Lírio entre espinhos

Uma família católica buscando a santidade

Tag: virtudes

As mortificações para alcançar a paciência

Tempo de leitura: 4 minutos

 

No último post falamos um pouco sobre os meios de  viver a paciência: ir além de suportar, saber esperar, saber calar, saber falar. Hoje trataremos do último meio: as mortificações para alcançar paciência.

Algumas dessas mortificações que podemos oferecer diariamente a Deus:

  • Fazer o esforço de escutar pacientemente a todos (ao menos durante um tempo prudencial), sem deixar que se apague o sorriso dos lábios, nem fazer expressão de tédio ou indiferença;
  • Não andar comentando a toda hora e com todos, sem razão plausível nem necessidade, as nossas dores e mal estares; propondo-nos firmemente a não nos queixarmos da saúde, do calor, do frio, do abafamento no ônibus lotado, do tempo que levamos sem comer nada…;
  • Renunciar decididamente a utilizar frases típicas do dicionário da impaciência: ”Você sempre faz isso”, ”De novo, já é a terceira vez que você faz isso”, ”Outra vez!”, ”Já estou cansado”;
  • Evitar cobranças insistentes e antipáticas e prontificar-nos a ajudar os outros;
  • Não implicar com pequenos maus hábitos dos outros;
  • Saber repetir calmamente as nossas explicações a quem não as entender;
  • Aceitar as contrariedades com alegria;
  • Não reclamar;
  • E tantas outras!

Após identificar as situações que nos impacientam, devemos esforçar-nos por ser pacientes justamente nessas situações específicas. Na maior parte das vezes teremos de dar mais do que o nosso 100%. E justamente por isso a mortificação é um sacrificar-se.

Um pequeno caso

Uma mãe impaciente tornou-se <<rezadora>>. Uma mulher de nervos frágeis tinha se proposto rezar a Nossa Senhora a jaculatória: ”Mãe de Misericórdia, rogai por nós (por mim e por esse moleque danado!)” a cada grito das crianças. Quando começava a ferver uma crise conjugal, tinha igualmente preparada uma oração própria que dizia: ”Meu Deus, que eu veja aí a cruz e saiba oferecer-Vos essa contrariedade! Rainha da Paz, rogai por nós!” E quando ia ficando enervada e ríspida, rezava: ”Maria…., vida, doçura e esperança nossa, rogai por mim!”. Depois, comentava com certo espanto: – Sabe que dá certo? Fico mais calma!. E ficava mesmo, conta o padre Francisco Faus.

“Recomendo que tenhas calma com os filhos, que não lhes dês uma bofetada por uma ninharia. Os filhos ficam irritados, tu aborreces-te, sofres porque gostas muito deles e, ainda por cima, tens de te acalmar. Tem um bocadinho de paciência, chama-lhes a atenção quando já te tiver passado a irritação, e sem ninguém por perto. Não os humilhes diante dos irmãos. Fala com eles apresentando algumas razões, para que se dêem conta de que devem atuar de outra maneira., porque assim agradam a Deus”. (São Josemaria Escrivá)

Quando começamos a meditar sobre as nossas impaciências, descobrimos que a única coisa que as pessoas nos estão pedindo a toda a hora (mesmo quando não nos pedem nada) é precisamente o nosso amor. Na realidade, todos os exercícios de paciência consistem em exercícios de amor.

Padre Francisco Faus diz que ”é possível que, ao voltarem a casa com toda a carga do cansaço do dia, se vá rezando o terço no trânsito ou carreguem consigo um livro de pensamentos espirituais, para lerem e meditarem uma ou outra frase ao pararem no semáforo demorado ou no engarrafamento incontornável. Ao mesmo tempo, vão espremendo os seus cansados miolos, tentando concretizar: “Que iniciativa, que detalhe, que palavra posso preparar para que a minha chegada a casa seja um motivo de alegria para a minha mulher, ou para o meu marido, e para os meus filhos?” E, assim, homens e mulheres cujo retorno ao lar era antes soturno e irritado, tornam-se – em virtude do amor a Deus e aos outros, que se esforçam por cultivar – corações pacientes, que espalham a paz e a alegria à sua volta.”

Como diz Santo Tomás de Aquino, ”manifestum est quod patientia a caritate causatur”: ”é evidente que a paciência é causada pelo amor”, ou, por outras palavras, ”só o amor é causa da paciência”.  Esse grande amor que, com a ajuda da graça divina, nos dá forças para aceitar, sorrindo e com os olhos fixos em Jesus, as pequenas contrariedades e também as grandes dores. Esse grande amor que nos dá energia para sermos fiéis e persistir pacientemente na luta um dia após outro, é o mesmo amor que acende na alma os grandes ideais e nos impele a realizá-los com a maior vibração e prontidão possíveis.

A mesma paciência que aceita,  torna-se divinamente impaciente em seus desejos de amar. Não se atira atabalhoadamente à ação, mas quer andar, como dizia São Josemaria Escrivá, “ao passo de Deus”, ao ritmo das graças e das oportunidades que o Senhor dá, sem nada perder, sem nada atrasar. Tem uma serena e enérgica prontidão em se doar e aceitar aquilo que o Senhor manda.

”A paciência! Não é por certo a virtude que no decorrer do dia se oferece com maior freqüência à mãe de família, qual fruto esplêndido e fecundo? Colhei este fruto celeste avidamente e fazei penetrar até o íntimo da vossa alma. Ele vos fará morrer para vós mesmas! O exercício dessa virtude mudará de fato o curso de vossa vida, para reconduzi-la ao domínio do Pai Celeste. (…) Ah! como a vida das mães, geralmente sobrecarregadas de trabalho e renúncia, tonar-se-ia doce e até mesmo jubilosa, se elas vivessem o seu cristianismo! A dificuldade do momento, longe de ser um obstáculo à sua ascensão, passaria a ser, em vez disso, como um sorriso de Deus, um apelo para o Alto, um motivo a mais de esperança infinita!” (G. Joannés)

O cultivo da paciência é um exercício diário. Muitas vezes, o processo é lento, mas nem por isso devemos desanimar. Deus é extremamente paciente com as nossas limitações. Cabe a nós uma vontade firme de seguir adiante, não importa quão difícil ou quanto demore! A graça de Deus vem sempre em nosso auxílio! Peçamos incessantemente ao bom Deus que nos dê um coração dócil, terno, ”manso e humilde”, semelhante ao de Nosso Senhor.

Referências

São Josemaria Escrivá, Bell-lloc del Plá (Gerona), 24-XI-1972

A paciência, padre Francisco Faus

Padre Paulo Ricardo

Suma Teológica, Santo Tomás de Aquino

Os meios para se viver a paciência

Tempo de leitura: 6 minutos

“Vale mais ter paciência do que ser valente; é melhor saber se controlar do que conquistar cidades inteiras” (Provérbios 16,32).

Não há uma fórmula mágica para viver a paciência, principalmente se o egoísmo tem raízes em nosso coração. Mas, se há amor, então vão nos ocorrendo mil maneiras de exercitar a paciência. Quem luta por viver em Deus, sabe que o amor cristão é movido por duas asas: a da oração e a da mortificação. Por isso, todo o exercício da paciência comportará necessariamente o movimento de uma dessas asas, ou, o que será mais frequente, de ambas ao mesmo tempo.

Santo Afonso de Ligório nos diz:  “Não nos irritemos com nenhum incidente; se às vezes nos vemos surpreendidos pela raiva, recorramos logo a Deus, e abstenhamo-nos de agir e falar, até termos a certeza de que já foi embora”. Quando nos sentimos à beira de uma crise de impaciência, devemos fazer o esforço de nos calarmos. Melhor será fazer o sacrifício de guardar silêncio, de sair, se for preciso, de perto do foco do atrito e de rezar bem devagar alguma oração, como, por exemplo o Pai Nosso. Após essa oração, que pode ser também uma sequencia de jaculatórias, de invocações breves, pedindo paciência a Deus e já com a alma mais tranquila, poderemos discernir o que nos convém fazer. Não duvidemos que o esforço de guardar silêncio, unido ao esforço de fazer oração, sempre conduzirá para a paciência real e prática.

Ao lado da oração, mas sem deixá-la de lado, exercitamos a paciência por meio da prática voluntária, consciente, amorosa, de um sem fim de pequenos sacrifícios que são uma gota de paz, de afabilidade, de bondade, sobre as incipientes ebulições da impaciência.

Falando de forma mais prática

a) É preciso aprender a ir além de suportar

Papa Bento XVI falava dessa sabedoria: ”A paciência é o rosto cotidiano do amor. Nela, a fé e a esperança também estão presentes. Porque, sem a esperança que vem da fé, a paciência seria apenas resignação e perderia o dinamismo que a faz ir além do esforço de suportar uns aos outros, para ir ao esforço de ser uns o suporte dos outros. Jesus conduz-nos para a paciência que suporta e apoia o outro”.  É isso o que são Paulo nos pede na Carta aos Gálatas: ”Levai os fardos uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo” (Gl 6,2).

