Lírio entre espinhos

Uma família católica buscando a santidade

Tag: educação

O sono do Bento

Tempo de leitura: 6 minutos

Escrevo esse post não com o intuito de oferecer uma fórmula mágica que miraculosamente fará com que os bebês durmam espetacularmente bem. Mas, sim, para oferecer a nossa experiência bem sucedida com o Bento.

Também não tenho a intenção de dizer que essa é a forma correta. Há muitos caminhos que podem ser percorridos e esse foi o que escolhemos para a nossa família. Ele é resultado da leitura de várias referências sobre o assunto,  de conversas com outras pessoas, com nossas mães, o crivo crítico do que consideramos melhor e mais natural na forma de conduzir o Bento ao objetivo e  também um “diálogo” sensível com o Bento observando os sinais que ele dava, sem levá-lo a um estresse desmedido.

Para nós, não foi uma escolha buscando conforto pessoal, mas sim uma melhor qualidade de sono para nosso filho. Um bebê (após certa idade) que acorda repetidas vezes durante a noite não descansa e fica irritadiço e carente durante o dia, além de apresentar, atrelado a isso, dificuldades na alimentação. Somado a isso, ter uma boa noite de sono deixa os pais, principalmente as mães, muito mais capazes de lidarem bem e educarem seus filhos. Uma mãe exausta ou que não dorme é uma mãe impaciente, irritadiça, com alto nível de frustração e tristeza, com dificuldade de ter rotina e realizar atividades, com dificuldade de atenção, de resolver problemas, sempre cansada, possivelmente com problemas no matrimônio também.
Quando os filhos dormem bem, todo mundo ganha, principalmente as crianças. Devemos estar conscientes e acreditando nisso ou não seremos capazes de dar o próximo passo.

O recém nascido

Antes de mais nada é preciso saber um pouco sobre como é o sono do RN e porque os métodos não funcionam e nem devem ser aplicados até os 4 meses.
Os recém nascidos não sabem nada sobre sono, precisam ser ensinados. Eles não sabem que a noite é pra dormir. Pra eles a noite é pra mamar, pois é na madrugada que há o pico mais alto de prolactina  (hormônio da amamentação). Por isso, principalmente nos primeiros dias de vida, os bebês praticamente dormem o dia todo e mamam a noite toda. Isso é essencial para o sucesso da amamentação.
Quando vem a apojadura (descida do leite), as coisas começam a melhorar um pouco, pois o leite gordo começa a vir e as mamadas vão se espaçando. Mas, as coisas não melhoram muito, pois o estômago deles é muito pequeno e, como o leite materno é digerido rápido, precisam mamar mais vezes.
Conforme vão crescendo, o estômago vai aumentando e as mamadas se espaçam cada vez mais. Com 15 dias já estão de 3 em 3h na maioria dos casos.
Eles tem ciclos de sono e muitas vezes não saber voltar a adormecer. É uma habilidade que nós adultos já temos e que precisamos ajudar nossos bebês a terem também.
Além disso, até os 3 meses muitos bebês sofrem com cólicas.
Para que o bebê vá entendendo melhor sobre dormir, há algumas coisas que podemos fazer:
1- Adormecer em local escuro. Durante a noite sem luz nenhuma e durante o dia com luminosidade natural, mas sem cortinas abertas. O hormônio do sono (melatonina) só funciona no escuro. Muitos bebês deixam de dormir a noite porque os pais põe aquelas luminárias acesas a noite toda. O útero era escuro e eles amavam!
2- Silêncio. Os bebês dormem muito melhor sem músicas e chiados, ao contrário do que se pensa (eu também pensava!). E também o silêncio os vai educando à hora de dormir, pois durante o dia já há barulho natural, porque fazemos atividades, mas durante a noite todos dormem no silêncio.
3- Ter seu bercinho. Dormir com o neném da gente é muito bom, né? Mas também não é. Há prós e contras. Para nós, muito mais contras. Vale a pena pesquisar. Aqui levamos o Bento para dormir em seu quarto e berço com 15 dias. Antes dormia no carrinho.
4- Banho noturno. Além de relaxar, eles logo associam esse banho à hora de dormir.
5- Não pegar o bebê aos primeiros resmungos, apenas quando chorar. Aqui na França é comum que mesmo chorando os pais esperem 5 minutos para pegar os bebês. Essa simples atitude faz com que na maioria das vezes os bebês adormeçam de novo.
6- Deitar o bebê no berço e deixá-lo olhando pro nada até que adormeça. Nunca fiz, mas várias mães me disseram que fizeram assim e funcionava.
Em qualquer fase do bebê, o mais importante de tudo é ter rotina: horário e sequência de atividades. Mas isso é algo gradual.

