Christ in the Storm on the Sea of Galilee
Espiritualidade

Até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados. Não temais!

Tempo de leitura: 8 minutos

Estamos vivendo uma pandemia por conta do Coronavírus. Como devemos viver este tempo? Somos cristãos, portanto “Andamos na fé e não na visão” (2Cor 5,7). Uma situação de calamidade como a que estamos vivendo deve arrancar de nós não gestos de desespero e desconfiança, mas gemidos de contrição e lágrimas de confiança. Devemos abrir os olhos e os ouvidos da alma e perguntar: “Senhor, que queres?”

Confiar não é não se cuidar 

Há uma epidemia em curso. Embora muitos digam que tudo isso é armação, temos bastantes evidências científicas e fatos já comprovados. Embora não seja uma doença gravíssima para a parte jovem da população, o é para os idosos, pessoas com outras doenças e bebês menores de um ano. 

O fato é que todos pegaremos este vírus algum dia em nossas vidas. Importante é que não peguemos todos juntos para que o sistema de saúde tenha capacidade para tratar todos os que estiverem em condições mais graves. 

Por isso o tempo de confinamento e as normas básicas de higiene são fundamentais para que o vírus se propague lentamente ao invés de explodir de vez.

Prevenir-se é também um ato de caridade, afinal para os mais jovens pode ser apenas um resfriado, mas para outras pessoas pode ser o fim da vida.

Há que se viver este tempo como ensina Santo Inácio: dispondo os meios para evitar a doença e confiando em Deus de que tudo o que acontece é por Sua permissão. E não nos esqueçamos que até do mal Ele tira um Bem muito maior. Como diz Santo Agostinho:

“Se a uva não fosse esmagada no lagar, não haveria vinho. O Deus todo-poderoso, por ser soberanamente bom, nunca deixaria qualquer mal existir nas suas obras se não fosse bastante poderoso e bom para fazer resultar o bem do próprio mal.”

Santo Agostinho

Quando São José foi avisado em sonho que Herodes queria matar o menino Jesus, poderia ter dito: “Daqui não saio, afinal meu filho é Deus e num estalar de dedos destruirá Herodes”. Mas qual foi a atitude de São José? Humilde obediência. Fez o que tinha de ser feito e retirou-se com a Virgem Maria e o menino Deus para o Egito até a morte de Herodes que se deu anos depois. 

A visão sobrenatural deste momento

Estamos em plena Quaresma, época de conversão. Tempo de reclusão, introspectivo, de reflexão, de empatia e caridade, de oração que nos convida a nos unirmos mais a Deus. Que tempo propício para meditarmos sobre a morte! Não tenho dúvidas de que como algumas crianças só aprendem à base de duros castigos, assim uma sociedade que não ouve a Deus precisa de uns solavancos para acordar. Como ensina São João Crisóstomo:

“Sois muito exatos em contar os sofrimentos. E sois, porventura, em contar os pecados que os provocam?”

São João Crisóstomo

Uma praga é um castigo divino. Um bom Pai, embora não goste, castiga seus filhos quando eles precisam. Assim também o Pai tem misericórdia do filho quando sofre. Mas sabe que há situações em que o filho necessita daquele sofrimento para crescer e ser melhor.  Já dizia Santo Agostinho: “Qualquer angústia ou tribulação que sofremos é para nós aviso e também correção.” 

Uma sociedade fraca como a nossa que sequer faz abstinência de carne na sexta-feira seria incapaz de sobreviver a uma peste negra. Muitos do clero se esconderiam, os leigos se desesperariam, seria uma grande perda de almas em pecado grave. Imagina o povo tendo que racionar alimentos, água e remédios! Não suportaríamos. Muito provavelmente deixaríamos os vizinhos morrerem de fome ainda que nossos armários estivessem abarrotados de comida. Nada mais proporcional à nossa capacidade de sofrer do que algo como este vírus. Afinal Deus não nos dá uma cruz maior do que possamos carregar.

Muitas pessoas estão preocupadas com a economia. O fato é que a vida é sempre mais importante que o dinheiro. O mundo não vai parar todo de uma vez e temos de rezar por estas pessoas que gostariam de estar em casa isoladas mas precisam continuar trabalhando, principalmente as que são mais velhas.

Também é hora de reavaliar o nosso apego às coisas e às pessoas. Perder é sempre triste, mas não pode nos incorrer no desespero ou na desesperança.

O proveito espiritual

Tempo difícil e o que Senhor dos pedirá? Talvez a morte de um ente querido, de um sacerdote amigo, de um filho. Talvez nos permitirá contrair a doença ou outra enfermidade mesmo que tenhamos disposto nossos esforços. Talvez nos deixará meses sem Missa. Talvez a fome, a quebra financeira. “A firmeza cristã exige não só fazer o bem, mas também sofrer o mal.”, como ensina Santo Agostinho. E mais,

Não é o evitar o sofrimento, a fuga diante da dor que cura o homem, mas a capacidade de aceitar a tribulação e nela amadurecer, de encontrar o seu sentido através da união com Cristo, que sofreu com infinito amor.

