Lírio entre espinhos

Uma família católica buscando a santidade

Tag: maternidade

Há um ano o amor nasceu e eu renasci

Tempo de leitura: 4 minutos
Trago o relato do parto do Bento, escrito pouco tempo depois de ele ter nascido:
“Por aqui os dias foram tempestuosos porém felizes e só agora tive tempo para escrever sobre esses dias para mantê-los aquecidos com a boa nova que recebemos em nossa família.
O relato do nascimento do Bento começa cedo. Desde o dia 30 de julho comecei a ter sinais de que ele estava pronto para nascer. Porém, apesar de pronto, eis que nossa primeira flecha esteve com preguicinha de vir ao mundo. Foram 4 semanas de alarmes falsos, mas em nenhum deles chegamos a ir para o hospital. Eu sentia contrações, inúmeras delas, porém elas não tinham ritmo.
Os dias foram passando e com eles fomos nos esgotando física e psicologicamente. É muito difícil trabalhar a mente nesses dias em que todo dia parece dia de nascer. Um mundo desconhecido se espreitava à minha frente e às vezes, me sentia perdida. Era preciso romper com tantas expectativas e viver abandonada em Deus. ”A cada dia basta o seu cuidado.”
De fato as coisas seriam muito mais fáceis se eu entrasse em trabalho de parto logo e ele nascesse. Mas, o bom Deus tem caminhos insondáveis. Esperar é um grande exercício de paciência, virtude que tanto me faltava nessa altura (e também, nesta vida). Essa espera me deixou abalada e cansada. Gabriel, meu esteio, e eu rezávamos e tentávamos caminhar em paz. No começo estávamos mais tranquilos, porém, na última semana eu já estava tão cansada… Mas o bom Deus sabe o tamanho da cruz que precisamos e aguentamos carregar! Que doçuras encontramos na Cruz quando decidimos abraçá-la!
Padre Fábio, nosso querido e amado diretor, foi um grande pai nessa última semana antes do nascimento do Bento. Pude compartilhar com ele meus medos, inseguranças e cansaço. Acho que poucas vezes me senti tão abraçada espiritual e psicologicamente como me senti na minha ultima direção antes do Bento nascer. Isso foi na sexta, dia 19 de agosto, onde graças ao bom Deus pude me confessar e seguir confiante para o meu grande calvário.
Na segunda feira, dia 22, tive consulta e a médica fez um procedimento para ver se o parto engrenava, pois eu já tinha dilatação mais do que suficiente para estar em trabalho de parto. Apesar da dilatação evoluída (já tinha 6 cm) até então eu não havia sentido dor alguma. Mas na noite desta segunda já não consegui dormir. As contrações eram mais regulares e intensas, porém ainda sem ritmo. E isso me deixava cansada… queria tanto que o Bento nascesse! Eu já estava com quase 41 semanas!
Terça-feira de manhã as contrações pegaram ritmo! De 3 em 3 minutos! Eeeee.. Bento vai nascer! Fomos para o hospital e…. NADA. As contrações pararam. Eu definitivamente me sentia subindo o monte calvário de ré. Frustrada, impaciente, ansiosa.
Passei a terça-feira com dores, mas nada de pegar ritmo. Na madrugada de terça-feira para quarta-feira as dores ficaram muito intensas e era impossível dormir ou ficar deitada. Mas continuávamos sem ritmo. Minha médica me viu de madrugada, tomei medicação para cólicas mas as contrações não cederam. Voltamos para casa, mas precisávamos tomar uma decisão. O trabalho de parto poderia começar a qualquer hora, mas também podia demorar dias. A médica nos disse que podíamos esperar ou tentar induzir o parto.
Voltamos para casa e novamente não conseguimos dormir. Eu já sofria com as contrações. Decidimos induzir o parto, rompendo a bolsa. Não dava para continuar com essas dores e sem descansar. Se continuasse assim certamente não conseguiria um parto normal.
Fomos para o hospital as 6:30 da manhã do dia 24 de agosto de 2016. Às 7:30 a médica rompeu a bolsa. Às 8:30, graças a bondosa Virgem, as contrações engrenaram!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Às 10:39 nosso Bento nasceu!!!!! Ao som de Panis Angelicus! Dia de São Bartolomeu!
Foram poucas horas de trabalho de parto ativo, sem analgesia, tudo muito intenso! Vivi cada contração unida ao bom Jesus! Como rezei à Santa Coleta!
Gabriel esteve comigo todo o tempo! Nem sei dizer o que seria de mim sem o companheirismo e a força dele.
Bento nasceu e veio direto para os meus braços! Ainda sem me dar conta do que tinha acontecido, imediatamente o ofereci ao Sagrado Coração de Jesus e a Santíssima Virgem.”
E assim nasceu nosso menino…
O nascimento do Bento foi uma grande graça de Nosso Senhor. Definitivamente, quando olho para trás, não me reconheço. Ter um filho é, antes de tudo, um encontro com nós mesmos. Como se houvesse uma lupa, nossos defeitos são enfatizados. Nossas qualidades parecem não ser suficientes. É preciso decidir-se: ”o Reino dos Céus pertence aos violentos”.
Mas, ter uma criança, é sobretudo um grande valor por ela mesma. Quando penso no Bento, penso: que grande milagre! É um presente para o mundo, é um louvor à Deus! Uma criatura tão perfeitamente modelada, uma personalidade ímpar, que me garantes infindos sorrisos pelos dias afora. O Bento sempre mereceu existir e depois nascer, ser bem educado e alcançar o Céu.
Quando alguém me pergunta: ”Mas você quer mais filhos?” ”Um não está bom?” ”Já não tem trabalho que chega?” Eu sinceramente, nem sei o que responder. Eu não sei o que as pessoas esperam dessa vida, a não ser um vazio crescente. Eu realmente não acredito que ter um filho, ou muitos deles!, seja mais trabalhoso do que competir freneticamente para manter uma carreira, virando noites em claro por algo material, que é o dinheiro, ou por uma ilusão, que é o sucesso.
O casamento é uma grande ocasião de santificação, mas somente depois que os filhos chegam, ele alcança sua maturidade e nos eleva para além de nós mesmos. Ter um pequenino ser que exige de nós não muito, mas tudo, é o que faz a diferença, afinal, “Amar é tudo dar e dar-se a si mesmo”, como diz Santa Teresinha.
E no fim da vida, como nos diz São João da Cruz, não seremos julgados pela carreira, pelo sucesso, pelo corpo atlético, pelos livros lidos, pelos filmes assistidos, pelas viagens feitas, mas sim pelo Amor, que é o pleno e fiel cumprimento da vontade de Deus e a doação total de nós mesmos.

 

A rotina do Bento

Tempo de leitura: 7 minutos

Muitas mães me escrevem pedindo para eu relatar como é a rotina do Bento. Basicamente segue essa tabela que montamos de acordo com as particularidades de nossa família e a idade em que ele está. Ele está com 11 meses, mas essa é a tabela dos 6 meses até 1,5 ano. Ela não foi construída dessa forma desde a primeira vez, essa tabela é resultado de algumas adaptações e tentativas até que tudo se encaixou e começou a funcionar muito bem.

Nada de telas até os 2 anos de idade

Escolhemos, desde antes de o Bento nascer, que ele não teria contato com telas por um bom tempo. Inclusive, um tempo depois, tivemos acesso a uma pesquisa da Sociedade Americana de Pediatria que diz que crianças com menos de dois anos não devem ter contato com displays.

Em uma das primeiras consultas com o pediatra do Bento, dr. Marcos Santolim, ele nos alertou sobre o perigo das telas, que as crianças de até dois anos expostas às telas ficam hipnotizadas porque não enxergam como nós, mas sim veem as coisas como que girando. Além disso, essa exposição causa um empobrecimento das conexões neurais, problemas sérios com o sono, pouca memória, problemas de concentração e de visão, e até mesmo diminuição do potencial de inteligência.

O dr. Ítalo Marsili fala também que o excesso de estímulos visuais provenientes das telas causa uma distorção da forma como a criança enxerga a realidade, principalmente porque o que é apresentado nas telas é diferente da beleza do mundo real. Apesar de serem considerados vídeos educativos, eles não são a solução para ensinar coisas para as crianças. Sobre esse assunto, indico esse vídeo do Dr. Ítalo Marsili, psiquiatra, em que ele explica o fenômeno do Video Deficit Effect. E também esse artigo do professor Carlos Nadalim.

Para nós foi uma decisão muito natural, pois não temos costume de assistir televisão. Além disso, através de leituras e de experiências de outras pessoas, percebemos que o excesso de tempo dedicado às telas causa moleza e vícios na criança. Além de tornar-se uma muleta para os pais, que dificilmente deixam de expor a criança às telas em qualquer oportunidade de conseguir que cesse uma pirraça ou de ganhar um descanso tão sonhado.

Penso que, realmente, se usássemos os displays como expediente educativo ou de distração para o Bento, eu certamente teria uma vida mais fácil em certo sentido. E justamente por isso decidi não usar em hipótese alguma, ou, para mim, acabaria se tornando algo que eu usaria sempre. Mas, por mais que pareça difícil, não sinto falta desse artifício. Há várias maneiras de lidar com a criança, como envolvê-la nas atividades, fazer rotatividade de brinquedos, cantar, e por aí vai. Se os displays fossem tão necessários, como teriam sobrevivido as gerações passadas? Crianças precisam muito mais de quintal e paciência do que de vídeos, é o que pensamos.

Mas, em certas realidades, os displays ajudam, é verdade. Não quero dizer que somos melhores por isso, apenas mostro nosso esforço e o que nos levou a tomar essa decisão. Além de que, após os dois anos ou mais, pretendemos sim que o Bento assista desenhos infantis de boa qualidade, que tenham sido assistidos por nós antes e os quais possamos estar com ele ajudando a entender o que se passa. Os filmes e desenhos são expedientes educacionais e a criança precisa dos olhos dos adultos para entender o que se passa naquela realidade, qual lição deve ser aprendida, etc.

Muita leitura em voz alta

Com ensina o professor Carlos Nadalim, do blog Como educar seus filhos, após o nascimento do bebê, a leitura em voz alta proporciona uma série de benefícios, como:  estreitamento da relação afetiva entre pais e filho,  desenvolvimento da compreensão auditiva, treinamento da memória auditiva de curto prazo, enriquecimento do vocabulário, entendimento gradual de que a palavra escrita representa a palavra falada, aquisição do gosto pelos livros e pela leitura (para tanto, é importante não só que os pais leiam para os filhos, como também que os filhos vejam os pais lendo sozinhos).

