Matrimônio

”Não tenhais medo!” (São João Paulo II)

Tempo de leitura: 8 minutos

Recém descobrimos nossa terceira gestação! Não há tempo mais oportuno para falar sobre ter filhos do que quando estamos gerando um! Cada filho é um dom de Deus, um presente único e tão particular que só podemos dar graças!

A abertura à vida

Nem todo casal sabe, e é uma lástima que tantos cursos de noivos não tratem deste ponto que é imprescindível até mesmo para a validade do matrimônio, mas quando nos casamos o sacerdote pergunta: ‘’Estais dispostos a receber amorosamente os filhos como dom de Deus e a educá-los segundo a lei de Cristo e da sua Igreja?’’ e nós prometemos: ‘’Sim!’’.

A abertura à vida é condição do Sacramento do matrimônio. Quem se casa tem de estar aberto a receber os filhos. Em resumo, a Igreja condena qualquer método artificial de anticoncepção (preservativos, anticoncepcionais, diu, pílulas, injeções hormonais, onanismo, e etc). E, por sua vez, tolera os métodos naturais, como o Billings, para que, por motivos objetivos e justos (já especificados pela Igreja), o casal possa espaçar as gravidezes.

Indico a leitura: Casti connubii, Humanae vitae, Amor que dá vida

Ter filhos é algo natural

Nascemos em uma sociedade hiper sexualizada e que busca o prazer a todo custo. Por isso, temos uma consciência frouxa, relaxada e na maioria dos casos, muito mal formada à respeito da verdadeira sexualidade e da dignidade e finalidade do ato conjugal.

Deus fez-nos homem e mulher e ordenou que crescêssemos e multiplicássemos. O meio pra isto é o ato conjugal, cuja finalidade natural é a procriação. Contudo, ele não compreende apenas esta dimensão, mas também a dimensão unitiva. A dimensão unitiva significa que o sexo é um meio de unidade do casal. Mais do que nunca é no relacionamento sexual que eles se tornam “uma só carne”. Se ao criar todas as coisas, “Deus viu que tudo era bom” (Gen 1,10), também o sexo é bom, já que foi feito com a bela finalidade de gerar a vida e unir os esposos.

Hoje parece que falta-nos até mesmo a simplicidade do raciocínio lógico. É tão rotineiro o fato de se evitar filhos que perdemos a noção de que o sexo é justamente para gerar filhos. Não deveríamos nos assustar com a gravidez ou com gravidezes sucessivas, antes deveríamos encarar com a naturalidade de quem sabe que essa é a consequência natural de uma vida sexual ativa, e também com o júbilo de quem foi visitado por Deus e recebeu de Suas Mãos tão nobre presente!

O ato sexual é a mais intensa manifestação do amor do casal e é a celebração do amor no nível afetivo e sensitivo. Portanto, não pode haver sexo sem profundo amor e é por isso que somente no casamento ele expressa a sua verdade. O sexo fora do casamento é apenas utilitarismo e, dentro do casamento, o sexo fechado aos filhos também age da mesma maneira: busca apenas o prazer.

O tempo de ter filhos

No livro do Eclesiastes está escrito que ‘’debaixo do céu há um tempo para cada coisa.’’

Deus fez o corpo da mulher com um tempo marcado de fertilidade. A mulher não é fértil por toda a vida, mas apenas por uma parcela de anos, dos quais os primeiros ainda é muito nova física e psiquicamente para conceber e nos últimos já encontra dificuldades de concepção e físicas para a gravidez.

Seguindo o simples raciocínio de que há um tempo, corporalmente falando, onde a gravidez é possível, se fizermos outras coisas neste tempo de ter filhos, que faremos depois quando quisermos os filhos e já não for mais o tempo?

Quase tudo podemos fazer no período anterior e após o período fértil ter acabado: estudar, praticar esportes, viajar, tocar um instrumento, ter hobbies, etc, mas ter filhos só pode acontecer no tempo em que eles podem ser gerados.

Esse pensamento raso de que temos todo o tempo do mundo para nos prepararmos e fazer algo é uma ilusão. Só temos o dia de hoje. Especialmente casar e ter filhos não deve ser um projeto para “quando der”. Se Deus deu à mulher um período de anos de fertilidade, é justamente para que seja usado para isso.

