Lírio entre espinhos

Uma família católica buscando a santidade

Author: Gabriel Zago (page 2 of 4)

Por que falhamos em sermos santos?

Tempo de leitura: 5 minutos

A vocação universal à santidade foi revelada por nosso Senhor no sermão da montanha quando disse “Sedes perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”(Mt 5, 48). Ele não falava apenas para seus apóstolos e, portanto, bispos da Igreja, mas a todos que lhe ouviam, logo, todos nós. Também o Concílio Vaticano II, na constituição dogmática Lumen gentium nos dá as razões do chamado universal à santidade:

  1. Exigências do batismo – temos o dever de desenvolver a graça recebida.
  2. O primeiro mandamento – que nos obriga a “amar a Deus com todo o coração, com toda a alma, com toda a mente e com todas as forças” (Mc 12, 28-30), que, se cumprido fielmente, consiste precisamente na santidade.
  3. Devido ao mandamento de nosso Senhor no sermão da montanha.

É claro que este dever é da busca sincera da santidade (que é o trabalho de uma vida!) e não sermos santos aqui e agora. Contudo, observando a realidade de nosso tempo, vemos que, mesmo dentro da Igreja, é difícil encontrar pessoas detentoras de virtudes heroicas. Segundo o padre Antonio Royo Marín, a principal razão é que nós não empregamos os meios necessários para alcançar a santidade.

Estes meios podem ser divididos em dois grupos:

  1. Naturais
    1. Falta de energia de caráter.
  2. Sobrenaturais
    1. Falta do verdadeiro desejo de santidade.
    2. Falta ou deficiência de direcionamento espiritual.

Falta de energia de caráter

A Graça divina pode encontrar obstáculos naturais para agir em nós e é nosso dever acabar com estes obstáculos naturais (de ordem psicológica, emocional ou mesmo física) para recebermos as graças que Deus nos tem reservado. O principal obstáculo de ordem natural para alçar vôos mais altos na vida espiritual é justamente a falta de energia de caráter. Vivemos em uma geração de homens e mulheres incapazes de se esforçar minimamente para alcançar qualquer objetivo que seja um pouco penoso.

Isso se vê claramente em vários aspectos das pessoas da nossa geração, dentre tantos:

  • Incapacidade de tomar decisões sérias e permanentes: muitos acabam pulando de curso em curso, presos numa eterna adolescência em que, sustentados pelos pais, esperam em suas camas confortáveis por um emprego que cairá do céu ou por um cargo público que seja digno dele.
  • Busca incessante pelo prazer: o que também se mostra na incapacidade de sofrer, mesmo que minimamente. Vemos mulheres que desmaiam só de pensar num parto normal (mesmo que seja muito melhor para ela e para o filhos) e homens que não querem nem saber de serem pais (ainda mais depois de descobrirem que precisam ficar acordados à noite e que fraldas não se trocam automaticamente).

Devemos, como nos exorta Santa Teresa, buscar a fonte de água viva com determinada determinação! Só assim a Graça divina poderá agir em nós.

Falta do verdadeiro desejo de santidade

Este motivo se relaciona bastante com o anterior, mas enquanto aquele é natural, este é sobrenatural. O verdadeiro desejo de santidade tem algumas características fundamentais e é bom citá-las para que possamos fazer uma reflexão sobre nossa caminhada espiritual.

O verdadeiro desejo de santidade é sobrenatural, ou seja, provém de Deus e tem por objetivo Sua maior glória e a salvação das almas e, por isso, deve ser profundamente humilde, sabendo que tudo provém de Deus e que, se dependêssemos somente de nossas forças seríamos os mais desprezíveis pecadores.

Uma característica do verdadeiro desejo de santidade que muito nos falta é a confiança completa em Deus, é esta característica que nos fará seguir crescendo espiritualmente mesmo diante das grandes dificuldades que certamente surgirão. É aqui que muitos de nós falhamos em nos conformarmos em Cristo.

