Lírio entre espinhos

Uma família católica buscando a santidade

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O nascimento da Maria Isabel: “Amar é tudo dar e dar-se a si mesmo.” (Santa Teresinha)

Tempo de leitura: 6 minutos

“O meu coração está pronto, meu Deus” (Salmos 57,8)

Talvez eu deva começar esse relato com um pouco da história do nosso pré-natal e a escolha do dr Frederico e da Pati, minha doula tão querida, que mais uma vez esteve conosco.
Quem leu o relato do parto do Bento viu que não tive um parto fácil e, na verdade, também nem tão humanizado assim, já que tivemos alguns problemas que não convém relatar aqui. O fato é que o primeiro parto, apesar de ter sido bom, me foi custoso por estar insegura e com medo. Mesmo tendo me preparado e estudado fui pega de surpresa por certas intervenções que me deixaram abalada, além dos pródromos quase eternos.
Então para este parto nós não pensamos duas vezes em procurar o dr Frederico, que, por já ter partejado amigas minhas e por acompanharmos seu trabalho maravilhoso, já tínhamos a confiança necessária e um princípio de vínculo que se estreitou durante os meses seguintes, tão importante para este momento. Isso foi decisivo para que eu tivesse uma experiência incrível do parto: me sentir segura com a equipe que me acompanhava.
Muitas pessoas me perguntam sobre ter uma doula. Eu espero em breve poder trazer para vocês um texto apenas sobre esse assunto. Mas, se posso adiantar algo, seria para dizer que ter uma doula é tudo de bom. Eu me lembro bem que antes de passar pela primeira experiência de parto eu ainda tinha minhas dúvidas e ressalvas a respeito de ter uma doula. Depois que a tive, eu recomendo para todo mundo! Em especial, Pati e eu temos uma relação tão bonita. Apesar do pouco convívio, tenho com ela uma conexão tão forte… ela sabe o que gosto, o que não gosto, meu ritmo, minhas fraquezas, minhas forças, sabe ser o silêncio que me conforta, a mão que me guia, o consolo que me alivia e tanto mais. Gabriel mesmo disse depois deste segundo parto que Pati e eu ”temos algo”. E é verdade. Ter uma doula é muito mais do que alguém para fazer exercícios e massagens. Mas isso é assunto pra depois.
As semanas foram passando, os incômodos finais da gestação chegando e os dias ficando literalmente mais pesados. No último mês a Maria Isabel já tinha descido tanto pela minha pelve que me era difícil andar e até mesmo virar na cama. Dias difíceis, mas bem aventurados os filhos gerados na Cruz, pois só a Cruz fecunda todas as obras.
Chegamos, pois, às 40 semanas e eu já estava fisicamente cansada. Então comecei a perder tampão na sexta feira, dia 22 de junho. Eu só pedia a Jesus que me desse a graça de entrar em trabalho de parto logo, porque não queria ficar dias em pródromos. Eu já estava cansada fisicamente e temia pelo cansaço psicológico. Mas seguia confiante, principalmente por contar com tantos amigos, entre eles seminaristas, padres, irmãs, monges, rezando pelo nosso momento. A sexta passou, as contrações tentavam um ritmo e paravam. Eu não sentia dor, apenas pressão no baixo ventre e incômodo na lombar.
Decidimos aproveitar o final de semana para curtir e passear, já que eu sabia que podia ficar dias assim. Então saímos, fomos ao parque, caminhamos, brincamos, comemos coisas gostosas e ficamos bem juntinhos, no nosso silêncio, na nossa intimidade.
Na segunda de manhã acordei com contrações sem ritmo mas, de certa forma, doloridas. Eu sabia que algo havia mudado. Fomos para a consulta, dr. Frederico me mandou catar conchinhas na praia (hahahahha), o que obviamente não fui fazer porque só queria ficar deitada. Gabriel ficou comigo o resto do dia e eu consegui descansar bem.
Rezei muito, cantei com a alma ao bom Deus dizendo que meu coração estava pronto. Eu queria este parto, eu desejava estas dores. Mas as contrações permaneciam sem ritmo e com incômodo.
