, sobre nosso real esforço em sermos Igrejas Domésticas e sobre a nossa responsabilidade de educar santos para o Céu.

    “A oração e a vida cômoda não combinam.” (Santa Teresa D’Ávila)

Como estruturamos nossa rotina de oração

Segunda Terça Quarta Quinta Sexta Sábado Domingo
– Oração
da Manhã
– Bento:
Colóquio, Ave Maria e Santo Anjo
– Oração
da Manhã
– Bento:
Colóquio, Ave Maria e Santo Anjo
– Oração
da Manhã
– Bento:
Colóquio, Ave Maria e Santo Anjo
– Oração
da Manhã
– Bento:
Colóquio, Ave Maria e Santo Anjo
– Oração
da Manhã
– Bento:
Colóquio, Ave Maria e Santo Anjo
– Oração
da Manhã
– Bento:
Colóquio, Ave Maria e Santo Anjo
– Ofício
da Imaculada
Santa
Missa
Meditação Meditação Meditação Meditação Meditação – Meditação
– Ofício
Meditação
– Oração
refeições
– Angelus
– Leitura
Formativa
– Oração
refeições
– Angelus
– Leitura
Formativa
– Oração
refeições
– Angelus
– Leitura
Formativa
– Oração
refeições
– Angelus
– Leitura
Formativa
– Oração
refeições
– Angelus
– Leitura
Formativa
– Oração
refeições
– Ofício

– Oração
refeições
– Angelus
cantado

– Santo
Terço
– Leitura
do Evangelho
– Bento:
História Bíblica
– Oração
refeições
– Santo
Terço
– Leitura
do Evangelho
– Bento:
História Bíblica
– Oração
refeições
– Santo
Terço
– Leitura
do Evangelho
– Bento:
História Bíblica
– Oração
refeições
– Adoração
– Leitura
do Evangelho
– Bento:
História Bíblica
– Oração
refeições
– Via
Sacra
– Leitura
do Evangelho
– Bento:
História Bíblica
– Oração
refeições
– Santo
Terço
– Ofício
– Leitura
do Evangelho
– Bento:
História Bíblica
– Oração
refeições
– Santo
Terço
– Bento:
História Bíblica
– Oração
refeições
– Buenas
noches
– Oração Bento
– Oração
da Noite
– Exame de
Consciência
– Leitura
Espiritual
– Oração Bento
– Oração
da Noite
– Exame de
Consciência
– Leitura
Espiritual
– Oração Bento

– Oração
da Noite
– Exame de
Consciência
– Leitura
Espiritual

– Oração Bento

– Oração
da Noite
– Exame de
Consciência
– Leitura
Espiritual

– Oração Bento

– Oração
da Noite
– Exame de
Consciência
– Leitura
Espiritual

– Oração Bento
– Oração
da Noite
– Ofício
– Exame de
Consciência
– Leitura
Espiritual
– Oração Bento

– Oração
da Noite
– Exame de
Consciência
– Leitura
Espiritual

Chegamos a essa rotina de uma forma gradual, tranquila e simples. Nos dias em que temos outras práticas, como visita ao Santíssimo, rezamos o Terço durante o dia, cada um quando pode. Quando temos algum imprevisto, não sofremos por não conseguir cumprir fielmente a rotina do dia, afinal a vida em família é assim: exige flexibilidade.

Além disso, temos algumas outras práticas como a confissão semanal, leitura de histórias bíblicas para o Bento, ouvir e cantar músicas piedosas, o convívio paroquial, leitura formativa, entre outros.

A oração em família

    “Desejo a todas as famílias que redescubram a oração doméstica.” (Papa Francisco)

O Papa Francisco ainda nos ensina: “A oração surge da escuta de Jesus, da leitura do Evangelho. Não se esqueçam, todos os dias leiam um trecho do Evangelho. A oração surge da intimidade com a Palavra de Deus. Há esta intimidade na nossa família? Temos em casa o Evangelho? Nós o abrimos algumas vezes para lê-lo juntos? Nós o meditamos rezando o Rosário? O Evangelho lido e meditado em família é como um pão bom que alimenta o coração de todos. E pela manhã e à noite, e quando sentamos à mesa, aprendamos a dizer juntos uma oração, com muita simplicidade: é Jesus que vem entre nós, como ia à família de Marta, Maria e Lázaro.”