Muitas vezes Deus nos pede provas de nosso amor por Ele, como fez com Abraão ao pedir-lhe o sacrifício de seu amado filho (Gen 22). Abraão teve de mostrar que seu amor a Deus era maior até mesmo que seu amor pela vida de seu filho. Reparem que esta prova vai muito além de deixar de pecar: devemos colocar em prática a completude do primeiro mandamento desejando a santidade acima de todas as coisas!

Na vida espiritual, quem não avança regride. Logo, nada de descansar! Quem dá desculpa de tirar férias da vida espiritual acaba por deixar a vontade fraca e, por conta disso, tem maiores dificuldades para retornar ao ponto em que estava. Portanto, sempre em frente, ou, como diria meu amigo Pier Giorgio Frassati,Verso l`alto!

A falta de regularidade também é um grande inimigo da busca pela santidade, muitas pessoas, ao saírem de retiros ou exercícios espirituais, tem grandes intuitos e propósitos que acabam sendo deixados de lado às primeiras dificuldades. É importantíssimo ter constância na vida espiritual!

A última característica do verdadeiro desejo de santidade é que ele deve ser prático e eficaz. Deve-se dispor de todos os meios aqui e agora para ser santo! Muitas vezes vamos deixando pra depois, para depois das férias, para depois da faculdade, para depois de curada minha doença. De adiamento em adiamento a vida passa e acabaremos por nos apresentar a Deus de mãos vazias das graças que não quisemos receber.

Falta ou deficiência de direcionamento espiritual

Quando observamos a vida dos grandes santos de nossa amada Igreja percebemos que, a grande maioria deles, contava com um diretor espiritual de grandes virtudes!

As características de um bom diretor espiritual já foram tratadas num excelente texto do nosso pai espiritual. Resumidamente, ele deve ser um sacerdote sábio, discreto, experiente, ciente de teologia, intensamente piedoso, humilde e, claro, zeloso pela santificação das almas! Sei que não é fácil encontrar sacerdotes assim, infelizmente (foi por este motivo que nos mudamos de cidade quando nos casamos). São João da Cruz afirma que:

“Para este caminho, ao menos para o que nele há de mais elevado, e ainda mesmo para o mediano, dificilmente se achará um guia cabal que tenha todos os requisitos necessários.”

Deve-se pedir, suplicar a Deus que lhe envie um santo diretor espiritual para ajudar na salvação de sua alma, que é a missão mais importante de nossas vidas!

Vejamos alguns santos que tiveram diretores espirituais também santos: Santa Joana de Chantal teve como diretor espiritual São Francisco de Sales e depois São Vicente de Paulo.  São Vicente de Paulo foi também diretor de S. Luisa de Marillac. Santa Gema teve um diretor santo: o Padre Germano é Venerável e está a caminho dos altares. São Paulo da Cruz foi diretor da Venerável Madre Crucifixa – cofundadora das passionistas e da Venerável Lucia Burlini que era leiga. O Beato Miguel Sopocko foi diretor de Santa Maria Faustina Kowalska. São Cláudio de la Colombiere foi diretor de Santa Margarida Maria Alacoque. No início da sua vida espiritual, Santa Teresa foi muito ajudada por S. Pedro de Alcântara. O Servo de Deus Padre Arintero foi diretor da Ven. Madre Maria Amparo e da Ven. Madre Madalena. E não podemos nos esquecer do grande São João Bosco que teve por diretor espiritual São José Cafasso!

Portanto, é de suma importância que se tenha direcionamento espiritual adequado. Hoje em dia as tecnologias de telecomunicações ajudam bastante visto que a direção espiritual pode ser feita à distância.

Espero que este texto tenha sido de ajuda para reconhecer em que estamos errando na busca pela perfeição cristã, para que, corrigindo, possamos alcançar o fim de nossa vida que é nos assemelharmos a Cristo Nosso Senhor!


Referências

Gabriel é esposo da Rayhanne e pai do Bento e da Maria Isabel! Além disso, é membro da Terceira Ordem da Família do Verbo Encarnado e diretor do Centro Anchieta. Trabalha como professor.