Na maioria das vezes sequer chegamos ao ponto de suportar. Precisamos ser realistas, pois é bem verdade que tudo nos incomoda e na maioria das vezes nem pensamos em quanto somos capazes de incomodar os outros também. Quanto mais nos recordarmos de nossas misérias e nos esforçarmos em sofrer as demoras, os nossos egoísmos, as nossas irritações, tanto mais nos assemelharemos ao Cristo, que tudo suportou por amor a nós. E, acredite, tanto mais fácil será a vida em família.

Se cada um esforçar-se em suportar o outro e melhorar a si mesmo, a harmonia familiar será sempre fácil de alcançar. O problema é que preocupamo-nos mais em corrigir o outro do que a nós mesmos, em reclamar das situações do que suportá-las ou resolvê-las. Um simples exemplo: se todos os dias ao invés de gastar meia hora reclamando com meu esposo do sapato que fica na porta eu simplesmente pegá-lo e guardá-lo, terei economizado 29 minutos, evitado estresse e ainda crescido em humildade e sacrifício. E, mais, por experiência própria: na maior parte das vezes conseguimos algo dando o exemplo e não através das palavras.

Se a impaciência vem da nossa incapacidade de sofrer, suportar é nosso ato voluntário de aceitar sofrer e  não só isso, mas sofrer com amor. Não dá para aceitar sofrer com cara feira, emburrada, com indiretas, com vitimismo. E isso também não é algo que se consiga do dia para a noite, mas é fundamental que possamos ser sinceros e identificarmos essa coisas em nós que precisam ser melhoradas.

Além disso, devemos esforçar-nos em suportar as situações onde não há solução e oferecer amor. Como em caso de adultério, é sempre necessário ir além de suportar. É preciso perdoar. Também aos filhos, com suas dificuldades e incapacidades, que exigem de nós muitas vezes mais do uma boa dose de paciência.

b) É preciso saber esperar

”Sede pacientes, irmãos. Vede como o lavrador aguarda o precioso fruto da terra e tem paciência até receber a chuva temporã e a tardia. Tende também vós paciência e fortalecei os vossos corações” (Tg 5,7-8).

São Josemaria fala dessa sabedoria: ‘‘Quem sabe ser forte não se deixa dominar pela pressa em colher o fruto da sua virtude; é paciente. A fortaleza leva-o a saborear a virtude humana e divina da paciência… E é esta paciência a que nos leva também a ser compreensivos com os outros, persuadidos de que as almas, como o bom vinho, melhoram com o tempo”.

Muitos casamentos passam por grandes crises porque os esposos ocupam-se demais em mudar o outro. Além disso, nós, mulheres, somos especialistas em ocupar-nos com ninharias. Não nos casamos com uma pessoa perfeita e nem nós somos esta pessoa perfeita para o outro. É preciso aprender a ajudar o outro a crescer, o que não significa que ele será como eu espero que ele seja. Cada pessoa é única e irrepetível, somente Deus sabe o que é melhor para ela.

Se estamos diante de uma falta grave, devemos corrigir as pessoas com amor e oferecer uma solução para remediar aquele problema. Não é com brigas, gritos, discussões e reclamações cotidianas e frequentes que a mudança vem. Além disso, precisamos saber esperar o tempo de que as flores floresçam e os frutos possam ser colhidos. Muitas vezes não teremos a graça de colhê-los. Recordo-me bem do exemplo da Elisabeth Leseur que tendo uma vida interior intensa e profunda, morreu sem ver seu esposo convertido. Mas, após sua morte, ao ler seu diário espiritual, ele se converteu e tornou-se sacerdote. Deus tem seus caminhos.

Além disso, esperar também no sentido de viver o sofrimento que se manifesta em forma de dificuldade, como uma doença, um imprevisto, e tantas outras coisas, com serenidade.

c) É preciso saber calar

Como é importante calar quando a ira ou a impaciência fervilham dentro de nós. «Não repreendas quando sentes a indignação pela falta cometida. – Espera pelo dia seguinte, ou mais tempo ainda. – E depois, tranquilo e com a intenção purificada, não deixes de repreender. – Conseguirás mais com uma palavra afetuosa do que com três horas de briga» (São Josemaria Escrivá)

Falar, retrucar e cair no bate-boca: por não saber calar é que vem o descontrole e a briga.

Paciência, escreveu Papa Francisco, “não é deixar que nos maltratem permanentemente, nem tolerar agressões físicas, ou permitir que nos tratem como objetos”, mas “o amor tem sempre um sentido de profunda compaixão que leva a aceitar o outro como parte deste mundo, também quando atua de um modo diferente ao qual eu desejaria”. “O problema surge quando exigimos que as relações sejam idílicas, ou que as pessoas sejam perfeitas, ou quando nos colocamos no centro e esperamos que se cumpra unicamente a nossa vontade. Então tudo nos impacienta, tudo nos leva a reagir com agressividade.”

d) É preciso saber falar

Quando a impaciência nos ataca, a primeira coisa que deveríamos fazer, depois de esforçar-nos por calar, é falar com Deus. Nunca falemos só “conosco”, com esses debates íntimos da imaginação esquentada, que só aumentam a fúria e a amargura íntima. Menos ainda falemos, irados, com a pessoa que provocou a impaciência, querendo mostrar-lhe que nós temos razão e ela não.

Primeiro, portanto – e às vezes por muito tempo –, falemos com Deus, fazendo oração: procurando ver com Ele a verdadeira dimensão das coisas, pedindo-lhe forças para carregar a Cruz com serenidade, suplicando-lhe que nos comunique um pouco da paciência com que Cristo enfrentou o juízo iníquo, o caminho da Cruz e a crucifixão.

Experimentemos também invocar a nossa Mãe, Maria Santíssima, dizendo-lhe: “Rainha da paz, rogai por nós!”

E também será oportuno, muitas vezes, falar com quem nos possa orientar espiritualmente e aconselhar a melhor maneira de santificar as contrariedades.

O último meio são as mortificações da paciência. Esse é o assunto do próximo post!

 

Referências

Caminho, São Josemaria Escrivá

Amigos de Deus, São Josemaria Escrivá

A paciência, padre Francisco Faus

Padre Paulo Ricardo

Suma Teológica, Santo Tomás de Aquino

Homilia, Papa Francisco

A virtude da paciência

Tempo de leitura: 4 minutos

“As virtudes domésticas, que se baseiam no respeito profundo da vida e da dignidade do ser humano e concretizam-se na compreensão, na paciência, no encorajamento e no perdão mútuo, dão à comunidade familiar a possibilidade de viver a primeira e fundamental experiência de paz.” – São João Paulo II

A palavra paciência deriva do latim ‘pati’, que significa padecer. Por isso, a virtude da paciência é a capacidade de padecer ou a arte de sofrer bem.

É bom esclarecer que a irritação, a raiva ou a cólera não fazem parte da impaciência, ainda que muitas vezes a acompanhem, mas sim, da ira. É verdade que a impaciência e a ira andam de mãos dadas em nosso cotidiano, mas a impaciência se dá simplesmente quando não sabemos aceitar ou aceitamos de má vontade aquilo que nos contraria ou nos faz sofrer.

A impaciência com muita frequência aflora em forma de queixas internas (lamentações, vitimização), de reclamações ásperas ou lamurientas com os outros, de cobranças insistentes, de suspiros lastimosos, de trejeitos e desabafos reveladores de cansaços morais, como por exemplo as frases célebres: ”Já não suporto mais!” ”Cheguei ao meu limite!” Além disso, os comentários de desânimo e os olhares de tristeza são frutos da impaciência. Um dos principais efeitos da paciência, como ensina Santo Tomás, é expulsar a tristeza do coração.

Em nossa realidade de esposos e pais, quantas vezes somos impacientes? Com as contrariedades adversas do dia, como o trânsito caótico, a chuva que chegou de repente, o trabalho que não saiu como planejado; as com o cônjuge, como a pasta de dentes que fica tantas vezes aberta, o sapato que dificilmente é guardado no lugar certo; e com os filhos, que quebram alguma coisa, que gritam, que choram, que derramam comida na roupa limpa e tantas outras infinidades de situações que nos acometem não raras, mas muitas vezes por dia!

A ira é diferente da impaciência

Todos conhecemos, por experiência própria, a força tremenda da ira (a nossa e a dos outros).  As iras cotidianas nós as conhecemos bem: “Explodi”, “Não aguentei”, “Esse vai me ouvir” e tantas mais. Expressões quase sempre somadas a gritos, palavrões e injúrias.

