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Para esta importante série de publicações convidamos nosso querido amigo Marcos Lopes, presidente do Centro Anchieta, para falar sobre planejamento financeiro familiar. Nesta primeira postagem veremos a importância de fazê-lo e em que está fundado.

“O valor primordial do trabalho depende do próprio homem, que é seu autor e destinatário. Por meio de seu trabalho, o homem participa da obra da criação. Unido a Cristo, o trabalho pode ser redentor.” (Catecismo da Igreja Católica – CIC, 2460)

Nossa Santa Igreja Católica aponta o caminho que devemos percorrer em busca da santidade – o que abarca os ensinamentos de Deus para uma vida familiar equilibrada, inclusive em termos financeiros. Não confundamos, porém, a busca de equilíbrio financeiro familiar com a “teologia da prosperidade”. Diferentemente desse conceito de riqueza, condenado por nossa igreja, é justo que as famílias se organizem e planejem suas atividades para a Maior Glória de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Esta série de publicações tentará responder algumas perguntas:

  • Como uma família pode (man)ter sua “saúde financeira” com todos os gastos demandados em nossos dias?
  • Do que consistiria um planejamento financeiro familiar católico?

A família e a vida econômica

Uma “nova” família é formada a partir do Matrimônio, logo, deve ser estruturada a tornar-se independente. Isso significa não depender emocional e financeiramente dos pais, mas, ao mesmo tempo, não quer dizer descuidar das famílias de origem.
A outra mensagem apreendida do Evangelho é a de que na relação homem-mulher todos os esforços e conquistas são de ambos. O casal deve compartilhar tudo, pois são “uma só carne”, mantendo sempre a transparência e estabelecendo planos conjuntamente, com base em seus objetivos de vida.

Pobreza e riqueza

O artigo 329 do CDSI aponta que “as riquezas realizam a sua função de serviço ao homem quando destinadas a produzir benefícios para os outros e para a sociedade. ‘Como poderíamos fazer o bem ao próximo – interroga-se Clemente de Alexandria – se todos não possuíssem nada?’. Na visão de São João Crisóstomo, as riquezas pertencem a alguns, para que estes possam adquirir mérito partilhando com os outros. Elas são um bem que vem de Deus: quem o possuir, deve usá-lo e fazê-lo circular, de sorte que também os necessitados possam fruir; o mal está no apego desmedido às riquezas, no desejo de açambarcá-las.”.

O artigo 2459 do CIC orienta ao católico o seguinte: “O próprio homem é o autor, o centro e o fim de toda a vida econômica e social. O ponto decisivo da questão social é que os bens criados por Deus para todos de fato cheguem a todos, conforme a justiça e com a ajuda da caridade”.

Como criar bons hábitos

O padre Dominicano Antonio Royo-Marín esclarece que “é um fato perfeitamente comprovável na prática que ao se repetir uma série de atos correspondentes a uma determinada atividade, adquire-se pouco a pouco o hábito de realizá-la cada vez com maior facilidade.”(ROYO-MARÍN, 2016, p. 100). Já Charles Duhigg, em seu livro O Poder do Hábito, afirma que “centenas de hábitos influenciam nossos dias – eles orientam o modo como nos vestimos de manhã, como falamos com nossos filhos e adormecemos à noite; eles afetam o que comemos no almoço, como realizamos negócios e se vamos fazer exercícios ou tomar uma cerveja depois do trabalho”.(DUHIGG, 2012, p.283). O padre Royo-Marín complementa que “se esses atos são maus, adquire-se um mau hábito, que em teologia moral recebe o nome de vício (por exemplo, o vício da embriaguês)”.(ROYO-MARÍN, 2016, p. 100).

Ao trazermos a discussão sobre hábitos para nossas ações econômicas, Adolpho Lindenberg afirma que tais ações para serem “profícuas supõem, em boa medida, que a população tenha hábitos de trabalho intenso, poupança e vida austera.”(LINDENBERG, 2017, p. 163). Contudo, no Brasil, é de se lamentar que não se ensine economia doméstica e finanças nas escolas e, como consequência, não se observe uma cultura de planejamento e estabelecimento de objetivos e metas familiares. Some-se a isso a percepção majoritária dos brasileiros de que o “governo” deve prover “tudo a todos”.