Verso L´Alto – Beato Pier Giorgio Frassati

A paternidade segundo os pais

Tempo de leitura: 9 minutos

Salve Maria! Neste texto veja a paternidade pelos olhos dos próprios pais, homens de verdade que buscam, através dela, alcançar a santidade pela negação de si mesmos e pelo sacrifício que é ser pai.

Reze o Rosário e dará tudo certo


Minha história na paternidade inicia-se em 23 abril de 2017, dois dias após o aniversário de 63 anos de meu pai.
Estávamos reunidos em família, na varanda da casa de meus pais, em Maceió-AL, minha cidade natal, aproveitando esse raro e abençoado momento, uma vez que resido com minha esposa Raphaela em Vitória-ES.
Meus pais, Ana Catarina e Marcos, minha irmã, Ana Cecília, meu sobrinho, Carlos Eduardo, minha esposa e eu líamos algumas das cartas que meus avós paternos, Cely e Manoel, que já se encontram no céu, haviam trocado quando eram noivos, na década de 40.
Em uma das passagens, meu avô, preocupado com dificuldades que enfrentavam para conseguirem concretizar o Matrimônio, aconselha a minha avó: “Cely, reze o Rosário e dará tudo certo!”.
Poucas semanas antes desse encontro em família, após participarmos como voluntários no curso preparatório de casais para o Matrimônio, minha esposa e eu havíamos sido convidados por outro casal voluntário, Rosana e Leonardo, a participar do movimento católico Equipes de Nossa Senhora, cujo carisma é a espiritualidade conjugal. Um mês após, em junho, descobrimos que Deus nos havia dado a graça de aguardar a chegada de nosso primeiro filho, cuja concepção ocorrera em maio, mês de Nossa Senhora.
Naquele momento em família, meu avô, por intermédio do Rosário de Nossa Senhora, falava diretamente comigo e me mostrava o caminho da construção familiar e da paternidade, tal como ele, a seu modo, havia trilhado e mostrado a seus três filhos homens (meu pai e meus tios Mucio e Mauro).
Toda a família reunida naquele momento, com lágrimas nos olhos, relembrando o amor cristão de meus avós, era a prova maior de que, pela intercessão de Nossa Senhora, tudo tinha dado certo!
Quando penso em meu avô e em meu pai, lembro da bela História de São José. Sobretudo, da viagem que Ele e Nossa Senhora, já grávida de Nosso Senhor Jesus Cristo, fizeram para encontrar com Santa Isabel, que aguardava o nascimento de seu filho, São João Batista.
Nessa passagem tão simbólica para os tempos atuais, a Sagrada Família teria que viajar por um caminho muito perigoso até chegar à casa de Santa Isabel. Nossa Senhora, assim como todas as mães, mesmo grávida, não hesitou em cumprir com seu dever de caridade materna, por se tratar da gravidez de risco de sua prima, já em idade avançada.
Assim, fizeram todos os preparativos da viagem e percorreram o longo caminho, utilizando um burrinho como meio de transporte. São José analisava com prudência o que fazer para seguir viagem com segurança e rezava aos anjos, pedindo proteção. Nossa Senhora pedia a São José que se sentasse no burrinho no lugar d’Ela para que pudesse descansar. Todavia, o Santo não aceitava, pois sua principal preocupação não era a sua própria comodidade, mas a de sua esposa e de Jesus Cristo, Filho de Deus.
São José e sua atenção com a segurança e o conforto de sua família nos mostra o real sentido da paternidade. A prudência, o respeito, a caridade, a retidão, a transmissão de segurança pela simples presença, as palavras comedidas nos momentos certos e a eloquência de um olhar profundo e terno representam a confiança de que, em Deus, tudo dará certo. Este é o dom divino de ser pai.
De fato, minha história como pai terá início oficial em fevereiro de 2018, quando receberemos em nossos braços nosso primeiro filho. Como São Josénos mostra, a caminhada é longa e, muitas vezes, perigosa. Porém, é por esse caminho que nós homens, enquanto pais, devemos trilhar em busca da santidade.

Marcos Lopes

Nossa, então isso é amar.

