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Formação,  Literária

Cinderela e a felicidade eterna

Tempo de leitura: 5 minutos

As comparações são necessárias para compreender e entender a realidade (entender vem do latim intus -dentro- legere, logo ler dentro). Santa Teresa usa a comparação do Castelo e as Moradas, Fray Juan de Yepes (S. João da Cruz) usou a de uma ascensão à montanha, o Inglês Bunyan o de uma viagem a pé infestada de obstáculos e peripécias alegóricas; e assim outros poetas místicos. Por isso, segue um texto alegórico sobre Cinderela e a vida eterna.

“Um dia sem sofrimentos é um dia perdido.” (Santa Teresinha) ⠀⠀⠀⠀⠀

Não tenho dúvidas de que somos uma geração romântica. Além de vivermos no mundo dos sonhos, idealizamos a vocação e as pessoas.
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Sonhamos com um passado que nunca existiu, idealizamos um futuro que não existirá – a não ser no mundo das nossas medíocres quimeras. Enquanto isso a realidade escapa por entre os dedos como areia fina da praia. E com ela se vai a santidade e a felicidade. Pois ser santo é ser feliz e ser feliz é ser plenamente realizado naquilo que se é e se faz: concretude.
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Esses dias lendo Cinderela – e eu amo como os contos de fadas nos ensinam sobre a realidade da vida (desta e da transcendente) – fiquei pensando exatamente sobre a felicidade.
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Ir ao baile era um sonho impossível, realizado através de um passe de mágica. Mas, como toda mágica, esbarra na condição da realidade pois a mágica não é eterna. E a Eternidade é a realidade. A condição neste caso era justamente voltar para a realidade por vontade própria, ao invés de esperar que tudo se desfizesse de forma trágica – e mágica.
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O mundo perfeito e mágico dos sonhos ficou ligado à realidade por um sapatinho de cristal: nobre, concreto, até mesmo porque não, discreto? E foi justamente a obediência de Cinderela e a sua humildade em aceitar sua pequenez que deram a ela a chance de ser feliz – de verdade, no mundo real.
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A nossa vida é cheia de madrastas e irmãs más, de vestidos velhos, de cinzas para varrer. Mas virá um dia em que essa realidade será totalmente transfigurada e a gata borralheira se desposará eternamente com o Único Esposo de sua alma. O eterno Amado e Amante.
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E desde hoje, todos nós podemos transfigurar a nossa realidade e viver um lindo conto de fadas com final feliz. Amar a nossa pequenez, confiar nossa miséria ao trono da Misericórdia, elevar a realidade por cima dos olhos comuns. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Justiça seja feita: nós merecemos todos os sofrimentos, pois somos nada mais pecado. E ainda assim somos cumulados de felicidade e de prêmio eterno, merecido não por nossas forças, mas por Aquele que morreu de amor por nós. ⠀⠀⠀⠀

A escolha pelo último lugar e o prêmio da felicidade eterna. ⠀⠀⠀⠀

O sapatinho de cristal só persistiu pela obediência de Cinderela à ordem de sua madrinha. Imersa em um sonho onde a beleza de sua alma era ofuscada pela pompa exterior, pelo glamour, pela aparência, pelo sucesso, Cinderela sentia uma aparente felicidade. Mas nada daquilo era real.
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A carruagem era uma abóbora, os cavalos eram camundongos, os lacaios eram lagartos. Difícil deixar a ilusão, perdida no tempo e encantada com as aparências da felicidade, foram as badaladas do relógio que a chamaram de volta à realidade: este é o tempo da felicidade, que uma vez perdida não volta. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀

A tentação da ilusão era encantadora e só na última badalada do relógio Cinderela foi-se embora. Mas foi, porque era obediente. Se tivesse ficado presa no sonho, toda a mágica teria se desfeito diante de todos e o príncipe a teria rejeitado por sua mentira. Como toda ilusão, o fim seria trágico e triste.