Ao fim do dia, já não consegui jantar direito. Depois, colocamos o Bento para dormir. Mal ele pegou no sono e minhas contrações intensificaram. Enfim eu havia relaxado. Estavam de 1 em 1 minuto mas com pouca duração. Eu já não conseguia ficar deitada. Ligamos para o dr Frederico que enviou a Telemi (enfermeira) pra cá pra me avaliar. Eu estava com 8 cm. As contrações eram pouco doloridas, eu estava muito tranquila e conversávamos bastante entre elas. Contei casos e casos… (hahaha) Minha doula chegou logo depois e fomos para o hospital.
Não me lembro direito os horários em que as coisas foram se desenrolando, mas sei que o parto foi rápido, embora na minha cabeça pareça que durou uma eternidade. Dessa vez eu estava tão serena que até me assusto quando lembro. Eu conhecia o processo, eu havia aceitado e desejado estas dores e estava unida ao bom Jesus. Eu não cansava de repetir para mim mesma, neste santuário interior que é a minha alma, que o sacrifício por amor é gozo.
Chegando ao hospital, fomos direto para a sala de parto. Chuveiro, bola, dormi entre as contrações e percebi uma certa parada de progressão. Mas não me preocupei, confiava no meu corpo, na minha capacidade de dar à luz, a presença da Pati e da Telemi me eram toda conforto e calma. Rezava a Santa Coleta e a Santa Margarida. Dizia ao bom Jesus que queria subir o meu monte calvário e dar tudo.
Por fim só conseguia ficar na banqueta. A bolsa rompeu. As contrações apertaram e ficaram muito intensas. Mas nem por isso insuportáveis. O intervalo entre elas parecia uma eternidade. Eu dormia, conversava, ria e reclamava também: sentia um sono absurdo. Ficava perguntando quando ela ia nascer e por que não tinha pedido analgesia, que estava arrependida (hahahahaha). Esse período foi o mais longo. Nessa hora não queria ninguém a não ser o Gabriel. Louvado seja Deus pela presença firme, constante e segura do meu esposo durante os partos das nossas crianças. Definitivamente não me vejo passando por tudo isso sem tê-lo ao meu lado.
Até que eu senti ela girando e descendo de vez. Desesperador! Dei um berro, queria levantar e sair correndo. Dr Frederico era tão calmo que minha vontade era dar uns tapas nele. (hahaha, desculpa aí dr. Fred, nada pessoal!) Por fim, nasceu nossa menina! Lenta e serenamente veio ao mundo me trazendo tanta doçura. Veio em baixa luz, no silêncio absoluto que eu tanto amo, rodeada de amor, de respeito, de tempo, de paciência, de entrega. Nasceu às 1:28am do dia 26 de junho, com 41 semanas, 48 cm e 3870 kg, no dia de São Josemaria Escrivá, o santo do cotidiano.
No outro dia eu já queria parir de novo. Quando lembro do parto da Maria Isabel sou inundada por uma onda de doçura. Sinto-me impelida e desejosa de passar por isso tantas vezes quanto o bom Deus queira me abençoar. E também, medo, de ter sido a última vez. Sigo abandonada nas mãos Dele que me faz pequena diante de Seu grande amor.
Eu desejo a todas as mulheres não um parto sem dor, mas um parto onde a dor seja transformada em amor e então tudo se torna doce, embora não sem sofrer. Desejo que encontrem equipes tão maravilhosas quanto a que eu tive (e espero continuar tendo rsrsrs).
Há algo que nos faz genuinamente mulheres: gestar e dar à luz. Se há obra mais grandiosa e cheia da glória de Deus do que gerar uma criança, eu desconheço. Ser tabernáculo vivo, ter a mão divina tecendo um ser em nosso ventre, tocando o nosso corpo e infundido uma alma eterna neste pequenino confiado a nós, é não só maravilhoso, mas também impactante e radical, pois nos muda completamente. Trazer ao seio um milagre, um ser que com sua vida e desenvolvimento proclama a glória de Deus é algo estupendo que somente a bondade divina poderia criar. Receber este privilégio é um grande dom.
Não deixemos que passe a nossa vida, que passem os filhos que Ele nos quer dar. Não deixemos que nossa vida seja um rastro estéril e inútil. Estamos aqui para, morrendo, viver. Que pode haver de maior e mais feliz do que servir ao bom Deus, aceitando e realizando Sua Santíssima Vontade? Reclamemos, pois, o que verdadeiramente nos pertence: um corpo feito para dar vida; gerando, gestando, dando à luz e educando para o Céu.
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Contatos:
Patrícia Roshner- https://www.facebook.com/patriciarohsner.shantala
Dr. Frederico Bravim- https://www.facebook.com/drfredericovitorino/