Algumas dicas para escolher bons livros de histórias para as crianças de até 4 ou 5 anos:

1- As ilustrações são o que mais atrai a atenção da criança em um livro. Por isso, as imagens devem ser belas, com riqueza de traços e detalhes. Devem, sobretudo, ser uma bela representação da realidade. Assim, também devemos aproveitar os momentos de leitura para ensinar nossos filhos a apreciar a beleza e a arte.
Alguns tipos de ilustração podem desagradar, confundir e perturbar as crianças. São as ilustrações: disformes, distorcidas, desproporcionais, as representações de figuras humanas ou animais com economia de traços e expressões, as ilustrações psicodélicas, as ilustrações confusas onde o bem está representado pelo feio e o mal pelo bonito. É preciso que as imagens tragam para a criança uma ampliação do imaginário mas sem desfigurá-lo. Um desenho de uma árvore deve parecer com uma árvore. Para isso também são preferíveis as ilustrações que parecem desenhos feitos por uma mão humana ao invés dos digitalizados.

2- Além das imagens, é preciso que o livro tenha uma boa sonoridade do texto. Para isso é bom ler o livro em voz alta antes de comprá-lo, para ver se o texto é atraente. Livros com rimas são sempre um sucesso! Também é legal ver se ao longo da história há frases repetidas, pois elas mantêm a atenção das crianças.

3- Verifique se o livro contém boa estrutura de frases, amplo vocabulário, se a história tem um bom enredo e o que ela ensina para a criança. Contar uma história é abrir uma porta para um mundo que embora seja mágico, usa emoções, elementos e comportamentos do mundo real.

4- Dê preferência a: contos clássicos, fábulas de Esopo, histórias bíblicas e de santos. Também é legal ter um ou dois livrinhos sonoros.

Esses são os livros que temos usado com o Bento:

 

Musicalização

A música ajuda as crianças a conhecerem melhor a si mesmas, os outros e a vida. Além disso, através da música, desenvolvem ainda mais a imaginação e a criatividade.

Uma dica muito importante é cantar com eles cantigas de roda e ouvir música clássica (Mozart, Bach, por exemplo). Além disso, com o Bento ainda apresentamos canto gregoriano (vídeo e cantado por nós), polifônico, músicas tradicionais piedosas e também as medievais (Cantigas de Santa Maria, por exemplo) e Palavra Cantada.

Mas, apesar da música ser ótima para as crianças, não deve ser usada o dia todo. Helena Lubienska em seu livro ”Silêncio, gesto e palavra” e o dr. Ítalo em seu curso sobre Afetividade Infantil deixam bem claro que o ambiente natural da criança deve ser composto de silêncio (aqui toma-se por barulho os gritos, excesso de estímulos auditivos ou visuais, discussões, etc), ordem e tranquilidade.

Grande parte das pirraças infantis são por excesso de estímulos: muito tempo exposto a luzes no shopping, lojas, supermercados ou as luzes das telas, muitos sons, falta de rotina. Os hiperestímulos causam perturbação na criança e a deixam confusa e irritada.

Brincadeiras

Utilizamos as atividades semanais do livroSlow and Steady, get me ready como atividades de brincadeiras dirigidas. Assim, temos um tempo saudável e de qualidade para estar brincando de forma agradável e estimulante com o Bento. Esse livro possui atividades semanais que trazem instruções para construção de brinquedos simples com coisas que temos em casa e que desenvolvem capacidades da criança.

O Bento ama e nós economizamos muito!

Ar livre

A natureza é importante não só para formar uma afetividade saudável na criança, mas também o contato com a mesma estimula de forma positiva a consciência corporal, coordenação motora, muita “vitamina S” para a imunidade, vitamina D, descanso, exercício muscular e também da vontade, diversão, diminui o estresse e a agitação, afasta o sedentarismo e a moleza, impulsiona a criatividade e tanto mais!

Vida de piedade

Apesar de pequena, a criança tem um grande potencial observador e imitador, e por isso aprende principalmente pelo exemplo. Dessa forma, o que procuramos garantir ao Bento é que esteja inserido em nossa vida de piedade, sem cobrar o que ele não pode dar ainda, como por exemplo, ficar imóvel e concentrado enquanto rezamos o terço ou fazemos adoração. Para saber como é a nossa rotina de oração, acesse aqui.

A respeito dos gestos, ele já aprendeu a pedir a bênção e já junta as mãos para rezar e bate palmas depois de dizermos Viva Nossa Senhora!

Especificamente com ele rezamos a Oração da Manhã e da Noite com um breve colóquio de agradecimento, arrependimento e preces, seguido de uma Ave Maria e um Santo Anjo. Além disso, temos momentos no dia para pensar e falar com Deus. Esses momentos são em meio as brincadeiras ou quando ele está me ‘ajudando’ em alguma atividade. Geralmente digo pequenas frases, como, ”Podemos oferecer esse trabalho pelos pecadores” ou então ”Deus habita em nós e podemos falar o quanto O amamos o tempo todo.”

No fim da tarde, o Gabriel conta histórias bíblicas e de santos. E procuramos, naturalmente e em tudo, relacionar às coisas divinas.

Além disso, uma outra coisa que temos feito é quando ele passa por um momento difícil, como aprender a esperar, por exemplo, dizer: ” Nós sabemos como é difícil para você aprender a esperar. Vamos pedir ajuda ao Santo Anjo ou a Nossa Senhora?” E então rezamos brevemente com ele. Só o fato de rezar já o acalma, pois a entonação que usamos para rezar é diferente da fala ou do canto.

O final de semana

Procuramos ao máximo garantir certa sequência da rotina, principalmente de sono e alimentação.  As crianças não sabem que horas são, mas se guiam pela sequência da rotina a qual estão acostumadas, principalmente as relacionadas aos 4 hábitos básicos: sono, alimentação, higiene e ordem.

Referências

Carlos Nadalim, Como Educar seus filhos

Dr. Ítalo Marsili, Afetividade Infantil e Harmonia Familiar

Helena Lubienska, Silêncio, gesto e palavra

 

 

 

 

 

 

Elogio da mulher forte

Tempo de leitura: 10 minutos

“Uma mulher virtuosa, quem pode encontrá-la? Superior ao das pérolas é o seu valor. Confia nela o coração de seu marido, e jamais lhe faltará coisa alguma. Ela lhe proporciona o bem, nunca o mal, em todos os dias de sua vida. Ela procura lã e linho e trabalha com mão alegre. Semelhante ao navio do mercador, manda vir seus víveres de longe. Levanta-se, ainda de noite, distribui a comida à sua casa e a tarefa às suas servas. Ela encontra uma terra, adquire-a. Planta uma vinha com o ganho de suas mãos. Cinge os rins de fortaleza, revigora seus braços. Alegra-se com o seu lucro, e sua lâmpada não se apaga durante a noite. Põe a mão na roca, seus dedos manejam o fuso. Estende os braços ao infeliz e abre a mão ao indigente. Ela não teme a neve em sua casa, porque toda a sua família tem vestes duplas. Faz para si cobertas: suas vestes são de linho fino e de púrpura. Seu marido é considerado nas portas da cidade, quando se senta com os anciãos da terra. Tece linha e o vende, fornece cintos ao mercador. Fortaleza e graça lhe servem de ornamentos; ri-se do dia de amanhã. Abre a boca com sabedoria, amáveis instruções surgem de sua língua. Vigia o andamento de sua casa e não come o pão da ociosidade. Seus filhos se levantam para proclamá-la bem-aventurada e seu marido para elogiá-la. Muitas mulheres demonstram vigor, mas tu excedes a todas. A graça é falaz e a beleza é vã; a mulher inteligente é a que se deve louvar. Dai-lhe o fruto de suas mãos e que suas obras a louvem nas portas da cidade.” (Provérbios 31, 10-31)

O que significa uma mulher forte?

“Uma mulher forte, quem poderá encontrá-la? Superior ao das pérolas é o seu valor.”

O primeiro louvor para a boa mulher é dizer que ela é coisa rara, ou seja, dizer que é preciosa e excelente, digna de ser muito estimada, porque tudo aquilo que é raro é precioso.
Mulher forte, quando traduzida do grego, significa mulher varonil. Frei Luis de León, em A perfeita casada, que é um comentário desse poema aplicado as esposas de seu tempo, usou a expressão “mulher de valor”. Valor no sentido de ânimo, que move a abraçar resolutamente grandes ideais e a enfrentar os perigos. Quer dizer virtude de ânimo e fortaleza de coração, um ser perfeito e completo naquelas coisas a quem essa palavra se aplica. Não é insegura, mas sim senhora de si e de seus princípios. E tudo isso tem como um tesouro em si quem é boa mulher e não o é quem não o tem. Não devemos entender o valor de força como força física, mas sim como a virtude cardeal da fortaleza, com a firmeza e o esforço da alma. Exatamente no mesmo sentido usava Santa Teresa quando pedia que suas monjas parecessem “fortes varões”.

Com grandíssima verdade, o Espírito Santo não chamou a mulher apenas de “boa” mas sim de mulher “de valor”. Isso significa dizer que a mulher boa é mais do que boa e que isso que dizemos como boa é uma forma mediana de falar, que não expressa aquela excelência que há de ter e tem em si a mulher boa.
Dizer mulher perfeita, no fundo, é como dizer a ‘mulher-mulher’: a mulher realmente como tal. Não se refere tanto a um papel ou outro senão a sua essência feminina.

Uma boa mulher é um acúmulo de riquezas, e quem a possui é rico só com ela e somente ela pode fazê-lo venturoso e afortunado; o marido há de levá-la sobre sua cabeça, e o melhor lugar no coração do homem deve ser para ela, ou, para dizer melhor, todo seu coração e sua alma; e há de entender que ao tê-la, tem um tesouro geral para todas as diferenças de tempos que é a varinha de virtudes, como dizem, que em qualquer tempo e conjuntura responderá com seu gosto e preencherá seu desejo; que na alegria tem nela doce companhia com quem acrescentará seu prazer, comunicando-o; e na tristeza, amoroso consolo; nas dúvidas, conselho fiel; nos trabalhos, repouso; nas faltas, socorro; e medicina nas doenças, aumento de seus bens, vigia de sua casa, mestra de seus filhos, provedora de seus excessos; e finalmente, nas boas e más situações, na prosperidade e adversidade, na idade florida e na velhice cansada, e, durante toda a vida, doce amor, paz e descanso.