Santo Tomás, de acordo com Aristóteles, menciona três tipos de ira ruim (Existe ira boa? Sim! Mas esse é um tema para outro post!) :

A ira aguda: É a da pessoa que se irrita logo por qualquer motivo leve.

A ira amarga: É a da pessoa que guarda a ira por muito tempo e não a tira da memória. Chama-a ira encerrada nas vísceras (“inter viscera clausa”).

A ira difícil ou vingativa: A dos que não param até darem o troco, se possível, em dobro.

Santo Tomás não teoriza. Conhece o ser humano. E em alguma dessas classificações provavelmente nós nos reconhecemos.

Quando alguém se deixa levar pela ira é porque perdeu o controle emocional. A pessoa irada não tem autodomínio e extravasa sua revolta por meio do grito (como os terríveis gritos das mães e dos pais desgovernados), do tapa, da injúria, do palavrão, do comentário ofensivo e grosseiro, da ”patada”, das atitudes impulsivas (virar as costas e sair no meio de uma conversa, por exemplo), ou da violência (como bater uma porta com força ou até mesmo sacar uma arma e atirar).

É muito comum considerar hoje em dia que o modelo de paciência seja um comportamento manso (sem ira) que, na realidade, é um exemplo da mais perversa impaciência ou até mesmo de uma moleza. Como, por exemplo, casais que se separam após poucos ou muitos anos de matrimônio e, fazendo alarde de uma pretensa <<maturidade>> se gabam de que <<não brigaram>>. Por trás de tanta calma, o que é que houve? Uma elementar incapacidade de sofrer.

Descobrir o que nos impacienta

O defeito da impaciência costuma ser <<especializado>>. Cada um de nós tem as suas impaciências particulares. Pode ser que sejamos impacientes em escutar o próximo, que não gostamos de ser interrompidos, que não saibamos esperar e tantos outros.

A atitude que muitos tem diante da vida é radicalmente egoísta. O mundo é <<para mim>>. Mesmo os amores são vistos como meio de obter benefício pessoal. É por isso que muitos casamentos acabam baseados na desculpa de que <<não gostamos mais>>.  A maior parte das nossas impaciências são apenas egoísmos contrariados.

O papa São Gregório Magno (século VI) dizia em uma Homilia sobre Ezequiel: «Se eu não faço o esforço de suportar o teu caráter, e se tu não te preocupas de suportar o meu, como poderá levantar-se entre nós o edifício da caridade se o amor mútuo não nos une na paciência»?

Se queremos edificar um lar harmonioso, precisamos começar por nós mesmos. Trazemos em nós uma desordem: o egoísmo. Queremos sempre nos vitimizarmos por todas as coisas e falta-nos energia e ânimo de caráter para por-nos a serviço dos demais. Parece que estamos sempre a lutar por uma igualdade, onde todos devem dar a mesma medida. Mas, a grande verdade é que, para nós, que desejamos os altos cumes da santidade, só encontramos uma medida para amar e servir: dar não muito, mas tudo; não só uma parte, mas a vida. Porque este é o exemplo que tomamos de Nosso Senhor que deu-se todo por nós.

No próximo post tratarei de forma prática como podemos viver a virtude da paciência.


 Referências

Suma Teológica, Santo Tomás de Aquino

A paciência, Pe. Francisco Faus

Por que falhamos em sermos santos?

Tempo de leitura: 5 minutos

A vocação universal à santidade foi revelada por nosso Senhor no sermão da montanha quando disse “Sedes perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”(Mt 5, 48). Ele não falava apenas para seus apóstolos e, portanto, bispos da Igreja, mas a todos que lhe ouviam, logo, todos nós. Também o Concílio Vaticano II, na constituição dogmática Lumen gentium nos dá as razões do chamado universal à santidade:

  1. Exigências do batismo – temos o dever de desenvolver a graça recebida.
  2. O primeiro mandamento – que nos obriga a “amar a Deus com todo o coração, com toda a alma, com toda a mente e com todas as forças” (Mc 12, 28-30), que, se cumprido fielmente, consiste precisamente na santidade.
  3. Devido ao mandamento de nosso Senhor no sermão da montanha.

É claro que este dever é da busca sincera da santidade (que é o trabalho de uma vida!) e não sermos santos aqui e agora. Contudo, observando a realidade de nosso tempo, vemos que, mesmo dentro da Igreja, é difícil encontrar pessoas detentoras de virtudes heroicas. Segundo o padre Antonio Royo Marín, a principal razão é que nós não empregamos os meios necessários para alcançar a santidade.

Estes meios podem ser divididos em dois grupos:

  1. Naturais
    1. Falta de energia de caráter.
  2. Sobrenaturais
    1. Falta do verdadeiro desejo de santidade.
    2. Falta ou deficiência de direcionamento espiritual.

Falta de energia de caráter

A Graça divina pode encontrar obstáculos naturais para agir em nós e é nosso dever acabar com estes obstáculos naturais (de ordem psicológica, emocional ou mesmo física) para recebermos as graças que Deus nos tem reservado. O principal obstáculo de ordem natural para alçar vôos mais altos na vida espiritual é justamente a falta de energia de caráter. Vivemos em uma geração de homens e mulheres incapazes de se esforçar minimamente para alcançar qualquer objetivo que seja um pouco penoso.

Isso se vê claramente em vários aspectos das pessoas da nossa geração, dentre tantos:

  • Incapacidade de tomar decisões sérias e permanentes: muitos acabam pulando de curso em curso, presos numa eterna adolescência em que, sustentados pelos pais, esperam em suas camas confortáveis por um emprego que cairá do céu ou por um cargo público que seja digno dele.
  • Busca incessante pelo prazer: o que também se mostra na incapacidade de sofrer, mesmo que minimamente. Vemos mulheres que desmaiam só de pensar num parto normal (mesmo que seja muito melhor para ela e para o filhos) e homens que não querem nem saber de serem pais (ainda mais depois de descobrirem que precisam ficar acordados à noite e que fraldas não se trocam automaticamente).

Devemos, como nos exorta Santa Teresa, buscar a fonte de água viva com determinada determinação! Só assim a Graça divina poderá agir em nós.

Falta do verdadeiro desejo de santidade

Este motivo se relaciona bastante com o anterior, mas enquanto aquele é natural, este é sobrenatural. O verdadeiro desejo de santidade tem algumas características fundamentais e é bom citá-las para que possamos fazer uma reflexão sobre nossa caminhada espiritual.

O verdadeiro desejo de santidade é sobrenatural, ou seja, provém de Deus e tem por objetivo Sua maior glória e a salvação das almas e, por isso, deve ser profundamente humilde, sabendo que tudo provém de Deus e que, se dependêssemos somente de nossas forças seríamos os mais desprezíveis pecadores.

Uma característica do verdadeiro desejo de santidade que muito nos falta é a confiança completa em Deus, é esta característica que nos fará seguir crescendo espiritualmente mesmo diante das grandes dificuldades que certamente surgirão. É aqui que muitos de nós falhamos em nos conformarmos em Cristo.

Muitas vezes Deus nos pede provas de nosso amor por Ele, como fez com Abraão ao pedir-lhe o sacrifício de seu amado filho (Gen 22). Abraão teve de mostrar que seu amor a Deus era maior até mesmo que seu amor pela vida de seu filho. Reparem que esta prova vai muito além de deixar de pecar: devemos colocar em prática a completude do primeiro mandamento desejando a santidade acima de todas as coisas!

Na vida espiritual, quem não avança regride. Logo, nada de descansar! Quem dá desculpa de tirar férias da vida espiritual acaba por deixar a vontade fraca e, por conta disso, tem maiores dificuldades para retornar ao ponto em que estava. Portanto, sempre em frente, ou, como diria meu amigo Pier Giorgio Frassati,Verso l`alto!

A falta de regularidade também é um grande inimigo da busca pela santidade, muitas pessoas, ao saírem de retiros ou exercícios espirituais, tem grandes intuitos e propósitos que acabam sendo deixados de lado às primeiras dificuldades. É importantíssimo ter constância na vida espiritual!

A última característica do verdadeiro desejo de santidade é que ele deve ser prático e eficaz. Deve-se dispor de todos os meios aqui e agora para ser santo! Muitas vezes vamos deixando pra depois, para depois das férias, para depois da faculdade, para depois de curada minha doença. De adiamento em adiamento a vida passa e acabaremos por nos apresentar a Deus de mãos vazias das graças que não quisemos receber.

Falta ou deficiência de direcionamento espiritual

Quando observamos a vida dos grandes santos de nossa amada Igreja percebemos que, a grande maioria deles, contava com um diretor espiritual de grandes virtudes!