Esposa, Mãe, Ordem Terceira VE

“Desejo que Jesus me triture interiormente para que eu me torne uma hóstia pura onde Ele possa repousar.” (Sta Teresa dos Andes)

Planejamento Financeiro Familiar Católico – Diretrizes

Tempo de leitura: 7 minutos

No último artigo, explicamos sólidos fundamentos pelos quais as famílias católicas devem realizar um bom planejamento financeiro. No artigo de hoje, trazemos boas diretrizes para bem fazê-lo.

Diretrizes para um planejamento familiar católico

Tal como aponta o (Compêndio da Doutrina Social da Igreja) CDSI em seu artigo 360:

“Para contrastar este fenômeno [do consumismo] é necessário esforçar-se por construir ‘estilos de vida, nos quais a busca do verdadeiro, do belo e do bom, e a comunhão com os outros homens, em ordem ao crescimento comum, sejam os elementos que determinam as opções do consumo, da poupança e do investimento’. É inegável que as influências do contexto social sobre os estilos de vida são notáveis: por isso o desafio cultural que hoje o consumismo apresenta deve ser enfrentado de modo mais incisivo[…].”.

Como adquirir uma casa maior para nossa família crescente, se mal conhecemos nossas despesas mensais, não realizamos ajustes e não poupamos o suficiente? Se posso economizar algum valor por mês e utilizá-lo para um investimento de médio e longo prazo (aluguel ou compra de uma casa maior, o pagamento de uma boa educação para os filhos, por exemplo), para que comprar itens supérfluos (roupas, celulares, etc.) quando o que já temos nos atende? Se podemos fazer as refeições em casa, com nossas famílias, conversando e fortalecendo o convívio, por que fazê-las fora de casa, sozinhos, pagando mais caro e comendo, muitas vezes, alimentos não sempre saudáveis? Como reservar recursos para a ajuda aos necessitados e às obras da Igreja se mantemos o hábito de consumir bens supérfluos?

O ponto crucial das questões acima é: qual o custo de oportunidade das opções que renuncio e qual o impacto disso no equilíbrio financeiro da família e alcance de seus objetivos conjuntos. O custo de oportunidade é um conceito de ampla utilização em economia, relacionado à ideia de otimização.

“Acordamos com o custo de oportunidade todos os dias. Quando o despertador toca, pensamos na melhor escolha a fazer: dormir mais 10 minutos ou ‘pular’ da cama e chegar no trabalho no horário? Comparando a satisfação do sono extra com a de chegar cedo no trabalho, muitos travam o despertador e dormem mais 10 minutos! (GONÇALVES, 2010, p. 20).”. “[…] Um consumidor que compra um bem [ou faz uma escolha], mas poderia comprar [ou escolher] outro, incorreu num custo de oportunidade. O bem comprado [ou escolha feita] lhe dá satisfação, mas o que deixou de comprar [ou de escolher] foi uma oportunidade que também lhe daria satisfação. O custo de oportunidade de escolher o primeiro é a satisfação perdida por ter desistido da melhor alternativa seguinte à escolha que fez. […] O custo de oportunidade permite comparar o que se obteve (satisfação ou lucro) e o que se deixou de obter. […] (GONÇALVES, 2010, p. 19-20).”.

Nesse contexto, o artigo 358 do CDSI aponta que

“[…] hoje, mais do que no passado, é possível avaliar as alternativas disponíveis não somente tomando por base o rendimento previsto ou ao seu grau de risco, mas também exprimindo em juízo de valor sobre os projetos de investimento que os recursos irão financiar, na consciência de que ‘a opção de investir num lugar em vez de outro, neste setor produtivo e não naquele, é sempre uma escolha moral e cultural'”.

Considerando o exposto propomos um “passo a passo” para auxiliar as famílias católicas a exercitarem um bom planejamento financeiro:

PassoComentário
1) Conhecer detalhadamente a receita da família

 

É preciso ter em conta que esforços de trabalho poderão ser maiores em alguns momentos para aumentar a receita e alcançar objetivos definidos ou menores em função de flutuações econômicas e de emprego – nesse caso, será necessário proceder com ajustes nas despesas correntes.