Então, bons momentos de oração em família são: as orações da manhã e da noite e a oração das refeições. Outra oração importante e que devemos sempre nos esforçarmos a rezar, é o Santo Terço. Nossa Senhora de Fátima pediu que se rezasse o terço em família.

    “Não basta o pai rezar individualmente. Seu dever como cabeça da família é rezar em nome da família, à vista da família e com a família. As crianças devem saber que seu pai honra a Deus e que ele se comporta respeitosamente diante Dele. Devem aprender de seu exemplo o grande dever da adoração e do culto”.  Pe. Raoul Plus, Cristo no lar

Também é preciso evitar o extremismo de uma vida excessivamente religiosa dentro do lar ou até mesmo no cumprimento das funções paroquiais. O casal deve ter sempre em mente que a prioridade é a sua família e em todas as coisas deve haver equilíbrio. As funções paroquiais ou de apostolado devem existir, pois a família precisa irradiar-se para a sociedade, mas é muito importante que seja de uma forma ordenada, pois não deve subtrair da vida em família, mas acrescentar. Além dos momentos reservados à oração, é importante que haja tempo para diversão sadia, momentos de conversa, entre outras coisas.

A oração das crianças

    “A família cristã é o primeiro lugar da educação para a oração. Fundada sobre o sacramento do matrimônio, ela é ‘A Igreja doméstica’, onde os filhos de Deus aprendem a orar ‘na Igreja’ e a perseverar na oração. Para as crianças, particularmente, a oração familiar cotidiana é a primeira testemunha da memória viva da Igreja reavivada pacientemente pelo Espírito Santo.” (CIC 2685).

Não devemos achar que por serem crianças, não tem capacidade de rezar ou de entender o sobrenatural. Na verdade, ao contrário de nós, a fé das crianças é algo simples. Uma criança crê com facilidade que é amada por Deus.

As crianças precisam de repetição constante para que algo se torne um hábito. E essa repetição constante deve existir porque a vida espiritual é erigida sobre esse amor silencioso de Deus. Esse é o início do silêncio, da simplicidade e da contemplação. É o primeiro e pequeno passo em direção à união com Deus.

    ”Se não se aprende a oração em casa, depois será difícil preencher esse vazio”. (Papa Bento XVI)

Muito antes de aprender as orações recitativas, nossos filhos quando ainda são tão novos, precisam aprender que a oração é algo pessoal, é falar com Deus.

Quando a hora da oração for recebida com queixas e lamentos, será o momento de explicar que quando rezamos sem ter vontade, obtemos os maiores méritos.

A oração do casal

As dificuldades do casal não são somente de ordem natural, mas também de ordem espiritual. Não se iluda: o demônio, inimigo de Deus e nosso, detesta a família e o casamento porque são obras de Deus; então, nosso casamento precisa estar armado com a graça de Deus para vencer suas ciladas e maldades. Além de rezar pela vida de casal, é muito importante que se reze pelos filhos.

É importante que o casal tenha o hábito de rezar juntos, o que não significa, como a oração em família ou das crianças, que seja necessário um tempo enorme para isso. É bom escolher pequenas práticas para que possamos ser fiéis sem viver apenas no mundo da utopia.

A oração pessoal

Além da oração em família, não podemos esquecer ou negligenciar a oração pessoal, que é onde crescemos em intimidade com Nosso Senhor. Sem oração pessoal não há vida interior e as obras não serão fecundas.

Práticas importantes são a direção espiritual e a confissão mensal ou semanal, além da frequência tão grande quanto possível de receber a Santíssima Eucaristia.

Durante o dia, podem ser feitas muitas jaculatórias e oferecimentos. Além de comunhão espiritual, colóquios, meditação de uma Verdade. A maioria dessas práticas podem ser feitas até mesmo durante o trabalho!

