Lírio entre espinhos

Uma família católica buscando a santidade

Indicações de livros para bebês de 0 a 2 anos

Tempo de leitura: 7 minutos

Muitas pessoas me perguntam sobre os livros que lemos para as crianças, por isso resolvi escrever este artigo, listando alguns livros e dando as razões por tê-los escolhido.

Até 1 ano

  • É um livrinho, Lane Smith
  • Uma lagarta muito comilona, Eric Carle
  • Bons sonhos, bichinhos, Harry Shaw
  • Você grande, eu pequenininho,  Lilli L’Arronge
  • Bíblia para crianças em rimas, Editora Paulinas
  • Meu primeiro livro dos Santos, Padre Reginaldo Manzotti
  • Fábulas de Esopo para os mais novinhos, Ed. Usborne
  • A casa sonolenta, Audrey Wood
  • O ratinho, o morango vermelho maduro e o grande urso esfomeado, Audrey Wood
  • O dia de chu, Neil gaiman
  • Adivinha quanto eu te amo, Sam Mcbratney
  • Mozart, pequeno gênio da música
  • A orquestra, Ed. Usborne
  • Ou isto ou aquilo, Cecília Meireles

De 1 a 2 anos

  • Primeiras palavras, Ed. Usborne
  • A árvore generosa, Shel Silverstein
  • A televisão da bicharada, Sidônio Muralha
  • O primeiro dia de Chu na escola, Neil Gaiman
  • O carteiro chegou, Janet e Allan Ahlberg
  • Meu reino por um cavalo, Ana Maria Machado
  • Na biblioteca da rua direita, Walter Lara
  • O rei bigodeira e sua banheira, Audrey Wood (indico todos da Audrey)
  • Meu grande livro de aprender, Editora Girassol
  • O nascimento de Jesus, o primeiro Natal, Lois Rock
  • A primeira Páscoa, Lois Rock
  • Linha, agulha, costura: canção, brincadeira, leitura, Carlos Nadalim
  • Coleção Mico Maneco (I) – Ed. Salamandra
  • Belos contos para meninos, Ed. Usborne
  • Apertada e sem espaço, Julia Donaldson
  • Coleção Os pingos, Mary e Eliardo França
  • Contos de fadas clássicos, Carol Lawson e Helen Cresswell
  • As aventuras de Pedro Coelho, Beatrix potter
  • Os fantásticos livros voadores de Modesto Máximo, William Joyce
  • Camilão, o Comilão, Ana Maria Machado
  • O nabo gigante, Aleksei Tolstói e Niamh sharkey

Nada de telas até os 2 anos de idade

Escolhemos, desde antes de o Bento nascer, que ele não teria contato com telas por um bom tempo. Inclusive, um tempo depois, tivemos acesso a uma pesquisa da Sociedade Americana de Pediatria que diz que crianças com menos de dois anos não devem ter contato com telas.

Em uma das primeiras consultas com o pediatra do Bento, dr. Marcos Santolin, ele nos alertou sobre o perigo das telas explicando que as crianças de até dois anos expostas às telas ficam hipnotizadas porque não enxergam como nós, mas veem as coisas como que girando. Além disso, essa exposição causa um empobrecimento das conexões neurais, problemas sérios com o sono, pouca memória, problemas de concentração e de visão, e até mesmo diminuição do potencial de inteligência.

dr. Ítalo Marsili fala também que o excesso de estímulos visuais provenientes das telas causa uma distorção da forma como a criança enxerga a realidade, principalmente porque o que é apresentado nas telas é diferente da beleza do mundo real. Apesar de serem considerados vídeos educativos, eles não são a solução para ensinar coisas para as crianças. Sobre esse assunto, indico esse vídeo do Dr. Ítalo Marsili, psiquiatra, em que explica o fenômeno do Video Deficit Effect. E também esse artigo do professor Carlos Nadalim.