Temos aqui um bom fim ao que deve apontar a educação feminina: formar mulheres fortes, mulheres de valor e não simplesmente mulheres boas, que, apesar de não ser algo pejorativo, dá a ideia de conformar-se com pouco.

Mulher de confiança

“Nela confia o coração de seu marido.”

Desta mulher perfeita, a primeira virtude que o poema traz é que é uma pessoa de confiança. Confiar, aqui, tem um sentido intenso, entendido como “depositar a confiança”. O marido pode descansar o coração em sua mulher.

Ser uma pessoa de confiança é algo muito importante na vida. Uma pessoa de confiança é alguém que sabemos que busca o nosso bem e, sobretudo, protege-nos e não nos abandona no perigo. É alguém que se arrisca por nós e não falha quando precisamos.

Para que se possa colocar a confiança em uma pessoa, esta deve estar revestida de qualidades que a façam confiável. A primeira coisa é o respeito e o amor pela verdade. Em segundo lugar, o respeito pela justiça, honestidade, pela fama do próximo e seus bens, a sinceridade, etc. Se a mulher não possui honestidade, não é mulher. A mulher que não é honesta é torpe e abominável.

Não se pode confiar em uma pessoa que tem discurso dúbio, que recorre às meias verdades ou mentiras, que é caluniadora. Uma pessoa de confiança é alguém honesto, reto e responsável. Alguém a quem confiaríamos o que temos de mais preciosos com a segurança e a certeza de que o cuidaria como nós cuidamos.

Para educar pessoas de confiança é imprescindível saber delegar com confiança, encarregar coisas e supervisionar sem invadir. Se não confiamos, nunca forjaremos corações confiáveis.

A mulher deve ser honesta e simples no seu proceder, nas suas palavras, nos pensamentos para consigo mesma e para com os outros. Simples para fazer de Deus seu objetivo, para se apoiar em Deus como meio, para reconhecer que nada pode fazer por si mesma; e na maneira de se portar, de se vestir e de se adornar.

Econômica

“Não lhe farão falta os despojos.”

É próprio da mulher poupar. Por isso é chamada de economia do lar.

Bondosa

‘’Pague-lhe com bem, não com mal, todos os dias de sua vida.’’

O ofício natural da mulher é que ajude o homem. A mulher deve ser o reduto da bondade para com todos. Deve ser o doce e perpétuo descanso, a alegria do coração e um agrado tênue.

A mulher deve ser terna. A ternura é o amor que se manifesta na doçura e delicadeza dos gestos, do olhar, da presença amorosa.

Significa que a mulher deve se esforçar, não para causar problemas ao marido e sim para livrá-lo deles e em lhe ser perpétua causa de alegria e descanso. Porque, que vida é a daquele que vê consumir seu patrimônio nos desejos de sua mulher, que seu trabalho é levado todos os dias pelo rio, pelo esgoto, que tomando cada dia novos caminhos, crescendo continuamente suas dívidas, vive vil, escravo, aferrado ao joalheiro e ao mercador?

Deus, quando quis casar o homem, dando-lhe a mulher, disse (Gênesis, 2): “Façamos-lhe um ajudante que seja semelhante”, de onde se entende que o ofício natural da mulher, e o fim para o qual Deus a criou, é para que ajude seu marido e não para que seja sua calamidade e desventura: ajudante e não destruidora. Para que o alivie nos trabalhos que acarreta a vida de casado, e não para que acrescente novas cargas. Para repartir entre si os cuidados, tomar sua parte. E finalmente, não as criou Deus para que sejam rochas onde quebrem os maridos e naufraguem os bens e as vidas, e sim portos desejados e seguros onde, chegando em suas casas, repousem e se refaçam das tormentas dos trabalhos pesadíssimos que realizam fora delas.

Como dissemos, de cuidar de sua casa e de alegrar e distrair continuamente seu marido, nenhuma má condição dele a desobriga; mas não por isso devem pensar eles que têm permissão para ser ferozes com elas e fazê-las escravas; antes como em todo o resto o homem é a cabeça, por isso todo esse tratamento amoroso e honroso deve partir do marido; porque há de entender que é sua companheira, ou melhor dizendo, parte de seu corpo e a parte fraca e tenra, e a quem pelo mesmo motivo se deve particular cuidado e zelo.

Ainda há nisto outro inconveniente maior: como as mulheres são menos enérgicas, e pouco inclinadas às coisas que são de valor, se não as alentam, quando são maltratadas e não levadas em conta pelos maridos, perdem o ânimo e não conseguem colocar as mãos nem o pensamento em alguma coisa, por melhor que seja.

O marido sensato não deve oprimir nem envilecer com más obras e palavras o coração da mulher que é frágil e modesto, mas ao contrário, com amor e com honra há de elevá-la e animá-la, para que sempre conceba pensamentos honrosos. E a mulher, como dissemos acima, foi dada ao homem para alívio de seus trabalhos, e para repouso e doçura e afago, pela mesma razão e natureza pode ser tratada por ele de modo doce e afetuoso porque não se consente que se despreze alguém que lhe dá conforto e descanso, nem que traga guerra perpétua e sangrenta com aquilo que tem o nome e o ofício da paz.

Laboriosa

‘’Ela procura lã e linho e trabalha com mão alegre. Semelhante ao navio do mercador, manda vir seus víveres de longe. Levanta-se, ainda de noite, distribui a comida à sua casa e a tarefa às suas servas. Ela encontra uma terra, adquire-a. Planta uma vinha com o ganho de suas mãos. Cinge os rins de fortaleza, revigora seus braços. Põe a mão na roca, seus dedos manejam o fuso. Vigia o andamento de sua casa e não come o pão da ociosidade.’’

A preguiça é a mãe de todos os vícios. Na ordem espiritual a preguiça é filha da ascídia, e faz estragos, como nos fizeram notar os padres do deserto.

Laboriosidade não significa somente trabalhar, senão que trabalhar com gosto, que se ame o trabalho. Isso é o que significa “com mãos diligentes”, ou, como diz outra tradução, “suas mãos trabalham com gosto”. A mulher elogiada no poema é uma pessoa que não está quieta: se senta, tece, vende, sabe comercializar e planta.

Há que se ensinar a trabalhar e a amar o trabalho. Há que se ensinar a trabalhar bem. Não se transforma o mundo sem um bom trabalho. Temos que trabalhar para crescer em perfeição e nos santificarmos e isso só acontece quando se faz bem o que se tem que fazer. Hoje em dia perdeu-se notavelmente a cultura do trabalho, porque se trabalha unicamente na medida em que seja necessário ganhar algo.

Há ainda uma falsa ideia de que somente trabalha a mulher que se emprega fora de casa. As tarefas de dona e senhora de sua casa não são consideradas como um trabalho. Muitas mulheres acabam saindo de casa para trabalhar não por necessidade, mas procurando realizar-se, desconhecendo, assim, o trabalho que mais as realiza segundo seu gênio feminino. Precisamente, a laboriosidade que elogia o poema sagrado é a que a mulher exerce no âmbito maravilhoso do mundo caseiro a que ela está chamada a transformar em paraíso familiar.

Não diz que o marido comprou linho para que ela lavrasse, mas que ela o procurou para mostrar que a primeira parte de ser prendada é saber aproveitar o que tem em casa.

Tenha valor a mulher e plantará a vinha; ame o trabalho e acrescentará em sua casa, ponha as mãos no que é próprio de seu ofício e não se despreze dele, e crescerão suas riquezas; não amoleça, nem se faça de delicada, nem tenha por honra o ócio, nem por estado o descuido e o sono, mas ponha força em seus braços e acostume seus olhos ao desvelo, e saboreie o trabalho e não se prive de pôr as mãos no que se refere ao ofício das mulheres, por baixo e miúdo que seja, e então verá quanto valem e onde chegam suas obras.

Oração e esperança escatológica

“Não se apaga de noite a sua lâmpada.”

Quem não associa essa expressão com a parábola das jovens prudentes? As jovens prudentes mantiveram a lâmpada acesa, estiveram alertas em oração esperando a chegada do Esposo Celestial. Jesus, com aquela parábola, nos incitava a orar constantemente e a estar preparados, vivendo em graça, porque em qualquer momento se pode apresentar a nossa porta o “Senhor que vem”.

Devemos ter os olhos levantados em direção ao horizonte e um pouco ainda mais alto, como quem espera a alguém que há de vir de longe e do alto. Devemos tender sempre à Eternidade, conscientes de um juízo final e convencidas de que este mundo, com suas aparências, passa depressa e que a verdadeira vida começa depois desta.

Se não conseguirmos isso, seremos pessoas ancoradas no mundo, homens e mulheres fincados no mundo temporal, cidadãos da cidade terrena. Mundanos.

Misericordiosa

‘’Estende os braços ao infeliz e abre a mão ao indigente.’’

O mundo em que vivemos é um mundo anti-solidário, duro de coração. Precisamos de mulheres capazes de privar-se do seu apara ajudar aos demais, capazes de sacrificar seu tempo, seus bens, suas coisas.

Deixa bem aos seus

“Seu marido é bem considerado nas portas.”

A Sagrada Escritura louva muito a mulher que deixa seu marido bem e se lamenta muito do pobre marido que não pode apresentar-se em público porque todos o zombam pela mulher que tem.

Sábia

“Abre sua boca com sabedoria”.

Ao contrário do que se pensa de que a mulher ocupa-se apenas com o funcionamento do lar e mal tem tempo ou interesse de estudar, a mulher de Provérbios não só era sábia porque tinha conhecimento, mas também por sua experiência e vigilância dos preceitos divinos.

Para dar um bom conselho, para corrigir bem aos filhos, fazer bons pedidos, negociar, educar, se relacionar com os familiares e amigos, para tudo isso é necessário que a mulher abra a sua boca com sabedoria e não com coisas torpes, sujas, indecentes, maldosas.

Caridosa

“Lição de amor há em sua língua.”

A mulher de provérbios não usa seu dom de falar para insultar as pessoas, difamá-las, provocá-las, gerar contendas, confusões, intrigas, maledicências, fofocas, mentiras, e por aí vai. Também não murmura ou reclama. Da boca da mulher deve sair nada menos que uma Lição de Amor.