Dicas práticas

  1.  Para começar uma rotina de oração, é bom começar aos poucos;
  2.  Quando uma sugestão tornar-se um hábito bem firme, concreto, é hora de adicionar outro;
  3. Um bom começo são as Orações da Manhã e da Noite, as Orações das Refeições e o Santo Terço;
  4.  Não sufocar as crianças com uma vida de oração que não condiz com sua idade;
  5. Incutir nas crianças o hábito de falar com Deus (oração pessoal que não seja a recitativa).  Por exemplo, para as crianças, a oração da manhã deve ser uma forma simples de dar graças pela noite que passou e oferecer a Deus tudo o que ocorrerá durante o dia;
  6. Não esquecer que o trabalho também é oração: ”Ora et labora” (São Bento);
  7. Antes de tudo, procurar ser assíduo aos Sacramentos;
  8. Ter uma rotina de oração não é algo de outro mundo. É tão simples que depois que começamos a nos organizar e colocar em prática, pensamos: por que não fiz isso antes?
  9. Também não devemos esmorecer diante das dificuldades;
  10. Cada família é única e somente a própria família (juntamente com o Diretor Espiritual, se tiverem a graça de ter um) pode estabelecer um bom ritmo de oração;
  11. Momentos de oração não significam tempos gigantescos para isso;
  12. Dificilmente crianças pequenas ficarão imóveis enquanto a família se reúne para rezar o Santo Terço. Nem por isso a família deve deixar de rezar. Aqui, por exemplo, enquanto rezamos o Santo Terço às vezes o Bento fica ao colo, às vezes mama, brinca no chão. O que ele tem é o próprio tercinho para ficar segurando e nos esforçamos para mantê-lo no mesmo ambiente que nós, participando da forma como lhe cabe;
  13. Uma rotina de oração boa e sólida não significa necessariamente que se tenha diversas práticas religiosas

Referências

Papa Francisco, homilia

Padre Daniel Pinheiro, homilia

Mary Reed, Como criar bons filhos católicos

Padre Fábio Vanderlei – IVE,  nosso diretor espiritual

A santificação das famílias – Convite à Novena

Tempo de leitura: 4 minutos

“A vontade de Deus é a vossa santificação” ( 1Ts 4,3a). Quando ouvimos ou falamos em santidade nos parece algo inalcançável, distante ou que não é para nós. Mas, muito pelo contrário, a santidade é exatamente para nós, alcançável e precisa ser o nosso objetivo.

O lar é o lugar propício para que a santificação aconteça e bem por isso é chamado de ‘Igreja Doméstica’.  Como disse Paulo VI: “Que Nazaré nos ensine o que é família, sua comunhão de amor, sua beleza austera e simples, seu caráter sagrado e inviolável (…). ” Ao contrário do que se pensa, a santidade não é apenas para os religiosos, ela deve e precisa ser vivida com verdadeira intensidade em nosso seio familiar. Precisa ser cultivada dentro de nossas casas diariamente em uma comunhão de amor com aqueles que vivem conosco, em busca de uma vida reta e santa e também em uma comunhão íntima com Nosso Senhor.

Vivemos em um tempo onde o sentido de ser família tem sido pervertido, como se não tivesse valor. Nossas famílias precisam voltar a ter Deus em seu seio, precisam ter Deus como o seu centro. Cristo, nascendo e vivendo numa família, redimiu e santificou todas as famílias.

Atualmente, há muitos que atentam contra os valores sagrados da família: indissolubilidade do matrimônio, fidelidade conjugal, defesa da vida. Lutam contra Deus e contra a família os que pregam a defesa do aborto, da eutanásia, do divórcio, dos casamentos homossexuais, das experiências com embriões, da concepção in-vitro [bebê de proveta], da limitação da natalidade por quaisquer meios.