A Catherine L’Ecuyer fala muito a respeito disso também, não só a respeito das crianças até 2 anos. Segundo Catherine, a superexposição a telas causa terríveis efeitos nas crianças:

  • ansiedade,
  • obesidade,
  • moleza,
  • preguiça,
  • problemas de visão e sono,
  • falta de concentração,
  • perda da motivação interna,
  • necessidade de mais e mais estímulos,
  • estresse,
  • incapacidade de lidar com o ritmo natural da vida,
  • impaciência,
  • nervosismo,
  • anula a criatividade e imaginação,
  • diminuição dos sonhos e apatia,
  • dificuldade de ficar consigo mesma,
  • dificuldade de relacionar-se (as pessoas são ruídos para elas, como a tv),
  • dificuldades com a linguagem, até mesmo o autismo está relacionado a isso.

Para nós foi uma decisão muito natural, pois não temos costume de assistir televisão. Além disso, através de leituras e de experiências de outras pessoas, percebemos que o excesso de tempo dedicado às telas causa moleza e vícios na criança. Além de tornar-se uma muleta para os pais, que dificilmente deixam de expor a criança às telas em qualquer oportunidade de conseguir que cesse uma pirraça ou de ganhar um descanso tão sonhado.

Penso que, realmente, se usássemos as telas como expediente educativo ou de distração para o Bento, eu certamente teria uma vida mais fácil em certo sentido. E justamente por isso decidi não usar em hipótese alguma, ou, para mim, acabaria se tornando algo que eu usaria sempre. Mas, por mais que pareça difícil, não sinto falta desse artifício. Há várias maneiras de lidar com a criança, como envolvê-la nas atividades, fazer rotatividade de brinquedos, cantar, e por aí vai. Se as telas fossem tão necessárias, como teriam sobrevivido as gerações passadas? Crianças precisam muito mais de quintal e paciência do que de vídeos, é o que pensamos.

Mas, em certas realidades, as telas ajudam, é verdade. Não quero dizer que somos melhores por isso, apenas mostro nosso esforço e o que nos levou a tomar essa decisão. Além de que, após os dois anos ou mais, pretendemos sim que o Bento assista desenhos infantis de boa qualidade, que tenham sido assistidos por nós antes e que possamos estar com ele ajudando a entender o que se passa. Os filmes e desenhos são expedientes educacionais e a criança precisa dos olhos dos adultos para entender o que se passa naquela realidade, qual lição deve ser aprendida, etc.

Dicas

  1. Se você costuma usar telas para distrair as crianças, substitua por leituras, ar livre, brincadeiras dirigidas, participação ativa nos serviços domésticos, diálogo, apreciação musical (apenas ouvir), dançar, etc; ou simplesmente não fazer nada pois eles precisam aprender a lidar com o tédio;
  2. Se você tem dificuldade de fazer qualquer coisa com as crianças sem dar um vídeo ”educativo” para ela, comece a substituir esse hábito por cantar com elas enquanto cozinha, conversar, deixar materiais do dia a dia da casa disponíveis para que explorem (potes de plástico, colheres de pau, etc) ou materiais divertidos (para desenho, massinha, etc);
  3. Para crianças maiores, use tempos específicos reservados apenas para isso e nunca apresente qualquer coisa. Assista antes e tenha sempre uma finalidade para aquilo que está mostrando a criança. Fique junto dela e comente o que estiver assistindo;
  4. Para os momentos das refeições, tenha paciência e deixe os dispositivos bem longe. Abençoe os alimentos, ensine-as a se portarem a mesa (principalmente pelo exemplo), a apreciarem os alimentos e aproveite esse tempo de estar a mesa para conversar e criar boas memórias. A mesa da família é um dos três altares da casa católica;
  5. Dê bom exemplo. Arrume um cantinho para o celular e deixe-o lá. Avise para que te telefonem se for preciso resolver algo. O que for secundário e notificações de redes sociais deixe para checar em momentos específicos do dia. Desligue as notificações dos aplicativos e se for preciso exclua os que mais te distraem.
  6. Dê bom exemplo. Desligue a TV e dê um fim naquele irritante barulho de fundo que estressa, irrita e incomoda. Se for o caso mude a TV de cômodo, desligue da tomada. Esconda os demais dispositivos como tablets.
  7. Parece uma escolha difícil mas, além de estaremos fazendo pelo bem deles, vocês vão ver que com o passar dos dias as coisas se ajeitam e ficam mais fáceis! Deus nos livre de deformar os nossos filhos e fazer deles molengões problemáticos. E é para o nosso bem também. Ainda que seja abrir mão de certo conforto, os benefícios são muito maiores como por exemplo a melhor disposição à obediência.
  8. Nada é mais importante do que nosso cônjuge e filhos e daremos conta a Deus de cada segundo gasto inutilmente, de cada má escolha e colheremos lá na frente o fruto do que plantamos hoje.