Referências

“Rogai ao Senhor da messe para que envie trabalhadores”: A Maternidade Espiritual

Tempo de leitura: 10 minutos

“O que me tornei e como, o devo à minha mãe!” (Santo Agostinho)

Há muito tempo atrás, antes mesmo de namorar o Gabriel, conheci uma orientação (de 2007) da Congregatio pro Clericis que se chama Adoração Eucarística pela Santificação dos Sacerdotes e Maternidade Espiritual. Quando li esse documento, senti verdadeiramente uma vocação. Desde então abracei o chamado de rezar e oferecer sacrifícios pelos sacerdotes.

Há algum tempo atrás, durante o noivado, um grande amigo me enviou novamente esse material. Definitivamente Deus me chamava a ser mãe espiritual não só de sacerdotes mas também de religiosos e religiosas, e, talvez não a toa, eu tenha tantos e tantos amigos padres, seminaristas, noviços, noviças, religiosas! Na semana passada, as Irmãs Servidoras (Servidoras do Senhor e da Virgem de Matará) lançaram um vídeo com o Projeto 40 horas. Foi novamente um chamado que ardeu em meu peito e, por isso, decidi escrever sobre a maternidade espiritual, tão esquecida e tão pouco difundida.

É nítido que o nosso clero anda passando por uma tempestade, mas em vez de só chorarmos nossas pitangas, por que não levantamos um exército de mulheres fortes que bradem a Deus que envie operários santos para Sua messe? Por que não abraçamos nossa totalidade da missão maternal e nos oferecemos pelo aumento e santificação das vocações sacerdotais e religiosas? Por que não nos oferecemos como vítimas para expiação das ofensas que os maus religiosos cometem contra o Divino Amor? Esse é o objetivo do post de hoje: apresentar à você, mulher, alma feminina queridíssima por Deus, a beleza da maternidade espiritual e encorajá-la a abraçar essa missão, caso se sinta chamada.

A vocação a ser mãe espiritual para os sacerdotes é muito pouco conhecida, insuficientemente compreendida e, portanto, pouco vivida, apesar de sua vital e fundamental importância. Essa vocação muitas vezes está escondida, invisível ao olho humano, mas voltada a transmitir vida espiritual.

(…) independentemente da idade e do estado civil, todas as mulheres podem se tornar mãe espiritual para um sacerdote e não somente as mães de família. É possível também para uma mulher doente, para uma moça solteira ou para uma viúva. João Paulo II agradeceu até mesmo uma menina pela sua ajuda materna: “Exprimo a minha gratidão também à beata Jacinta de Fátima pelos sacrifícios e orações oferecidas pelo Santo Padre, que ela tinha visto em grande sofrimento”. (13 de maio de 2000).

Cada sacerdote é precedido por uma mãe, que amiúde também é uma mãe de vida espiritual para seus filhos. Giuseppe Sarto, por exemplo, o futuro Papa Pio X, logo depois de ser consagrado bispo, foi visitar sua mãe, na época com setenta anos de idade. Ela beijou respeitosamente o anel do filho e de repente, tornando-se meditativa, indicou seu pobre anel nupcial de prata: “Sim, Peppo, mas você agora não estaria usando esse anel se eu antes não tivesse usado meu anel nupcial”. São Pio X, justamente, confirmava a partir da sua experiência: “Cada vocação sacerdotal vem do coração de Deus, mas passa através do coração de uma mãe!”.

Uma ótima prova disto é a vida de Santa Mônica. Santo Agostinho escreveu em suas ‘Confissões’: “… Tu estendeste tua mão do alto e tiraste minha alma destas densas trevas, pois minha mãe, tua fiel, chorava por mim.Após a conversão ele disse com gratidão: “Minha santa mãe, tua serva, nunca me abandonou. Ela me pariu com a carne para essa vida temporal e com o coração para a vida eterna. O que me tornei e como, o devo à minha Mãe!”.

Eliza Vaughan: ”Doemos nossos filhos a Deus.”

Oferece-nos um exemplo muito significativo a inglesa Eliza Vaughan, mãe de família e mulher dotada de espírito sacerdotal, que rezou muito para as vocações.

Eliza provinha de uma família protestante, a dos Rolls, que posteriormente fundou a indústria automobilística Rolls-Royce, mas quando jovem, durante sua permanência e educação na França, havia ficado muito impressionada pelo exemplar empenho da Igreja católica para com os pobres.

No verão de 1830, após o casamento com o coronel John Francis Vaughan, Eliza, apesar da forte resistência de seus parentes, converteu-se ao catolicismo. Havia tomado essa decisão com convicção e não somente por ter entrado a ser parte de uma famosa família inglesa de tradição católica. Os antepassados Vaughan, durante a perseguição dos católicos ingleses sob o reinado de Elisabeth I (1558-1603), preferiram sofrer a expropriação dos bens e a prisão antes que renunciar à própria fé. Courtfield, a residência originária da família de seu marido, tornara-se, durante as décadas de terror, um abrigo para os sacerdotes perseguidos, um lugar onde celebrava-se a Santa Missa. Desde então haviam passado três séculos, mas nada mudara no espírito católico da família.

Convertida no fundo do coração, cheia de zelo, Eliza propôs ao marido de doar os filhos a Deus. Essa mulher de elevadas virtudes rezava cada dia durante uma hora frente ao Santíssimo Sacramento na Capela da residência de Courtfield, pedindo a Deus uma família numerosa e muitas vocações religiosas entre seus filhos. Foi atendida! Teve 14 filhos e morreu pouco depois do nascimento do último filho em 1853. Dos 13 filhos vivos, entre os quais 8 homens, 6 se tornaram sacerdotes: dois em ordens religiosas, um sacerdote diocesano, um bispo, um arcebispo e um cardeal. Das cinco filhas, quatro se tornaram religiosas.

Que bênção para a família e quais efeitos para toda a Inglaterra! Todos os filhos da família Vaughan tiveram uma infância feliz, porque na educação sua santa mãe possuía a capacidade de associar de modo natural a vida espiritual e as obrigações religiosas com as diversões e a alegria. Por vontade da mãe faziam parte da vida quotidiana as orações e a S. Missa na capela da casa, bem como a música, o esporte, o teatro amador, a equitação e as brincadeiras. Os filhos não se entediavam quando a mãe lhes contava as vidas dos santos, que aos poucos se tornaram para eles amigos íntimos. Eliza levava consigo os filhos também nas visitas e nos cuidados aos doentes e aos sofredores das vizinhanças, para que pudessem nestas ocasiões aprender a serem generosos, a fazer sacrifícios, a doar aos pobres suas poupanças e seus brinquedos.

Vilarejo de Lu Monferrato

O pequeno vilarejo de Lu está localizado na Itália. Este pequeno vilarejo teria ficado desconhecido se em 1881 algumas mães de família não tivessem tomado uma decisão que iria ter “grandes repercussões”.

Muitas dessas mães tinham no coração o desejo de ver um de seus filhos tornar-se sacerdote ou uma de suas filhas entregar-se totalmente ao serviço do Senhor. Começaram então a reunir-se todas as terças-feiras para a adoração do Santíssimo Sacramento, sob a guia de seu pároco, Monsenhor Alessandro Canora, e a rezar para as vocações. Todos os primeiros domingos do mês recebiam a Comunhão com essa intenção. Após a Missa todas as mães rezavam juntas para pedir vocações sacerdotais. Graças à oração cheia de confiança destas mães e a abertura de coração destes pais, as famílias viviam num clima de paz, de serenidade e de alegre devoção que permitiu aos filhos discernir com maior facilidade seu chamado.

Quando o Senhor disse: “Muitos são os chamados, mas poucos os eleitos” (Mt 22,14), devemos entendê-lo desta maneira: muitos serão chamados, mas poucos responderão. Ninguém podia pensar que o Senhor teria atendido tão amplamente o pedido desta mães. Deste vilarejo emergiram 323 vocações à vida consagrada: 152 sacerdotes (e religiosos) e 171 religiosas pertencentes a 41 diferentes congregações. Em algumas famílias houve até três ou quatro vocações.

O exemplo mais conhecido é o da família Rinaldi. O Senhor chamou sete filhos desta família. Duas filhas entraram para as irmãs Salesianas e, enviadas a Santo Domingo, tornaram-se pioneiras e missionárias corajosas. Entre os homens, cinco tornaram-se sacerdotes Salesianos. O mais conhecido dos cinco irmãos, Filippo Rinaldi, foi o terceiro sucessor de Dom Bosco, beatificado por João Paulo II aos 29 de abril de 1990.

A oração que as mães de família rezavam em Lu era breve, simples e profunda:

“Senhor, fazei que um de meus filhos se torne sacerdote!  Eu mesma quero viver como boa cristã e quero conduzir meus filhos ao bem para obter a graça de poder oferecer a Vós, Senhor, um sacerdote santo. Amém”.

Venerável Conchita: ”Mãe, ensina-me a ser sacerdote!”

Maria Concepción Cabrera de Armida, Conchita, esposa e mãe de numerosos filhos, é uma das santas modernas que Jesus preparou para uma maternidade espiritual para os sacerdotes.

Jesus uma vez explicou para Conchita: “Tu serás mãe de um grande número de filhos espirituais, mas eles custarão ao teu coração como mil martírios. Oferece-te como holocausto, une-te ao Meu sacrifício para obter as graças para eles”.

A jovem Conchita rezava com freqüência frente ao Santíssimo: “Senhor, sinto-me incapaz de Te amar, portanto quero casar. Doa-me muitos filhos. Assim, que eles possam te amar mais de quanto eu sou capaz.” De seu casamento muito feliz nasceram nove filhos, duas mulheres e sete homens. Ela os consagrou todos a Nossa Senhora: “Entrego-os completamente a Ti como se fossem Teus filhos. Tu sabes que eu não os sei educar, pouco sei do que significa ser mãe, mas Tu, Tu o sabes”.

Conchita viu morrer quatro de seus filhos e todos tiveram uma morte santa. Conchita foi realmente mãe espiritual para o sacerdócio de um de seus filhos e sobre ele escreveu: “Manuel nasceu na mesma hora em que morreu Padre José Camacho. Quando ouvi a noticia, roguei a Deus que meu filho pudesse substituir este sacerdote no altar. Desde quando o pequeno Manuel começou a falar, rezamos juntos para a grande graça da vocação ao sacerdócio… No dia de sua primeira Comunhão e em todas as festas importantes renovei a súplica… Aos dezessete anos entrou na Companhia de Jesus”.