O tempo de ter filhos é o tempo de ter filhos. Depois, será tempo de fazer tantas outras coisas. Depois, quando for tarde demais, quando não houver mais fertilidade, ou quando eu me der conta que o tempo é curto e está difícil engravidar, perceberei que gastei a vida correndo atrás do que não era essencial.

Não somos senhores da vida

O pensamento de protelar o nascimento dos bebês tem raiz em uma espécie de soberba, pois nos achamos senhores da vida. Acreditamos que teremos bebês na hora em que quisermos.

A verdade é que ter um filho depende mais de Deus do que de nós, porque é Ele quem infunde a alma e verdadeiramente dá a vida. Nós somos apenas cooperadores. E, se de tanto esperar, já tiver passado todo o tempo onde o Senhor teria gentilmente me concedido filhos? Conheço muitas pessoas que choram amargamente a infelicidade de tardiamente ter buscado conceber e muitas seguem por anos tentando sem sucesso. Isso quer dizer que Deus nos castiga? Não, apenas que há um tempo para cada coisa e Ele é quem dispõe as graças, e nós somos quem as aceitamos ou rejeitamos.

Entre o justo e o perfeito

A Igreja é nossa Mãe e Mestra e, como tal, jamais nos prescreveria qualquer coisa que nos causasse prejuízo ou que fosse impossível. Dessa forma, os métodos naturais, quando utilizados de forma justa, não são um mal, mas um bem (menor). É lícito, segundo os critérios apresentados pela Igreja, espaçar nascimentos.
Mas, recordando a parábola do jovem rico, que já cumpria os mandamentos e, portanto, estava salvo, vemos que a santidade está além da licitude das coisas. A santidade está em dar tudo.
Se ser santo é buscar a perfeição e cumprir fielmente a vontade de Deus, este abandono se configura de forma diferente nos dois estados de vida.

Enquanto que os religiosos entregam tudo a Deus, os casados tem, de certa forma, domínio sobre certas áreas de sua vida. Portanto, para um casal, a santidade passa necessariamente pela porta da abertura à vida e isto é algo essencial. É nesta esfera de generosidade, confiança e abandono que o casal vive de forma perfeita a sua santificação.

Ninguém pode dizer que confia em Deus, que deseja a vontade Dele se não é capaz de se abrir a vida no tempo e segundo as disposições divinas. Está escrito que o Senhor não nos dá uma Cruz maior do que as nossas forças e também que a providência dispõe todas as coisas para o bem.
Usar métodos naturais é justo (em certos casos, em outros é pecado grave), mas não usá-los é o mais perfeito. Apesar de haver motivos justos para espaçar gestações, eles não são obrigatórios. O casal é livre para escolher confiar na Providência e ser generoso, sabendo que Deus nunca se deixa vencer em generosidade. Quanto mais damos, mais Ele nos dá.

O pecado original deixou em nossa natureza algumas debilidades: a debilidade para buscar e aceitar a verdade (ignorantia), a debilidade para buscar e fazer o bem (malitia), a debilidade ante as dificuldades (infirmitas) e a tendência a inclinar-nos naturalmente aos bens deleitáveis (concupiscentia). Por isso, nenhum casal por si mesmo é capaz de ser aberto à vida. Isto é uma graça que deve ser pedida constantemente à Deus, pois por nossas forças jamais conseguiremos e acabaremos nos deixando paralisar pelo medo ou por razões injustas.

Há uma diferença entre ser salvo e ser santo. O que você busca?

Loucura para o mundo

Muitas pessoas me perguntam como reajo aos comentários das pessoas que não entendem e criticam a abertura a vida. Eu reajo com alegria e paciência.

Estamos inseridos em uma cultura de morte, não dá para esperar que as pessoas irão amar a vida tão espontaneamente se nem nós somos capazes disso e demoramos tanto tempo para nos abrir à vida e, ainda, com tanta dificuldade e reclamação.