A partir dos 4 meses

Segundo o nosso pediatra e o dr. Italo, a partir dos 4 meses o bebê já tem capacidade de aprender a adormecer sozinho e dormir uma noite inteira sem acordar.
Descobrimos isso primeiramente em uma consulta de rotina com o Dr. Marcos Santolim (muitos anos de consultório, pai, muito conhecimento científico e prático). Estávamos falando sobre como o Bento dormia bem e havia voltado a acordar com uns 6 meses. Então ele nos explicou que os bebês fazem isso e é apenas por hábito e carência, não por outros motivos. Por isso é um mau hábito e deve ser retirado, pois conforme cresce só vai piorando o padrão de sono. Além disso,  é comprovado cientificamente que, a partir dos 4 meses, o bebê que é amamentado durante a noite tem mais chance de desenvolver diabetes, pois aumenta muito o índice glicêmico e também a chance de obesidade no futuro. Não estou dizendo que o leite materno causa diabetes, mas sim que o fato de o alimentar durante a noite pode levar a isso.
Desde os 4 meses o bebê já tem o estômago do tamanho suficiente para adormecer a noite toda, mas, muito além disso a necessidade alimentar do bebê é e tem de ser suprida durante o dia. Assim são os mamiferos: se alimentam durante o dia e adormecem a noite.
Por isso, muitas vezes se o bebê acorda muito à noite é porque está mamando ou comendo pouco durante o dia.
Depois, no curso Afetividade Infantil e harmonia familiar, do dr. Italo, ele diz mais ou menos essas mesmas informações e faz o acréscimo da psicologia, reafirmando que a partir dos 4 meses o bebê pode adormecer sozinho sem mamar durante a noite e sem prejuízos psicológicos.

Desmame noturno gentil

Decidimos, após aquela conversa com o pediatra, que era hora de fazer o desmame noturno. Ele estava entre 6 a 7 meses e acabamos empurrando um pouco mais, até ele começar a jantar melhor. Assim que isso aconteceu, começamos. Nessa época ele havia voltado a acordar umas 2 a 3 vezes por noite.
O que fizemos:
1. Rotina do sono normal, horário de dormir igual todos os dias
2. Adormecia mamando e ia para o berço
3. Na primeira acordada o Gabriel ia, pegava o Bento no colo e sentava numa cadeira. Não o ninava nem nada. Quando adormecia, ia para o berço. É melhor que seja o pai, porque com a mãe o bebê geralmente resiste mais.
Na primeira noite, chorou 1h30 e acordou uma vez só.
Na segunda noite, 30 min.
Na terceira 15 min.
Na quarta dormia das 20h as 5h.
Não é um choro de dor, dá pra ver que o choro é de frustração, não é um choro sofrido.
4. Inserimos a técnica do despertar prolongado. Para que a criança durma até mais tarde, quando acordar pela manhã você a amamenta e ela volta a dormir. Assim ele dormia até umas 8:30 nessa época.
5. Quando está doente, eventualmente acaba mamando e depois precisa reaprender a não mamar à noite (justamente porque é um hábito), mas é bem rápido e praticamente não chora.
6. Às vezes acorda com pesadelos ou tem despertares, mas é raro.
7. Se o bebê acorda muitas vezes, pode começar a ir diminuindo o espaço entre as mamadas ou retirando uma mamada por vez. Fica a critério dos pais.

Ensinar a adormecer sozinho 

Quando Bento estava dormindo bem a noite, gostando da rotina, bem adaptado e seguro, decidimos avançar.
O método foi o mesmo do desmame noturno.
Depois Gabriel já o colocava dentro do berço e ficava dando tapinhas no bumbum.
Com o passar do tempo ele foi começando a adormecer cada vez mais rápido.
Hoje já não quer colo, quer deitar na caminha. Em menos de 5 minutos dorme.
Ainda permanecemos ao lado dele até adormecer, mas sem fazer nada, nem sequer olhando para ele. Mas também sem celular nem nada, mostrando que estamos ali, com ele.
Primeiro fizemos com o sono noturno e mais recente com a soneca diurna.
Bento não usou chupeta e não chupa dedo. Tentei inserir a naninha (objeto de transição) desde que nasceu, mas até hoje não pegou.
Quanto mais adereços ou manias vamos dando aos filhos para aparentemente facilitar as coisas, tudo vai ficando mais difícil e se tornando uma bola de neve.
Com os próximos filhos pretendemos fazer mais cedo. Não vimos prejuízo algum no Bento, muito pelo contrário, após isso, começou a se alimentar melhor do que antes e a ter sonecas diurnas de melhor qualidade (antes eram picotadas). Ele é uma criança segura, alegre, independente na possibilidade de sua idade, não é irritadiço, e por aí vai. Alguns dizem que tivemos sorte, mas eu acho que a verdade é que fizemos boas escolhas.
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A virtude da ordem

