Lírio entre espinhos

Uma família católica buscando a santidade

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O Valor das Dificuldades

Tempo de leitura: 5 minutos

 

Conheço muita gente que vive reclamando das dificuldades da vida. Eu mesmo o faço com muito mais frequência do que gostaria de admitir (me livrar disto é, inclusive, um dos meus propósitos de ano novo). Para nos livrarmos deste vício devemos pensar um pouco sobre este assunto e se realmente convém que as dificuldades de nossa vida desapareçam.

O que são dificuldades?

Uma definição de dificuldade que muitos concordariam é:

‘Dificuldade é aquilo que surge como obstáculo para o nosso bem’.

Se avaliarmos cuidadosamente a definição acima perceberemos que as dificuldades nem sempre surgem “do nada” (afinal é comum que fiquemos doentes, percamos oportunidades de emprego ou mesmo que esteja muito quente este ano) e não são obstáculos para o nosso verdadeiro Bem, mas para um objetivo que queremos alcançar (não sofrer, termos boas condições financeiras ou simplesmente ficar num ambiente com boa temperatura). Para nós, cristãos,

“o bem- a verdadeira realização de si mesmo – não é satisfação do egoísmo, mas aquilo que a doutrina católica denomina com precisão, o bem da virtude.” (Francisco Faus)

Logo, é o amadurecimento das virtudes que nos leva ao verdadeiro bem, que gera em nós uma felicidade profunda e plena. Tendo agora uma melhor noção do que é o verdadeiro bem, será que as supostas dificuldades podem nos afastar de alguma virtude sem nossa cumplicidade? Será que algum acontecimento pode nos tornar menos pacientes, menos corajosos, menos fiéis ou menos caridosos? Certamente que não, diz o autor:

A mesma dificuldade que arrasa o egoísta fortalece o santo!

Mas se as dificuldades nos levam ao bem, por que nos aborrecem tanto? Justamente porque nos exigem a bondade, a virtude, nos obrigando a sair do comodismo em que vivemos, o que nos mostra o que realmente somos: egoístas.

Os tipos de dificuldades

Há dois tipos de dificuldades, as subjetivas e as objetivas. As dificuldades subjetivas são aquelas que não são geradas por circunstâncias mas por nossa pouca (ou nenhuma) caridade. Bons exemplos são o pai de família que reclama de ter que brincar com os filhos ao fim de um dia de trabalho ou uma mãe que reclama que o bebê chora demais. São exigências do amor normais do dia-a-dia familiar e não causadas por um infortúnio.

Já as dificuldades objetivas são as trazidas por circunstâncias externas, sejam acidentes, doenças, desemprego e etc. Estas ocasiões nos chamam a fortalecer nossas virtudes e subirmos os degraus rumo à santidade.

A meta errada

Santo Agostinho já resume muito bem o erro que nos faz tão impacientes:

“É melhor capengar pelo caminho do que avançar a grandes passos fora dele. Pois quem capenga no caminho, ainda que avance pouco, atem-se à meta, enquanto quem vai fora dele, quanto mais corre, mais se afasta.” (Santo Agostinho)

Se temos ideais materialistas e hedonistas, as maiores dificuldades são aquelas que se opõem aos nossos próprios vícios. Por outro lado, se nossa meta é a santidade, todos os acontecimentos são oportunidades de crescermos em virtude, assemelhando-nos assim a Nosso Senhor!

Além deste caso da meta errada, a maioria de nós, cristãos, sofre também por aspirarmos metas baixas. Veja o exemplo da virtude da generosidade: os católicos costumam (ou ao menos costumavam) ter muitos filhos, justamente por amarmos a Deus e, como Ele, querermos transmitir o Amor aos filhos. Pois bem, ao conversar sobre este assunto com muitas famílias que cometem o erro da contracepção ouve-se frases como “dois está bom pra nós” ou mesmo “os tempos são outros, hoje é tudo mais difícil” indicando que filhos seriam algum tipo de dificuldade para alcançar alguma meta. É claro que os filhos dão trabalho, mas não apenas isso! Eles também nos obrigam a deixarmos o egoísmo e alçarmos metas cada vez mais altas de generosidade para com Deus além de nos fazerem praticar as obras de misericórdia como dar de comer a que tem fome, dar de beber a quem tem sede, dar pousada aos peregrinos, vestir os nus… Eles são uma escada para o céu!

Os bens das dificuldades

Procuremos ver, como nos ensina São Paulo quando diz “todas as coisas concorrem para o bem dos que amam a Deus (Rom 8, 28)”, que as dificuldades são, na verdade, degraus rumo à perfeição.