Muita leitura em voz alta

Com ensina o professor Carlos Nadalim, do blog Como educar seus filhos, após o nascimento do bebê, a leitura em voz alta proporciona uma série de benefícios, como:  estreitamento da relação afetiva entre pais e filho,  desenvolvimento da compreensão auditiva, treinamento da memória auditiva de curto prazo, enriquecimento do vocabulário, entendimento gradual de que a palavra escrita representa a palavra falada, aquisição do gosto pelos livros e pela leitura (para tanto, é importante não só que os pais leiam para os filhos, como também que os filhos vejam os pais lendo sozinhos).

Algumas dicas para escolher bons livros de histórias para as crianças de até 4 ou 5 anos

  1. As ilustrações são o que mais atrai a atenção da criança em um livro. Por isso, as imagens devem ser belas, com riqueza de traços e detalhes. Devem, sobretudo, ser uma bela representação da realidade. Assim, também devemos aproveitar os momentos de leitura para ensinar nossos filhos a apreciar a beleza e a arte.
  2. Alguns tipos de ilustração podem desagradar, confundir e perturbar as crianças. São as ilustrações: disformes, distorcidas, desproporcionais, as representações de figuras humanas ou animais com economia de traços e expressões, as ilustrações psicodélicas, as ilustrações confusas onde o bem está representado pelo feio e o mal pelo bonito. É preciso que as imagens tragam para a criança uma ampliação do imaginário mas sem desfigurá-lo. Um desenho de uma árvore deve parecer com uma árvore. Para isso também são preferíveis as ilustrações que parecem desenhos feitos por uma mão humana ao invés dos digitalizados.
  3. Além das imagens, é preciso que o livro tenha uma boa sonoridade do texto. Para isso é bom ler o livro em voz alta antes de comprá-lo, para ver se o texto é atraente. Livros com rimas são sempre um sucesso! Também é legal ver se ao longo da história há frases repetidas, pois elas mantêm a atenção das crianças.
  4. Verifique se o livro contém boa estrutura de frases, amplo vocabulário, se a história tem um bom enredo e o que ela ensina para a criança. Contar uma história é abrir uma porta para um mundo que embora seja mágico, usa emoções, elementos e comportamentos do mundo real.
  5. Dê preferência a: contos clássicos, fábulas de Esopo, histórias bíblicas e de santos. Também é legal ter um ou dois livrinhos sonoros.

Referências

  • Carlos Nadalim, Como Educar seus filhos
  • Dr. Ítalo Marsili, Afetividade Infantil e Harmonia Familiar
  • Helena Lubienska, Silêncio, gesto e palavra
  • Catherine L’Ecuyer, Educar na Curiosidade

Direção Espiritual: o dirigido

Tempo de leitura: 7 minutos

Esperamos que esta sequência de artigos sobre a Direção Espiritual tenha sido de bom proveito! Rezem a São Francisco de Sales pedindo a graça de ter um santo diretor espiritual.


1) O dirigido

            Definição: É toda alma que, aspirando seriamente à perfeição cristã, voluntariamente se colocou sob o regime e governo de um diretor espiritual.

“Toda alma…”: Ninguém está excluído da necessidade moral de fazer direção espiritual. Nem sequer aqueles que são diretores espirituais, nem os teólogos, nem os Bispos, nem o Papa. Não só porque ninguém é bom juiz na sua própria causa, senão porque o valor da direção espiritual não reside unicamente na resolução teórica das dificuldades (que pode não ser necessária ou impossível quando o dirigido é mais preparado que o diretor); senão na força estimulante dos conselhos e exortações do diretor, a humildade, obediência e submissão do dirigido. Quem por crer-se superior aos demais despreza os conselhos de um prudente diretor, nunca alcançará a perfeição.

“… que, aspirando seriamente à perfeição cristã,…”: Se falta isto, a direção espiritual se torna inútil, porque lhe falta seu elemento essencial.