Por ser a família, a própria imagem da Trindade na terra, o Concílio Vaticano II a denominou ‘igreja doméstica’ e o Papa João Paulo II a chamou de ‘santuário da vida’. É no seio de cada família que a vida é gerada, cuidada, amada e engrandecida. É no seio da família que o ser humano é construído. Foi no seio da família de Nazaré que o Menino Jesus foi preparado para a grande missão de Salvador dos homens. Portanto, a família é a grande escola da vida, é o educandário do amor, da fé, da justiça, da paz e da santidade.

“É antes de tudo a Igreja Mãe que gera, educa, edifica a família cristã, operando em seu favor a missão de salvação que recebeu do Senhor. Com o anúncio da Palavra de Deus, a Igreja revela à família cristã a sua verdadeira identidade, o que ela é e deve ser segundo o desígnio do Senhor; com a celebração dos sacramentos, a Igreja enriquece e corrobora a família cristã com a graça de Cristo em ordem à sua santificação para a glória do Pai; com a renovada proclamação do mandamento novo da caridade, a Igreja anima e guia a família cristã ao serviço do amor, a fim de que imite e reviva o mesmo amor de doação e sacrifício, que o Senhor Jesus nutre pela humanidade inteira.” (Familiaris Consortio, 49)

A educação dos filhos começa pelo exemplo dos pais. É importante que nossos filhos nos vejam rezar. A pedagogia mais eficaz para os filhos é assistir a Santa Missa ao lado de seus pais.

“Peço-lhes para irem com seus filhos à Igreja participar da Santa Missa. Verá que não é perder tempo; ao contrário, é o que mantém verdadeiramente unida a família, dando-lhe seu centro”. Papa Bento XVI

Estes ataques à família são, na verdade, imagens reais da grande batalha espiritual que estamos vivendo! Nossas armas, como nos ensinou a Virgem de Fátima, são a oração e a penitência.
O Brasil já teve homens e mulheres cuja vida inteira foi de intensa oração e penitência, dentre eles podemos destacar o grande São José de Anchieta.
São José de Anchieta foi um homem extraordinário, dentre seus atos memoráveis temos:

  • A criação do primeiro dicionário do idioma Tupi,
  • A escrita do maior poema em latim à Virgem Santíssima (fez isso na areia da praia enquanto era mantido prisioneiro),
  • A salvação de muitas almas através do batismo,
  • A coragem sobrenatural de pregar em meio a índios hostis, muitos deles canibais,
  • Ser capaz de eventos místicos como levitar enquanto rezava, dar ordem aos animais, submergir por longos minutos sem se afogar.

Se ele foi capaz de tudo isso em vida, imagina agora vendo a Deus face-a-face!
Hoje começa a novena do nosso padroeiro, São José de Anchieta, santo que, infelizmente, ainda não recebe a devida devoção no país pelo qual entregou sua vida.

Gostaríamos de convidar a todos a unirmo-nos em oração pela santificação das famílias brasileiras e rezar a novena nesta intenção (a novena está no final do post). Aos que moram aqui pertinho (Grande Vitória, ES), venham rezar conosco em nossa paróquia. Tragam seus cônjuges, filhos, pais, amigos, namorados, noivos, vizinhos! Não percam essa ocasião maravilhosa de crescimento espiritual e bênçãos.

O mundo de hoje precisa de famílias santas. Se queremos um mundo melhor, mais justo e correto, se queremos homens e mulheres que tenham e vivam os valores cristãos, precisamos cultivar sem medir esforços uma vida de santidade dentro de nossas casas. O mundo pode nos perseguir, “Porém eu e minha casa serviremos ao Senhor” (Js. 24,15) .

Tempo de leitura: 6 minutos

A virtude da ordem

Disse Santo Agostinho: sem ordem não há virtude ou como disse São Josemaria Escrivá: ”Virtude sem ordem? – Estranha virtude!”. Santo Agostinho também escreveu “pax omnium rerum tranquillitas ordinis” – “a paz de todas as coisas é a tranquilidade da ordem” .  A ordem é algo que vamos construindo na batalha de todos os dias: “começar pela tarefa menos agradável e mais urgente (…), ser perseverante no dever quando era tão fácil abandoná-lo, não deixar para amanhã o que temos de terminar hoje… E tudo isto para dar gosto ao Nosso Pai Deus!”