As dificuldades nos firmam no bem

Cada dificuldade que surge no caminho dos nossos bons propósitos e nos põe à prova, é um teste! E é só através dos testes que conseguimos observar o nível de nossas virtudes. Uma pessoa que se julga avançada na virtude da fortaleza só pode percebê-lo ao sofrer perseguições e provações da vida. Assim como outra que acha que venceu o vício da ira só vai ter certeza ao passar por situações irritantes do dia-a-dia como sofrer uma fechada no trânsito, perder um compromisso por culpa de outra pessoa e etc…

Além de ótimos “sensores” de virtude, as dificuldades também servem como treinamento para a consolidação das virtudes. Um estudante de álgebra, por exemplo, deve fazer dezenas de exercícios para fixar os conceitos aprendidos em sua mente. Um corredor de maratonas, deve praticar a corrida frequentemente para que seus músculos estejam preparados para a prova. Da mesma forma, é enfrentando e superando uma dificuldade colocada no caminho de uma virtude que a mesma virtude se consolida e se torna forte!

As dificuldades nos fazem crescer

Este bem causado pelas dificuldades já é bastante óbvio neste ponto do texto, mas é importante frisá-lo e ir mais a fundo. Há uma velha frase cristã que diz “na vida espiritual quem não avança retrocede”, ela também pode ser aplicada às virtudes. Quantos de nós não começa relaxando “só hoje” nas orações e termina por entrar num grande deserto espiritual? Ou deixa de confessar-se “apenas desta vez” e acaba ficando meses sem o sacramento da penitência e também da Santíssima Eucaristia? São justamente as vitórias sobre as pequenas dificuldades apresentadas que nos fazem crescer na virtude. Outro ponto importante que aqui pode ser tratado é a superação da dificuldade que mais nos custa. Um pessoa que sofre com grande tendência à impaciência deve fazer um forte propósito de ser muito paciente, só assim conseguirá avançar nesta virtude.

As dificuldades nos purificam

Mesmo as nossas melhores qualidades são misturadas com impurezas. Às vezes obras com ótimas intenções também apresentam vestígios de orgulho, vanglória. Ou até mesmo amizades despretensiosas podem ser manchadas pelo orgulho e vaidade. Neste caso, as dificuldades são como clarões que iluminam as rachaduras numa estrutura para, assim, repará-las! Exemplos comuns podem ser vistos mesmo dentro da vida comunitária quando, nalguma obra ou pastoral, por simples discordância de ideias, o orgulho termina por afastar pessoas que antes eram próximas.

 

Sob a ótica cristã, portanto, as dificuldades são degraus que levam à perfeição e, portanto, sempre que nos depararmos com alguma podemos dizer, confiantes: obrigado, Senhor, por mais esta oportunidade de vos imitar!


Referências

O valor das dificuldades – Francisco Faus

Um ano novo é muito pouco: precisamos de uma alma nova

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Extirpar um defeito/vício por ano

Toda virada de ano é repleta das mesmas coisas: sonhos, projetos, mudanças, enfim, uma busca por uma vida nova. Infelizmente, a maioria das pessoas se preocupa apenas com as coisas exteriores, com os bens que passam: trabalho, dinheiro, sucesso, descanso, viagens, festas, e tanto mais. Poucos são os que aproveitam essa atmosfera de mudança para repensar a vida interior e propor mudanças. Além disso, para a maior parte das pessoas, toda virada de ano é uma grande frustração: os dias passam e a vida continua igual, justamente porque quem precisa mudar somos nós, independente do ano.  É uma triste ilusão e algo bem comum (e imaturo), condicionar as nossas necessidades, projetos, sonhos à fatores exteriores. Assim, se falharmos, a culpa não será nossa.

Mas, afinal de contas, os propósitos de ano novo são ruins? Absolutamente não. Se soubermos aproveitar essa atmosfera de mudança, quanto poderemos fazer! Devemos tomar cuidado com o que nos alerta São Josemaria: “Tu não deves trabalhar por entusiasmo, mas por Amor.” Qualquer propósito de ano novo será sempre em vão e levará à frustração se não tivermos uma vontade firme.

”Se a cada ano extirpássemos um vício, bem depressa seríamos perfeitos.” (Imitação de Cristo)

Essa citação do livro Imitação de Cristo é tão chocante quanto verdadeira. E, mais do que isso, totalmente possível e alcançável! Grande parte das vezes não progredimos espiritualmente porque estamos perdidos em meio a tantos e tantos propósitos. Principalmente na vida familiar, com tempo tão curto, é difícil progredir em muitas coisas ao mesmo tempo. Mas não é impossível! O importante é não estacionar, pois na vida espiritual quem não progride, retrocede.

Então, que tal adotarmos essa proposta de extirpar um defeito ou vício por ano? É uma proposta real, eficaz e que está ao alcance de todos!