 

2) Conhecer detalhadamente as despesas da família

 

É de bom alvitre manter a prática de identificar oportunidades de enxugamento de despesas e de negociação de preços e formas de pagamento.

 

3) Estabelecer objetivos e metas familiaresa) Objetivo é o propósito de realizar algo, é aonde se quer chegar. É ele que fornece a direção do que se deseja fazer, serve como guia. É a posição que se deseja ocupar no futuro, o sonho que se deseja realizar (LOBATO et al., 2012). Ex.: Objetivo: adquirir uma casa maior para a família crescente.

 

b) Metas são tarefas específicas para alcançar os objetivos. A meta é o objetivo de forma quantificada. Após priorizar os objetivos, eles precisam ser transformados em desafios intermediários no curto prazo, ou metas. As metas são temporais e estritamente ligadas a prazos. Uma boa dose de estímulo e desafio deve ser colocada na determinação das metas, porém, é preciso elaborar metas factíveis (LOBATO et al., 2012). Ex.: Objetivo: adquirir uma casa maior para a família crescente; Meta 1: Economizar x em y anos (meses); Meta 2: Trocar a casa w para a z, no valor h, em j anos.

 

c) Devem ser estabelecidos objetivos e metas familiares de curtíssimo (menor que 1 ano), curto (1 ano), médio (2-5 anos) e longo (maior que 10 anos) prazos.

4) Definir as melhores opções financeiras para o alcance dos objetivos e metas definidos e com base no conhecimento de receitas e despesas familiaresComprar à vista ou a prazo? Utilizar cartão de crédito ou dinheiro? Utilizar capital próprio ou empréstimo? Aplicação em renda fixa ou variável?
5) Definir plano de ação para alcance dos objetivos, por meio do detalhamento das metas

 

a) Os objetivos e metas estabelecem o que será alcançado e quando os resultados serão obtidos, mas eles não dizem como os resultados serão alcançados. Para cada objetivo, portanto, é necessário que se definam as estratégias para a sua viabilização. Esse conjunto de conceitos e ações pode ser organizado com a elaboração de um plano de ação. O plano de ação é uma ferramenta significativa no processo de desdobramento, organização e execução de estratégia. O processo de elaboração envolve aspectos técnicos, administrativos e pedagógicos, estabelecendo um balanceamento entre a responsabilidade individual e o compromisso coletivo (LOBATO et al., 2012).

 

b) Para uma rápida identificação dos elementos necessários à sua implementação, o plano de ação pode estruturar-se pela ferramenta 5W2H, que significa: what (o que será feito?); who (quem fará ?; when – quando será feito?; where – onde será feito?; why – por que será feito?; how – como será feito?; how much – quanto custará?) (LOBATO et al., 2012).

6) Monitorar constantemente receitas e despesasPara auxiliar o monitoramento, devem ser utilizadas planilhas e programas específicos de gestão financeira.
7) Realizar ajustes no planejamento familiar

 

Os itens 3, 4 e 5 devem ser analisados constantemente e revisados de acordo com eventuais mudanças de objetivos da família.

 

Felizmente, são cada vez mais comuns os serviços de assessoria financeira que podem ajudar às famílias, principalmente, no início de sua caminhada. Quem não tem condições de contratar tais serviços pode obter informações resumidas na internet, tal como pretendeu este artigo.

É necessário, como explanado anteriormente, cultivar bons hábitos que possibilitem uma católica gestão financeira familiar, tais como:

  • Criar na família uma cultura de diálogo e de planejamento financeiro familiar;
  • Contribuir com o dízimo e com outras obras da igreja;
  • Incentivar os filhos a participarem de trabalhos de ajuda ao próximo, preferencialmente em ações da igreja, criando uma cultura de caridade e solidariedade;
  • Incentivar aos filhos a ajudar nas atividades domésticas, criando uma cultura de disciplina, organização e co-responsabilidade, bem como a participarem de trabalhos remunerados, desenvolvendo o hábito do planejamento, trabalho em equipe, respeito à hierarquia e da meritocracia;
  • Incentivar desde cedo os filhos a participarem na construção e no alcance dos objetivos e das metas familiares;
  • Criar o hábito de poupar na família (diferentemente da avareza, um dos pecados capitais, a poupança possibilita o alcance dos objetivos familiares), evitando gastos com bens supérfluos;
  • Criar o hábito de acompanhamento de receitas e despesas, ajustando-as aos objetivos e metas familiares.