Em 1906, da Espanha, onde estava, Manuel comunicou-lhe sua decisão de se tornar sacerdote e ela lhe escreveu: “Doa-te ao Senhor com todo o coração sem nunca negar-te! Esquece as criaturas e principalmente esquece a ti mesmo! Não posso imaginar um consagrado que não seja um santo. Não é possível doar-se a Deus pela metade. Procura ser generoso com Ele!”.

Em 1914, Conchita encontrou Manuel na Espanha pela última vez, porque ele não voltou nunca mais ao México. Naquela época o filho lhe escreveu: “Minha querida, pequena mãe, me indicaste o caminho. Tive a sorte, desde pequeno, de ouvir de teus lábios a doutrina salutar e exigente da cruz. Agora queria pô-la em prática”. 

Dia 23 de julho de 1922, uma semana antes da ordenação sacerdotal, Manuel, então com trinta anos de idade, escreve para sua mãe: “Mãe, ensina-me a ser sacerdote! Fala-me da imensa alegria de poder celebrar a S. Missa. Entrego tudo em tuas mãos, como me protegeste no teu peito quando eu era criança e me ensinaste a pronunciar os belos nomes de Jesus e Maria para introduzir-me nesse mistério. Sinto-me realmente como uma criança que pede preces e sacrifícios… Assim que eu for ordenado sacerdote, te mandarei a minha benção e depois receberei ajoelhado a tua”.

O Senhor fez com que Conchita compreendesse para o seu apostolado: “Confio-te mais um martírio: tu sofrerás aquilo que os sacerdotes cometem contra mim. Tu viverás e oferecerás pela infidelidade e pelas misérias deles”. Esta maternidade espiritual para a santificação dos sacerdotes e da Igreja a consumiu completamente. Conchita morreu em 1937 aos 75 anos.

Na prática

”Rogai, portanto, ao Senhor da messe para que envie trabalhadores para a sua messe!”. Significa que: a messe existe, mas Deus quer servir-se dos homens, a fim de que ela seja levada ao celeiro. Deus tem necessidade de homens. Precisa de pessoas que digam: Sim, estou disposto a tornar-me o teu trabalhador na messe, estou disposto a ajudar a fim de que esta messe que está a amadurecer nos corações dos homens possa verdadeiramente entrar nos celeiros da eternidade e tornar perene comunhão divina de alegria e de amor. “Rogai, portanto, ao Senhor da messe”! Isto quer dizer também: não podemos simplesmente “produzir” vocações, elas devem vir de Deus. Não podemos, como talvez noutras profissões, por meio de uma propaganda bem orientada, mediante, por assim dizer, estratégias adequadas, simplesmente recrutar pessoas. O chamado, partindo do coração de Deus, deve sempre encontrar o caminho até ao coração do homem. E, contudo: exatamente para que chegue aos corações dos homens é necessária também a nossa colaboração. Antes de tudo, rogar ao Senhor da messe significa certamente rezar para isso, despertar o coração e dizer: “fazei por favor! Incentivai os homens! Acendei neles o entusiasmo e a alegria pelo Evangelho! Fazei-lhes entender que este é o tesouro mais precioso do que todos os outros tesouros e que quem o descobriu deve transmiti-lo!” (Papa Emérito Bento XVI)

Todas nós, mulheres, inclusive as virgens consagradas, precisamos ser mães espirituais. Não existe mulher madura que não seja mãe. Assim também são os homens. Os padres não têm filhos biológicos, mas precisam assumir um coração paterno.

Para ser mãe espiritual de sacerdotes, uma mulher não precisa ser mãe física de um sacerdote. Todas as mulheres podem tornar-se mães espirituais dos sacerdotes, ou seja, mulheres solteiras, mães de família, viúvas, religiosas e consagradas. E não só dos sacerdotes, mas também de todas as vocações religiosas masculinas e femininas.

Uma mãe de família pode oferecer, como dádiva espiritual aos sacerdotes, o seu quotidiano, com todos os seus deveres e renúncias. Até mesmo uma breve oração no momento da Sagrada Comunhão ou quando se passa em recolhimento uma hora junto de Deus, diante do Santíssimo, se reza o terço e se oferece este tempo de oração pelos sacerdotes. Também é possível oferecer os sacrifícios pelo aumento e santificação do clero, pelo êxito do trabalho pastoral de cada sacerdote e pelo envio de numerosas e santas vocações.

Os comoventes exemplos destas mães devem encorajar-nos a acreditar, de forma muito mais viva, no poder da maternidade espiritual, invisível mas inteiramente real, principalmente pelos sacerdotes.

Se cada uma de nós abraçar essa missão, como as mães do vilarejo italiano, e fizermos todo mês 40 horas de orações pelas vocações, quão grande bem espiritual faremos a nós mesmas, aos nossos filhos, às almas e ao mundo! É possível reunir, como estão fazendo as irmãs servidoras, 40 mulheres e cada uma ficar responsável por uma hora de oração que pode ser em frente ao Santíssimo, rezando o santo terço ou oferecendo as atividades realizadas naquela hora específica. Ou então adotar espiritualmente um sacerdote, religioso ou religiosa e se comprometer a rezar especificamente por aquela pessoa durante toda a sua vida!

É na família que a vocação sacerdotal e religiosa encontra o terreno fértil no qual a disponibilidade à vontade de Deus pode enraizar-se e tirar o indispensável alimento. Ao mesmo tempo, cada vocação representa, também para a própria família, uma novidade irredutível, que foge dos parâmetros humanos e chama a todos, sempre, para a conversão. Nesta novidade, a participação das mães dos sacerdotes é única e especial.  Toda mãe, de fato, só pode alegrar-se ao ver a vida do próprio filho, não somente repleta, mas cheia de uma especialíssima predileção divina que abraça e transforma pela eternidade.

”Desejo com todo o coração encorajar e agradecer especialmente todas as mães dos sacerdotes e dos seminaristas e – com elas – a todas as mulheres, consagradas e leigas, que acolheram o dom da maternidade espiritual dos chamados ao ministério sacerdotal, tornando-se assim partícipes, de modo especial, da maternidade da Santa Igreja, que tem o seu modelo e a sua realização na divina maternidade de Maria Santíssima”. (Card. Piacenza )

 

Referências

Maternidade: o caminho de salvação da mulher

Tempo de leitura: 7 minutos

Ser mãe foi a melhor coisa que me aconteceu, em todos os sentidos. A maternidade me salvou e continua me salvando todos os dias do meu principal inimigo: eu mesma.

A maternidade me tira constantemente do egoísmo

O primeiro doce flagelo que a maternidade me trouxe foi a necessidade de romper com o meu egoísmo.  Em parte, de forma natural. A outra parte, uma luta constante. Acredito que a capacidade de renunciar a si mesma seja uma das grandes graças que Deus concede exatamente no momento em que um novo ser começa a ser formado em nosso ventre. Que mãe não abre mão de suas vontades para o bem do filho? Quem nunca ouviu uma mãe dizer que depois de ter um filho já não come direito, não dorme, não sai, não compra roupas? Que mãe desde a gravidez não sofre pacientemente os incômodos? Isso é uma verdade exterior mas muito mais interior.

Os dias de toda mãe são recheados de oportunidades de santificação, em que renunciamos constantemente às nossas vontades, nossos planos, desejos, pelos nossos filhos. Certa vez me perguntaram se eu não tenho medo de que isso me cause um problema psicológico, já que ser mãe é se anular. Prontamente respondi que não, pois este é o desejo de todos nós: aniquilamento total de si até nos conformarmos noutro Cristo.

Durante um bom tempo tenho meditado sobre isso, porque me parece que atualmente nós sofremos de certa crise de identidade quando nos tornamos mães.  A maternidade é algo tão sublime quanto dolorosa e traz uma revolução interior. Deixar para trás a nossa vida cômoda e repleta de vontades traz suas crises. Ser mãe não é anular quem somos, mas ter nossa personalidade elevada e aperfeiçoada.

Deixamos de lado tantas coisas que são irrisórias e muitas vezes ficamos tão apegadas a elas que acreditamos estar submetidas a um jugo muito pesado. Nosso Senhor já diz: “Quem põe a mão no arado e olha para trás, não está apto para o Reino de Deus.” (Lc 9,62). Devemos olhar seguras para a Mãe do Céu e segurando sua mão, caminharmos pelo caminho sereno e árduo da vontade de Deus. Quanto mais dóceis formos à ação do Espírito Santo, mais felizes seremos.

E além disso, a maternidade nos proporciona sim diversas ocasiões de termos hobbies e tirarmos um tempo para fazer coisas que gostamos. Isso não é pecado e nem motivo para sentir-se uma mãe ruim. Principalmente em casal, ter um momento a sós, às vezes sair para jantar e deixar os filhos com a avó, a tia, a amiga, os padrinhos, é importante. Se a mãe precisa de um tempo para ir ao salão, ou fazer um esporte, algo assim, é possível combinar com o esposo. O importante é não fazer disso o centro da vida, mas sim um adendo.

A maternidade me faz melhor

A maternidade me faz melhor como pessoa, como filha, como católica, como esposa, como amiga, familiar, em tudo.

Quando fui mãe, choquei-me contra um espelho. Este espelho se chama Bento. Ele me faz ter consciência dos meus defeitos, revelando o que tenho de pior. Mas ao mesmo tempo me impulsiona a ser melhor! Ao procurar corrigir-me, principalmente porque meu filho é meu reflexo. Educar é ser exemplo!

Lidar com essa parte assustadora de nós mesmos não é fácil. Estar o tempo todo nos deparando com nossas fraquezas e limitações pode nos dar o sentimento de frustração se não estivermos com os olhos elevados ao Alto. Precisamos dizer como São Paulo: ”Quando sou fraco é que sou forte.”

A maternidade me ensina a aproveitar melhor o meu tempo

Hoje, com um filho, faço mais coisas do que quando não era mãe. Tenho muito mais trabalho ao mesmo tempo que o tempo parece ter se multiplicado. Há dias que são terrivelmente difíceis e nesses recorro ao auxílio de Nossa Senhora e do meu Santo Anjo! Mas em geral, a graça de Deus me vai moldando dia a dia e me fazendo perceber como posso me organizar melhor para cumprir meus deveres e onde posso me doar mais. Um grande auxílio foi ter organizado uma rotina, tanto de limpeza da casa, como de estudo e também espiritual (orações, leituras e etc). Ter em mente nossos deveres nos ajuda a ter um objetivo diário e a não perder tempo com coisas inúteis.