O defeito dominante

Após um bom exame de consciência, somos capazes de identificar qual defeito ou vício mais tem atrapalhado a nossa vida e incomodado as outras pessoas. É esse o vício que deve ser corrigido. ”Para combater com eficácia na vida interior devemos conhecer bem o que os autores espirituais chamaram o defeito dominante, o que em cada um tende a prevalecer sobre os outros e, como consequência, se torna presente na forma de opinar, de julgar, de querer e de agir. ” (Pe. Garrigou)

”O demônio é como um leão que ruge ao nosso redor, procurando nos devorar. Com muita inteligência, ele busca, precisamente, nos atacar em nosso ponto fraco. Assim, ele faz a ronda para examinar todas as nossas virtudes teologais, cardeais e morais, e é no ponto em que nos encontra mais fraco, é nesse ponto, que é o mais perigoso para a nossa salvação, que ele nos ataca e tenta nos abater. Como um bom chefe de guerra, ele sabe que uma vez tomado o ponto mais fraco de nossa alma, o menos virtuoso, ele vai se tornar o mestre de todo o resto de nossa alma. Esse ponto mais desprovido de virtude, o mais arruinado pelas nossas más inclinações é justamente o nosso defeito dominante, que é também a raiz, a causa de muitos outros pecados. Esse defeito dominante pode ser muito diverso segundo cada pessoa: o orgulho, a vaidade, a sensualidade, a impureza, a falta de modéstia, o respeito humano, o apego aos bens desse mundo, o apego às honras ou à glória desse mundo. Ele pode ser a preguiça, sobretudo a preguiça espiritual, a falta de espírito sobrenatural, a falta de esperança, a inconstância, o espírito mundano, a cólera, etc…

Para que sejamos vitoriosos nesse combate, é preciso, todavia, seguir o conselho da Igreja. A vitória sobre o nosso defeito dominante não ocorre sem os sofrimentos, sem as cruzes, sem as privações. É impossível vencê-lo sem a mortificação, sem a penitência. Do mesmo modo, sem a oração – sem muita oração – é igualmente impossível vencê-lo e até mesmo começar a batalha, pois é Deus que nos dá a força para combater e é Deus que nos dá, em última instância, a vitória. Sem Ele, mais uma vez, nada podemos fazer. Finalmente, é a caridade, a vontade de servir a Deus, infinitamente bom e amável, que deve nos animar e nos dispor ao combate.  Para não se enganar a respeito de seu próprio defeito dominante, é necessário pedir o auxílio de Deus, para que Ele mostre qual é esse defeito e convém pedir conselho a um padre bom que conheça sua alma.” (Pe. Daniel Pinheiro)

E, não só corrigir o vício/defeito, deve ser feito também a atitude contrária, que é o remédio para a correção. Por exemplo, uma pessoa acostumada a reclamar pode escolher corrigir esse defeito e se esforçar em dar graças a Deus por tudo o que acontecer.

Sugestões de propósitos para o ano de 2018

A seguir, uma lista com sugestões de propósitos de correção:

  • Não reclamar, sendo assim, dando graças a Deus por tudo o que acontecer;
  • Não fofocar, sendo assim, procurando guardar o que penso a respeito do próximo só para mim;
  • Não fazer julgamento temerário, sendo assim, procurando pensar sempre o bem do próximo;
  • Não perder tempo na internet, sendo assim, reservando apenas um horário por dia pra checar o que preciso;
  • Não mentir nem para me desculpar, sendo assim, falando sempre a verdade;
  • Não falar mal do esposo/esposa bem como não expor a vida familiar para os outros, sendo assim, guardando a intimidade de nosso lar;
  • Não passar tanto tempo trabalhando ou em outras coisas, sendo assim, procurando passar mais tempo em família;
  • Não sendo impaciente, sendo assim, procurando sofrer as contrariedades com serenidade e alegria;
  • Não gastar demasiadamente, sendo assim, comprando somente o necessário;
  • Deixar de assistir televisão, sendo assim, usando esse tempo para algo útil como leitura, oração ou tempo em família;
  • Vencer meu mau humor, sendo assim, procurando sorrir e não descontar nas pessoas;
  • Não me irritar com os defeitos alheios, sendo assim, sofrendo os defeitos dos outros e rezando para que a graça de Deus venha e os ajude a mudar;
  • Não sendo orgulhoso, sendo assim, pedindo perdão quando errar;
  • Não ler, assistir ou falar coisas imorais, sendo assim, vivendo a pureza;
  • Não usar moda imodesta e sensual, sendo assim, vestir-me decentemente;
  • Não discutindo por coisas pequenas, sendo assim, relevando bobagens e focando nas coisas boas;
  • Não perder tempo, sendo assim, cumprindo minhas obrigações de cada dia;
  • Não impor minha opinião, sendo assim, aprendendo a ceder;
  • Não tendo inveja, sendo assim, reconhecendo o bem nos outros;
  • Não pecando contra a castidade matrimonial, sendo assim, vivendo o plano de Deus para a sexualidade do casal;
  • Não provocando confusões, sendo assim, guardando a minha língua;
  • Não procurar agradecimento em tudo, sendo assim, fazer as coisas sem esperar retribuição;
  • Não ser preguiçoso, sendo assim, ser generoso e me colocando a disposição das pessoas;
  • Não ser curioso, sendo assim, cuidando dos assuntos de minha própria vida de família;
  • Não me importando com a opinião das pessoas, sendo assim, pensando em agradar somente a Deus.