Falar nessas palavras – organização, planificação, rotina – evoca de imediato, nos tempos atuais, a frieza empresarial da produtividade e da eficiência. Parecem soluções muito boas para a indústria e o comércio e muito ruins para o coração e para a vida familiar. Muitos pensam assim e isso acontece porque não compreendem o verdadeiro sentido da virtude da ordem, uma virtude que precisa ser resgatada dos preconceitos que a desmerecem. Se não a reabilitarmos (a virtude da ordem) no nosso mundo de valores, veremos como a espontaneidade do amor e dos bons propósitos – que aparentemente é tão bonita e autêntica – se desvanecerá em ilusões e omissões.

“Sujeitar-se a um plano de vida, a um horário… é tão monótono! – disseste-me. E respondi-te: há monotonia porque falta Amor.” – São Josemaria Escrivá

A virtude da ordem, para o cristão, é uma maneira de praticar melhor o amor. O Senhor certamente nunca nos vai sugerir que abandonemos ou descuidemos das obrigações básicas diárias. Mas é bem possível que, se soubermos escutar a sua voz no fundo da consciência, percebamos que nos diz:  também é preciso saber parar, meditar e orar.
Em linhas gerais, são cinco os campos de atividades a serem ordenadas na vida de cada homem e todas estão inter-relacionadas:

  1. a religião (virtude da piedade),
  2. a família (virtude do amor e da amizade),
  3. o trabalho (virtude da laboriosidade),
  4. a sociedade (virtude da solidariedade, colaboração, convivência e amizade) e
  5. o descanso, esporte e cultura (virtude da convivência, alegria e inteligência).

”Se não tens um plano de vida, nunca terás ordem.” São Josemaria Escrivá

Ordem não é ativismo nem doença

Todos temos a experiência de que existe uma ordem que não é boa e que se poderia chamar «defensiva»: é a da pessoa que organiza muito bem os seus horários, mas não tolera que nada nem ninguém interfira neles, e se alguém tenta, cai sobre ela a ira do interrompido. Isso não passa da carapaça com que o egoísta se protege. Bem sabemos que essa ordem pode tornar-se doentia e atingir requintes de neurose, de mania.

Talvez já tenhamos conhecido pessoas que ficavam transtornadas porque alguém – esposa, filho, empregada – tenha tido ‘a ousadia’ de deslocar em poucos centímetros a posição exata que um livro devia ocupar na mesa do escritório. Da mesma forma que não faltam os que dramatizam qualquer interferência que lhes altere o horário de sono ou o fim de semana cuidadosamente planejado. Isto não é virtude, é doença espiritual e, talvez, psíquica. Assim como também não é virtude a ordem dos escravos da eficiência, que sobre o altar da “produtividade” ou do “sucesso” profissional sacrificam Deus, a saúde, a família e as amizades.

Todos deveríamos estabelecer e manter – e defender como algo de sagrado – pelo menos dez ou quinze minutos diários dedicados à meditação e ao exame de consciência: de manhã, antes de iniciar as atividades; ou pouco antes de nos recolhermos para descansar; ou aproveitando a possibilidade de visitar uma igreja numa hora tranquila, quando o silêncio do templo convida à intimidade com Deus.

Nesses momentos, a alma, com a graça divina, se torna transparente, se liberta da terrível força centrífuga do ativismo, e consegue voltar para o seu centro, esse “centro da alma” de que falam os santos, onde ela se encontra a sós com Deus. E essa voz de Deus, honestamente escutada, é a que nos esclarece quais são as prioridades e nos ajuda a hierarquizar, pela ordem de importância, os deveres a cumprir. Assim, estamos em condições de escolher o que é bom e grato a Deus.

Não ignoramos os obstáculos que existem para alcançar esta harmonia interior e exterior. Apesar de apreciarmos a grande atração que uma vida cristã plena constitui, muitas vezes experimentamos tendências diversas e, às vezes, contrárias. São Paulo o expressou com força:

“Quando quero fazer o bem, é o mal que se me apresenta. Como homem interior, ponho toda a minha satisfação na Lei de Deus; mas sinto em meus membros outra lei, que luta contra a lei de minha mente e me aprisiona na lei do pecado, que está nos meus membros.” –  Rm 7, 21-23.