A paternidade foi o momento em que eu realmente entendi que nunca havia amado. Eu pensava que amava. Pensava que sabia o que era amar. Achamos que amamos nossos pais, nossos irmãos, nossos amigos, mas só percebemos realmente o que é o amor quando vemos nossos filhos e os temos nos braços. Naquele momento, quando a criança nasce e você a segura no colo, sua ficha cai e você percebe quanto você ainda é capaz de amar. Quanto seus pais te amaram e quanto eles abriram mão deles por você e quanto sofreram ainda que você pensasse que era você quem sofria.
Toda a vida dos pais é vivida em função dos filhos. Esse é o momento em que você percebe e fala: Nossa, então isso é amar. Se nós que somos pais amamos tanto nossos filhos, mesmo sem saber como eles serão, quem serão e onde vão chegar, não consigo imaginar o tamanho do amor de Deus, que nos sonhou e nos preparou desde o princípio e nos fez do jeitinho que Ele queria. E é incrível como o amor só aumenta. A cada filho a chama cresce e aquilo que era um amor sem medida parece aumentar ainda mais a medida. Creio que por isso que Deus quis nos criar, tantos, e ser chamado por nós de Pai nosso. Por isso que nos deu a condição de filhos, em Jesus, o seu Amor. Seu amor é tão grande que lhe é impossível medir e guardar. A única coisa que para Deus não é possível: deixar de amar. Graças sejam dadas a Deus que nos deu o maior exemplo do que é ser PAI, que nos amou, nos planejou e nos criou, participantes com Ele em sua glória pela eternidade.
Ser pai nada mais é do que entender o sentido da palavra AMOR e colocar em prática.
Escrito com carinho e amor pelo Pai da Maria Clara Cetto Magnago, Rafael Cetto Magnago e Mariana Cetto Magnago, e filho de um grande pai, Djalma José Magnago. Sem ser injusto, com as grandes mães, embora seja pelo dia dos pais, sem elas não seria a mesma coisa, Marcela Martins Cetto Magnago (esposa) e Maria Elena Nunes Magnago (mãe), que nos fazem pais de verdade.

Breno Magnago

É impossível ser pai de verdade e não buscar a santidade

Após o nascimento do meu filho aprendi que ser pai exige um grande esforço diário, um certo abandono de si mesmo, uma negação das próprias vontades, pois diante de mim estava uma criança que precisava da minha ajuda constantemente e por mais que fossem dolorosas as noites de sono mal dormidas e entre os demais sacrifícios, nada tinha mais valor que ver a felicidade de meu filho, é como “padecer no paraíso”, é um sentimento que não tem explicação.
É impossível ser pai de verdade e não buscar a santidade. Os sacrifícios que se fazem na paternidade são semelhantes à santidade. É necessário que o homem se mortifique e se assemelhe “à imagem daquele que o criou” (col 3,10) para alcançar a perfeição da paternidade, pois Deus é o Pai Todo-Poderoso que criou tudo para o bem de seus filhos. O mundo necessita de pais santos que gerem filhos santos, esse é o nosso dever essa é a nossa missão.