Sugestões de propósitos espirituais

Além de corrigir um defeito/vício, também podemos inserir um bom propósito relacionado a vida de oração, como:

  • Rezar o terço em família todos os dias;
  • Rezar o Ofício da Imaculada Conceição aos sábados;
  • Assistir mais de uma Missa por semana com a família;
  • Ler o Evangelho do dia com a família;
  • Falar para as pessoas sobre a salvação eterna;
  • Meditar sobre a morte, o céu e o inferno;
  • Não desanimar nas dificuldades;
  • Rezar quando me sentir triste;
  • Estar sempre fazendo algo para o bem da minha alma e dos que amo;
  • Rezar quando tiver uma tentação;
  • Oferecer sacrifícios pelas almas do purgatório;
  • Rezando a Nossa Senhora nas tentações;
  • Oferecer sacrifícios pela pureza e inocência das crianças e jovens;
  • Consagrar-me a Nossa Senhora;
  • Ensinar algo da fé para alguém;
  • Assistir Missa todos os domingos
  • Rezar o Angelus antes das refeições;
  • Rezar a oração das refeições;
  • Ensinar os filhos a rezar;
  • Abençoar os filhos antes de dormir;
  • Fazer leitura espiritual (tratados de espiritualidade, vida dos santos,…);
  • Fazer leitura formativa (estudar sobre algum tema referente a nossa fé);
  • Fazer alguns minutos de meditação por dia (do Santo Evangelho ou usando algum livro);
  • Confessar-se uma vez por mês;
  • Participar da vida paroquial;
  • Rezar pelas vocações;
  • Visitar asilos, orfanatos, hospitais;
  • Ajudar financeiramente algum instituto religioso;
  • Rezar diariamente pelos filhos e esposo (a);
  • Buscar uma vida interior na presença de Deus

 

A vida passa extraordinariamente depressa e precisamos urgentemente daquela ”determinada determinação” de que Santa Teresa tanto nos fala. Se tivermos sempre em mente que ”O Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam”, não teremos dificuldade de combater o bom combate e esforçar-nos, até o sangue, para alcançar a santidade. E, principalmente, se ainda não é pelo amor que buscamos agradar ao bom Deus, ao menos que meditemos todos os dias o momento do nosso julgamento, onde estaremos diante do Justo Juiz. Certamente o temor nos dará bons empurrões!

 

Por que falhamos em sermos santos?

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A vocação universal à santidade foi revelada por nosso Senhor no sermão da montanha quando disse “Sedes perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”(Mt 5, 48). Ele não falava apenas para seus apóstolos e, portanto, bispos da Igreja, mas a todos que lhe ouviam, logo, todos nós. Também o Concílio Vaticano II, na constituição dogmática Lumen gentium nos dá as razões do chamado universal à santidade:

  1. Exigências do batismo – temos o dever de desenvolver a graça recebida.
  2. O primeiro mandamento – que nos obriga a “amar a Deus com todo o coração, com toda a alma, com toda a mente e com todas as forças” (Mc 12, 28-30), que, se cumprido fielmente, consiste precisamente na santidade.
  3. Devido ao mandamento de nosso Senhor no sermão da montanha.

É claro que este dever é da busca sincera da santidade (que é o trabalho de uma vida!) e não sermos santos aqui e agora. Contudo, observando a realidade de nosso tempo, vemos que, mesmo dentro da Igreja, é difícil encontrar pessoas detentoras de virtudes heroicas. Segundo o padre Antonio Royo Marín, a principal razão é que nós não empregamos os meios necessários para alcançar a santidade.

Estes meios podem ser divididos em dois grupos:

  1. Naturais
    1. Falta de energia de caráter.
  2. Sobrenaturais
    1. Falta do verdadeiro desejo de santidade.
    2. Falta ou deficiência de direcionamento espiritual.

Falta de energia de caráter

A Graça divina pode encontrar obstáculos naturais para agir em nós e é nosso dever acabar com estes obstáculos naturais (de ordem psicológica, emocional ou mesmo física) para recebermos as graças que Deus nos tem reservado. O principal obstáculo de ordem natural para alçar vôos mais altos na vida espiritual é justamente a falta de energia de caráter. Vivemos em uma geração de homens e mulheres incapazes de se esforçar minimamente para alcançar qualquer objetivo que seja um pouco penoso.

Isso se vê claramente em vários aspectos das pessoas da nossa geração, dentre tantos:

  • Incapacidade de tomar decisões sérias e permanentes: muitos acabam pulando de curso em curso, presos numa eterna adolescência em que, sustentados pelos pais, esperam em suas camas confortáveis por um emprego que cairá do céu ou por um cargo público que seja digno dele.
  • Busca incessante pelo prazer: o que também se mostra na incapacidade de sofrer, mesmo que minimamente. Vemos mulheres que desmaiam só de pensar num parto normal (mesmo que seja muito melhor para ela e para o filhos) e homens que não querem nem saber de serem pais (ainda mais depois de descobrirem que precisam ficar acordados à noite e que fraldas não se trocam automaticamente).

Devemos, como nos exorta Santa Teresa, buscar a fonte de água viva com determinada determinação! Só assim a Graça divina poderá agir em nós.

Falta do verdadeiro desejo de santidade

Este motivo se relaciona bastante com o anterior, mas enquanto aquele é natural, este é sobrenatural. O verdadeiro desejo de santidade tem algumas características fundamentais e é bom citá-las para que possamos fazer uma reflexão sobre nossa caminhada espiritual.