As características de um bom diretor espiritual já foram tratadas num excelente texto do nosso pai espiritual. Resumidamente, ele deve ser um sacerdote sábio, discreto, experiente, ciente de teologia, intensamente piedoso, humilde e, claro, zeloso pela santificação das almas! Sei que não é fácil encontrar sacerdotes assim, infelizmente (foi por este motivo que nos mudamos de cidade quando nos casamos). São João da Cruz afirma que:

“Para este caminho, ao menos para o que nele há de mais elevado, e ainda mesmo para o mediano, dificilmente se achará um guia cabal que tenha todos os requisitos necessários.”

Deve-se pedir, suplicar a Deus que lhe envie um santo diretor espiritual para ajudar na salvação de sua alma, que é a missão mais importante de nossas vidas!

Vejamos alguns santos que tiveram diretores espirituais também santos: Santa Joana de Chantal teve como diretor espiritual São Francisco de Sales e depois São Vicente de Paulo.  São Vicente de Paulo foi também diretor de S. Luisa de Marillac. Santa Gema teve um diretor santo: o Padre Germano é Venerável e está a caminho dos altares. São Paulo da Cruz foi diretor da Venerável Madre Crucifixa – cofundadora das passionistas e da Venerável Lucia Burlini que era leiga. O Beato Miguel Sopocko foi diretor de Santa Maria Faustina Kowalska. São Cláudio de la Colombiere foi diretor de Santa Margarida Maria Alacoque. No início da sua vida espiritual, Santa Teresa foi muito ajudada por S. Pedro de Alcântara. O Servo de Deus Padre Arintero foi diretor da Ven. Madre Maria Amparo e da Ven. Madre Madalena. E não podemos nos esquecer do grande São João Bosco que teve por diretor espiritual São José Cafasso!

Portanto, é de suma importância que se tenha direcionamento espiritual adequado. Hoje em dia as tecnologias de telecomunicações ajudam bastante visto que a direção espiritual pode ser feita à distância.

Espero que este texto tenha sido de ajuda para reconhecer em que estamos errando na busca pela perfeição cristã, para que, corrigindo, possamos alcançar o fim de nossa vida que é nos assemelharmos a Cristo Nosso Senhor!


Referências

Elogio da mulher forte

Tempo de leitura: 10 minutos

“Uma mulher virtuosa, quem pode encontrá-la? Superior ao das pérolas é o seu valor. Confia nela o coração de seu marido, e jamais lhe faltará coisa alguma. Ela lhe proporciona o bem, nunca o mal, em todos os dias de sua vida. Ela procura lã e linho e trabalha com mão alegre. Semelhante ao navio do mercador, manda vir seus víveres de longe. Levanta-se, ainda de noite, distribui a comida à sua casa e a tarefa às suas servas. Ela encontra uma terra, adquire-a. Planta uma vinha com o ganho de suas mãos. Cinge os rins de fortaleza, revigora seus braços. Alegra-se com o seu lucro, e sua lâmpada não se apaga durante a noite. Põe a mão na roca, seus dedos manejam o fuso. Estende os braços ao infeliz e abre a mão ao indigente. Ela não teme a neve em sua casa, porque toda a sua família tem vestes duplas. Faz para si cobertas: suas vestes são de linho fino e de púrpura. Seu marido é considerado nas portas da cidade, quando se senta com os anciãos da terra. Tece linha e o vende, fornece cintos ao mercador. Fortaleza e graça lhe servem de ornamentos; ri-se do dia de amanhã. Abre a boca com sabedoria, amáveis instruções surgem de sua língua. Vigia o andamento de sua casa e não come o pão da ociosidade. Seus filhos se levantam para proclamá-la bem-aventurada e seu marido para elogiá-la. Muitas mulheres demonstram vigor, mas tu excedes a todas. A graça é falaz e a beleza é vã; a mulher inteligente é a que se deve louvar. Dai-lhe o fruto de suas mãos e que suas obras a louvem nas portas da cidade.” (Provérbios 31, 10-31)

O que significa uma mulher forte?

“Uma mulher forte, quem poderá encontrá-la? Superior ao das pérolas é o seu valor.”

O primeiro louvor para a boa mulher é dizer que ela é coisa rara, ou seja, dizer que é preciosa e excelente, digna de ser muito estimada, porque tudo aquilo que é raro é precioso.
Mulher forte, quando traduzida do grego, significa mulher varonil. Frei Luis de León, em A perfeita casada, que é um comentário desse poema aplicado as esposas de seu tempo, usou a expressão “mulher de valor”. Valor no sentido de ânimo, que move a abraçar resolutamente grandes ideais e a enfrentar os perigos. Quer dizer virtude de ânimo e fortaleza de coração, um ser perfeito e completo naquelas coisas a quem essa palavra se aplica. Não é insegura, mas sim senhora de si e de seus princípios. E tudo isso tem como um tesouro em si quem é boa mulher e não o é quem não o tem. Não devemos entender o valor de força como força física, mas sim como a virtude cardeal da fortaleza, com a firmeza e o esforço da alma. Exatamente no mesmo sentido usava Santa Teresa quando pedia que suas monjas parecessem “fortes varões”.

Com grandíssima verdade, o Espírito Santo não chamou a mulher apenas de “boa” mas sim de mulher “de valor”. Isso significa dizer que a mulher boa é mais do que boa e que isso que dizemos como boa é uma forma mediana de falar, que não expressa aquela excelência que há de ter e tem em si a mulher boa.
Dizer mulher perfeita, no fundo, é como dizer a ‘mulher-mulher’: a mulher realmente como tal. Não se refere tanto a um papel ou outro senão a sua essência feminina.

Uma boa mulher é um acúmulo de riquezas, e quem a possui é rico só com ela e somente ela pode fazê-lo venturoso e afortunado; o marido há de levá-la sobre sua cabeça, e o melhor lugar no coração do homem deve ser para ela, ou, para dizer melhor, todo seu coração e sua alma; e há de entender que ao tê-la, tem um tesouro geral para todas as diferenças de tempos que é a varinha de virtudes, como dizem, que em qualquer tempo e conjuntura responderá com seu gosto e preencherá seu desejo; que na alegria tem nela doce companhia com quem acrescentará seu prazer, comunicando-o; e na tristeza, amoroso consolo; nas dúvidas, conselho fiel; nos trabalhos, repouso; nas faltas, socorro; e medicina nas doenças, aumento de seus bens, vigia de sua casa, mestra de seus filhos, provedora de seus excessos; e finalmente, nas boas e más situações, na prosperidade e adversidade, na idade florida e na velhice cansada, e, durante toda a vida, doce amor, paz e descanso.

Temos aqui um bom fim ao que deve apontar a educação feminina: formar mulheres fortes, mulheres de valor e não simplesmente mulheres boas, que, apesar de não ser algo pejorativo, dá a ideia de conformar-se com pouco.

Mulher de confiança

“Nela confia o coração de seu marido.”

Desta mulher perfeita, a primeira virtude que o poema traz é que é uma pessoa de confiança. Confiar, aqui, tem um sentido intenso, entendido como “depositar a confiança”. O marido pode descansar o coração em sua mulher.

Ser uma pessoa de confiança é algo muito importante na vida. Uma pessoa de confiança é alguém que sabemos que busca o nosso bem e, sobretudo, protege-nos e não nos abandona no perigo. É alguém que se arrisca por nós e não falha quando precisamos.

Para que se possa colocar a confiança em uma pessoa, esta deve estar revestida de qualidades que a façam confiável. A primeira coisa é o respeito e o amor pela verdade. Em segundo lugar, o respeito pela justiça, honestidade, pela fama do próximo e seus bens, a sinceridade, etc. Se a mulher não possui honestidade, não é mulher. A mulher que não é honesta é torpe e abominável.

Não se pode confiar em uma pessoa que tem discurso dúbio, que recorre às meias verdades ou mentiras, que é caluniadora. Uma pessoa de confiança é alguém honesto, reto e responsável. Alguém a quem confiaríamos o que temos de mais preciosos com a segurança e a certeza de que o cuidaria como nós cuidamos.

Para educar pessoas de confiança é imprescindível saber delegar com confiança, encarregar coisas e supervisionar sem invadir. Se não confiamos, nunca forjaremos corações confiáveis.

A mulher deve ser honesta e simples no seu proceder, nas suas palavras, nos pensamentos para consigo mesma e para com os outros. Simples para fazer de Deus seu objetivo, para se apoiar em Deus como meio, para reconhecer que nada pode fazer por si mesma; e na maneira de se portar, de se vestir e de se adornar.

Econômica

“Não lhe farão falta os despojos.”

É próprio da mulher poupar. Por isso é chamada de economia do lar.

Bondosa

‘’Pague-lhe com bem, não com mal, todos os dias de sua vida.’’