Leonardo Gomes

Ser pai no projeto Divino

Deus criou a paternidade para que, com ela, O glorifiquemos e santifiquemos as nossas almas e as dos nossos filhos. Com certa liberdade, preciso dizer que tenho experimentado que uma parte do amor de Deus se torna mais ou menos claro quando os filhos chegam em nossas vidas.
Certos mistérios de amor só podemos compreender com alguma clareza como pais. É um processo muito interessante de comparação que a nossa inteligência faz: na verdade é uma meditação que o Santo Espírito de Amor, numa alma em estado de Graça, insinua em seu interior. Por exemplo, contemplandodentro de mim a enorme alegria do nascimento de um filho não posso deixar de meditar quão imenso e insondável deve ser a felicidade de Deus ao criar uma alma.
Tão forte é a paternidade, que Deus amoroso, mesmo quando cometemos a desgraça de, em pecado mortal, conceber uma vida, num ato de traição inominável, nunca nos negará a alma à matéria apta desde a concepção.
Geramos; Deus cria: profunda diferença. Se o simples processo de geração já nos invade de alegria e de amor, o que não acontece em Deus no ato mesmo da criação, muito mais surpreendente e inovador.
Assim também com o amor que sentimos pelos nossos filhos; se, com uma natureza corrompida pelo pecado original, somos capazes de amor, e com o auxílio Divino, até de amor heroico, como não amará o próprio Deus, que É AMOR, como nos revelou o Seu discípulo amado.
Sim, é verdade, nem tudo são flores. Ser pai é passar também por momentos tortuosos e sofríveis. Não só por causa das angústias que nos invade quando chagam as doenças, ou quando, na liberdade adulta, escolhem o erro, o mal, ou mesmo quando sofrem uma simples queda, mas igualmente quando eles desafiam o nosso amor-próprio, dispersando a nossa atenção de alguma atividade laboral necessária ou mesmo de algum divertimento permitido. É verdade, de fato existem momentos assim. Quanta ira pode brotar no nosso coração de pedra quando nosso(s) filho(s) nos puxa(m) da cadeira onde estávamos para ler algum livro tão esperado, ou ver algum vídeo que poderia trazer algum prazer sensível aos nosso ouvidos e olhos, entre tantas circunstâncias da vida concreta que tínhamos quando solteiros e sem eles. Mesmo o casal, quando quer fazer um atividade em conjunto, legítima, saudável e desejada aos olhos de Deus, já não pode porque os filhos estão ainda muito bebês e dificultam pela atenção que requerem.
Não adianta. Querem atenção, nos convidam para uma brincadeira. Nosso Senhor disse que o Reino dos Céus é dos violentos: quanta violência ao nossoterrível amor-próprio temos que fazer para tudo suportar, sempre com o auxílio de Nosso Senhor Jesus.
Uma meditação muito frequente também nos ocorre com relação à Sagrada Família. Como São José, já cansado de um trabalho manual pesado como a carpintaria, preferia atender às necessidades do Divino Amor, do Menino Jesus, que certamente o convidava para as santas atividades infantis. E as dores de Cristo, que também foram as de São José – é muito frequente esta experiência nos pais: ficam os filhos doentes e parece que a doença está em nós – sofremos tudo o que sofrem, quase como sofrem. Uma simples injeção já quase dilacera um coração paterno, mesmo que exteriormente mantenhamos a aparência de controle e solidez.
É verdade que São José, sabemos pela Sagrada Escritura, faleceu antes da Crucificação de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas uma piedosa tradição nos ensina que, no leito de morte, assistido por Nossa Senhora e por Nosso Senhor (não podemos sequer imaginar este momento glorioso!), o nosso Redentor, confiado a Ele, teria feito passar diante dos seus olhos todos os detalhes do ocorrido na Sagrada Paixão. Maria Santíssima viu e participou em presença; São José teria visto e participado por antecipação.
O que não teria sentido o silencioso São José? Incrível a sua fortaleza, seu equilíbrio santo, sem reclamação, sem resmungos e murmúrios. A angústia de saber que vinham os soldados matar o Filho; a fuga ao Egito e quantas angústias, já que era o homem protetor? Quantas dores, quanta paciência, um homem e um pai moldado pelo Santo Espírito de Amor.
Como dói, convenhamos, quando um filho nos trai. Quando mente. Quando mata arbitrariamente. Dói o nosso coração; e isto é surpreendente, porque nosso coração está manchado pelo pecado (muitas vezes por pecados atuais). Com que direito nos doemos com o pecado alheio, mesmo aqueles realizados por nossos filhos contra nós mesmos? Se somos da mesma carne e na mesma genealogia pecaminosa? Com que direito? Nós, vermes pecadores, que muito pouco fazemos por amor a nossos filhos? Pois se sentimos tanta dor com o pecado (nós também pecadores) dos nossos filhos, de vê-los indo pelo caminho do mal, do vício e do erro, quão imensa dor e desolamento indizível não sente o Sagrado Coração de Jesus por nossos pecados, ele TUDO fez e nada poupou de Si mesmo por nós? Como achamos que fica Deus quando o traímos, se nós, traidores natos, sofremos com as traições dos filhos?
Os filhos nos ajudam a meditar nos mistérios do Divino Amor. Os filhos são alavancas que nos içam a Deus. No projeto Divino, a paternidade foi a forma mais amorosa, como sempre, que a Santíssima Trindade concebeu em Sua Eterna Sabedoria, para nos fazer acordar para o verdadeiro Amor, da vida na Caridade, o sentido da vida, abrir os nossos olhos para a beleza da Cruz, Santo Lenho onde o melhor, maior e mais amoroso Filho, nosso irmão, Luz da Luz, consubstancial ao Pai, morreu paciente e obediente por todos.
Como Cristo, que nossa paternidade seja um martírio constante pela santificação das almas de nossos filhos, que são de Deus.