“… voluntariamente se colocou…”: A eleição do diretor espiritual é totalmente livre.

“sob o regime e governo de um diretor espiritual.”: Este governo se refere às coisas interiores e não às coisas externas. O diretor se deve adaptar às circunstâncias e deveres próprios do dirigido.

Qualidades e deveres do dirigido
a) Com relação à direção mesma:
  • Plena sinceridade e abertura de coração: É o primeiro e mais importante dos deveres do dirigido, sem o qual a direção espiritual se torna impossível. O diretor deve saber tudo o que acontece na nossa alma: as tentações e fraquezas, para que nos ajude a vencê-las e superá-las, os propósitos e resoluções, para submetê-los a seu exame e aprovação; as inclinações boas e más, para que fomente as primeiras e corrija as segundas; as dificuldades de estímulos; os triunfos e as derrotas; as esperanças e ilusões… Tudo deve ser manifestado com humildade e de um modo simples.

É um erro muito grande praticar um duplo jogo manifestando ao diretor espiritual somente as coisas boas, deixando para um confessor desconhecido as misérias e pecados. Assim é impossível a direção espiritual, porque o diretor deve conhecer os pecados e misérias do dirigido.

Embora não devemos exagerar, porque não é necessário manifestar coisas pequenas e detalhadas.

  • Plena docilidade e obediência: O dirigido não deve ao diretor uma obediência como a superior religioso. Embora o diretor não esteja num plano de igualdade ou de amizade com o dirigido, inclusive pelo seu mesmo cargo, tem certa superioridade sobre o seu filho/a espiritual (assim como o mestre ao educar o aluno), à qual deve corresponder uma verdadeira docilidade e submissão por parte do dirigido ou discípulo.

Esta atitude do dirigido pertence mais à prudência e humildade que a obediência. É muito importante esta docilidade, a tal ponto que o diretor deve exigir a obediência absoluta em todas as coisas que pertencem à direção espiritual, sob pena de negar-se a continuar a direção.

O dirigido deve submeter-se a seu diretor, porque a direção tem por finalidade a submissão a um guia de quem se aceitam as luzes, os conselhos e as ordens.

Muito pior que a desobediência é que o dirigido tente fazer de tudo para que o diretor lhe mande o que ele quer (esta atitude é duramente condenada por São João da Cruz). Mas não é contrário a esta obediência e docilidade, o fato de que o dirigido tome a iniciativa de manifestar atrativos e repugnâncias e até propor humildemente objeções com o ânimo de obedecer se o diretor insiste. A alma que obedece pode ter certeza que obedecendo sempre se manterá dentro do âmbito da vontade de Deus.

  • Perseverança: O dirigido deve ter perseverança nas seguintes coisas: Na entrevista, que deve ser frequente, nos exercícios, métodos e procedimentos de santificação; nos conselhos recebidos.
  • Ser discreto. O dirigido está obrigado a guardar segredo, e não confiar a ninguém os conselhos, normas práticas dadas pelo diretor. Nem sequer com o pretexto de edificar ou ajudar, porque o conselho dado a uma pessoa particular e em circunstâncias especiais podem não servir para outra pessoa e também pode trazer problemas com os outros dirigidos ou penitentes que o diretor tem.
b) Com relação ao diretor:
  • Respeito: O dirigido deve respeitar seu diretor e ver-lhe como um representante de Deus. E se não está conforme com ele por alguma coisa, antes de criticar lhe deve mudar de diretor.
  • Confiança: O dirigido deve ter uma confiança absoluta no seu diretor. Deve ser uma confiança filial, de tal modo que frente a ele se encontre com maior naturalidade, e sinceridade, disposto a se mostrar tal e como é; com suas fraquezas e misérias. Se faltar esta confiança, a direção espiritual é ineficaz.
  • Amor sobrenatural: Pode existir um amor sobrenatural ao diretor, como tem acontecido na vida de vários santos. Mas o difícil é que se mantenha sempre dentro dos limites do sobrenatural, por isso neste sentido sempre devemos nos esforçar para que seja um amor verdadeiramente de caridade.

