Vida em Família

A importância da rotina – parte 1

Tempo de leitura: 6 minutos

A virtude da ordem

Disse Santo Agostinho: sem ordem não há virtude ou como disse São Josemaria Escrivá: ”Virtude sem ordem? – Estranha virtude!”. Santo Agostinho também escreveu “pax omnium rerum tranquillitas ordinis” – “a paz de todas as coisas é a tranquilidade da ordem” .  A ordem é algo que vamos construindo na batalha de todos os dias: “começar pela tarefa menos agradável e mais urgente (…), ser perseverante no dever quando era tão fácil abandoná-lo, não deixar para amanhã o que temos de terminar hoje… E tudo isto para dar gosto ao Nosso Pai Deus!”

Falar nessas palavras – organização, planificação, rotina – evoca de imediato, nos tempos atuais, a frieza empresarial da produtividade e da eficiência. Parecem soluções muito boas para a indústria e o comércio e muito ruins para o coração e para a vida familiar. Muitos pensam assim e isso acontece porque não compreendem o verdadeiro sentido da virtude da ordem, uma virtude que precisa ser resgatada dos preconceitos que a desmerecem. Se não a reabilitarmos (a virtude da ordem) no nosso mundo de valores, veremos como a espontaneidade do amor e dos bons propósitos – que aparentemente é tão bonita e autêntica – se desvanecerá em ilusões e omissões.

“Sujeitar-se a um plano de vida, a um horário… é tão monótono! – disseste-me. E respondi-te: há monotonia porque falta Amor.” – São Josemaria Escrivá

A virtude da ordem, para o cristão, é uma maneira de praticar melhor o amor. O Senhor certamente nunca nos vai sugerir que abandonemos ou descuidemos das obrigações básicas diárias. Mas é bem possível que, se soubermos escutar a sua voz no fundo da consciência, percebamos que nos diz:  também é preciso saber parar, meditar e orar.
Em linhas gerais, são cinco os campos de atividades a serem ordenadas na vida de cada homem e todas estão inter-relacionadas:

  1. a religião (virtude da piedade),
  2. a família (virtude do amor e da amizade),
  3. o trabalho (virtude da laboriosidade),
  4. a sociedade (virtude da solidariedade, colaboração, convivência e amizade) e
  5. o descanso, esporte e cultura (virtude da convivência, alegria e inteligência).

”Se não tens um plano de vida, nunca terás ordem.” São Josemaria Escrivá

Ordem não é ativismo nem doença

Todos temos a experiência de que existe uma ordem que não é boa e que se poderia chamar «defensiva»: é a da pessoa que organiza muito bem os seus horários, mas não tolera que nada nem ninguém interfira neles, e se alguém tenta, cai sobre ela a ira do interrompido. Isso não passa da carapaça com que o egoísta se protege. Bem sabemos que essa ordem pode tornar-se doentia e atingir requintes de neurose, de mania.

Talvez já tenhamos conhecido pessoas que ficavam transtornadas porque alguém – esposa, filho, empregada – tenha tido ‘a ousadia’ de deslocar em poucos centímetros a posição exata que um livro devia ocupar na mesa do escritório. Da mesma forma que não faltam os que dramatizam qualquer interferência que lhes altere o horário de sono ou o fim de semana cuidadosamente planejado. Isto não é virtude, é doença espiritual e, talvez, psíquica. Assim como também não é virtude a ordem dos escravos da eficiência, que sobre o altar da “produtividade” ou do “sucesso” profissional sacrificam Deus, a saúde, a família e as amizades.

Todos deveríamos estabelecer e manter – e defender como algo de sagrado – pelo menos dez ou quinze minutos diários dedicados à meditação e ao exame de consciência: de manhã, antes de iniciar as atividades; ou pouco antes de nos recolhermos para descansar; ou aproveitando a possibilidade de visitar uma igreja numa hora tranquila, quando o silêncio do templo convida à intimidade com Deus.

Nesses momentos, a alma, com a graça divina, se torna transparente, se liberta da terrível força centrífuga do ativismo, e consegue voltar para o seu centro, esse “centro da alma” de que falam os santos, onde ela se encontra a sós com Deus. E essa voz de Deus, honestamente escutada, é a que nos esclarece quais são as prioridades e nos ajuda a hierarquizar, pela ordem de importância, os deveres a cumprir. Assim, estamos em condições de escolher o que é bom e grato a Deus.