O ofício natural da mulher é que ajude o homem. A mulher deve ser o reduto da bondade para com todos. Deve ser o doce e perpétuo descanso, a alegria do coração e um agrado tênue.

A mulher deve ser terna. A ternura é o amor que se manifesta na doçura e delicadeza dos gestos, do olhar, da presença amorosa.

Significa que a mulher deve se esforçar, não para causar problemas ao marido e sim para livrá-lo deles e em lhe ser perpétua causa de alegria e descanso. Porque, que vida é a daquele que vê consumir seu patrimônio nos desejos de sua mulher, que seu trabalho é levado todos os dias pelo rio, pelo esgoto, que tomando cada dia novos caminhos, crescendo continuamente suas dívidas, vive vil, escravo, aferrado ao joalheiro e ao mercador?

Deus, quando quis casar o homem, dando-lhe a mulher, disse (Gênesis, 2): “Façamos-lhe um ajudante que seja semelhante”, de onde se entende que o ofício natural da mulher, e o fim para o qual Deus a criou, é para que ajude seu marido e não para que seja sua calamidade e desventura: ajudante e não destruidora. Para que o alivie nos trabalhos que acarreta a vida de casado, e não para que acrescente novas cargas. Para repartir entre si os cuidados, tomar sua parte. E finalmente, não as criou Deus para que sejam rochas onde quebrem os maridos e naufraguem os bens e as vidas, e sim portos desejados e seguros onde, chegando em suas casas, repousem e se refaçam das tormentas dos trabalhos pesadíssimos que realizam fora delas.

Como dissemos, de cuidar de sua casa e de alegrar e distrair continuamente seu marido, nenhuma má condição dele a desobriga; mas não por isso devem pensar eles que têm permissão para ser ferozes com elas e fazê-las escravas; antes como em todo o resto o homem é a cabeça, por isso todo esse tratamento amoroso e honroso deve partir do marido; porque há de entender que é sua companheira, ou melhor dizendo, parte de seu corpo e a parte fraca e tenra, e a quem pelo mesmo motivo se deve particular cuidado e zelo.

Ainda há nisto outro inconveniente maior: como as mulheres são menos enérgicas, e pouco inclinadas às coisas que são de valor, se não as alentam, quando são maltratadas e não levadas em conta pelos maridos, perdem o ânimo e não conseguem colocar as mãos nem o pensamento em alguma coisa, por melhor que seja.

O marido sensato não deve oprimir nem envilecer com más obras e palavras o coração da mulher que é frágil e modesto, mas ao contrário, com amor e com honra há de elevá-la e animá-la, para que sempre conceba pensamentos honrosos. E a mulher, como dissemos acima, foi dada ao homem para alívio de seus trabalhos, e para repouso e doçura e afago, pela mesma razão e natureza pode ser tratada por ele de modo doce e afetuoso porque não se consente que se despreze alguém que lhe dá conforto e descanso, nem que traga guerra perpétua e sangrenta com aquilo que tem o nome e o ofício da paz.

Laboriosa

‘’Ela procura lã e linho e trabalha com mão alegre. Semelhante ao navio do mercador, manda vir seus víveres de longe. Levanta-se, ainda de noite, distribui a comida à sua casa e a tarefa às suas servas. Ela encontra uma terra, adquire-a. Planta uma vinha com o ganho de suas mãos. Cinge os rins de fortaleza, revigora seus braços. Põe a mão na roca, seus dedos manejam o fuso. Vigia o andamento de sua casa e não come o pão da ociosidade.’’

A preguiça é a mãe de todos os vícios. Na ordem espiritual a preguiça é filha da ascídia, e faz estragos, como nos fizeram notar os padres do deserto.

Laboriosidade não significa somente trabalhar, senão que trabalhar com gosto, que se ame o trabalho. Isso é o que significa “com mãos diligentes”, ou, como diz outra tradução, “suas mãos trabalham com gosto”. A mulher elogiada no poema é uma pessoa que não está quieta: se senta, tece, vende, sabe comercializar e planta.

Há que se ensinar a trabalhar e a amar o trabalho. Há que se ensinar a trabalhar bem. Não se transforma o mundo sem um bom trabalho. Temos que trabalhar para crescer em perfeição e nos santificarmos e isso só acontece quando se faz bem o que se tem que fazer. Hoje em dia perdeu-se notavelmente a cultura do trabalho, porque se trabalha unicamente na medida em que seja necessário ganhar algo.

Há ainda uma falsa ideia de que somente trabalha a mulher que se emprega fora de casa. As tarefas de dona e senhora de sua casa não são consideradas como um trabalho. Muitas mulheres acabam saindo de casa para trabalhar não por necessidade, mas procurando realizar-se, desconhecendo, assim, o trabalho que mais as realiza segundo seu gênio feminino. Precisamente, a laboriosidade que elogia o poema sagrado é a que a mulher exerce no âmbito maravilhoso do mundo caseiro a que ela está chamada a transformar em paraíso familiar.

Não diz que o marido comprou linho para que ela lavrasse, mas que ela o procurou para mostrar que a primeira parte de ser prendada é saber aproveitar o que tem em casa.

Tenha valor a mulher e plantará a vinha; ame o trabalho e acrescentará em sua casa, ponha as mãos no que é próprio de seu ofício e não se despreze dele, e crescerão suas riquezas; não amoleça, nem se faça de delicada, nem tenha por honra o ócio, nem por estado o descuido e o sono, mas ponha força em seus braços e acostume seus olhos ao desvelo, e saboreie o trabalho e não se prive de pôr as mãos no que se refere ao ofício das mulheres, por baixo e miúdo que seja, e então verá quanto valem e onde chegam suas obras.

Oração e esperança escatológica

“Não se apaga de noite a sua lâmpada.”

Quem não associa essa expressão com a parábola das jovens prudentes? As jovens prudentes mantiveram a lâmpada acesa, estiveram alertas em oração esperando a chegada do Esposo Celestial. Jesus, com aquela parábola, nos incitava a orar constantemente e a estar preparados, vivendo em graça, porque em qualquer momento se pode apresentar a nossa porta o “Senhor que vem”.

Devemos ter os olhos levantados em direção ao horizonte e um pouco ainda mais alto, como quem espera a alguém que há de vir de longe e do alto. Devemos tender sempre à Eternidade, conscientes de um juízo final e convencidas de que este mundo, com suas aparências, passa depressa e que a verdadeira vida começa depois desta.

Se não conseguirmos isso, seremos pessoas ancoradas no mundo, homens e mulheres fincados no mundo temporal, cidadãos da cidade terrena. Mundanos.

Misericordiosa

‘’Estende os braços ao infeliz e abre a mão ao indigente.’’

O mundo em que vivemos é um mundo anti-solidário, duro de coração. Precisamos de mulheres capazes de privar-se do seu apara ajudar aos demais, capazes de sacrificar seu tempo, seus bens, suas coisas.

Deixa bem aos seus

“Seu marido é bem considerado nas portas.”

A Sagrada Escritura louva muito a mulher que deixa seu marido bem e se lamenta muito do pobre marido que não pode apresentar-se em público porque todos o zombam pela mulher que tem.

Sábia

“Abre sua boca com sabedoria”.

Ao contrário do que se pensa de que a mulher ocupa-se apenas com o funcionamento do lar e mal tem tempo ou interesse de estudar, a mulher de Provérbios não só era sábia porque tinha conhecimento, mas também por sua experiência e vigilância dos preceitos divinos.

Para dar um bom conselho, para corrigir bem aos filhos, fazer bons pedidos, negociar, educar, se relacionar com os familiares e amigos, para tudo isso é necessário que a mulher abra a sua boca com sabedoria e não com coisas torpes, sujas, indecentes, maldosas.

Caridosa

“Lição de amor há em sua língua.”

A mulher de provérbios não usa seu dom de falar para insultar as pessoas, difamá-las, provocá-las, gerar contendas, confusões, intrigas, maledicências, fofocas, mentiras, e por aí vai. Também não murmura ou reclama. Da boca da mulher deve sair nada menos que uma Lição de Amor.


Referências

As pequenas virtudes do lar

Tempo de leitura: 5 minutos

O matrimônio e a família não carecem de dificuldades. Reconhecia com honestidade Paulo VI: “Não é nossa intenção ocultar as dificuldades, as vezes graves, inerentes à vida dos cônjuges cristãos; para eles, como para todos, estreita é a porta que leva à Vida. A esperança desta vida deve iluminar seu caminho enquanto se esforçam animosamente para viver com prudência, justiça e piedade no tempo presente, conscientes de que a forma deste mundo é passageira” – Humanae Vitae, 25.