O verdadeiro desejo de santidade é sobrenatural, ou seja, provém de Deus e tem por objetivo Sua maior glória e a salvação das almas e, por isso, deve ser profundamente humilde, sabendo que tudo provém de Deus e que, se dependêssemos somente de nossas forças seríamos os mais desprezíveis pecadores.

Uma característica do verdadeiro desejo de santidade que muito nos falta é a confiança completa em Deus, é esta característica que nos fará seguir crescendo espiritualmente mesmo diante das grandes dificuldades que certamente surgirão. É aqui que muitos de nós falhamos em nos conformarmos em Cristo.

Muitas vezes Deus nos pede provas de nosso amor por Ele, como fez com Abraão ao pedir-lhe o sacrifício de seu amado filho (Gen 22). Abraão teve de mostrar que seu amor a Deus era maior até mesmo que seu amor pela vida de seu filho. Reparem que esta prova vai muito além de deixar de pecar: devemos colocar em prática a completude do primeiro mandamento desejando a santidade acima de todas as coisas!

Na vida espiritual, quem não avança regride. Logo, nada de descansar! Quem dá desculpa de tirar férias da vida espiritual acaba por deixar a vontade fraca e, por conta disso, tem maiores dificuldades para retornar ao ponto em que estava. Portanto, sempre em frente, ou, como diria meu amigo Pier Giorgio Frassati,Verso l`alto!

A falta de regularidade também é um grande inimigo da busca pela santidade, muitas pessoas, ao saírem de retiros ou exercícios espirituais, tem grandes intuitos e propósitos que acabam sendo deixados de lado às primeiras dificuldades. É importantíssimo ter constância na vida espiritual!

A última característica do verdadeiro desejo de santidade é que ele deve ser prático e eficaz. Deve-se dispor de todos os meios aqui e agora para ser santo! Muitas vezes vamos deixando pra depois, para depois das férias, para depois da faculdade, para depois de curada minha doença. De adiamento em adiamento a vida passa e acabaremos por nos apresentar a Deus de mãos vazias das graças que não quisemos receber.

Falta ou deficiência de direcionamento espiritual

Quando observamos a vida dos grandes santos de nossa amada Igreja percebemos que, a grande maioria deles, contava com um diretor espiritual de grandes virtudes!

As características de um bom diretor espiritual já foram tratadas num excelente texto do nosso pai espiritual. Resumidamente, ele deve ser um sacerdote sábio, discreto, experiente, ciente de teologia, intensamente piedoso, humilde e, claro, zeloso pela santificação das almas! Sei que não é fácil encontrar sacerdotes assim, infelizmente (foi por este motivo que nos mudamos de cidade quando nos casamos). São João da Cruz afirma que:

“Para este caminho, ao menos para o que nele há de mais elevado, e ainda mesmo para o mediano, dificilmente se achará um guia cabal que tenha todos os requisitos necessários.”

Deve-se pedir, suplicar a Deus que lhe envie um santo diretor espiritual para ajudar na salvação de sua alma, que é a missão mais importante de nossas vidas!

Vejamos alguns santos que tiveram diretores espirituais também santos: Santa Joana de Chantal teve como diretor espiritual São Francisco de Sales e depois São Vicente de Paulo.  São Vicente de Paulo foi também diretor de S. Luisa de Marillac. Santa Gema teve um diretor santo: o Padre Germano é Venerável e está a caminho dos altares. São Paulo da Cruz foi diretor da Venerável Madre Crucifixa – cofundadora das passionistas e da Venerável Lucia Burlini que era leiga. O Beato Miguel Sopocko foi diretor de Santa Maria Faustina Kowalska. São Cláudio de la Colombiere foi diretor de Santa Margarida Maria Alacoque. No início da sua vida espiritual, Santa Teresa foi muito ajudada por S. Pedro de Alcântara. O Servo de Deus Padre Arintero foi diretor da Ven. Madre Maria Amparo e da Ven. Madre Madalena. E não podemos nos esquecer do grande São João Bosco que teve por diretor espiritual São José Cafasso!

Portanto, é de suma importância que se tenha direcionamento espiritual adequado. Hoje em dia as tecnologias de telecomunicações ajudam bastante visto que a direção espiritual pode ser feita à distância.

Espero que este texto tenha sido de ajuda para reconhecer em que estamos errando na busca pela perfeição cristã, para que, corrigindo, possamos alcançar o fim de nossa vida que é nos assemelharmos a Cristo Nosso Senhor!


Referências

Direção Espiritual

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Recebi com alegria o convite de meus queridos filhos espirituais, Gabriel e Rayhanne, para compartilhar um pouco a minha modesta experiência de diretor espiritual. Considerei bem oportuno aos leitores deste blog falar sobre direção espiritual (DE), já que esta é uma ferramenta eficaz para o cultivo da vida espiritual, infelizmente desconhecida e pouco utilizada pelos cristãos de hoje, que mais do que nunca necessitam de ajuda para discernir o trigo do joio, para precaver-se de tantos erros, para adiantar na virtude e para formar os santos que o mundo tanto precisa. Devido a urgência e importância do assunto em questão, propus ao casal de abordá-lo em duas breves partes: a primeira, uma exposição sobre a natureza da DE; a segunda, um pouco da minha experiência como diretor espiritual de leigos, especialmente jovens e casais.