Disse Santo Agostinho: sem ordem não há virtude ou como disse São Josemaria Escrivá: ”Virtude sem ordem? – Estranha virtude!”. Santo Agostinho também escreveu “pax omnium rerum tranquillitas ordinis” – “a paz de todas as coisas é a tranquilidade da ordem” .  A ordem é algo que vamos construindo na batalha de todos os dias: “começar pela tarefa menos agradável e mais urgente (…), ser perseverante no dever quando era tão fácil abandoná-lo, não deixar para amanhã o que temos de terminar hoje… E tudo isto para dar gosto ao Nosso Pai Deus!”

Falar nessas palavras – organização, planificação, rotina – evoca de imediato, nos tempos atuais, a frieza empresarial da produtividade e da eficiência. Parecem soluções muito boas para a indústria e o comércio e muito ruins para o coração e para a vida familiar. Muitos pensam assim e isso acontece porque não compreendem o verdadeiro sentido da virtude da ordem, uma virtude que precisa ser resgatada dos preconceitos que a desmerecem. Se não a reabilitarmos (a virtude da ordem) no nosso mundo de valores, veremos como a espontaneidade do amor e dos bons propósitos – que aparentemente é tão bonita e autêntica – se desvanecerá em ilusões e omissões.

“Sujeitar-se a um plano de vida, a um horário… é tão monótono! – disseste-me. E respondi-te: há monotonia porque falta Amor.” – São Josemaria Escrivá

A virtude da ordem, para o cristão, é uma maneira de praticar melhor o amor. O Senhor certamente nunca nos vai sugerir que abandonemos ou descuidemos das obrigações básicas diárias. Mas é bem possível que, se soubermos escutar a sua voz no fundo da consciência, percebamos que nos diz:  também é preciso saber parar, meditar e orar.
Em linhas gerais, são cinco os campos de atividades a serem ordenadas na vida de cada homem e todas estão inter-relacionadas:

  1. a religião (virtude da piedade),
  2. a família (virtude do amor e da amizade),
  3. o trabalho (virtude da laboriosidade),
  4. a sociedade (virtude da solidariedade, colaboração, convivência e amizade) e
  5. o descanso, esporte e cultura (virtude da convivência, alegria e inteligência).

”Se não tens um plano de vida, nunca terás ordem.” São Josemaria Escrivá

Ordem não é ativismo nem doença

Todos temos a experiência de que existe uma ordem que não é boa e que se poderia chamar «defensiva»: é a da pessoa que organiza muito bem os seus horários, mas não tolera que nada nem ninguém interfira neles, e se alguém tenta, cai sobre ela a ira do interrompido. Isso não passa da carapaça com que o egoísta se protege. Bem sabemos que essa ordem pode tornar-se doentia e atingir requintes de neurose, de mania.

Talvez já tenhamos conhecido pessoas que ficavam transtornadas porque alguém – esposa, filho, empregada – tenha tido ‘a ousadia’ de deslocar em poucos centímetros a posição exata que um livro devia ocupar na mesa do escritório. Da mesma forma que não faltam os que dramatizam qualquer interferência que lhes altere o horário de sono ou o fim de semana cuidadosamente planejado. Isto não é virtude, é doença espiritual e, talvez, psíquica. Assim como também não é virtude a ordem dos escravos da eficiência, que sobre o altar da “produtividade” ou do “sucesso” profissional sacrificam Deus, a saúde, a família e as amizades.

Todos deveríamos estabelecer e manter – e defender como algo de sagrado – pelo menos dez ou quinze minutos diários dedicados à meditação e ao exame de consciência: de manhã, antes de iniciar as atividades; ou pouco antes de nos recolhermos para descansar; ou aproveitando a possibilidade de visitar uma igreja numa hora tranquila, quando o silêncio do templo convida à intimidade com Deus.

Nesses momentos, a alma, com a graça divina, se torna transparente, se liberta da terrível força centrífuga do ativismo, e consegue voltar para o seu centro, esse “centro da alma” de que falam os santos, onde ela se encontra a sós com Deus. E essa voz de Deus, honestamente escutada, é a que nos esclarece quais são as prioridades e nos ajuda a hierarquizar, pela ordem de importância, os deveres a cumprir. Assim, estamos em condições de escolher o que é bom e grato a Deus.