Os conflitos mais duros se dão no plano dos afetos e das vontades. Talvez sejam receios, desconfianças, discussões, rancores, faltas de perdão. Talvez se trate de faltas morais graves como infidelidade, mentiras, violências, fortes discussões, etc. Contudo, com frequência, os atritos são de ordem menor, ainda que possam terminar ocasionando sérios danos, rachaduras familiares, incluindo dolorosas separações. Não deveríamos estranhar que pequenos atritos façam tão mal ao casamento visto que pequenas rachaduras, quando não cuidadas a tempo, terminam por causar grandes desabamentos. Mesmo que não cheguem a tanto, são suficientes para tornar a vida familiar amarga e, certamente, são um obstáculo sério para a felicidade.

Onde há dois, há material suficiente para uma discussão

Não busquemos desculpas sem sentido para justificar discussões. “É que pensamos diferente” – dizem. E onde é que vamos encontrar duas pessoas que pensem exatamente igual em tudo? Se a harmonia dependesse disto não haveria esperança de concórdia nesta vida. Não há duas pessoas exatamente iguais nesta vida, é justamente por isso que as pessoas se casam! Não há duas coisas mais diversas do que uma chave e uma fechadura, e trabalham perfeitamente juntas!
Podemos concluir daqui que os principais problemas familiares e matrimoniais não são psicológicos e de temperamentos (ainda que causem distúrbios) mas sim, espirituais. Dito de outro modo, são problemas de virtudes. De um dos dois ou dos dois.

E isto tem solução? Claro que sim! uma solução fácil de formular e difícil de cumprir. Mas que vale a pena sendo seu resultado a felicidade.

A solução consiste na prática das pequenas virtudes. Tomo a expressão “pequenas virtudes” de São Marcelino Champagnat, que por sua vez se inspirou em São Francisco de Sales.

São Marcelino explicou este tema em certa oportunidade em que um irmão foi ter com ele incomodado por algo que achada inexplicável. Poucos dias antes havia sido destinado a uma comunidade de religiosos que era, segundo seu próprio parecer, virtuosos, cumpridores de todas as regras e desejosos de santidade, mas para sua surpresa a união que reinava entre eles estava longe de ser perfeita. Via, de um lado, religiosos virtuosos e do outro numerosas misérias domésticas, sem poder precisar qual era a raiz do problema nem tampouco sua solução.

Se isto vale para os religiosos também se ajusta aos leigos, especialmente aos casados. Há muitos que pensam que bastam as coisas principais para que reine a paz, mas não é assim. As pequenas virtudes são essenciais e necessárias e, se faltam, nunca se conseguirá a felicidade diária!

Para resolver estes problemas, nosso santo amigo nos trás uma lista destas pequenas virtudes e suas descrições:

1 – O perdão

Desculpe as falhas do próximo, as diminua, as perdoe facilmente e não espere que faça o mesmo para si. A vida familiar não é uma competição, não fique anotando as vezes que perdoou para perdoar na mesma medida. Lembre-se, amamos o próximo porque Deus nos ama!

2 – A caridosa dissimulação

Haja como se não soubesse dos defeitos, insensatez, falhas e palavras pouco atentas do próximo e suporte sem dizer nada ou queixar-se. A correção fraterna não engloba todos os defeitos senão apenas os mais graves. Além disso, depois de ter corrigido seu próximo, é necessário sofrer e suportar pois há defeitos que só são curados desta forma. Há almas virtuosas que, por mais que se esforcem, não conseguem corrigir certos defeitos, Deus as usa como exercício de virtude para aqueles que devem suportá-los.

3 – A compaixão

Compartilhe do sofrimento dos que padecem para suavizá-los: isso nos impulsiona a tomar parte nos trabalhos de todos e a intervir os fazendo  nós mesmos.

4 – A santa alegria

Compartilhe também do gozo dos que estão felizes! Mas com intenção de aumentá-los.

5 – A flexibilidade de ânimo

A não ser por motivos muito sérios, jamais imponha a alguém suas opiniões senão que admita o bom e racional que há nas ideias dos demais e aplauda sem inveja os bons entendimentos do próximo para conservar a união e caridade fraternas. É a renúncia voluntária de seus intentos pessoais e a antítese da obstinação e intransigência das próprias ideias. Se ainda assim insistir no pensamento “Eu tenho razão e não posso sofrer com os disparates e erros dos demais” lembre-se da resposta de São Roberto Belarmino, doutor da Igreja: “Mais valem duzentos gramas de caridade do que cem quilos de razão”.

6 – A caridosa solicitude

Ajude o próximo antes que ele peça,  para facilitar-lhe a vida e evitar a humilhação de pedir ajuda. É belíssima esta bondade de coração de quem nada sabe negar, que está sempre pronto para servir e presentear a todos.

7 – A afabilidade

Responda aos importunos (chatos rs) sem mostrar a mais leve impaciência! Sempre esteja pronto para ajudar os que pedem seu auxílio, instruir os ignorantes sem se cansar e com toda paciência! Numa oportunidade, São Vicente de Paulo interrompeu uma conversa que levava com pessoas “importantes” para repetir cinco vezes a mesma coisa a alguém que lhe interrompera e não o entendia bem, instruindo, na última vez, com a mesma tranquilidade com que o havia feito na primeira.

8 – A civilidade e a cortesia

Se antecipe a todos nas demonstrações de respeito, atenção e cortesia e ceda sempre o primeiro lugar para os demais. As demonstrações de estima manifestadas com sinceridade fomentam o amor mútuo, assim como o óleo serve de alimento ao fogo de uma lamparina e sustenta a chama que produz a luz, sem isto não há união possível nem caridade fraterna.

9 – A tolerância

Se incline para agradar aos inferiores, escute suas observações e mostre que as aprecia mesmo que nem sempre sejam perfeitamente fundadas. A tolerância, diz São Francisco de Sales, “é não buscar o próprio interesse, apenas o do próximo e a glória de Deus”.

10 – O interesse pelo bem comum

Prefira o proveito da comunidade e ainda o dos demais ao seu próprio, se sacrifique pelo bem dos irmãos e pela prosperidade do lar!

11 – A paciência

Sofra, tolere, suporta sempre! Nunca se canse de fazer o bem mesmo que aos ingratos, chegando a dar graças aos que te fazem sofrer. Santa Teresa de Calcutá repetia constantemente a Deus: “Vos amo não pelo que me dais, mas pelo que me retirais”. Este é o verdadeiro caminho para ter paz e conservar a união com todos.

12 – A igualdade de ânimo de de caráter

Seja sempre o mesmo, não se deixe levar por alegrias loucas, cóleras, melancolias, maus humores. Permaneça sempre bondoso, alegre, afável e contente!
Estas são as chamadas pequenas virtudes. Como se percebe,  são virtudes sociais, logo, são muito úteis a qualquer um que viva em sociedade. Sem elas as comunidades e famílias estão em desordem e agitação contínua e, por consequência, assim também está o país e o mundo. Sem elas não é possível alcançar a paz familiar que é nosso maior consolo neste vale de lágrimas.

Pratiquemos estas pequenas virtudes para tornar nosso lar e nossa vida amáveis!


Referências

A importância da rotina – parte 2

Tempo de leitura: 7 minutos

Hoje retorno com a segunda parte do texto sobre a importância da rotina. Esta importante característica de uma vida virtuosa da qual muitos querem fugir, além dos efeitos já citados na parte 1 também ocasiona as seguintes vantagens:

Propicia o descanso

Ter uma rotina básica pré estabelecida descansa qualquer cérebro! Não é preciso gastar energia programando cada passo de cada dia. Podemos aproveitar essa energia pra outra coisa. No começo parece cansativo estabelecer objetivos, cumpri-los e ficar se programando, organizando. Mas depois, quando a rotina está efetivamente implantada, é um alívio. Automaticamente já sabemos o que devemos fazer e a melhor forma de realizar as atividades. Inclusive é aí que começam a sobrar minutos preciosos de descanso nos dias! Ou que servirão para realizarmos nossos hobbies. No meu caso, um tempo de leitura ou de cozinhar algo!

Além disso, o próprio ambiente ordenado já nos oferece descanso. Um ambiente em ordem traz paz, aconchego, serenidade, tranquilidade. Ele educa e traz o senso de beleza.

Precisamos ter em cada dia alguns momentos de descanso. Esses momentos não são tempo perdido, principalmente se forem dedicados a conversar e distrair-nos em família. O descanso não é ausência de ação, mas diversão, isto é, mudança de trabalho: uma leitura instrutiva ou amena para aquele cujo corpo está esgotado, o cultivo de um pequeno jardim, trabalhos de agulha, cozinhar, escrever, caminhar, e por aí vai.