Conforme indica Duhigg “[…] para modificar um hábito, você precisa decidir mudá-lo. Deve aceitar conscientemente a dura tarefa de identificar as deixas [oportunidades] e recompensas que impulsionam as rotinas do hábito e encontrar alternativas. Você precisa saber que possui o controle e ser autoconsciente o bastante para usá-lo.” (DUHIGG, 2012, p. 283). Todavia, é fato que enfrentaremos dificuldades impostas ou incentivadas, explícita ou subliminarmente, pelo “mundo moderno” para modificar maus hábitos.

(Maus) Hábitos da vida moderna

Individualismo

Primeiro, os “sonhos individuais” de homem e mulher (carreira, viagens, cuidados com o corpo, etc) tendem a ser priorizados em detrimento de se ter filhos e da dedicação necessária quanto a uma criação cristã da prole. Em decorrência disso, e de outros fatores relacionados, os Matrimônios ocorrem cada vez em menor número e mais tarde, diminuindo a fertilidade dos casais.

Moradias supervalorizadas e apertadas

Segundo, além de mais caras, as residências (casas e apartamentos) tendem a ser cada vez menores, como consequência da redução das famílias e da quantidade de seus membros.

Crise do sistema educacional

Terceiro, mesmo com uma qualidade de educação sofrível (e piorando – nosso país ocupa as piores posições nas avaliações internacionais), os custos com educação são cada vez maiores.

Cultura do descartável

Quarto, há um super-estímulo ao consumo de bens supérfluos. Tal realidade relega a segundo plano o hábito da poupança e do investimento para retornos em médio e longo prazos. Tal como aponta o CDSI em seu artigo 360:

“o fenômeno do consumismo mantém uma persistente orientação mais para o ‘ter’ do que para o ‘ser’. Ele impede de ‘distinguir corretamente as formas novas e mais elevadas de satisfação das necessidades humanas, das necessidades artificialmente criadas que se opõem à formação de uma personalidade madura'[…].”.

Mostrando que a mentalidade consumista e antinatalista é uma ameaça à família, o Papa João Paulo II, na Carta às Famílias, afirma que

“[…] uma civilização, inspirada numa mentalidade consumista e antinatalista, não é uma civilização do amor e nem o poderá ser nunca. Se a família é tão importante para a civilização do amor, isto se deve à especial proximidade e intensidade dos laços que nela se instauram entre as pessoas e as gerações.  Apesar disso, ela continua vulnerável e pode facilmente sucumbir aos perigos que enfraquecem ou até destroem a sua união e estabilidade. Devido a tais perigos as famílias cessam de testemunhar a favor da civilização do amor e podem até mesmo tornar-se a sua negação, uma espécie de contratestemunho[…] (CF, 13)”

(AQUINO, 2016, p. 22).

Hoje em dia, a vida moderna e todas as suas influências antinaturais colocam contra a parede as famílias que querem viver conforme Cristo.

Enfraquecimento dos laços afetivos

Nos dias atuais “[…] a família está reduzida à expressão mais simples: pai, mãe e um ou dois filhos. E, mesmo entre estes, os laços afetivos estão incomparavelmente mais enfraquecidos, se comparados aos que existiam no passado. Separação de bens, convicção mútua de que o divórcio é uma possibilidade real a cada momento, falta de diálogo entre marido e mulher, e quantas coisas mais tornam a relação matrimonial quebradiça e monótona.” (LINDENBERG, 2017, p. 167).

Ademais, “[…] o hábito de todos assistirem horas seguidas à TV, no dia-a-dia, [além de expor pais e filhos a conteúdo muitas vezes contrário à moral católica e de incentivar o consumo desregrado], praticamente eliminou as conversas e o aconchego familiares, transformando o relacionamento entre pais e filhos em meras trocas de informações.”(LINDENBERG, 2017, p. 168).

Esses momentos de reunião, cada vez mais raros, seriam ideais para que a família cultivasse o hábito da oração e planejasse seus objetivos de curto, médio e longo prazos. As famílias deveriam exercitar o vislumbre do que desejam como projetos de vida e, a partir daí, os passos necessários para alcançarem seus objetivos.

Como planejar qualquer coisa se não se sabe aonde se quer chegar e quais caminhos há e se pode percorrer? Queda-se, assim, refém do acaso. A Divina Providência sempre age por nós, porém somos responsáveis por nossas escolhas e colhemos (ou não) os frutos das árvores que cultivamos.

 

Agora que já sabemos os motivos para se realizar um bom planejamento financeiro familiar e no que está fundado, no próximo texto tentarei dar boas diretrizes para bem fazê-lo. Até lá!

Marcos Eugênio Lopes é presidente e fundador do Centro Anchieta.

Esposo da Raphaela e pai da Maria.