2. Matéria da direção espiritual

Este ponto é muito importante porque nos mostra o que temos que falar na direção espiritual:

Como princípio geral é matéria da direção espiritual todos os assuntos interiores e exteriores da alma dirigida relacionadas com a perfeição cristã, segundo o estado e ofício de cada um.

– O Plano de vida (propósitos, a fidelidade a eles), a observância das regras.

– A paixão dominante, como combater os defeitos.

– As tentações.

– Mortificações e penitências.

– Inspirações e inclinações boas.

– A oração, como se está rezando, com que método.

– As devoções que pratica.

– As obras do ofício próprio.

– Exame particular.

3. Algumas coisas complementares

a) Eleição do diretor

“Convém muito à alma que quer adiantar no recolhimento e perfeição (ser santa) olhar em que mãos se põem, porque como for o mestre será o discípulo, e como for o pai, será o filho” (São João da Cruz).

Nem todas as almas podem escolher livremente o diretor espiritual, porque muitas têm o trato só com alguns sacerdotes (Religiosas de Clausuras, Aldeias pequenas etc.). Nestes casos devem aceitar a vontade de Deus, Ele se encarregará de suprir as deficiências do diretor se a alma procura ser fiel à graça de Deus e faz de sua parte tudo o que pode.

Mas fora destes casos excepcionais, para escolher o diretor espiritual se deve ter em conta as seguintes normas:

Pedir-lhe a Deus na oração as luzes necessárias para proceder bem em coisa tão importante.

Examinar quem tem mais prudência, bondade e caridade entre todos os sacerdotes que podemos escolher livremente.

– É preciso evitar que entrem na eleição as simpatias naturais ou ao menos que não sejam elas as que decidam como razão única e principal. Embora, não seja conveniente escolher alguém pelo qual se tem antipatia, porque isso dificultaria muito a direção (no que se refere à confiança e abertura de coração).

Não propor-lhe logo que seja o diretor espiritual. Convém experimentar um pouco de tempo, para ver se é uma verdadeira ajuda ou não.

– Em igualdade de circunstâncias, devemos escolher o mais santo para os casos ordinários e o mais sábio para os casos extraordinários, como se pode concluir da doutrina de Santa Teresa.

Uma vez feita à eleição, não será fácil mudar de diretor por razões inconsistentes.

b) Mudança de diretor

Se pode mudar quando há razões verdadeiramente de peso para fazê-lo. Não se deve mudar por qualquer motivo, porque isto faria ineficaz todo tipo de direção.

São motivos inadequados ou inconsistentes (segundo o mestre espiritual Tanquerey):

– A curiosidade por ouvir outros conselhos, porque há cansaço de ouvir sempre os mesmos.

– A inconstância, porque não persevera muito tempo nos exercícios de piedade.

– Querer ter como diretor àquele que tem mais fama (Soberba).

– Estar descontente com o diretor que se tem.

– Desejo de manifestar a vários confessores a própria consciência, para que se interessem por eles ou para ter mais segurança.

– Para ocultar ao confessor ordinário as faltas mais humilhantes.

Quais são os motivos verdadeiros?

Podem se reduzir a dois: quando a direção resulta inútil ou prejudicial.

A direção resulta inútil, quando apesar da boa vontade do dirigido e sincero desejo de ir à frente na vida espiritual, não sente com respeito a seu diretor a confiança e franqueza tão necessárias na direção. Ou também, quando vê que não se atreve a corrigir os defeitos, não se preocupa por estimular no caminho da virtude, não soluciona os problemas, não mostra interesse pela santificação do dirigido.

A direção resulta prejudicial, quando:

a) Se advertem claramente que o diretor carece da ciência, prudência e discernimento necessários.

b) Quando fomenta a vaidade do dirigido, tolera facilmente as faltas e defeitos ou vê as coisas desde um ponto de vista muito humano.

c) Se o diretor sempre perde o tempo misturando conversações frívolas (sem importância), ou de simples curiosidade, ou totalmente fora do tema da direção. E com maior razão se isto manifesta um afeto demasiado sensível do diretor com respeito ao dirigido.

d) Se o diretor trata de impor cargas superiores às forças do dirigido ou incompatíveis com os deveres próprios do estado. Ou também se quiser atar o dirigido com votos ou promessas de não consultar com nenhum outro diretor as coisas da nossa alma.

e) Se se adverte claramente que os conselhos e normas dadas pelo diretor, longe de fazer adiantar o dirigido, o prejudicam espiritualmente tendo em conta seu temperamento e especial psicologia. Mas Devemos ter cuidado com as ilusões do amor próprio, que facilmente se podem misturar nestas apreciações. Antes de mudar de diretor por estes motivos, devemos conversar com ele a fim de usar outros procedimentos.