Sentimos uma coisa e queremos outra, notamos que estamos divididos entre as coisas de que gostamos e o que devemos fazer, e, às vezes, a nossa vista acaba perdendo um pouco de luz. Como todos estamos expostos a esses pequenos desvios de rumo, o caminho é sermos simples e corrigirmo-nos com perseverança.

Melhor aproveitamento do tempo

Estabelecer prioridades é, certamente, uma das formas mais nobres da virtude da ordem: é colocar a ordem na mente e no coração. O cristão – e, em geral, todo homem ou mulher responsável –deve cuidar da prática da ordem no seu sentido mais simples e corriqueiro: a organização das atividades dentro dos horários de cada dia, a adequada planificação do aproveitamento diário do tempo. Ter um horário nos leva a aproveitar o tempo. Viver com um horário não nos ata, ao contrário: abre as portas para uma grande variedade de atividades diversas.

A ordem também nos leva a concentrar-nos no que estamos fazendo, não pretendendo fazer várias coisas ao mesmo tempo – o que geralmente leva a não concluir nenhuma. É muito mais eficiente terminar uma coisa e iniciar a seguinte. O verdadeiro trabalhador não se preocupa apenas de terminar a sua tarefa logo que possível; preocupa-se de produzir uma obra que esteja acabada, sem defeito, tão perfeita quanto possível. Não abandonemos uma tarefa enquanto houver algum detalhe que retocar.

Ter uma rotina evita o ócio, a preguiça e diversos outros vícios e nos impulsiona a crescer em virtudes. Permite que façamos uma vasta quantidade de atividades e com qualidade. Com a internalização da rotina vamos descobrindo que realmente temos tempo para tudo: mas ter tempo não significa ter muito tempo. Às vezes, por exemplo, o tempo que se tem para leitura diária são 5 minutos, mas sem esses 5 minutos não se leria absolutamente nada e se descuidaria da formação.

A rotina nos permite uma organização e melhor execução das atividades relacionadas ao nosso trabalho, evitando acúmulos, permitindo avanços e nos deixando flexíveis para lidar melhor com imprevistos. É necessário não omitir trabalhos que nos repugnam, nem inventar deveres adicionais que nos levariam a negligenciar e adiar os nossos deveres reais

Segurança e bem estar para os filhos (e também para os adultos)

O tempo para a criança algo complexo. É através das suas rotinas que a criança antecipa o que irá acontecer e adapta o seu comportamento à tarefa seguinte. As rotinas transmitem segurança à criança, deste modo a criança já sabe, por exemplo, que antes de jantar deve tomar banho. As principais rotinas que se devem manter com as crianças são: horas de refeição; hora de dormir; hora de estudar; hora de brincar, tempos em família e, é claro, momentos de oração.

Ter rotina é importante para desenvolver bons hábitos de sono e de alimentação. Além disso, diminui a ansiedade e transmite segurança. Afinal, saber o que vem em seguida elimina a curiosidade e a incerteza do depois, principalmente para as crianças. Ao desconhecer o que vem em seguida, uma dose de estresse é gerada inclusive nos adultos. Com a rotina adequada as crianças não ficarão aflitas pois saberão exatamente o próximo passo.

Uma família desorganizada, com horários irregulares – em que as refeições são servidas em horários diferentes, o banho e a hora de dormir não seguem nenhuma regra- forma crianças inseguras e desorientadas. A organização das atividades diárias não impedirá que a criança desenvolva autonomia. A coerência e a flexibilidade devem fazer parte do processo de estabelecimento das regras. Regras são essenciais e a rotina é referência na vida de crianças e adolescentes, porque direciona, organiza e equilibra suas vidas para mais tarde tornarem-se adultos diligentes.