Depois de alguns dias de observação, percebi que eu descanso muito enquanto cozinho. Dessa forma, principalmente em dias tenebrosamente difíceis, me esforço, apesar do cansaço desolador, em ir para a cozinha preparar um bom jantar: simples e delicioso. E tanto eu como meu esposo percebemos que não importa quão ruim tenha sido o dia, depois que estamos juntos, tendo rezado o Santo Terço e podendo apreciar uma refeição saborosa, parece que todas as coisas difíceis e ruins que aconteceram, são esquecidas e, assim, o dia termina bem. É uma de nossas estratégias de sobrevivência! Tem funcionado muito bem!

E também, quando o cansaço é extremo, como em momentos da chegada de um recém nascido, não há prejuízo em se substituir certas atividades pelo repouso. Nesse momento de alegria, mas também de dificuldade, a rotina deve tornar-se bastante flexível e básica até o bebê ir aos poucos tomando o ritmo da família.

Auxilia na quebra de vícios como procrastinação e indisciplina

O fato de um dever ser prioritário não significa, via de regra, que seja preciso dedicar-lhe a maior quantidade de tempo. Há duas maneiras de dar prioridade a alguma obrigação:

  1. Quando se dá importância primária à “qualidade” com que se realiza. Assim, a um homem que deve trabalhar por longas horas para sustentar a família, Deus muitas vezes lhe sugerirá: no dia de hoje, é prioritário dar ouvidos às preocupações da sua esposa, dedicar uma palavra de estímulo àquele filho. Isto não significa que Ele nos peça um tempo de que não dispomos. Pede-nos, sim, que, dentro do pouco tempo disponível, demos maior qualidade – qualidade de carinho, de interesse, de afabilidade – ao relacionamento com os da nossa casa. E isto é sempre possível.
  2. Prioridade “cronológica”. Não a que consiste em dedicar longo tempo, mas a que consiste em fazer o que é mais importante “quanto antes”, sem atrasos desnecessários.

Basta pensarmos na facilidade com que empurramos para depois deveres que certamente julgamos (mentalmente) primordiais. Temos consciência de que alguma coisa é importante e não pode ser largada; mas iludimo-nos, dizendo: “Mais tarde”; ou então: “Logo que me sobrar um pouco de tempo”. Infelizmente, esse tipo de reação é frequente quando se trata de deveres para com Deus: Missa dominical, oração, etc., ou de deveres relacionados com o serviço do próximo.

Superar a Preguiça

Um passo importante para sermos senhores de nós mesmos é o de superar a preguiça, um vírus silencioso que pode nos paralisar pouco a pouco. A preguiça se fortalece em quem não tem um norte, ou também em quem, tendo-o, não começa a andar em sua direção. Pôr a cabeça no que requer nossa atenção, evitar fugir do que supõe um pouco de esforço, não deixar para depois o que podemos fazer agora… Sobre esses hábitos se constrói uma personalidade ágil, forte e serena.

Também convém estar atento ao outro extremo, o ativismo desordenado, como diz São Josemaria: “Filho, que tua atividade não esteja em muitas coisas: se te apressares, não estarás isento de delito; se perseguires, não alcançarás e, se correres, não escaparás”. Para que a vida não nos afogue com seus infinitos requerimentos, será melhor tomar a iniciativa para distribuir nossa atividade nos tempos adequados, ou seja, planejar – sem ficar quadriculados – dando prioridade ao que deve estar em primeiro lugar e não ao que aparece em cada momento. Assim evitamos que o urgente se sobreponha ao importante. Logicamente, não é preciso programar tudo, porém evitar que a improvisação leve à perda de tempo porque simplesmente nos dedicamos a correr atrás do que acontece durante o dia. Neste sentido, dizia São Josemaria que “é preciso ter ordem porque não temos tempo de fazer tudo de uma vez”.

Em nosso dia há alguns momentos chave que podemos fixar previamente: a hora de dormir, a hora de acordar, os tempos que vamos dedicar exclusivamente a Deus, a hora de trabalhar, a hora das refeições. Depois está o campo de fazer bem o que devemos fazer, com rendimento, atenção e perfeição, ou seja, com amor. “Cumpre o pequeno dever de cada momento; faz o que deves e está no que fazes”, já ensinou São Josemaria. Trata-se, em última análise, de um programa de santidade que não tem limites, porque se ordena a um grande fim: fazer feliz a Deus e aos outros. Ao mesmo tempo, esse amor que nos leva a ter um horário nos indicará quando devemos “quebrar” o plano, porque o bem de outras pessoas o exige, ou por tantos outros motivos que se apresentam com claridade para quem vive em presença Deus.

Quem é laborioso aproveita o tempo (…). Faz o que deve e está no que faz, não por rotina nem para ocupar as horas, mas como fruto de uma reflexão atenta e ponderada. Por isso é diligente. O uso normal dessa palavra – diligente – já nos evoca a sua origem latina. Diligente vem do verbo diligo, que significa amar, apreciar, escolher alguma coisa depois de uma atenção esmerada e cuidadosa. Não é diligente quem se precipita, mas quem trabalha com amor, primorosamente. – São Josemaria Escrivá

A santidade “grande” está em cumprir os “deveres pequenos” de cada instante. (Caminho, 817)

Fazei tudo por Amor. – Assim não há coisas pequenas: tudo é grande. – A perseverança nas pequenas coisas, por Amor, é heroísmo. (Caminho, 813)

Promove a harmonia familiar

A ordem torna o lar habitável, permite que cada um tenha seu espaço em boas condições, favorece a harmonia no funcionamento de cada parte da casa. Quando alguém entra em um lugar limpo e ordenado, tende a respeitar essa limpeza e ordem; mas se chegamos a um lugar sujo e desordenado, não sentiremos nenhum respeito por esse ambiente. O verdadeiro luxo de uma casa está no cuidado com que todos se esforçam para fazer bem todas as coisas.

Os pais devem tornar a casa funcional e agradável, a fim de que o trabalho de conservação que ela requer seja rápido e racional, sem atropelar as pessoas que dela se ocupam, tomando-lhes o tempo e a energia. É conveniente que a mãe procure economizar seu tempo mantendo a casa em ordem, virtude quase fora de moda, mas tão prática e eficaz: aquela ordem que, segundo diz o ditado: coloca cada coisa no seu lugar e faz economizar tempo, fadiga e palavras destemperadas. O pai, por sua vez, deve procurar não considerar a casa somente como lugar onde finalmente pode enfiar os chinelos.

A ordem, a regularidade, a programação, adequada, a divisão do trabalho – de que os filhos participarão gradualmente – farão do lar um lugar de convivência feliz e serena, donde desaparece todo o tipo de mau humor. É necessário, pois, aprender a programar o tempo em função dos objetivos a que nos propomos. Se não tivermos objetivos, é fácil que o tempo se torne um tirano: estaremos sempre muito ocupados e qualquer coisa nos deixará aborrecidos.

Saber o que acontece nos dias e horários habituais torna mais fácil a transição de uma tarefa para outra. As crianças aprendem a cooperar com as atividades e até mesmo a antecipá-las, sentindo-se satisfeita por sua colaboração e sucesso.

A rotina permite uma melhor divisão de tarefas e abre espaço para organizar momentos juntos: como as refeições, distrações (como filmes, jogos, passeios), as orações e momentos de conversa. Traz a segurança e evita a ansiedade do que esperar de cada dia. Além disso, a ordem material nos dá a tranquilidade de saber onde encontrar cada coisa, o que evita a insatisfação, a insegurança e o mau humor.

Não é porque a rotina existe que deve ser exatamente cumprida sempre. Quebrar a rotina vez por outra é necessário para o ser humano. Às vezes uma louça pode ser deixada na pia para que um filme seja assistido em família, por exemplo. O rigor da rotina não deve transmitir a sensação de perda de liberdade. O bom senso e equilíbrio sempre devem ser mantidos.

O nosso século – escreve Jacques Leclercq – orgulha-se de ser o da vida intensa, e essa vida intensa não é senão uma vida agitada, porque o sinal do nosso século é a corrida, e as mais belas descobertas de que se orgulha não são as descobertas da sabedoria, mas da velocidade. E a nossa vida só é propriamente humana se nela há calma, vagar, sem que isso signifique que deva ser ociosa (…) Acumular corridas e mais corridas, não é acumular montanhas, mas ventos.

Façamos um horário, um “plano de vida”, bem meditado e bem distribuído– melhor se for por escrito –, que crie canais efetivos para todos os nossos desejos de fazer as coisas bem e de fazer o bem; vivamos fielmente esse plano, e então entenderemos por experiência o sentido destas palavras de São Josemaria Escrivá: “Quando tiveres ordem, multiplicar-se-á o teu tempo e, portanto, poderás dar maior glória a Deus, trabalhando mais a seu serviço” (Caminho, n. 80).