Fonte

Apostila de Espiritualidade, Instituto do Verbo Encarnado

Direção Espiritual: o diretor, parte 2

Tempo de leitura: 5 minutos

Continuando nossa série sobre Direção Espiritual, hoje trazemos a segunda parte do artigo sobre o Diretor. Se você perdeu a primeira parte, basta acessar esse link.

b) Qualidades morais do diretor

São aquelas que sem ser absolutamente indispensáveis para a técnica da direção espiritual, contribuem poderosamente em seu complemento e perfeição.

Intensa piedade. Segundo São João da Cruz o discípulo não é maior que o mestre, pelo qual devemos procurar um sacerdote de intensa piedade.

A razão disto é que ninguém pode dar o que não tem, nem mais do que tem. E se o mestre não tem vida interior ou é muito fraca, está radicalmente incapacitado para levar a maior altura seu discípulo.

Pode-se dizer que a santificação é obra do Espírito Santo mediante sua graça e que ela não precisamente se dispõe do instrumento para comunicar-se. Mas devemos dizer que:

1- Deus normalmente se acomoda às disposições próximas dos instrumentos que utiliza e não prescinde deles, a não ser por via de exceção e de milagre. 

2- aliás, se fosse assim estaríamos admitindo que não é necessária outra direção que a do Espírito Santo para a santificação, o qual é contrário a toda a tradição.

A piedade do diretor espiritual deve estar formada pelas grandes verdades da fé cristã:

– O centro de sua vida deve ser Cristo.

– Deve procurar a Glória de Deus, sobretudo.

– Deve ter um profundo sentimento de filiação adotiva, que lhe faça ver a Deus como seu pai e aos homens como seus irmãos.

– Deve ter um grande amor a Maria Santíssima.

– Deve praticar o recolhimento interior, o desprendimento das coisas da terra, deve ter um profundo espírito de oração.

Zelo ardente pela salvação das almas. E esta qualidade é uma consequência da anterior, porque quem tem piedade ardente, tem zelo pela salvação das almas. O amor de Deus nos impulsiona a trabalhar para estender seu reinado sobre as almas e o amor pelas almas faz que nos esqueçamos de nós mesmos para pensar somente na santificação das almas ante Deus e para Deus. Sem este zelo, a direção espiritual resultará ineficaz para a alma, já que faltará o estímulo do diretor espiritual para continuar apesar das dificuldades e se converterá para o diretor numa carga insuportável porque sua missão é dura e requer muita abnegação e espírito de sacrifício.

Bondade e suavidade de caráter. O zelo ardente, se não vai acompanhado da bondade corre o perigo de se transformar numa intransigência (Falta de tolerância) e incompreensão terrível, que nunca dá bons resultados. O diretor deve pensar que há de estar animado pelos mesmos sentimentos de Cristo, o Bom Pastor, que vai procurar a ovelha perdida; que não quebra o caniço rachado nem apaga a mecha que ainda fumega. E que acolhe a todos com imensa bondade e compaixão. Não deve esquecer como dizia São Francisco de Sales: “Se consegue mais com um pouco de mel que com um barril de fel”.

Disse o autor Ribert: “A perfeição é uma obra difícil, sobretudo em seus inícios, pelos temores que se inspira e os obstáculos que são preciso superar. Um rigor excessivo e reprovações intempestivas terão o efeito de desanimar as almas e comprometer, talvez para sempre, a obra de sua santificação. Isto é: particularmente nas almas fortemente tentadas, em espíritos poucos abertos, em caráteres suscetíveis, em naturezas débeis e inconstantes, a severidade lhes desconcerta, lhes exaspera, lhes impede a abertura do coração, a confiança e a esperança. A miséria humana e as dificuldades das virtudes recomendam, pois, no diretor, uma paciência inalterável”.