Para a primeira parte, mais teórica, prescindo mais de mim e me baseio em quase toda a exposição no esplêndido e atualizado livro do Pe. Miguel Ángel Fuentes, colega sacerdote do Instituto do Verbo Encarnado, que hábil e sabiamente como ninguém, oferece aos diretores espirituais La ciencia de Dios, manual para diretores espirituais1 (San Rafael, Argentina, EDIVE, 3ª ed., 2013).

A Direção Espiritual

A prática da DE é um dos tesouros mais valiosos destes dois mil anos de tradição da Igreja, é uma sementeira de vocações à vida consagrada, de sacerdotes fervorosos, de leigos de alto voo e incidência social, de apóstolos de todo gênero, enfim, de genuínos Santos.

O que é a DE

A DE consiste na arte de guiar acertada e progressivamente as almas ao fim da vida espiritual, quer dizer, à perfeição; também pode definir-se como a ajuda que se presta a um cristão para que amadureça em sua fé e vida espiritual. Este ofício exige tanta preparação do diretor que, adverte São João de Ávila, se chama ‘arte de artes’”2.
Hoje, como sempre, –ou talvez mais que nunca– é necessário promover a genuína DE, quer dizer, a guia sobrenatural de almas de maneira séria, científica e exigente, ou simplesmente, católica.

Necessidade da DE

A necessidade da DE tem seu fundamento remoto na Sagrada Escritura, sua proclamação na Tradição da Igreja e sua razão íntima na natureza de nossa vida espiritual e no modo ordinário de obrar da Providência divina.

O Magistério da Igreja confirmou esta prática com sua autoridade, recomendando-a e inclusive prescrevendo-a em determinados casos.

Por exemplo, o Catecismo da Igreja Católica diz:

O Espírito Santo dá a certos fiéis dons de sabedoria, de fé e de discernimento em vista do bem comum que é a oração (direção espiritual). Aqueles e aquelas que têm esses dons são verdadeiros servidores da tradição viva da oração:

Por isso, se a alma deseja avançar na perfeição, conforme o conselho de S. João da Cruz, deve “considerar bem em que mãos se entrega, pois, conforme o mestre, assim será o discípulo; conforme o pai, assim será o filho”. E ainda: “O diretor deve não somente ser sábio e prudente, mas também experimentado… Se o guia espiritual não tem a experiência da vida espiritual, é incapaz de nela conduzir as almas que Deus chama, e nem sequer as compreenderá”3.

A Exortação Pastores dabo vobis, falando da DE, diz:

“É preciso redescobrir a grande tradição do acompanhamento espiritual pessoal, que sempre deu tantos e tão preciosos frutos, na vida da Igreja: esse acompanhamento pode, em determinados casos e em condições bem precisas, ser ajudado, mas não substituído, por formas de análise ou de ajuda psicológica. As crianças, os adolescentes e os jovens sejam convidados a descobrir e a apreciar o dom da direção espiritual, e a solicitá-lo com confiante insistência aos seus educadores na fé. Os sacerdotes, pela sua parte, sejam os primeiros a dedicar tempo e energias a esta obra de educação e de ajuda espiritual pessoal: jamais se arrependerão de ter transcurado ou relegado para segundo plano muitas outras coisas, mesmo boas e úteis, se for necessário para o seu ministério de colaboradores do Espírito na iluminação e guia dos chamados”4.

O que falar na DE

O objeto ou matéria da DE são todos os assuntos relacionados a saúde da alma onde tem lugar o desenvolvimento da perfeição cristã. Santo Afonso Maria de Ligório falando aos confessores resume dizendo: “Quatro pontos principalmente atenderá o confessor na direção das almas espirituais: a meditação, a contemplação, a mortificação e a frequência dos sacramentos”5. Outros acrescentam também a prática das virtudes e a santificação das ações ordinárias6. Pode-se acrescentar ainda o trabalho para moldar o próprio caráter e temperamento, discernimento de situações meramente humanas como relacionamentos, decisões, estudo, trabalho, mas que poderiam afetar direta ou indiretamente a vida espiritual ajudando-a ou atrapalhando-a.

Finalidade da DE

A DE tem como fim último levar as almas à perfeição. Tem também fins intermédios, segundo as diversas etapas da alma. Podemos indicar quatro finalidades subordinadas, que são curar e fortalecer as fraquezas humanas, precaver dos perigos, discernir os espíritos que movem à alma e prepará-la para que responda com docilidade às exigências da graça.

Qualidades da DE

A DE para que seja autêntica e frutuosa tem que reunir várias características. As principais com relação ao diretor são: que seja científica, prudente, firme, caridosa e adaptada ao dirigido.