A vida no pecado é esta ilusão: Aparência de felicidade. Enquanto que a real felicidade está em viver “a verdadeira vida” cuja recompensa é a felicidade eterna. Redundante, porém incontestável. Cinderela rejeitou todas as pompas e facilidades. Aceitou voltar para o último lugar, para o trabalho “sujo e vil, suportado com paciência e sem queixas”. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀
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Entre todo o reino só Cinderela foi digna de usar um sapatinho de cristal. E não só isso, mas o sapatinho só cabia no pé de sua dona. Era a marca indelével da alma honesta, pura e única. “O demônio pode vestir até o manto da humildade mas nunca o da obediência.” Por isso muitos quiseram e tentaram vestir aquele sapato fingindo serem outras pessoas, cortando os dedos dos pés, mas o sapato como a veste branca dos que estarão com o Cordeiro só podia ser usado por quem lhe era de direito.
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O prêmio eterno está longe das honrarias do mundo. Estamos vivendo no baile das aparências ou já ouvimos as badaladas do relógio?

O demônio nada pode contra a alma humilde (São Vicente de Paulo)

Soaram as trombetas que anunciavam os emissários do Rei. Quando chegaram à casa de Cinderela, a Madrastra tratou de escondê-la. As irmãs, então, provaram o frágil sapatinho e nem a muito custo puderam caber nele. O peso de seus pecados, da sua maldade, da sua corrupção deixavam-nas inaptas a caber na transparência e simplicidade do sapatinho de vidro.

Perguntando outra vez se não havia mais nenhuma moça ali, pois já haviam procurado por todo o reino, o emissário não contentou-se com a resposta da madrastra e escancarou a porta da cozinha, encontrando então quem procurava. Assim como nos ensina a sabedoria bíblica, devemos fazer face ao mal com coragem e enfrentá-lo com abundância de bem!

Cinderela apresentou-se diante do emissário e somente após ele lhe estender o sapato, o calçou. Ela não apareceu na sala para dizer quem era e nem para mostrar o outro par do sapatinho que guardava em seu avental. A sua atitude era de alma verdadeira, humilde e confiante.

Era tão segura de si que calou-se. Não cabia para esta alma humilde nenhuma atitude de desespero, de justiça humana, de mostrar-se, de defender-se, de exigir o que era seu por direito. Nem mesmo com o que aconteceria ou não: abandonou-se. Esperou em silêncio o seu julgamento, tranquila em paz pois sabia que aquele sapatinho era seu e lhe traria o que seu coração tanto sonhara: o amor eterno.

Ela confiou: “Pois nada há de oculto que não venha a ser revelado, e nada em segredo que não venha a ser descoberto.” (São Marcos 4, 22) Assim, a maldade da madrasta nada pôde contra a verdade da alma humilde.

A história conta que o pé de Cinderela deslizou por dentro do sapato, cabendo perfeitamente como se ele e o pé fossem um só. A alegoria do sapatinho de vidro parece dizer: ”Vem amada minha, esta é a vida que lhe cabe tão perfeitamente e que não desaparecerá mais. Esta é a tua nova realidade: a felicidade eterna!”

O beijo do Senhor: matrimônio eterno

Ao perdoar as irmãs e sua madrastra por todo o mal que lhe fizeram, não posso deixar de me emocionar pensando nos mártires que perdoavam até mesmo os seus carrascos e lhes agradeciam por abrir as portas eternas.

A história termina relatando que ao calçar os sapatinhos, as vestes de Cinderela deixaram de ser trapos e transformaram-se em um vestido branco de noiva. E que naquele mesmo dia ela se casou com o príncipe e viveu feliz para sempre. Quando leio esse trecho imediatamente recordo da morte de Santa Teresinha e do beijo de amor que o Senhor dá na alma quando a encontra.

Cinderela é a alma que esperou o chamado do Esposo para entrar em Suas Núpcias. Aguardou que Ele lhe encontrasse, reconhecesse, aceitasse e convidasse. Suportou toda a sorte de contrariedades e injustiças, venceu a tentação da aparente felicidade fast-food e perfeita que o pecado oferece. Sendo obediente até o fim, recebeu o anel do desposório eterno:

“Meu bem-amado disse-me: “Levanta-te, minha amada; vem, formosa minha. Eis que o inverno passou: cessaram e desapareceram as chuvas. Apareceram as flores na nossa terra, voltou o tempo das canções. Em nossas terras já se ouve a voz da rola. A figueira já começa a dar os seus figos, e a vinha em flor exala o seu perfume; levanta-te, minha amada, formosa minha, e vem.” (Ct 2, 10 – 13)

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Esposa, Mãe, Ordem Terceira VE"Desejo que Jesus me triture interiormente para que eu me torne uma hóstia pura onde Ele possa repousar.'' (Sta Teresa dos Andes)

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