Além disso, a maternidade me faz atentar-me ao que realmente importa, sem perder meu tempo, energia, paz e paciência com coisas irrelevantes.

A maternidade me faz viver de verdade

Ser mãe me trouxe de volta ao mundo real: a beleza dos pequenos momentos. Deixei de lado as crises filosóficas, a necessidade de estar o tempo todo conectada ao mundo virtual, de estar fotografando, ou preocupada com questões que não me competem, discutindo bobeiras ou com as coisas que não estão milimetricamente organizadas dentro de casa.

Meu filho me trouxe de volta a capacidade de me encantar com as pequenas coisas e de aprender a viver o hoje, o momento de agora. Quem tem um bebê em casa sabe que a cada dia eles trazem uma novidade e se eu não estiver com ele, vivendo junto, perderei essas conquistas. Que adiantam tantas fotos e vídeos e não ter isso na memória? Se minhas mãos estão tão ocupadas em segurar um celular, dificilmente elas estarão livres para segurar as pequenas mãozinhas que me solicitam o dia inteiro.

Ter um filho traz a tona nossa criança interior: voltamos a cantar, dançar, apreciar a chuva, nos deliciarmos com gargalhadas, sentir a brisa, andar com os pés descalços, sentar no chão, não olhar tanto para o relógio e nem nos preocuparmos com o dia de amanhã. A cada dia basta o seu cuidado e todo dia é dia de viver.

A maternidade me faz mais humana

Quando fui mãe comecei a ter mais compaixão e empatia pelas pessoas. Ao invés de julgá-las, passei a tentar compreendê-las, entender sua história pessoal e então acolhê-las.

Comecei a entender mais os meus pais e agradecê-los por tudo o que fizeram por mim. Hoje eu sei que não foi fácil.

A maternidade me faz mais solícita, sempre pronta a servir, ajudar. Tornei-me mais generosa não somente em atender as necessidades corporais das pessoas, mas também espirituais; na doação de mim mesma para os outros e na minha entrega a Deus.

A maternidade me faz mais unida ao meu esposo

Muitas mulheres, quando os filhos chegam, esquecem completamente do esposo e o deixam de lado. Mas essa não pode ser o caminho tomado. Os filhos vem pelo transbordamento do amor entre o casal. Eles são o fruto.

Os filhos unem o casal. Se antes o amor parecia algo abstrato, agora ele é concreto e cabe no colo. Nada faz crescer tanto o amor e unir duas pessoas como as dificuldades sofridas em comum. O que pode ser mais perfeito para cumprir esse objetivo do que os filhos? Não obstante, que grande alegria ver os traços de nós dois em nosso filho. Saber que estamos ali juntos!

A maternidade me faz forte

Nem tudo é perfeito em nossa vida materna. Há dias bons, mas há dias apocalípticos onde o caos se instaura. Há dias bastante difíceis: tudo fora do lugar, confusão, sem dormir, sem comer, sem parar um segundo. Dias em que nos sentimos impotentes, impacientes, frustradas, pequenas. Nesses dias, preciso constantemente recorrer a Nossa Senhora, porque ela sendo mãe, sabe como me ajudar. Nela encontro consolo, conforto e também a força.

Antes de ser mãe, qualquer coisa me atingia: desde uma simples dor de cabeça até um conselho não solicitado. Depois de ser mãe, descobri uma força sobrenatural que me impulsiona a ir além.  Ao olhar para nossos filhos nada pode nos parar: somos nós que formamos os santos. Nós, as mães. Claro, junto com os pais. Mas somos nós as primeiras nessa missão de educar. Se não nos esforçarmos para educarmos bem os nossos filhos, não é aos nossos chefes que prestaremos conta, mas sim ao Justo Juiz. Deveríamos tremer ante essa responsabilidade.

A maternidade me eleva espiritualmente

Depois que me tornei mãe, cresci como nunca antes. Precisei amadurecer, sair do meu conforto, me doar. Aprendi a fazer da vida uma oração e oferta: cada pequeníssimo ato, feito com amor, oferecido a Deus, é grande e nos santifica; como ensina Santa Teresinha.

Aprendi a aceitar os sofrimentos e aproveitá-los para minha santificação e para a conversão dos pecadores e sufrágio pelas almas do purgatório. Cresci em caridade, em desapego e meus olhos perderam muitas escamas mesquinhas que os cobriam.

Ser mãe me aproximou de Nossa Senhora, Àquela que é Mãe por excelência. É a Ela que recorro nas tempestades!

Ainda tenho muito a crescer, mas ser mãe já me mudou tanto que só tenho a agradecer a Deus tão grande graça. Se não fosse pela maternidade, ainda estaria em uma vida pequena, cômoda, e a santidade cada vez mais distante de mim.

A maternidade é a minha coroa

Infelizmente somos filhos de nossa época e isso traz suas mazelas. Nossa sociedade tão revolucionária e marcada pelo abandono dos valores cristãos e pela exaltação dos vícios nos faz, ainda que inconscientemente, absorver certos pontos de vista que nem sabemos de onde vem, mas que estão dentro de nós e causam confronto. A maior parte vem do feminismo, tão diabolicamente incutido em cada esfera, que nos afasta do plano de Deus. Devemos, com o auxílio da graça divina, do estudo e de um bom diretor espiritual, conhecer essa ideologia tão nefasta e nos esforçarmos para progredir no caminho que Deus tem para nós, mulheres.

Que vida tão bela é esta que Nosso Senhor concedeu às mães, cujo caminho é tão repleto de espinhos! Neste caminho nosso sofrimento tem sentido: a Cruz de Nosso Senhor, vitória sobre o mundo! Vitória sobre as tribulações, sobre as fraquezas, dores, dificuldades, frustrações. Cada filho vem exatamente do tamanho da Cruz que precisamos naquele momento. É também por isso que não podemos rejeitá-los. Devemos acolher todos os filhos que Deus nos mandar, porque além de serem presentes que nos são concedidos pela bondade divina, também são nosso caminho de santificação.

Mulheres, tenham filhos! Sem medo. Com muita entrega, muito amor! Nada se compara a ter essas mãos pequeninas nos pedindo apoio, esse sorriso desinteressado, a busca incessante por um colo quentinho. Nada nos faz tão jovens, belas e vivas como pequenas crianças na barra de nossas saias nos fazendo desbravar o mundo! Nada dá tanta alegria quanto ter seu nome mudado para sempre: mamãe. Nada se compara à maternidade: nenhuma carreira, nenhum hobbie, nenhuma viagem, nenhum corpo perfeito, nada. Nada é tão valioso, nos faz sentir tão plenas, dignas e grandes quanto sermos tabernáculos de almas eternas. Nada é tão grandioso quanto gerar um ser em nosso corpo, educá-lo e um dia, com a graça de Deus, estar com ele no Céu por toda a eternidade.

Um feliz dia das mães para todas que já são ou sonham em ser! Que a Santíssima Virgem nos dê a graça de compreender quão sublime é a missão a qual fomos chamadas.

 

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A virtude da ordem

Disse Santo Agostinho: sem ordem não há virtude ou como disse São Josemaria Escrivá: ”Virtude sem ordem? – Estranha virtude!”. Santo Agostinho também escreveu “pax omnium rerum tranquillitas ordinis” – “a paz de todas as coisas é a tranquilidade da ordem” .  A ordem é algo que vamos construindo na batalha de todos os dias: “começar pela tarefa menos agradável e mais urgente (…), ser perseverante no dever quando era tão fácil abandoná-lo, não deixar para amanhã o que temos de terminar hoje… E tudo isto para dar gosto ao Nosso Pai Deus!”

Falar nessas palavras – organização, planificação, rotina – evoca de imediato, nos tempos atuais, a frieza empresarial da produtividade e da eficiência. Parecem soluções muito boas para a indústria e o comércio e muito ruins para o coração e para a vida familiar. Muitos pensam assim e isso acontece porque não compreendem o verdadeiro sentido da virtude da ordem, uma virtude que precisa ser resgatada dos preconceitos que a desmerecem. Se não a reabilitarmos (a virtude da ordem) no nosso mundo de valores, veremos como a espontaneidade do amor e dos bons propósitos – que aparentemente é tão bonita e autêntica – se desvanecerá em ilusões e omissões.

“Sujeitar-se a um plano de vida, a um horário… é tão monótono! – disseste-me. E respondi-te: há monotonia porque falta Amor.” – São Josemaria Escrivá

A virtude da ordem, para o cristão, é uma maneira de praticar melhor o amor. O Senhor certamente nunca nos vai sugerir que abandonemos ou descuidemos das obrigações básicas diárias. Mas é bem possível que, se soubermos escutar a sua voz no fundo da consciência, percebamos que nos diz:  também é preciso saber parar, meditar e orar.
Em linhas gerais, são cinco os campos de atividades a serem ordenadas na vida de cada homem e todas estão inter-relacionadas:

  1. a religião (virtude da piedade),
  2. a família (virtude do amor e da amizade),
  3. o trabalho (virtude da laboriosidade),
  4. a sociedade (virtude da solidariedade, colaboração, convivência e amizade) e
  5. o descanso, esporte e cultura (virtude da convivência, alegria e inteligência).

”Se não tens um plano de vida, nunca terás ordem.” São Josemaria Escrivá

Ordem não é ativismo nem doença

Todos temos a experiência de que existe uma ordem que não é boa e que se poderia chamar «defensiva»: é a da pessoa que organiza muito bem os seus horários, mas não tolera que nada nem ninguém interfira neles, e se alguém tenta, cai sobre ela a ira do interrompido. Isso não passa da carapaça com que o egoísta se protege. Bem sabemos que essa ordem pode tornar-se doentia e atingir requintes de neurose, de mania.

Talvez já tenhamos conhecido pessoas que ficavam transtornadas porque alguém – esposa, filho, empregada – tenha tido ‘a ousadia’ de deslocar em poucos centímetros a posição exata que um livro devia ocupar na mesa do escritório. Da mesma forma que não faltam os que dramatizam qualquer interferência que lhes altere o horário de sono ou o fim de semana cuidadosamente planejado. Isto não é virtude, é doença espiritual e, talvez, psíquica. Assim como também não é virtude a ordem dos escravos da eficiência, que sobre o altar da “produtividade” ou do “sucesso” profissional sacrificam Deus, a saúde, a família e as amizades.