Não ignoramos os obstáculos que existem para alcançar esta harmonia interior e exterior. Apesar de apreciarmos a grande atração que uma vida cristã plena constitui, muitas vezes experimentamos tendências diversas e, às vezes, contrárias. São Paulo o expressou com força:

“Quando quero fazer o bem, é o mal que se me apresenta. Como homem interior, ponho toda a minha satisfação na Lei de Deus; mas sinto em meus membros outra lei, que luta contra a lei de minha mente e me aprisiona na lei do pecado, que está nos meus membros.” –  Rm 7, 21-23.

Sentimos uma coisa e queremos outra, notamos que estamos divididos entre as coisas de que gostamos e o que devemos fazer, e, às vezes, a nossa vista acaba perdendo um pouco de luz. Como todos estamos expostos a esses pequenos desvios de rumo, o caminho é sermos simples e corrigirmo-nos com perseverança.

Melhor aproveitamento do tempo

Estabelecer prioridades é, certamente, uma das formas mais nobres da virtude da ordem: é colocar a ordem na mente e no coração. O cristão – e, em geral, todo homem ou mulher responsável –deve cuidar da prática da ordem no seu sentido mais simples e corriqueiro: a organização das atividades dentro dos horários de cada dia, a adequada planificação do aproveitamento diário do tempo. Ter um horário nos leva a aproveitar o tempo. Viver com um horário não nos ata, ao contrário: abre as portas para uma grande variedade de atividades diversas.

A ordem também nos leva a concentrar-nos no que estamos fazendo, não pretendendo fazer várias coisas ao mesmo tempo – o que geralmente leva a não concluir nenhuma. É muito mais eficiente terminar uma coisa e iniciar a seguinte. O verdadeiro trabalhador não se preocupa apenas de terminar a sua tarefa logo que possível; preocupa-se de produzir uma obra que esteja acabada, sem defeito, tão perfeita quanto possível. Não abandonemos uma tarefa enquanto houver algum detalhe que retocar.

Ter uma rotina evita o ócio, a preguiça e diversos outros vícios e nos impulsiona a crescer em virtudes. Permite que façamos uma vasta quantidade de atividades e com qualidade. Com a internalização da rotina vamos descobrindo que realmente temos tempo para tudo: mas ter tempo não significa ter muito tempo. Às vezes, por exemplo, o tempo que se tem para leitura diária são 5 minutos, mas sem esses 5 minutos não se leria absolutamente nada e se descuidaria da formação.

A rotina nos permite uma organização e melhor execução das atividades relacionadas ao nosso trabalho, evitando acúmulos, permitindo avanços e nos deixando flexíveis para lidar melhor com imprevistos. É necessário não omitir trabalhos que nos repugnam, nem inventar deveres adicionais que nos levariam a negligenciar e adiar os nossos deveres reais

Segurança e bem estar para os filhos (e também para os adultos)

O tempo para a criança algo complexo. É através das suas rotinas que a criança antecipa o que irá acontecer e adapta o seu comportamento à tarefa seguinte. As rotinas transmitem segurança à criança, deste modo a criança já sabe, por exemplo, que antes de jantar deve tomar banho. As principais rotinas que se devem manter com as crianças são: horas de refeição; hora de dormir; hora de estudar; hora de brincar, tempos em família e, é claro, momentos de oração.

Ter rotina é importante para desenvolver bons hábitos de sono e de alimentação. Além disso, diminui a ansiedade e transmite segurança. Afinal, saber o que vem em seguida elimina a curiosidade e a incerteza do depois, principalmente para as crianças. Ao desconhecer o que vem em seguida, uma dose de estresse é gerada inclusive nos adultos. Com a rotina adequada as crianças não ficarão aflitas pois saberão exatamente o próximo passo.

Uma família desorganizada, com horários irregulares – em que as refeições são servidas em horários diferentes, o banho e a hora de dormir não seguem nenhuma regra- forma crianças inseguras e desorientadas. A organização das atividades diárias não impedirá que a criança desenvolva autonomia. A coerência e a flexibilidade devem fazer parte do processo de estabelecimento das regras. Regras são essenciais e a rotina é referência na vida de crianças e adolescentes, porque direciona, organiza e equilibra suas vidas para mais tarde tornarem-se adultos diligentes.

Lembro-me que quando o Bento nasceu, senti muita dificuldade em estabelecer rotina. Mas com o passar dos meses fui percebendo que as tarefas começaram a se encaixar e a fluir melhor. Aos poucos fui retomando atividades antigas como leitura, fazer as unhas e também inserindo atividades novas, como um tempo reservado a levá-lo para brincar ao ar livre.

To be continued…

Continuarei este assunto tão importante numa próxima postagem, a parte 2!


Referências