Leonardo Serafini Penitente

Gabriel é esposo da Rayhanne e pai do Bento e da Maria Isabel! Além disso, é membro da Terceira Ordem da Família do Verbo Encarnado e diretor do Centro Anchieta. Trabalha como professor.

Verso L´Alto – Beato Pier Giorgio Frassati

Direção Espiritual

Tempo de leitura: 4 minutos

Recebi com alegria o convite de meus queridos filhos espirituais, Gabriel e Rayhanne, para compartilhar um pouco a minha modesta experiência de diretor espiritual. Considerei bem oportuno aos leitores deste blog falar sobre direção espiritual (DE), já que esta é uma ferramenta eficaz para o cultivo da vida espiritual, infelizmente desconhecida e pouco utilizada pelos cristãos de hoje, que mais do que nunca necessitam de ajuda para discernir o trigo do joio, para precaver-se de tantos erros, para adiantar na virtude e para formar os santos que o mundo tanto precisa. Devido a urgência e importância do assunto em questão, propus ao casal de abordá-lo em duas breves partes: a primeira, uma exposição sobre a natureza da DE; a segunda, um pouco da minha experiência como diretor espiritual de leigos, especialmente jovens e casais.

Para a primeira parte, mais teórica, prescindo mais de mim e me baseio em quase toda a exposição no esplêndido e atualizado livro do Pe. Miguel Ángel Fuentes, colega sacerdote do Instituto do Verbo Encarnado, que hábil e sabiamente como ninguém, oferece aos diretores espirituais La ciencia de Dios, manual para diretores espirituais1 (San Rafael, Argentina, EDIVE, 3ª ed., 2013).

A Direção Espiritual

A prática da DE é um dos tesouros mais valiosos destes dois mil anos de tradição da Igreja, é uma sementeira de vocações à vida consagrada, de sacerdotes fervorosos, de leigos de alto voo e incidência social, de apóstolos de todo gênero, enfim, de genuínos Santos.

O que é a DE

A DE consiste na arte de guiar acertada e progressivamente as almas ao fim da vida espiritual, quer dizer, à perfeição; também pode definir-se como a ajuda que se presta a um cristão para que amadureça em sua fé e vida espiritual. Este ofício exige tanta preparação do diretor que, adverte São João de Ávila, se chama ‘arte de artes’”2.
Hoje, como sempre, –ou talvez mais que nunca– é necessário promover a genuína DE, quer dizer, a guia sobrenatural de almas de maneira séria, científica e exigente, ou simplesmente, católica.

Necessidade da DE

A necessidade da DE tem seu fundamento remoto na Sagrada Escritura, sua proclamação na Tradição da Igreja e sua razão íntima na natureza de nossa vida espiritual e no modo ordinário de obrar da Providência divina.

O Magistério da Igreja confirmou esta prática com sua autoridade, recomendando-a e inclusive prescrevendo-a em determinados casos.

Por exemplo, o Catecismo da Igreja Católica diz:

O Espírito Santo dá a certos fiéis dons de sabedoria, de fé e de discernimento em vista do bem comum que é a oração (direção espiritual). Aqueles e aquelas que têm esses dons são verdadeiros servidores da tradição viva da oração:

Por isso, se a alma deseja avançar na perfeição, conforme o conselho de S. João da Cruz, deve “considerar bem em que mãos se entrega, pois, conforme o mestre, assim será o discípulo; conforme o pai, assim será o filho”. E ainda: “O diretor deve não somente ser sábio e prudente, mas também experimentado… Se o guia espiritual não tem a experiência da vida espiritual, é incapaz de nela conduzir as almas que Deus chama, e nem sequer as compreenderá”3.