Todos deveríamos estabelecer e manter – e defender como algo de sagrado – pelo menos dez ou quinze minutos diários dedicados à meditação e ao exame de consciência: de manhã, antes de iniciar as atividades; ou pouco antes de nos recolhermos para descansar; ou aproveitando a possibilidade de visitar uma igreja numa hora tranquila, quando o silêncio do templo convida à intimidade com Deus.

Nesses momentos, a alma, com a graça divina, se torna transparente, se liberta da terrível força centrífuga do ativismo, e consegue voltar para o seu centro, esse “centro da alma” de que falam os santos, onde ela se encontra a sós com Deus. E essa voz de Deus, honestamente escutada, é a que nos esclarece quais são as prioridades e nos ajuda a hierarquizar, pela ordem de importância, os deveres a cumprir. Assim, estamos em condições de escolher o que é bom e grato a Deus.

Não ignoramos os obstáculos que existem para alcançar esta harmonia interior e exterior. Apesar de apreciarmos a grande atração que uma vida cristã plena constitui, muitas vezes experimentamos tendências diversas e, às vezes, contrárias. São Paulo o expressou com força:

“Quando quero fazer o bem, é o mal que se me apresenta. Como homem interior, ponho toda a minha satisfação na Lei de Deus; mas sinto em meus membros outra lei, que luta contra a lei de minha mente e me aprisiona na lei do pecado, que está nos meus membros.” –  Rm 7, 21-23.

Sentimos uma coisa e queremos outra, notamos que estamos divididos entre as coisas de que gostamos e o que devemos fazer, e, às vezes, a nossa vista acaba perdendo um pouco de luz. Como todos estamos expostos a esses pequenos desvios de rumo, o caminho é sermos simples e corrigirmo-nos com perseverança.

Melhor aproveitamento do tempo

Estabelecer prioridades é, certamente, uma das formas mais nobres da virtude da ordem: é colocar a ordem na mente e no coração. O cristão – e, em geral, todo homem ou mulher responsável –deve cuidar da prática da ordem no seu sentido mais simples e corriqueiro: a organização das atividades dentro dos horários de cada dia, a adequada planificação do aproveitamento diário do tempo. Ter um horário nos leva a aproveitar o tempo. Viver com um horário não nos ata, ao contrário: abre as portas para uma grande variedade de atividades diversas.

A ordem também nos leva a concentrar-nos no que estamos fazendo, não pretendendo fazer várias coisas ao mesmo tempo – o que geralmente leva a não concluir nenhuma. É muito mais eficiente terminar uma coisa e iniciar a seguinte. O verdadeiro trabalhador não se preocupa apenas de terminar a sua tarefa logo que possível; preocupa-se de produzir uma obra que esteja acabada, sem defeito, tão perfeita quanto possível. Não abandonemos uma tarefa enquanto houver algum detalhe que retocar.

Ter uma rotina evita o ócio, a preguiça e diversos outros vícios e nos impulsiona a crescer em virtudes. Permite que façamos uma vasta quantidade de atividades e com qualidade. Com a internalização da rotina vamos descobrindo que realmente temos tempo para tudo: mas ter tempo não significa ter muito tempo. Às vezes, por exemplo, o tempo que se tem para leitura diária são 5 minutos, mas sem esses 5 minutos não se leria absolutamente nada e se descuidaria da formação.

A rotina nos permite uma organização e melhor execução das atividades relacionadas ao nosso trabalho, evitando acúmulos, permitindo avanços e nos deixando flexíveis para lidar melhor com imprevistos. É necessário não omitir trabalhos que nos repugnam, nem inventar deveres adicionais que nos levariam a negligenciar e adiar os nossos deveres reais

Segurança e bem estar para os filhos (e também para os adultos)

O tempo para a criança algo complexo. É através das suas rotinas que a criança antecipa o que irá acontecer e adapta o seu comportamento à tarefa seguinte. As rotinas transmitem segurança à criança, deste modo a criança já sabe, por exemplo, que antes de jantar deve tomar banho. As principais rotinas que se devem manter com as crianças são: horas de refeição; hora de dormir; hora de estudar; hora de brincar, tempos em família e, é claro, momentos de oração.

Ter rotina é importante para desenvolver bons hábitos de sono e de alimentação. Além disso, diminui a ansiedade e transmite segurança. Afinal, saber o que vem em seguida elimina a curiosidade e a incerteza do depois, principalmente para as crianças. Ao desconhecer o que vem em seguida, uma dose de estresse é gerada inclusive nos adultos. Com a rotina adequada as crianças não ficarão aflitas pois saberão exatamente o próximo passo.

Uma família desorganizada, com horários irregulares – em que as refeições são servidas em horários diferentes, o banho e a hora de dormir não seguem nenhuma regra- forma crianças inseguras e desorientadas. A organização das atividades diárias não impedirá que a criança desenvolva autonomia. A coerência e a flexibilidade devem fazer parte do processo de estabelecimento das regras. Regras são essenciais e a rotina é referência na vida de crianças e adolescentes, porque direciona, organiza e equilibra suas vidas para mais tarde tornarem-se adultos diligentes.

Lembro-me que quando o Bento nasceu, senti muita dificuldade em estabelecer rotina. Mas com o passar dos meses fui percebendo que as tarefas começaram a se encaixar e a fluir melhor. Aos poucos fui retomando atividades antigas como leitura, fazer as unhas e também inserindo atividades novas, como um tempo reservado a levá-lo para brincar ao ar livre.

To be continued…

Continuarei este assunto tão importante numa próxima postagem, a parte 2!


Referências

A Indissolubilidade do Matrimônio

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É fácil observar que o casamento tem sofrido ataques ferozes nos últimos anos. Política, cultura, meios de comunicação, todos parecem estar sempre prontos para atacar o matrimônio a qualquer momento. Já no início da década de 1980, São João Paulo II escreveu:

“Entre os sinais mais preocupantes deste fenômeno, os Padres Sinodais sublinharam, em particular, o difundir-se do divórcio e do recurso a uma nova união por parte dos mesmos fiéis (…)” – São João Paulo II

Durante toda nossa vida somos bombardeados por ideias contra os pilares do matrimônio: amor livre, total, fiel e fecundo. Pretendo falar sobre cada um destes, mas hoje escreverei em favor do amor fiel!

Eu não te deixarei. Nunca. Não importa o que aconteça!

Este é o voto da fidelidade matrimonial. Um pouco assustador, não? Eu sei, mas é justamente este voto que permite a segurança necessária para a formação de uma família saudável para o casal e para as crianças.

O voto de fidelidade impõe restrições às discussões do casal.  Por causa dele não se pode dizer “basta para mim” toda vez que o outro manifestar um de seus defeitos, o que fará tão frequentemente quanto você mesmo.
Se, por outro lado, a possibilidade do divórcio rondar todas discussões, os dois viverão como animais ariscos. A possibilidade do término do relacionamento fará com que cada um viva num constante clima de vigilância, com medo de que suas atitudes desagradarem ao cônjuge, o que tornará a vida muito difícil e estressante. Consequentemente tendendo ao fracasso do casamento. Logo, a possibilidade do divórcio aumenta a probabilidade dele acontecer!

O casamento é um voto de união por toda vida, por isso se faz em frente de muitas pessoas e, principalmente, diante de Deus! Também por isso os noivos devem se preparar muito bem para receber o sacramento do Matrimônio, pois é um passo definitivo, com consequências para toda vida e, claro, também para a eternidade. O Papa Francisco já chamou a atenção para este problema da falta de preparação adequada:

“A preparação próxima do matrimônio tende a concentrar-se nos convites, na roupa, na festa com os seus inumeráveis detalhes que consomem tanto os recursos econômicos como as energias e a alegria. Os noivos chegam desfalecidos e exaustos ao casamento, em vez de dedicarem o melhor das suas forças a preparar-se como casal para o grande passo que, juntos, vão dar.” – Papa Francisco

Confiança plena para se entregar aos filhos

Outro ponto importante da fidelidade é a confiança que surge entre o casal (e passa para os filhos). De que outro modo uma mulher poderia abandonar uma carreira profissional para se dedicar integralmente à família?

Mesmo que a lei do divórcio dê algumas “garantias”, uma separação costuma ser injusta pois a mulher que deixou a carreira profissional fica dependente da pensão dada aos filhos e da divisão dos bens enquanto o homem segue com suas receitas provenientes de seu trabalho.

Liberdade

A ideia de que o divórcio significa liberdade não poderia ser mais falsa. Me parece muito mais uma tentativa de racionalizar que o fracasso em construir uma família, no fundo, foi algo bom.

Como já explicado, só somos realmente livres quando podemos agir sem medo, sempre tentando acertar, é claro, mas também sem medo de assumirmos nossos defeitos para assim podermos consertá-los, sem medo de nos entregarmos completamente ao cônjuge e aos filhos.

A indissolubilidade do casamento também é o único modo de assumir responsabilidades. Afinal, se você não pode fugir então você irá resolver seus problemas. A alternativa é viver num campo de batalha pelo resto da vida!

Velhice

A fidelidade é a segurança que precisamos para não vivermos uma vida volátil, onde tudo pode acontecer a qualquer momento. Veja o que acontece com pessoas que se divorciam frequentemente aos 50, 60 anos. É triste: família fragmentada, não têm uma narrativa continuada da vida, sem falar no mal que traz para os filhos.

Segurança emocional dos filhos

A possibilidade do divórcio atinge diretamente o sentimento fundamental para a felicidade doméstica: o propósito de um futuro tranquilo e seguro. Os filhos recebem dos pais três bens fundamentais: a existência, o alimento e a educação, eles são essenciais para o desenvolvimento normal das crianças e jovens e isso tudo só é possível graças à fidelidade dos pais. Sem ela, as crianças se veem com corações divididos, sem os irmãozinhos que naturalmente viriam, sem um teto para chamar de seu, enfim, envenenadas pela separação entre a lei civil e a lei Natural, que é a Lei de Deus.

Sociedade moralmente saudável

Também são a legalização e a difusão do divórcio causas da degradação moral que decaiu sobre grande parte do mundo.  As obras e leis de Deus exercem ações benéficas à toda sociedade, mas quando os homens viram as costas para elas, estas ações desaparecem e uma série de males surgem, como se a própria Natureza se revoltasse contra  as obras dos homens contrárias à vontade Divina. Por isso, ao atingir diretamente os jovens, o divórcio enfraquece também a sociedade e a nação que encontram neles – os jovens – o escudo e o braço da prosperidade.