Quem pode ser diretor espiritual

Ordinariamente o sacerdote porque se dá propriamente um encargo por parte da Igreja; ele exerce uma direção ministerial, cuja missão está implícita na missão de santificar às almas por todos os meios possíveis, que recebe no momento da ordenação sacerdotal.

Qualidades do diretor espiritual

As qualidades do bom diretor espiritual se deduzem das qualidades que deve ter a boa DE: santidade, prudência, experiência, ciência e qualidades humanas7 , como: um sadio e cordial afeto, o dom de entender às pessoas, a arte de sugerir com simplicidade e eficácia, a magnanimidade e a confiança.

 

Se Deus quiser, em breve votarei para falar um pouco da minha experiência como diretor espiritual de leigos, especialmente jovens e casais.

Que Deus abençoe você!

Pe. Fábio Vanderlei, IVE


Referências

  1. La ciencia de Dios, manual para diretores espirituais.
  2. São João de Ávila, Audi filia, 4.
  3. Catecismo da Igreja Católica, nº 2690.
  4. São João Paulo II, Pastores dabo vobis, 40.
  5. Santo Afonso María de Ligorio, A prática do confessor, nº 99. Cf. 100-133.
  6. Cf. Garrigou-Lagrange, As tres idades da vida interior, Vol, I.
  7. Cf. Mendizábal, Dirección espiritual.

O Sagrado Coração de Jesus no lar

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Antigo costume

O mês de junho é dedicado ao Sagrado Coração de Jesus, ”que tanto amou os homens”.

Antigamente, era comum entrar em uma casa e ver um quadro ou imagem do Sagrado Coração de Jesus, colocado em local de honra. Aos poucos, um outro objeto foi usurpando o lugar de destaque nas casas: a televisão. A devoção ao Sagrado Coração foi sendo substituída por um aparelho que, durante tantas horas do dia, despeja toneladas de lixo imoral dentro dos lares, deseduca as crianças e afasta as famílias da prática dos Mandamentos. E o Sagrado Coração de Jesus, em quantos lares Ele hoje é amado? E quantos lares não tem como centro de sua casa um aparelho de TV?

Escritos do Papa Pio XII

Amados esposos cristãos, que seja exposta e honrada em vossa casa a imagem do Sagrado Coração que ‘tanto amou os homens’, como a dos parentes mais queridos e íntimos. (…) Exposta e honrada significa que a imagem não deve apenas velar num quarto, acima do leito dos pais ou dos filhos, mas ser exposta em lugar de honra, acima da porta de entrada, na sala de jantar, na sala de estar, ou em outro local mais frequentado da casa.

Honrada significa que diante da preciosa estátua ou modesta imagem, a mão cautelosa colocará, ao menos de vez em quando, alguma flores, acenderá uma vela ou conservará, como sinal constante de fé e amor, a luz de uma lâmpada. É neste lugar, diante do Sagrado Coração, que todas as noites se reunirá a família para um ato coletivo de ação de graças, uma humilde oração de penitência e um pedido de novas bênçãos.

Honra-se devidamente o Sagrado Coração em uma casa quando nela todos e cada um o reconhecem como o Rei do Amor; esta submissão se assinala pelo ato de consagração da família ao Coração de Jesus. (…) Mas quem se consagra deve cumprir as obrigações que ao ato impõe. Quando o Sagrado Coração reina verdadeiramente numa família – e de fato Ele tem o direito de reinar sempre -, uma atmosfera de fé e piedade envolve as pessoas e as coisas daquela casa. Portanto, afaste-se dos lares consagrados tudo o que entristeceria o Sagrado Coração: lazeres perigosos, infidelidades, intemperanças, livros, revistas e imagens hostis à religião e aos seus ensinamentos. Afastem-se, nas relações sociais, as condescendências hoje tão corriqueiras, que pretendem conciliar a verdade com o erro, a libertinagem com a moral, e a injustiça egoísta e avara com as obrigações da caridade cristã.

Na família consagrada, os pais e os filhos sentem-se sob a vista e familiaridade do próprio Deus; assim sendo, são também dóceis aos Seus mandamentos e aos preceitos da Sua Igreja.

Diante da imagem do Rei dos Céus, que veio ser o seu amigo na terra e eterno hóspede, eles enfrentam sem medo, mas não sem mérito, as fadigas dos deveres cotidianos, os sacrifícios que as dificuldades extraordinárias às vezes impõe, todas as provações que a Providência envia.

A devoção

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus foi se desenvolvendo ao longo dos séculos. Foi para uma religiosa da ordem fundada por São Francisco de Sales que Nosso Senhor apareceu para difundir a devoção ao seu Adorável Coração: no século XVII, para Santa Margarida Maria Alacoque, freira da Ordem da Visitação. Nosso Senhor explicou a finalidade dessa devoção ao dizer as seguintes palavras para Santa Margarida Maria:

“Eis aqui esse Coração que tanto amou os homens, que não poupou nada, ao ponto de se esgotar e de se consumir para demonstrar seu amor. E, em reconhecimento, eu recebo, da maior parte, ingratidões.”