Cristo padeceu, foi incompreendido, insultado, ferido, caluniado, teve toda a sorte de ofensas. É uma infantilidade (e aqui o termo passa bem longe da infância espiritual ensinada por Santa Teresinha) querer ser compreendido, acolhido e elogiado por todos. Nas humilhações, louvado seja Deus! Nas incompreensões, louvado seja Deus!

É preciso ter fortaleza: decidir por algo, viver e morrer por isso. Não importa o que pensem ou deixem de pensar, não importam as dificuldades que sobrevenham: eu tenho a paz e a certeza de que cumpro a vontade de Deus e confio Nele, abandonada em Suas mãos como uma criancinha. Por isso é preciso entender e decidir firmemente, não por motivos superficiais, mas porque com o coração se acredita e se vive esta decisão. Muitos sofrem porque vivem a abertura à vida por muitos motivos superficiais, como vaidade, competição, até mesmo imprudência apenas para justificar seus pontos.

É preciso ter paciência. As pessoas estão inseridas em uma cultura de morte, crescem em uma sociedade em que ter filho é considerado um retrocesso e um peso, desde cedo estimuladas ao sexo desordenado e à anticoncepção, além de não terem tido acesso à sã doutrina. Por isso precisamos ensinar doce e pacientemente aquilo que as pessoas estiverem preparadas à receber. Toda hora é hora de evangelizar. Mas se somos ríspidos, se nos consideramos vítimas de palpites e comentários chatos, que testemunho daremos? Talvez o grande problema seja que a gente sempre pense que somos vítimas de tudo, que o mundo tem de parar para nos tratar como bibelôs de porcelana…

É preciso ter alegria. Se estamos seguros, alegres, felizes, contentes, as pessoas se contagiam! E assim devemos estar sempre! Mesmo nas dificuldades, nas incertezas, nos sofrimentos, temos o coração em paz e alegre pois estamos unidos à Deus! Se já damos uma notícia de uma nova gestação com medo, com desconfiança, dificilmente alguém se unirá à nossa alegria. E, se alegres, por acaso nos disserem algo ruim, encontrarão o dobro de bom humor e serão edificados por nosso testemunho de fidelidade e confiança!

“Queridas famílias cristãs, anunciai com alegria ao mundo inteiro o tesouro maravilhoso de que sois portadoras enquanto igrejas domésticas!”

( São João Paulo II, Discurso no IV Encontro Mundial das Famílias, 2003)

Dar a vida por algo

Dois outros sacramentos, a ordem e o matrimônio, estão ordenados à salvação de outrem. Se contribuem também para a salvação pessoal, isso acontece por meio do serviço aos outros. Conferem uma missão particular na Igreja e servem para a edificação do Povo de Deus.

Catecismo §1534

O grande São João Paulo II também disse que “uma vez que a nossa vocação nos foi dada para servir constantemente os outros, não se pode renunciar à ela por causa das dificuldades que encontramos e dos sacrifícios que nos são exigidos”.

Todos nós temos o desejo de fazer o bem. Por isso, devemos começar por nós mesmos, buscando uma vida santidade e, para quem se casa, tendo filhos. Carreira, apostolado, sucesso, dinheiro, viagens, ONGs, curtição, corpinho de academia, artigos acadêmicos, etc, etc, tudo isso passa, em tudo isso se pode ser superado e substituído. Mas almas são eternas, mães e pais são insubstituíveis e são as pessoas que mudam o mundo, não coisas.

Por isso, se quer gastar a sua vida em algo grande, se quer impactar o mundo, se quer se sentir útil, feliz e realizado: cumpra a sua vocação fielmente! “Não tenhais medo”, dizia SJP II. É loucura para o mundo, mas a verdadeira felicidade está em ser moído como o grão de trigo. Fora disso só há desgosto, só há vazio.

Não tenhamos medo do sofrimento, do sacrifício, de nos consumirmos dia após dia. Isso não é doentio, é libertador. É a liberdade do verdadeiro amor, aquele que dá a vida. Dar a vida é dar tudo o que somos e temos, não com um pensamento vitimista de que alguém dos deve algo, mas com os olhos sobrenaturais de quem aprendeu o amor com Aquele que nos ensinou o que é amar: Cruz.