A necessidade das Virtudes: Naturais (adquiridas) e Sobrenaturais (infusas)

Como nos direciona claramente o artigo 359 do CDSI, o

“uso do próprio poder aquisitivo há de ser exercido no contexto das exigências morais da justiça e da solidariedade e de responsabilidade sociais precisas: Não se há de esquecer o dever da caridade, isto é, o dever de acorrer com o ‘supérfluo’, e às vezes até com o ‘necessário’, para garantir o indispensável à vida do pobre”.

Para fechar este ensaio optou-se por retomar a ideia das Virtudes, pois tudo o que fazemos deve ser para a Maior Glória de Nosso Senhor Jesus Cristo. Para tanto, recorramos ao que o Padre Royo-Marín nos explica sobre as virtudes naturais e sobrenaturais.

As Virtudes Naturais são aquelas adquiridas naturalmente, independentemente da graça e da ordem sobrenatural. Por mais estimáveis que sejam em sua ordem e plano correspondente, são totalmente desproporcionadas e ineptas para a vida sobrenatural que há de viver o cristão. Se os atos constantemente repetidos são bons, adquire-se pouco a pouco o hábito bom correspondente, que em teologia moral recebe o nome de virtude natural ou adquirida. Tais são, por exemplo, a prudência, a lealdade, a sinceridade, a honradez natural, etc., adquiridas naturalmente a custo da repetição de seus atos correspondentes.

Já as Virtudes Sobrenaturais, ou Infusas, são aquelas infundidas por Deus juntamente com a graça, para que possa operar sobrenaturalmente, e o divino, com ajuda dos dons do Espírito Santo. Possuem dois grupos fundamentais: Virtudes Teologais (apenas três: fé, esperança e caridade) e Virtudes Morais (subdivididas em: cardeais – prudência, justiça, fortaleza e temperança; potenciais ou derivadas – ex.: humildade, obediência, paciência, castidade, perseverança, etc.). As Virtudes Morais estão em perfeita analogia e paralelismo com as correspondentes Virtudes Naturais (adquiridas). As Virtudes Teologias são estritamente divinas, porque têm por objeto direto e imediato o próprio Deus, e não têm, pela mesma razão, virtudes correspondentes na ordem natural adquirida.

A família deve, portanto, por meio da oração, pedir a Deus que a infunda de Virtudes Sobrenaturais (Teologais e Morais) e praticar as Virtudes Naturais, adquiridas por meio da repetição constante. Assim, poderá controlar seus vícios e evitar pecados, tais como, preguiça, avareza, ganância, inveja, em busca de sua santificação.


Referências

  • Catecismo da Igreja Católica. Edição Típica Vaticana. São Paulo: Edições Loyola, 2000.
  • Compêndio da Doutrina Social da Igreja. São Paulo: Paulinas, 2005.
  • LOBATO, D. M. et al. Estratégia de empresas. 9. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009. 208 p.
  • GONÇALVES, A. C. P. et al. Economia Aplicada. 9. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010. 152 p.
  • DUHIGG, C. O poder do hábito – por que fazemos o que fazemos na vida e nos negócios. Rio de Janeiro, Objetiva, 2012. 407 p.
  • ROYO-MARÍN, A. Ser santo ou não ser… eis a questão – Compêndio da obra Teología de La perfección cristiana. 1 ed. Campinas, SP: Ecclesiae, 2016. 371 p.
  • AQUINO, F. R. Q. Família: santuário da vida – vida conjugal e educação dos filhos. 23. ed. Lorena, SP: Editora Cléofas, 2016. 232 p.
  • LINDENBERG, A. Uma visão cristã da economia de mercado. São Luís, MA: Resistência Cultural, 2017. 247 p.

Marcos Eugênio Lopes é presidente e fundador do Centro Anchieta.

Esposo da Raphaela e pai da Maria.

Planejamento financeiro familiar católico – fundamentos

Tempo de leitura: 6 minutos

Para esta importante série de publicações convidamos nosso querido amigo Marcos Lopes, presidente do Centro Anchieta, para falar sobre planejamento financeiro familiar. Nesta primeira postagem veremos a importância de fazê-lo e em que está fundado.