Bento XVI

Tudo nos purificará e nos deixará grandemente desolados e em aridez. Nos mostrará então que Ele é o Senhor de todas as coisas e nós somos nada. Estamos abandonado em Suas mãos. Nada está efetivamente sob o nosso controle, ainda que acreditemos que está.

É uma grande noite e nos tiraram até o Esposo: “Eu abri ao meu amado, mas já o meu amado tinha se retirado, e tinha ido; a minha alma desfaleceu quando ele falou; busquei-o e não o achei, chamei-o e não me respondeu. Acharam-me os guardas que rondavam pela cidade; espancaram-me, feriram-me, tiraram-me o manto os guardas dos muros. Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, que, se achardes o meu amado, lhe digais que estou enferma de amor”. E talvez mereçamos ficar sem o Esposo para aprender a amá-Lo melhor. Ficar sem poder se confessar, visitar o Santíssimo e comungar decerto deveria nos fazer chorar amargamente pela graça que desperdiçamos tendo podido fazê-lo tantas vezes e não fizemos.

Rezar e fazer penitência, fazer orações principalmente por nossos sacerdotes para que continuem salvando as almas e para os profissionais de saúde para que continuem salvando vidas, clamar a Deus por piedade, mas também se resignar porque os grandes sofrimentos nos preparam grandes graças. 

Temos de tirar frutos de humildade, contrição, penitência, confiança, alegria na tribulação, fortaleza, intimidade com Deus, abandono, caridade. 

Se Ele dorme é porque nos quer vigilantes. Ele nunca nos abandona e apenas um movimento de Sua mão faz tudo se acalmar.

“Quem a Deus tem, Mesmo que passe por momentos difíceis; Sendo Deus o seu tesouro, Nada lhe falta. Ainda que tudo perca, Só Deus basta.” Nisto está toda a nossa paz.

Vivendo bem este tempo

Crianças em casa, estabelecimentos fechados, visitas suspensas. Que fazer? Aprender a usar o tempo de forma útil.

Uma situação de calamidade não serve apenas para nos fazer rezar mais, mas também para aumentar nossa humanidade. Por isso nessas horas cresce a nossa solidariedade, empatia, aumentam os vínculos humanos.

Não sou capaz de entender pais que tem reclamado de ter seus filhos em casa em uma crise dessas. Penso como estamos pobres de amor humano. Um pai ou uma mãe que deseja que seus filhos estejam longe deles neste momento de possível morte certamente padecem de problemas interiores sérios.

O tempo de confinamento pode prejudicar nossa saúde mental, principalmente a de quem não aprendeu ou se desacostumou a amar o seu lar, amar a paz e a tranquilidade dos dias que passam devagar. Então é preciso reaprender a estar em casa em família, fazendo coisas juntos, rezando, jogando, cozinhando, arrumando a casa, conversando, brincando e tanto mais. Aproveite o tempo para passar momentos agradáveis em família, para fazer atividades que estão atrasadas, para ler e aumentar a intimidade com Deus.

Deixe de lado as notícias. Sim, o melhor é escolher apenas uma fonte e checar as vezes, de preferência da própria cidade. Há um fenômeno chamado “síndrome do mundo vil” que diz que quanto mais assistimos noticiários e lemos notícias, mais ansiosos ficamos pensando que o mundo vai acabar em tanta maldade e problemas. Isso acontece porque ali as notícias estão concentradas e muitas vezes exageradas, maquiadas. Pessoas que assistem muito jornais na tv e acessam muitos sites de notícias podem desenvolver até síndrome do pânico. Já temos várias condições favoráveis à isso, então faça um favor a si mesmo e se desconecte. 

Não perca tempo assistindo tantas informações sobre o assunto. Aprenda como se portar na situação de crise. Desligue a TV, não fique dando ouvidos a tudo que dizem no Instagram e nas demais redes. Muitas pessoas falam mentiras, exageros, colocam os outros em desespero. Tudo isso só gera pânico. Procure evidências científicas para se informar e cada vez que se corroer de curiosidade e procurar novas notícias, pegue o Terço e reze. 

Reze! Não sairemos dessa situação transformados se não unirmos nosso coração com o do Senhor. Não é porque as Missas foram suspensas que temos de deixar de rezar. Pelo contrário, devemos rezar mais!