Referências

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A virtude da ordem

Disse Santo Agostinho: sem ordem não há virtude ou como disse São Josemaria Escrivá: ”Virtude sem ordem? – Estranha virtude!”. Santo Agostinho também escreveu “pax omnium rerum tranquillitas ordinis” – “a paz de todas as coisas é a tranquilidade da ordem” .  A ordem é algo que vamos construindo na batalha de todos os dias: “começar pela tarefa menos agradável e mais urgente (…), ser perseverante no dever quando era tão fácil abandoná-lo, não deixar para amanhã o que temos de terminar hoje… E tudo isto para dar gosto ao Nosso Pai Deus!”

Falar nessas palavras – organização, planificação, rotina – evoca de imediato, nos tempos atuais, a frieza empresarial da produtividade e da eficiência. Parecem soluções muito boas para a indústria e o comércio e muito ruins para o coração e para a vida familiar. Muitos pensam assim e isso acontece porque não compreendem o verdadeiro sentido da virtude da ordem, uma virtude que precisa ser resgatada dos preconceitos que a desmerecem. Se não a reabilitarmos (a virtude da ordem) no nosso mundo de valores, veremos como a espontaneidade do amor e dos bons propósitos – que aparentemente é tão bonita e autêntica – se desvanecerá em ilusões e omissões.

“Sujeitar-se a um plano de vida, a um horário… é tão monótono! – disseste-me. E respondi-te: há monotonia porque falta Amor.” – São Josemaria Escrivá

A virtude da ordem, para o cristão, é uma maneira de praticar melhor o amor. O Senhor certamente nunca nos vai sugerir que abandonemos ou descuidemos das obrigações básicas diárias. Mas é bem possível que, se soubermos escutar a sua voz no fundo da consciência, percebamos que nos diz:  também é preciso saber parar, meditar e orar.
Em linhas gerais, são cinco os campos de atividades a serem ordenadas na vida de cada homem e todas estão inter-relacionadas:

  1. a religião (virtude da piedade),
  2. a família (virtude do amor e da amizade),
  3. o trabalho (virtude da laboriosidade),
  4. a sociedade (virtude da solidariedade, colaboração, convivência e amizade) e
  5. o descanso, esporte e cultura (virtude da convivência, alegria e inteligência).

”Se não tens um plano de vida, nunca terás ordem.” São Josemaria Escrivá

Ordem não é ativismo nem doença

Todos temos a experiência de que existe uma ordem que não é boa e que se poderia chamar «defensiva»: é a da pessoa que organiza muito bem os seus horários, mas não tolera que nada nem ninguém interfira neles, e se alguém tenta, cai sobre ela a ira do interrompido. Isso não passa da carapaça com que o egoísta se protege. Bem sabemos que essa ordem pode tornar-se doentia e atingir requintes de neurose, de mania.

Talvez já tenhamos conhecido pessoas que ficavam transtornadas porque alguém – esposa, filho, empregada – tenha tido ‘a ousadia’ de deslocar em poucos centímetros a posição exata que um livro devia ocupar na mesa do escritório. Da mesma forma que não faltam os que dramatizam qualquer interferência que lhes altere o horário de sono ou o fim de semana cuidadosamente planejado. Isto não é virtude, é doença espiritual e, talvez, psíquica. Assim como também não é virtude a ordem dos escravos da eficiência, que sobre o altar da “produtividade” ou do “sucesso” profissional sacrificam Deus, a saúde, a família e as amizades.

Todos deveríamos estabelecer e manter – e defender como algo de sagrado – pelo menos dez ou quinze minutos diários dedicados à meditação e ao exame de consciência: de manhã, antes de iniciar as atividades; ou pouco antes de nos recolhermos para descansar; ou aproveitando a possibilidade de visitar uma igreja numa hora tranquila, quando o silêncio do templo convida à intimidade com Deus.

Nesses momentos, a alma, com a graça divina, se torna transparente, se liberta da terrível força centrífuga do ativismo, e consegue voltar para o seu centro, esse “centro da alma” de que falam os santos, onde ela se encontra a sós com Deus. E essa voz de Deus, honestamente escutada, é a que nos esclarece quais são as prioridades e nos ajuda a hierarquizar, pela ordem de importância, os deveres a cumprir. Assim, estamos em condições de escolher o que é bom e grato a Deus.

Não ignoramos os obstáculos que existem para alcançar esta harmonia interior e exterior. Apesar de apreciarmos a grande atração que uma vida cristã plena constitui, muitas vezes experimentamos tendências diversas e, às vezes, contrárias. São Paulo o expressou com força:

“Quando quero fazer o bem, é o mal que se me apresenta. Como homem interior, ponho toda a minha satisfação na Lei de Deus; mas sinto em meus membros outra lei, que luta contra a lei de minha mente e me aprisiona na lei do pecado, que está nos meus membros.” –  Rm 7, 21-23.

Sentimos uma coisa e queremos outra, notamos que estamos divididos entre as coisas de que gostamos e o que devemos fazer, e, às vezes, a nossa vista acaba perdendo um pouco de luz. Como todos estamos expostos a esses pequenos desvios de rumo, o caminho é sermos simples e corrigirmo-nos com perseverança.

Melhor aproveitamento do tempo

Estabelecer prioridades é, certamente, uma das formas mais nobres da virtude da ordem: é colocar a ordem na mente e no coração. O cristão – e, em geral, todo homem ou mulher responsável –deve cuidar da prática da ordem no seu sentido mais simples e corriqueiro: a organização das atividades dentro dos horários de cada dia, a adequada planificação do aproveitamento diário do tempo. Ter um horário nos leva a aproveitar o tempo. Viver com um horário não nos ata, ao contrário: abre as portas para uma grande variedade de atividades diversas.

A ordem também nos leva a concentrar-nos no que estamos fazendo, não pretendendo fazer várias coisas ao mesmo tempo – o que geralmente leva a não concluir nenhuma. É muito mais eficiente terminar uma coisa e iniciar a seguinte. O verdadeiro trabalhador não se preocupa apenas de terminar a sua tarefa logo que possível; preocupa-se de produzir uma obra que esteja acabada, sem defeito, tão perfeita quanto possível. Não abandonemos uma tarefa enquanto houver algum detalhe que retocar.

Ter uma rotina evita o ócio, a preguiça e diversos outros vícios e nos impulsiona a crescer em virtudes. Permite que façamos uma vasta quantidade de atividades e com qualidade. Com a internalização da rotina vamos descobrindo que realmente temos tempo para tudo: mas ter tempo não significa ter muito tempo. Às vezes, por exemplo, o tempo que se tem para leitura diária são 5 minutos, mas sem esses 5 minutos não se leria absolutamente nada e se descuidaria da formação.

A rotina nos permite uma organização e melhor execução das atividades relacionadas ao nosso trabalho, evitando acúmulos, permitindo avanços e nos deixando flexíveis para lidar melhor com imprevistos. É necessário não omitir trabalhos que nos repugnam, nem inventar deveres adicionais que nos levariam a negligenciar e adiar os nossos deveres reais

Segurança e bem estar para os filhos (e também para os adultos)

O tempo para a criança algo complexo. É através das suas rotinas que a criança antecipa o que irá acontecer e adapta o seu comportamento à tarefa seguinte. As rotinas transmitem segurança à criança, deste modo a criança já sabe, por exemplo, que antes de jantar deve tomar banho. As principais rotinas que se devem manter com as crianças são: horas de refeição; hora de dormir; hora de estudar; hora de brincar, tempos em família e, é claro, momentos de oração.

Ter rotina é importante para desenvolver bons hábitos de sono e de alimentação. Além disso, diminui a ansiedade e transmite segurança. Afinal, saber o que vem em seguida elimina a curiosidade e a incerteza do depois, principalmente para as crianças. Ao desconhecer o que vem em seguida, uma dose de estresse é gerada inclusive nos adultos. Com a rotina adequada as crianças não ficarão aflitas pois saberão exatamente o próximo passo.

Uma família desorganizada, com horários irregulares – em que as refeições são servidas em horários diferentes, o banho e a hora de dormir não seguem nenhuma regra- forma crianças inseguras e desorientadas. A organização das atividades diárias não impedirá que a criança desenvolva autonomia. A coerência e a flexibilidade devem fazer parte do processo de estabelecimento das regras. Regras são essenciais e a rotina é referência na vida de crianças e adolescentes, porque direciona, organiza e equilibra suas vidas para mais tarde tornarem-se adultos diligentes.

Lembro-me que quando o Bento nasceu, senti muita dificuldade em estabelecer rotina. Mas com o passar dos meses fui percebendo que as tarefas começaram a se encaixar e a fluir melhor. Aos poucos fui retomando atividades antigas como leitura, fazer as unhas e também inserindo atividades novas, como um tempo reservado a levá-lo para brincar ao ar livre.

To be continued…

Continuarei este assunto tão importante numa próxima postagem, a parte 2!


Referências