O diretor deve estar animado de sentimentos verdadeiramente paternais, deve ter a obsessão com uma missão de formar Cristo nas almas que Deus lhe confia, até pode dizer como São Paulo: “Filhinhos meus, por quem de novo sinto dores de parto, até que Cristo seja formado em vós” (Gl 4,19).

Deve ser o báculo que sirva para manter em pé, ou para ferir e lastimar. As almas que querem ser tratadas com bondade. Há de procurar o diretor atrair a sua confiança e obediência com uma imensa bondade e suavidade no seu trato, sem prejuízo de manter com energia inquebrantável os princípios mesmo da direção. Santa Joana de Chantal dizia: “À medida que vou vivendo mais vejo fazer-lhes cumprir seu dever sem tirania. Porque, afinal de contas, nossas irmãs são ovelhas de Nosso Senhor; está nos permitido conduzi-las, tocá-las com o cajado, mas não esmagá-las”.

Profunda humildade. O diretor necessita de uma grande dose de humildade por três razões:

Em primeiro lugar por ordem a Deus que “… Resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes” (1Pd 5,5). Sem as luzes de Deus não servem de nada todas as ciências e sabedoria humana na obra da santificação.

Em segundo lugar, por relação a si mesmo. O humilde desconfia de si mesmo não é audaz para resolver irreflexivamente as dificuldades que se lhe apresentam, estuda, medita, consulta se for preciso a outros mais doutos do que ele toma muitas preocupações para assegurar o acerto nas suas decisões.

Em terceiro lugar, por ordem das almas. A humildade atrai e cativa a todo o mundo. Uma repreensão feita com humildade se recebe com gosto e agradecimento; mas, se faz com soberba não é bem recebida e causa mais dano que ajuda.

O diretor deve imitar Jesus Cristo, que era “Manso e humilde de coração” (Mt 11,29) e só procurava o trato das almas a Glória de seu pai (Jo 8,50) sem deixar aquela energia divina que corrigia os vícios e pecados e manifestava ao mundo a verdade.

Perfeito desinteresse e desprendimento no trato com as almasO diretor deve amar as almas não pelas satisfações e consolos que possam lhe proporcionar, senão unicamente para levá-las a Deus.

Santo Agostinho adverte que “os que conduzem as ovelhas de Cristo como se fossem próprias e não de Cristo, demonstram que se amam a si mesmos e não ao Senhor”. E São Lourenço Justiniano cataloga semelhante proceder e roubo, sacrílego, já que reivindica para si mesmo o que é de Cristo e que Ele reclama imperiosamente.

Nem sequer deve lhe importar a gratidão ou ingratidão das almas. Deve deixar com serenidade que abandonem a direção espiritual para ir com outro diretor, sem ter lhes dado nem um motivo para isso. Jamais deve considerar aos outros diretores espirituais como rivais ou competidores, numa missão na qual ninguém pode ter a presunção de obter o monopólio e exclusividade.

Embora possa pedir-lhes a ajuda das orações, não lhes impunha jamais o menor sacrifico ou mortificação para seu proveito próprio. Sua norma única de conduta deve inspirar-se na fórmula sublime do Apocalipse: “Amém, louvor, glória, sabedoria, ação de graças, honra, poder e força ao nosso Deus pelos séculos dos séculos! Amém”.

Estas são as principais qualidades morais que deve ter o Diretor Espiritual. Precisamente por serem tantas e tão perfeitas, não é muito fácil encontrar um bom diretor. Assim pensam São João da Cruz, São João de Ávila,  São Francisco de Sales: devemos escolher um entre dez mil.

Entretanto, não devemos pensar que a alma que não pode ter um bom diretor espiritual, não possa chegar à perfeição. Porque se tem o ardente desejo de santificar-se e de ser em tudo fiel à graça de Deus, segundo as moções do Espírito Santo, não deixará de ser santa porque seu diretor espiritual não é competente.

A Direção Espiritual, enquanto é um meio muito útil e moralmente necessário para a santificação, não é absolutamente necessário. Se não encontrar o diretor adequado ou se a direção não for tão boa mesmo assim com a graça de Deus se pode alcançar a santidade.

Fonte:

Apostila de Espiritualidade, Instituto do Verbo Encarnado

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