Festeje! Certa vez quando nosso fundador teve a notícia de que iam fechar o seminário na Argentina, em vez de chorar suas pitangas juntou todo mundo e fez uma festa! Afinal está escrito: “Alegrai-vos em todo o tempo!” São Tiago escreve: “Considerai que é suma alegria, meus irmãos, quando passais por diversas provações, sabendo que a prova da vossa fé produz a paciência.” Além disso, celebrar alimenta em nós o bom espírito e nos fortalece na provação. Faça penitência mas também separe momentos para se alegrar em família! 

Ofereça ajuda e consolo! Se você é jovem, ajude aos mais velhos. Se você tem um amigo que mora sozinho, uma amiga grávida ou com bebê pequeno que o marido não foi liberado do trabalho, se você tem pais que moram perto da sua casa, ou alguém com doença crônica, por que não convidá-los a ficarem na sua residência? (Claro, se não houver riscos de contágio). Assim podemos nos unir mais, ajudar e receber ajuda também. 

Sorria, porque a vida segue! Muitas pessoas precisam sair às ruas para trabalhar ou para resolver assuntos. O clima já está pesado demais, aliviemos a barra sorrindo. Isso também traz a nossa humanidade e paramos de olhar o outro apenas como um possível transmissor de vírus.

Cuidado com as crianças, pois elas absorvem nosso estado de humor. Se nos percebem ansiosos, agitados, com medo, ficarão inseguras e mais propensas a crises de mau comportamento. Aproveite este momento para uma bela lição de higiene e também de catequese, juntando toda a família para rezar a Deus pedindo misericórdia por Seu povo, proteção para nossas famílias, graças especiais para os religiosos, conversão dos pecadores, boa morte para quem falecer e tanto mais.

Conclusão 

Santa Catarina perguntou a Jesus: Onde estavas, meu Jesus, durante essa tempestade? Jesus respondeu: No meio de teu coração.

Não desperdicemos este momento. Temos de “Crescer na confiança enfrentando as tribulações” (Jó 1,20).

Aproveitemos este tempo propício para refletir sobre nós e a nossa vida. Onde temos colocado nossa confiança e esperança? Como está nosso relacionamento pessoal com Deus? Em que baseio minha vida: no trabalho, na saúde, no sucesso, na diversão ou na busca pela vida eterna? 

Muitas vezes “temos olhos para não ver”, como está no Evangelho. Dizemos crer em Deus e vivemos como se Ele não existisse. E podemos continuar cegos se, ao passar por essa tribulação, voltarmos à velha vida de sempre.

Todo dia é dia de morrer. Essa não é uma exclusividade do vírus que enfrentamos nesta crise. Há varias doenças por aí, podemos sofrer um acidente, podemos simplesmente fechar os olhos para dormir e não mais acordar. Mas se tivermos os olhos fixos somente nesta terra e nesta vida, dificilmente lembraremos desta grande verdade. Que tememos? A morte? A doença? Os males do corpo? Tudo isso é nada perto dos males da alma, da condenação eterna.

Talvez se pararmos para pensar, veremos em quantas coisas fúteis temos desperdiçado a nossa vida. Quantas brigas, ressentimentos, afastamentos, quantos pecados, quanta perda de tempo.

Não temos nada a temer se estamos unidos a Deus e temos Nele o nosso tesouro. “Envio-lhes contrariedades, para que compreendam que esta vida não constitui a meta final, que as realidades terrenas são imperfeitas e passageiras, que sou Eu o fim último.” disse Jesus a Santa Catarina de Sena.

Dizia Santa Teresa de Calcutá: “A confiança na Providência Divina é a fé firme e viva de que Deus nos pode ajudar e nos ajudará. Que Ele nos pode ajudar, é evidente, pois Ele é onipotente. Que Ele nos ajudará, é seguro, porque Ele, em muitas passagens da Sagrada Escritura, prometeu e foi fiel a todas as Suas promessas”.

“Nele, pois, se alegra o nosso coração, em seu santo nome confiamos. Seja-nos manifestada, Senhor, a vossa misericórdia, como a esperamos de vós” (Salmo 32,21-22).

Rezemos confiantes a Virgem Santíssima que nos livre desta doença conforme for a vontade divina, que proteja as nossas famílias e sobretudo nos dê a graça de sermos fortes e perseverantes na batalha. Esforcemo-nos em ser os justos que impedirão que o Senhor destrua o mundo, como o fez com Sodoma e Gomorra. 

“Quem quer que sejas, sacudido pelo vendaval das tempestades deste mundo, sentindo a terra como um mar devorador, não afastes os olhos do fulgor desta Estrela.”

São Bernardo

Ainda que saia em breve a cura, temos que tirar alguma lição deste momento. Espero que, ao menos, seja a de higienizar bem as mãos.  

Esposa, Mãe, Ordem Terceira VE"Desejo que Jesus me triture interiormente para que eu me torne uma hóstia pura onde Ele possa repousar.'' (Sta Teresa dos Andes)

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