A própria violação dos votos matrimoniais tem consequências maiores, vejamos o que nos diz o Venerável Fulton Sheen:

(…) Seria terrível demais contemplar o que aconteceria ao mundo se nossas promessas não fossem mais vínculos. Nenhuma nação poderia estender crédito a outra Nação se o acordo de reembolso foi assinado com reservas. A ordem internacional desaparece enquanto a sociedade doméstica perece pela quebra dos votos. Dizer, dois anos após o casamento: “Eu fiz meu juramento no altar, sim, mas já que estou apaixonado por outra pessoa, Deus não quer que eu mantenha meu juramento”. É como dizer: “eu prometi não roubas as galinhas do vizinho, mas como me apaixonei por aquela bela Plymouth Rock (uma raça de galinha), Deus não quer que eu mantenha minha promessa”. Uma vez que decidimos, em qualquer assunto, que a paixão tem precedência sobre a verdade, e o impulso erótico sobre a honra, então como impedimos o roubo de qualquer coisa caso se torne “vital” para alguém? – Venerável Fulton Sheen

E Chesterton dá razão à Santa Igreja, falando sobre o divórcio:

A Igreja sempre esteve certa em negar até mesmo a exceção. O mundo admitiu a exceção, e a exceção se tornou regra. – G. K. Chesterton

Salvaguarda da dignidade da mulher

O papa Pio XII nos deixou textos esplêndidos sobre a família:

“Vede a sociedade moderna, nos países em que se permite o divórcio e perguntai-vos: te o mundo a clara noção de que a dignidade da mulher é ultrajada e ofendida, violada e corrompida, sepultada – é preciso dizer – na degradação e no abandono? Quantas lágrimas secretas molharam corredores e quartos! Quantos gemidos, quantas súplicas, quantos chamados desesperados em encontros, caminhos ou trilhas, em cantos e passagens desertas! Não, a dignidade pessoal do marido e da mulher – sobretudo a da mulher – não têm melhor defesa e tutela que a indissolubilidade do matrimônio. É um erro funesto acreditar que se possa conservar, proteger e elevar a digna nobreza da mulher e sua cultura feminina sem o fundamento do matrimônio uno e indissolúvel. Se a Igreja, cumprindo a missão recebida de Seu divino fundador, com gigantesco e intrépido uso de uma santa indomável energia, afirmou sempre e difundiu pelo mundo o matrimônio indissolúvel sai-lhe glórias, porque com isso contribuiu enormemente para defender o direito do espírito contra os impulsos dos sentidos na vida matrimonial, salvando, com a dignidade das núpcias, a dignidade da mulher e também da pessoa humana.” – Papa Pio XII.

Portanto, façamos nossa parte, confiantes na Graça santificante, para edificarmos uma família que seja rocha firme onde os filhos possam crescer e formar uma sociedade temente a Deus, de onde surgirão muitos santos e santas!


Referências

Dona de casa – nem por isso desinteressante ou infeliz!

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Um dia, quando eu ainda era noiva, disseram-me que se eu escolhesse ser dona de casa, me tornaria uma pessoa desinteressante com o passar dos anos.  Na época simplesmente ignorei, mas acabei relembrando deste dito no dia 8 de março desse ano quando vi tantas pessoas considerando suas mães, tias, avós e amigas pessoas desinteressantes e, no fundo, indignas de comemorarem o suposto dia da mulher.

De acordo com o que vi,  esse dia é reservado para as mulheres que conquistam coisas como dinheiro, sucesso, carreira, independência. Não é reservado às ‘pobres’ mulheres que a cada dia labutam e conquistam virtudes nas crianças indóceis, avanços nos filhos problemáticos, repouso para os pais idosos e cansados, bodas longínquas em seu casamento, comida fresca num dia difícil, roupa cheirosa em semana chuvosa, casa limpa com bebê novinho.

Não há lógica nesse pensamento feminista que levanta sua bandeira em favor das mulheres que são oprimidas por um suposto sistema patriarcal, quando na verdade os patriarcas são aqueles que elogiam, agradecem e ajudam suas esposas todos os dias enquanto as feministas são essas que no dia internacional da mulher deixam essas mulheres esquecidas, ignoradas e humilhadas com seu discurso político e materialista.

Por isso eu escrevo: para ressaltar como nós, donas de casa, somos pessoas interessantíssimas, felizes e repletas de conquistas grandes e diárias!

Há um grande mito que ronda as mulheres hoje em dia: de que ser dona de casa é uma condição infortuna imposta pela vida. De fato, conheço alguns casos assim. Mas não é esse o único lado da moeda. Há muito mais histórias felizes do que tristes! Algumas pessoas já me perguntaram o porque de deixar o meu diploma de lado e escolher ficar em casa. Outras já me perguntaram se sou feliz assim ou se é meu marido que não quer que eu trabalhe fora.

Razões para ser dona de casa

Eu escolhi ficar em casa porque não conheci nenhum chefe que tenha me tratado tão bem quanto meu esposo. Nem conheci trabalho tão gratificante quanto o de ser mãe. São as horas mais bem empregas da minha vida! Não encontrei futuro tão promissor e que ofereça tanto crescimento espiritual e humano quanto o de estar em casa. Não encontrei escola, babá ou familiar que vá educar e amar meus filhos tão bem como eu. Nem casa que fique tão ordenada quanto pelas minhas mãos. Não encontrei nada que me desse tanta satisfação! Eu sou feliz pela vida que escolhi e a escolheria mil vezes! Não sou infortunada e nem caí de paraquedas nessa condição ”pobre”. Sou consciente da minha missão, da minha vocação e sei que em nenhum outro lugar serei tão digna, amada, eficiente e cheia de valor quanto na minha casa, com a minha família. Isso quer dizer que eu me considero melhor do que alguém? Não. Apenas que sou feliz com minha escolha.

Nunca me considerei tão interessante e vitoriosa como quando me tornei esposa, e mais ainda, quando fui mãe. Se antes, eu, por ser formada em biologia, era conhecedora das leis da vida e além disso tinha meu tempo para estudar idiomas, doutrina e dedicar-me a literatura, agora o meu campo de conhecimento se ampliou em um horizonte tão vasto como jamais havia pensado ou sequer reparado nessa graça reservada em grande parte à condição feminina.

Se uma mulher se casa e vive conforme os planos de Deus, ela encontra um amplo campo de estudo. Engana-se quem pensa que as mulheres do lar são pessoas emburrecidas pelo tempo: ao contrário, elas se tornam sábias com o tempo.

A sabedoria do lar

Nós, donas de casa, somos experts em nutrição. Conhecemos os benefícios de cada alimento e o que cada chá cura. Sabemos sobre cozimento, fermentação, corte, tempero, temperatura. Sabemos preparos simples como papinhas de bebê até grandes banquetes, como ceias de Natal. Sabemos sobre cultivo. Sobre sementes, raízes, podas e mudas. Sobre estações, pragas, terras e adubos. Sobre flores! Sabemos sobre doenças, remédios farmacológicos e naturais.

Sabemos sobre bebês, crianças, adultos e idosos. Sabemos sobre psicologia infantil, do homem e da mulher, do desenvolvimento natural e da morte. Sabemos sobre educação dos filhos, temperamentos, tolerar os aborrecentes. Sabemos conselhos valiosos, temos experiências duras, vivências felizes e também dias tristes.  Entendemos de química: usamos um trilhão de produtos e muitas misturinhas milagrosas que garantem roupas mais brancas do que a neve, macias como algodão e perfumadas como as flores primaveris!

Entendemos de histórias infantis, atuação, brincadeiras de carrinhos e casinhas de bonecas. Sabemos impor limites e dar aconchego a quem precise. Sabemos de viagens e finanças. Economizar, reaproveitar, reciclar! Entendemos de orações, preces, serviço comunitário. De rotina, planejamento, criatividade! Entendemos de beleza, ordem e conforto! Enfim, de tanto!

Todos os dias precisamos de uma gama de conhecimento para realizar nossas nem tão simples atividades diárias: cuidar de um bebê, de um filho crescido, do pai, da mãe, do esposo, de alguém doente, lavar e passar roupas, limpar a casa, cozinhar, educar, catequizar, e por aí vai. E todos os dias conquistamos tantas vitórias principalmente sobre nós mesmas e a respeito daqueles que amamos. Nós fazemos o mundo melhor. O futuro da sociedade passa pelas nossas mãos.

Como diz a dra. Alice von Hildebrand em seu livro O Privilégio de Ser Mulher:

”Quando chegar a hora, nada que tiver sido produzido pelo homem subsistirá. Um dia, todas as realizações humanas serão reduzidas a um monte de cinzas. Por outro lado, todas as crianças nascidas de mulher viverão eternamente, pois a elas foi concedida uma alma imortal, feita à imagem e semelhança de Deus. Sob essa luz, a afirmação de Simone de Beauvoir de que “as mulheres não produzem nada”, mostra-se especialmente ridícula.”

E o Pe. Pedro Félix:

”Mulher cristã, tu não nasceste para fazer obras mestras. As grandes obras da política, da guerra, da ciência, da literatura, da arte, não brotaram das tuas mãos, nem do teu engenho. Tudo isso é obra dos homens. Todavia, tu fizeste o que mais vale, formaste esses homens. Não só porque o geraste com o teu sangue, mas também porque o modelaste com tua paciência e com teus encantos.’

Senhoras e Rainhas

Essa é a nossa coroa de glória: a família. Coroa que tantas vezes floresce, mas na maior parte das vezes é de espinhos. As pequenas recompensas recebemos todos os dias, mas a grande recompensa está guardada para o entardecer da vida. Só quem tem os olhos voltados para o Alto consegue entender e enxergar coisas que passam tão despercebidas para aqueles ”que tem olhos mas não veem” (cf. Salmos 113, 13). Verdadeiramente, a Cruz para o mundo é loucura, mas para nós que cremos, é salvação.

Talvez nunca tenhamos parado pra pensar o quanto somos interessantes e o quanto temos para compartilhar. Que a chatice do mundo não recaia sobre nossos ombros! Não é interessante só quem ganha promoções em sua carreira ou quem tem a liberdade que o mundo prega. Para o mundo parecemos escravas sem opinião formada. Mas somos inteligentes e livres: na nossa família, no nosso cotidiano, nas nossas amizades. E mais do que isso, somos senhoras de nossos lares: somos rainhas.