Lembro-me que quando o Bento nasceu, senti muita dificuldade em estabelecer rotina. Mas com o passar dos meses fui percebendo que as tarefas começaram a se encaixar e a fluir melhor. Aos poucos fui retomando atividades antigas como leitura, fazer as unhas e também inserindo atividades novas, como um tempo reservado a levá-lo para brincar ao ar livre.

To be continued…

Continuarei este assunto tão importante numa próxima postagem, a parte 2!


Referências

Dona de casa – nem por isso desinteressante ou infeliz!

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Um dia, quando eu ainda era noiva, disseram-me que se eu escolhesse ser dona de casa, me tornaria uma pessoa desinteressante com o passar dos anos.  Na época simplesmente ignorei, mas acabei relembrando deste dito no dia 8 de março desse ano quando vi tantas pessoas considerando suas mães, tias, avós e amigas pessoas desinteressantes e, no fundo, indignas de comemorarem o suposto dia da mulher.

De acordo com o que vi,  esse dia é reservado para as mulheres que conquistam coisas como dinheiro, sucesso, carreira, independência. Não é reservado às ‘pobres’ mulheres que a cada dia labutam e conquistam virtudes nas crianças indóceis, avanços nos filhos problemáticos, repouso para os pais idosos e cansados, bodas longínquas em seu casamento, comida fresca num dia difícil, roupa cheirosa em semana chuvosa, casa limpa com bebê novinho.

Não há lógica nesse pensamento feminista que levanta sua bandeira em favor das mulheres que são oprimidas por um suposto sistema patriarcal, quando na verdade os patriarcas são aqueles que elogiam, agradecem e ajudam suas esposas todos os dias enquanto as feministas são essas que no dia internacional da mulher deixam essas mulheres esquecidas, ignoradas e humilhadas com seu discurso político e materialista.

Por isso eu escrevo: para ressaltar como nós, donas de casa, somos pessoas interessantíssimas, felizes e repletas de conquistas grandes e diárias!

Há um grande mito que ronda as mulheres hoje em dia: de que ser dona de casa é uma condição infortuna imposta pela vida. De fato, conheço alguns casos assim. Mas não é esse o único lado da moeda. Há muito mais histórias felizes do que tristes! Algumas pessoas já me perguntaram o porque de deixar o meu diploma de lado e escolher ficar em casa. Outras já me perguntaram se sou feliz assim ou se é meu marido que não quer que eu trabalhe fora.

Razões para ser dona de casa

Eu escolhi ficar em casa porque não conheci nenhum chefe que tenha me tratado tão bem quanto meu esposo. Nem conheci trabalho tão gratificante quanto o de ser mãe. São as horas mais bem empregas da minha vida! Não encontrei futuro tão promissor e que ofereça tanto crescimento espiritual e humano quanto o de estar em casa. Não encontrei escola, babá ou familiar que vá educar e amar meus filhos tão bem como eu. Nem casa que fique tão ordenada quanto pelas minhas mãos. Não encontrei nada que me desse tanta satisfação! Eu sou feliz pela vida que escolhi e a escolheria mil vezes! Não sou infortunada e nem caí de paraquedas nessa condição ”pobre”. Sou consciente da minha missão, da minha vocação e sei que em nenhum outro lugar serei tão digna, amada, eficiente e cheia de valor quanto na minha casa, com a minha família. Isso quer dizer que eu me considero melhor do que alguém? Não. Apenas que sou feliz com minha escolha.

Nunca me considerei tão interessante e vitoriosa como quando me tornei esposa, e mais ainda, quando fui mãe. Se antes, eu, por ser formada em biologia, era conhecedora das leis da vida e além disso tinha meu tempo para estudar idiomas, doutrina e dedicar-me a literatura, agora o meu campo de conhecimento se ampliou em um horizonte tão vasto como jamais havia pensado ou sequer reparado nessa graça reservada em grande parte à condição feminina.

Se uma mulher se casa e vive conforme os planos de Deus, ela encontra um amplo campo de estudo. Engana-se quem pensa que as mulheres do lar são pessoas emburrecidas pelo tempo: ao contrário, elas se tornam sábias com o tempo.