“O valor primordial do trabalho depende do próprio homem, que é seu autor e destinatário. Por meio de seu trabalho, o homem participa da obra da criação. Unido a Cristo, o trabalho pode ser redentor.” (Catecismo da Igreja Católica – CIC, 2460)

Nossa Santa Igreja Católica aponta o caminho que devemos percorrer em busca da santidade – o que abarca os ensinamentos de Deus para uma vida familiar equilibrada, inclusive em termos financeiros. Não confundamos, porém, a busca de equilíbrio financeiro familiar com a “teologia da prosperidade”. Diferentemente desse conceito de riqueza, condenado por nossa igreja, é justo que as famílias se organizem e planejem suas atividades para a Maior Glória de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Esta série de publicações tentará responder algumas perguntas:

  • Como uma família pode (man)ter sua “saúde financeira” com todos os gastos demandados em nossos dias?
  • Do que consistiria um planejamento financeiro familiar católico?

A família e a vida econômica

Uma “nova” família é formada a partir do Matrimônio, logo, deve ser estruturada a tornar-se independente. Isso significa não depender emocional e financeiramente dos pais, mas, ao mesmo tempo, não quer dizer descuidar das famílias de origem.
A outra mensagem apreendida do Evangelho é a de que na relação homem-mulher todos os esforços e conquistas são de ambos. O casal deve compartilhar tudo, pois são “uma só carne”, mantendo sempre a transparência e estabelecendo planos conjuntamente, com base em seus objetivos de vida.

Pobreza e riqueza

O artigo 329 do CDSI aponta que “as riquezas realizam a sua função de serviço ao homem quando destinadas a produzir benefícios para os outros e para a sociedade. ‘Como poderíamos fazer o bem ao próximo – interroga-se Clemente de Alexandria – se todos não possuíssem nada?’. Na visão de São João Crisóstomo, as riquezas pertencem a alguns, para que estes possam adquirir mérito partilhando com os outros. Elas são um bem que vem de Deus: quem o possuir, deve usá-lo e fazê-lo circular, de sorte que também os necessitados possam fruir; o mal está no apego desmedido às riquezas, no desejo de açambarcá-las.”.

O artigo 2459 do CIC orienta ao católico o seguinte: “O próprio homem é o autor, o centro e o fim de toda a vida econômica e social. O ponto decisivo da questão social é que os bens criados por Deus para todos de fato cheguem a todos, conforme a justiça e com a ajuda da caridade”.

Como criar bons hábitos

O padre Dominicano Antonio Royo-Marín esclarece que “é um fato perfeitamente comprovável na prática que ao se repetir uma série de atos correspondentes a uma determinada atividade, adquire-se pouco a pouco o hábito de realizá-la cada vez com maior facilidade.”(ROYO-MARÍN, 2016, p. 100). Já Charles Duhigg, em seu livro O Poder do Hábito, afirma que “centenas de hábitos influenciam nossos dias – eles orientam o modo como nos vestimos de manhã, como falamos com nossos filhos e adormecemos à noite; eles afetam o que comemos no almoço, como realizamos negócios e se vamos fazer exercícios ou tomar uma cerveja depois do trabalho”.(DUHIGG, 2012, p.283). O padre Royo-Marín complementa que “se esses atos são maus, adquire-se um mau hábito, que em teologia moral recebe o nome de vício (por exemplo, o vício da embriaguês)”.(ROYO-MARÍN, 2016, p. 100).

Ao trazermos a discussão sobre hábitos para nossas ações econômicas, Adolpho Lindenberg afirma que tais ações para serem “profícuas supõem, em boa medida, que a população tenha hábitos de trabalho intenso, poupança e vida austera.”(LINDENBERG, 2017, p. 163). Contudo, no Brasil, é de se lamentar que não se ensine economia doméstica e finanças nas escolas e, como consequência, não se observe uma cultura de planejamento e estabelecimento de objetivos e metas familiares. Some-se a isso a percepção majoritária dos brasileiros de que o “governo” deve prover “tudo a todos”.

Conforme indica Duhigg “[…] para modificar um hábito, você precisa decidir mudá-lo. Deve aceitar conscientemente a dura tarefa de identificar as deixas [oportunidades] e recompensas que impulsionam as rotinas do hábito e encontrar alternativas. Você precisa saber que possui o controle e ser autoconsciente o bastante para usá-lo.” (DUHIGG, 2012, p. 283). Todavia, é fato que enfrentaremos dificuldades impostas ou incentivadas, explícita ou subliminarmente, pelo “mundo moderno” para modificar maus hábitos.