Jesus disse a Simão: ”Não tenhais medoavançai para águas mais profundas! ” E também é a nós que diz! Não tenhais medo, ide adiante, confiai em Mim. São João Paulo II dizia: “Não tenha medo de coisa alguma, ou de nada. Não tenha medo das fraquezas humanas, nem dos mistérios de Deus. (…)Não, não tenhais medo! Antes, procurai abrir, melhor, escancarar as portas a Cristo!”

Acreditem quando digo que ninguém perde quando se decide pelo Senhor. Que tenhamos a sabedoria de ”abrir as portas à Cristo”: a porta do nosso coração, da nossa vida, da nossa fertilidade, da nossa casa, da nossa família, do nosso trabalho.

Que tenhamos a coragem de passar cada dia recolhendo flores de sacrifícios em nossa cestinha para ofertar ao bom Deus ao fim do dia. Que tenhamos a docilidade em nos deixarmos moldar em um caráter santo, forte e varonil e que, à custa de nosso suor, lágrimas e sangue, ergam-se para o país, para o mundo e para Deus um exércitos de homens e mulheres santos: os nossos filhos. E então tudo será novo, pois só os santos podem mudar o mundo.

Esposa, Mãe, Ordem Terceira VE"Desejo que Jesus me triture interiormente para que eu me torne uma hóstia pura onde Ele possa repousar.'' (Sta Teresa dos Andes)

5 Comentários

  • Camila

    Olá Rayhanne,

    Que Deus te abençoe sempre por seu apostolado. Cada texto/reflexão, se aqui ou nas redes sociais, me ajudam a crescer na fé.
    Passo pela seguinte situação, sou casada faz 1 ano e 4 meses e desde então usamos preservativo. Eu e meu esposo concordamos em não tomar anticoncecionais, mas eu tomo alguns medicamentos que podem gerar má formação ou aborto do bebê. Estou em tratamento para transtorno de ansiedade, depressão e compulsão alimentar.
    Queria muito usar métodos naturais, mas tenho medo das consequências para o bebê e para mim, caso venha a engravidar.
    O que fazer? Já tentei conversar com um frei aqui da minha comunidade, mas não consegui me “abrir” totalmente sobre o assunto. Não saber o que fazer a respeito disso por vezes me deixa sem dormir!
    Você pode me ajudar com suas palavras?

    Muito obrigada desde já.
    Que Deus abençoe!
    Abraços, Camila

    • Gilda

      Camila,
      Li seu comentário e peço licença para, com muito carinho, oferecer um conselho. Se você tem motivos justos para não engravidar no momento (penso especialmente na possibilidade de má-formação do bebê, que você mencionou), então nesse período você e seu esposo devem viver em continência. Acredite, é possível, eu e meu esposo fizemos o mesmo quando foi necessário para tratar de um problema de saúde. Recorra a Deus, aproxime-se Dele, faça a sua entrega total e convide seu esposo a fazer o mesmo. A paz que vem da obediência é insuperável! Nela não há conflitos, não há dúvidas, não há culpa. Somente esperança e amor. Posso dar o sincero testemunho de que o meu casamento até mesmo melhorou com essa experiência!
      Recomendo fortemente que você leia sobre a Teologia do Corpo, de São João Paulo II. Um excelente livro, de linguagem acessível e ao mesmo tempo profundo é o “Teologia do corpo para principiantes”, do Christopher West.
      Deus abençoe a você e seu esposo! E que a Virgem Santíssima te ilumine e guarde.
      Abraço fraterno.
      Gilda.

  • Keila

    Quero viver tudo isso! Mas tenho medo! Sou mãe de quatro filhos e me vejo usando o MOB com medo de uma nova gestação. Fico triste e com a fé abalada,como faço para me entregar verdadeiramente a vontade de Deus? Não temos motivos justos para espaçar uma nova gestação, então como usar o MOB? Tenho 34 anos e meu esposo 36, meus filhos 14,11,3 e oito meses. Por favor,me ajude com sua sabedoria tão profunda no campo familiar. A paz de Jesus e o amor de Maria!

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