A Exortação Pastores dabo vobis, falando da DE, diz:

“É preciso redescobrir a grande tradição do acompanhamento espiritual pessoal, que sempre deu tantos e tão preciosos frutos, na vida da Igreja: esse acompanhamento pode, em determinados casos e em condições bem precisas, ser ajudado, mas não substituído, por formas de análise ou de ajuda psicológica. As crianças, os adolescentes e os jovens sejam convidados a descobrir e a apreciar o dom da direção espiritual, e a solicitá-lo com confiante insistência aos seus educadores na fé. Os sacerdotes, pela sua parte, sejam os primeiros a dedicar tempo e energias a esta obra de educação e de ajuda espiritual pessoal: jamais se arrependerão de ter transcurado ou relegado para segundo plano muitas outras coisas, mesmo boas e úteis, se for necessário para o seu ministério de colaboradores do Espírito na iluminação e guia dos chamados”4.

O que falar na DE

O objeto ou matéria da DE são todos os assuntos relacionados a saúde da alma onde tem lugar o desenvolvimento da perfeição cristã. Santo Afonso Maria de Ligório falando aos confessores resume dizendo: “Quatro pontos principalmente atenderá o confessor na direção das almas espirituais: a meditação, a contemplação, a mortificação e a frequência dos sacramentos”5. Outros acrescentam também a prática das virtudes e a santificação das ações ordinárias6. Pode-se acrescentar ainda o trabalho para moldar o próprio caráter e temperamento, discernimento de situações meramente humanas como relacionamentos, decisões, estudo, trabalho, mas que poderiam afetar direta ou indiretamente a vida espiritual ajudando-a ou atrapalhando-a.

Finalidade da DE

A DE tem como fim último levar as almas à perfeição. Tem também fins intermédios, segundo as diversas etapas da alma. Podemos indicar quatro finalidades subordinadas, que são curar e fortalecer as fraquezas humanas, precaver dos perigos, discernir os espíritos que movem à alma e prepará-la para que responda com docilidade às exigências da graça.

Qualidades da DE

A DE para que seja autêntica e frutuosa tem que reunir várias características. As principais com relação ao diretor são: que seja científica, prudente, firme, caridosa e adaptada ao dirigido.

Quem pode ser diretor espiritual

Ordinariamente o sacerdote porque se dá propriamente um encargo por parte da Igreja; ele exerce uma direção ministerial, cuja missão está implícita na missão de santificar às almas por todos os meios possíveis, que recebe no momento da ordenação sacerdotal.

Qualidades do diretor espiritual

As qualidades do bom diretor espiritual se deduzem das qualidades que deve ter a boa DE: santidade, prudência, experiência, ciência e qualidades humanas7 , como: um sadio e cordial afeto, o dom de entender às pessoas, a arte de sugerir com simplicidade e eficácia, a magnanimidade e a confiança.

 

Se Deus quiser, em breve votarei para falar um pouco da minha experiência como diretor espiritual de leigos, especialmente jovens e casais.

Que Deus abençoe você!

Pe. Fábio Vanderlei, IVE


Referências

  1. La ciencia de Dios, manual para diretores espirituais.
  2. São João de Ávila, Audi filia, 4.
  3. Catecismo da Igreja Católica, nº 2690.
  4. São João Paulo II, Pastores dabo vobis, 40.
  5. Santo Afonso María de Ligorio, A prática do confessor, nº 99. Cf. 100-133.
  6. Cf. Garrigou-Lagrange, As tres idades da vida interior, Vol, I.
  7. Cf. Mendizábal, Dirección espiritual.

Gabriel é esposo da Rayhanne e pai do Bento e da Maria Isabel! Além disso, é membro da Terceira Ordem da Família do Verbo Encarnado e diretor do Centro Anchieta. Trabalha como professor.

Verso L´Alto – Beato Pier Giorgio Frassati

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