(Maus) Hábitos da vida moderna

Individualismo

Primeiro, os “sonhos individuais” de homem e mulher (carreira, viagens, cuidados com o corpo, etc) tendem a ser priorizados em detrimento de se ter filhos e da dedicação necessária quanto a uma criação cristã da prole. Em decorrência disso, e de outros fatores relacionados, os Matrimônios ocorrem cada vez em menor número e mais tarde, diminuindo a fertilidade dos casais.

Moradias supervalorizadas e apertadas

Segundo, além de mais caras, as residências (casas e apartamentos) tendem a ser cada vez menores, como consequência da redução das famílias e da quantidade de seus membros.

Crise do sistema educacional

Terceiro, mesmo com uma qualidade de educação sofrível (e piorando – nosso país ocupa as piores posições nas avaliações internacionais), os custos com educação são cada vez maiores.

Cultura do descartável

Quarto, há um super-estímulo ao consumo de bens supérfluos. Tal realidade relega a segundo plano o hábito da poupança e do investimento para retornos em médio e longo prazos. Tal como aponta o CDSI em seu artigo 360:

“o fenômeno do consumismo mantém uma persistente orientação mais para o ‘ter’ do que para o ‘ser’. Ele impede de ‘distinguir corretamente as formas novas e mais elevadas de satisfação das necessidades humanas, das necessidades artificialmente criadas que se opõem à formação de uma personalidade madura'[…].”.

Mostrando que a mentalidade consumista e antinatalista é uma ameaça à família, o Papa João Paulo II, na Carta às Famílias, afirma que

“[…] uma civilização, inspirada numa mentalidade consumista e antinatalista, não é uma civilização do amor e nem o poderá ser nunca. Se a família é tão importante para a civilização do amor, isto se deve à especial proximidade e intensidade dos laços que nela se instauram entre as pessoas e as gerações.  Apesar disso, ela continua vulnerável e pode facilmente sucumbir aos perigos que enfraquecem ou até destroem a sua união e estabilidade. Devido a tais perigos as famílias cessam de testemunhar a favor da civilização do amor e podem até mesmo tornar-se a sua negação, uma espécie de contratestemunho[…] (CF, 13)”

(AQUINO, 2016, p. 22).

Hoje em dia, a vida moderna e todas as suas influências antinaturais colocam contra a parede as famílias que querem viver conforme Cristo.

Enfraquecimento dos laços afetivos

Nos dias atuais “[…] a família está reduzida à expressão mais simples: pai, mãe e um ou dois filhos. E, mesmo entre estes, os laços afetivos estão incomparavelmente mais enfraquecidos, se comparados aos que existiam no passado. Separação de bens, convicção mútua de que o divórcio é uma possibilidade real a cada momento, falta de diálogo entre marido e mulher, e quantas coisas mais tornam a relação matrimonial quebradiça e monótona.” (LINDENBERG, 2017, p. 167).

Ademais, “[…] o hábito de todos assistirem horas seguidas à TV, no dia-a-dia, [além de expor pais e filhos a conteúdo muitas vezes contrário à moral católica e de incentivar o consumo desregrado], praticamente eliminou as conversas e o aconchego familiares, transformando o relacionamento entre pais e filhos em meras trocas de informações.”(LINDENBERG, 2017, p. 168).

Esses momentos de reunião, cada vez mais raros, seriam ideais para que a família cultivasse o hábito da oração e planejasse seus objetivos de curto, médio e longo prazos. As famílias deveriam exercitar o vislumbre do que desejam como projetos de vida e, a partir daí, os passos necessários para alcançarem seus objetivos.

Como planejar qualquer coisa se não se sabe aonde se quer chegar e quais caminhos há e se pode percorrer? Queda-se, assim, refém do acaso. A Divina Providência sempre age por nós, porém somos responsáveis por nossas escolhas e colhemos (ou não) os frutos das árvores que cultivamos.

 

Agora que já sabemos os motivos para se realizar um bom planejamento financeiro familiar e no que está fundado, no próximo texto tentarei dar boas diretrizes para bem fazê-lo. Até lá!

Marcos Eugênio Lopes é presidente e fundador do Centro Anchieta.

Esposo da Raphaela e pai da Maria.

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