Amor e reparação é o que pede o Sagrado Coração de Jesus. Amor, para pagar na mesma moeda, Aquele que tanto nos amou. Reparação, para desagravá-lo e consolá-lo dos ultrajes feitos ao seu amor infinito. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus deve ser, então, uma devoção de amor a Nosso Senhor Jesus Cristo e de reparação ao amor de Cristo ultrajado pelos nossos pecados. Não deve ser uma devoção sentimental, mas que nos leve efetivamente à santidade.

Nas aparições, Nosso Senhor fez 12 promessas:

1ª Promessa: “A minha bênção permanecerá sobre as casas em que se achar exposta e venerada a imagem de meu Sagrado Coração”.

2ª Promessa: “Eu darei aos devotos de meu Coração todas as graças necessárias a seu estado.”

3ª Promessa: “Estabelecerei e conservarei a paz em suas famílias”.

4ª Promessa: “Eu os consolarei em todas as suas aflições”.

5ª Promessa: “Serei refúgio seguro na vida e principalmente na hora da morte”.

6ª Promessa: “Lançarei bênçãos abundantes sobre os seus trabalhos e empreendimentos”.

7ª Promessa: “Os pecadores encontrarão em meu Coração fonte inesgotável de misericórdias”.

8ª Promessa: “As almas tíbias tornar-se-ão fervorosas pela prática dessa devoção”.

9ª Promessa: “As almas fervorosas subirão em pouco tempo a uma alta perfeição.”

10ª Promessa: “Darei aos sacerdotes que praticarem especialmente essa devoção o poder de tocar os corações mais endurecidos ”.

11ª Promessa: “As pessoas que propagarem esta devoção terão o seu nome inscrito para sempre no meu Coração”.

12ª Promessa: “A todos os que comunguem nas primeiras sextas-feiras de nove meses consecutivos, darei a graça da perseverança final e da salvação eterna”.

Para evitar que tão bela promessa seja tratada de modo supersticioso, é importante que se comungue em estado de graça e que se confie na misericórdia divina, que é o conteúdo da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. A graça da perseverança final, embora não possa ser merecida, é ladeada por esses sinais.

Portanto, a prática das nove primeiras sextas-feiras do mês não é uma mágica, mas uma realidade pedagógica, para que os fiéis se habituem a viver em estado de graça, crescendo na devoção eucarística e na confiança na misericórdia de Deus. Só assim, orando humilde e confiantemente ao Sagrado Coração de Jesus, a alma pode alcançar a graça da penitência final.

A entronização no lar

Entre as doze promessas, duas delas dizem respeito diretamente à família. Aos devotos do seu Sagrado Coração, Nosso Senhor diz : « colocarei a paz em suas famílias ». Ele diz também : « Abençoarei as casas em que a imagem do meu Coração for exposta e honrada. » Se essas promessas relativas à família são importantes em todo tempo, elas são ainda mais importantes nesses tempos atuais, em que o demônio e o mundo atacam tão brutalmente a família.

Foi introduzida, a partir dessas duas promessas, a prática da entronização do Sagrado Coração de Jesus nos lares, para atrair sobre as famílias as bênçãos divinas e a paz de Jesus Cristo. Todavia, não basta expor a imagem do Sagrado Coração. Não basta o simples gesto da entronização, da consagração da família ao Sagrado Coração de Jesus. É preciso procurar vivê-la.

Ao entronizar o sagrado Coração no lar, a família afirma reconhecer Nosso Senhor como o soberano do lar, como o Rei da família. A família se engaja a obedecer às leis de Cristo, seus mandamentos. Ao entronizar o Sagrado Coração de Jesus, a família faz a entrega total de si a Nosso Senhor. Ela se consagra verdadeiramente a Ele. E aos que se consagram com reta intenção ao seu Sagrado Coração, Jesus fez a seguinte promessa: “Ninguém que se consagra ao meu Divino Coração morrerá sem a graça.” Assim, a família deve procurar realmente viver a consagração ao Sagrado Coração de Jesus.

Cada um da família deve procurar ter uma devoção sólida ao Sagrado Coração de Jesus. Em seguida, a família deve ter uma devoção familiar ao Sagrado Coração de Jesus. Os membros da família devem fazer algumas das orações em família diante da imagem entronizada do Sagrado Coração, como, por exemplo, rezar a Ladainha do Sagrado Coração de Jesus em família. Sem essa devoção familiar, não haverá frutos da entronização ou muito pouco fruto.

Assim, essa família poderá suportar com méritos e alegria as fadigas dos deveres quotidianos, os sacrifícios próprios da vida familiar, todas as provações que a Providência enviar. A família encontrará repouso e consolo no Sagrado Coração. A família poderá enfrentar devidamente as cruzes e tirar delas frutos para a glória no céu.

”Queridos filhos, vivendo já neste mundo unidos a Jesus, recebendo-O com frequência na Sagrada Comunhão, venerando todos os dias a Sua imagem, não abandonareis a terra senão para ir contemplar eternamente a luminosa e beatífica realidade deste Divino Coração.”

Papa Pio XII


Referências