A sabedoria do lar

Nós, donas de casa, somos experts em nutrição. Conhecemos os benefícios de cada alimento e o que cada chá cura. Sabemos sobre cozimento, fermentação, corte, tempero, temperatura. Sabemos preparos simples como papinhas de bebê até grandes banquetes, como ceias de Natal. Sabemos sobre cultivo. Sobre sementes, raízes, podas e mudas. Sobre estações, pragas, terras e adubos. Sobre flores! Sabemos sobre doenças, remédios farmacológicos e naturais.

Sabemos sobre bebês, crianças, adultos e idosos. Sabemos sobre psicologia infantil, do homem e da mulher, do desenvolvimento natural e da morte. Sabemos sobre educação dos filhos, temperamentos, tolerar os aborrecentes. Sabemos conselhos valiosos, temos experiências duras, vivências felizes e também dias tristes.  Entendemos de química: usamos um trilhão de produtos e muitas misturinhas milagrosas que garantem roupas mais brancas do que a neve, macias como algodão e perfumadas como as flores primaveris!

Entendemos de histórias infantis, atuação, brincadeiras de carrinhos e casinhas de bonecas. Sabemos impor limites e dar aconchego a quem precise. Sabemos de viagens e finanças. Economizar, reaproveitar, reciclar! Entendemos de orações, preces, serviço comunitário. De rotina, planejamento, criatividade! Entendemos de beleza, ordem e conforto! Enfim, de tanto!

Todos os dias precisamos de uma gama de conhecimento para realizar nossas nem tão simples atividades diárias: cuidar de um bebê, de um filho crescido, do pai, da mãe, do esposo, de alguém doente, lavar e passar roupas, limpar a casa, cozinhar, educar, catequizar, e por aí vai. E todos os dias conquistamos tantas vitórias principalmente sobre nós mesmas e a respeito daqueles que amamos. Nós fazemos o mundo melhor. O futuro da sociedade passa pelas nossas mãos.

Como diz a dra. Alice von Hildebrand em seu livro O Privilégio de Ser Mulher:

”Quando chegar a hora, nada que tiver sido produzido pelo homem subsistirá. Um dia, todas as realizações humanas serão reduzidas a um monte de cinzas. Por outro lado, todas as crianças nascidas de mulher viverão eternamente, pois a elas foi concedida uma alma imortal, feita à imagem e semelhança de Deus. Sob essa luz, a afirmação de Simone de Beauvoir de que “as mulheres não produzem nada”, mostra-se especialmente ridícula.”

E o Pe. Pedro Félix:

”Mulher cristã, tu não nasceste para fazer obras mestras. As grandes obras da política, da guerra, da ciência, da literatura, da arte, não brotaram das tuas mãos, nem do teu engenho. Tudo isso é obra dos homens. Todavia, tu fizeste o que mais vale, formaste esses homens. Não só porque o geraste com o teu sangue, mas também porque o modelaste com tua paciência e com teus encantos.’

Senhoras e Rainhas

Essa é a nossa coroa de glória: a família. Coroa que tantas vezes floresce, mas na maior parte das vezes é de espinhos. As pequenas recompensas recebemos todos os dias, mas a grande recompensa está guardada para o entardecer da vida. Só quem tem os olhos voltados para o Alto consegue entender e enxergar coisas que passam tão despercebidas para aqueles ”que tem olhos mas não veem” (cf. Salmos 113, 13). Verdadeiramente, a Cruz para o mundo é loucura, mas para nós que cremos, é salvação.

Talvez nunca tenhamos parado pra pensar o quanto somos interessantes e o quanto temos para compartilhar. Que a chatice do mundo não recaia sobre nossos ombros! Não é interessante só quem ganha promoções em sua carreira ou quem tem a liberdade que o mundo prega. Para o mundo parecemos escravas sem opinião formada. Mas somos inteligentes e livres: na nossa família, no nosso cotidiano, nas nossas amizades. E mais do que isso, somos senhoras de nossos lares: somos rainhas.