Não ignoramos os obstáculos que existem para alcançar esta harmonia interior e exterior. Apesar de apreciarmos a grande atração que uma vida cristã plena constitui, muitas vezes experimentamos tendências diversas e, às vezes, contrárias. São Paulo o expressou com força:

“Quando quero fazer o bem, é o mal que se me apresenta. Como homem interior, ponho toda a minha satisfação na Lei de Deus; mas sinto em meus membros outra lei, que luta contra a lei de minha mente e me aprisiona na lei do pecado, que está nos meus membros.” –  Rm 7, 21-23.

Sentimos uma coisa e queremos outra, notamos que estamos divididos entre as coisas de que gostamos e o que devemos fazer, e, às vezes, a nossa vista acaba perdendo um pouco de luz. Como todos estamos expostos a esses pequenos desvios de rumo, o caminho é sermos simples e corrigirmo-nos com perseverança.

Melhor aproveitamento do tempo

Estabelecer prioridades é, certamente, uma das formas mais nobres da virtude da ordem: é colocar a ordem na mente e no coração. O cristão – e, em geral, todo homem ou mulher responsável –deve cuidar da prática da ordem no seu sentido mais simples e corriqueiro: a organização das atividades dentro dos horários de cada dia, a adequada planificação do aproveitamento diário do tempo. Ter um horário nos leva a aproveitar o tempo. Viver com um horário não nos ata, ao contrário: abre as portas para uma grande variedade de atividades diversas.

A ordem também nos leva a concentrar-nos no que estamos fazendo, não pretendendo fazer várias coisas ao mesmo tempo – o que geralmente leva a não concluir nenhuma. É muito mais eficiente terminar uma coisa e iniciar a seguinte. O verdadeiro trabalhador não se preocupa apenas de terminar a sua tarefa logo que possível; preocupa-se de produzir uma obra que esteja acabada, sem defeito, tão perfeita quanto possível. Não abandonemos uma tarefa enquanto houver algum detalhe que retocar.

Ter uma rotina evita o ócio, a preguiça e diversos outros vícios e nos impulsiona a crescer em virtudes. Permite que façamos uma vasta quantidade de atividades e com qualidade. Com a internalização da rotina vamos descobrindo que realmente temos tempo para tudo: mas ter tempo não significa ter muito tempo. Às vezes, por exemplo, o tempo que se tem para leitura diária são 5 minutos, mas sem esses 5 minutos não se leria absolutamente nada e se descuidaria da formação.

A rotina nos permite uma organização e melhor execução das atividades relacionadas ao nosso trabalho, evitando acúmulos, permitindo avanços e nos deixando flexíveis para lidar melhor com imprevistos. É necessário não omitir trabalhos que nos repugnam, nem inventar deveres adicionais que nos levariam a negligenciar e adiar os nossos deveres reais

Segurança e bem estar para os filhos (e também para os adultos)

O tempo para a criança algo complexo. É através das suas rotinas que a criança antecipa o que irá acontecer e adapta o seu comportamento à tarefa seguinte. As rotinas transmitem segurança à criança, deste modo a criança já sabe, por exemplo, que antes de jantar deve tomar banho. As principais rotinas que se devem manter com as crianças são: horas de refeição; hora de dormir; hora de estudar; hora de brincar, tempos em família e, é claro, momentos de oração.

Ter rotina é importante para desenvolver bons hábitos de sono e de alimentação. Além disso, diminui a ansiedade e transmite segurança. Afinal, saber o que vem em seguida elimina a curiosidade e a incerteza do depois, principalmente para as crianças. Ao desconhecer o que vem em seguida, uma dose de estresse é gerada inclusive nos adultos. Com a rotina adequada as crianças não ficarão aflitas pois saberão exatamente o próximo passo.

Uma família desorganizada, com horários irregulares – em que as refeições são servidas em horários diferentes, o banho e a hora de dormir não seguem nenhuma regra- forma crianças inseguras e desorientadas. A organização das atividades diárias não impedirá que a criança desenvolva autonomia. A coerência e a flexibilidade devem fazer parte do processo de estabelecimento das regras. Regras são essenciais e a rotina é referência na vida de crianças e adolescentes, porque direciona, organiza e equilibra suas vidas para mais tarde tornarem-se adultos diligentes.

Lembro-me que quando o Bento nasceu, senti muita dificuldade em estabelecer rotina. Mas com o passar dos meses fui percebendo que as tarefas começaram a se encaixar e a fluir melhor. Aos poucos fui retomando atividades antigas como leitura, fazer as unhas e também inserindo atividades novas, como um tempo reservado a levá-lo para brincar ao ar livre.

To be continued…

Continuarei este assunto tão importante numa próxima postagem, a parte 2!


Referências

Esposa, Mãe, Ordem Terceira VE"Desejo que Jesus me triture interiormente para que eu me torne uma hóstia pura onde Ele possa repousar.'' (Sta Teresa dos Andes)

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