Feminilidade,  Matrimônio

Nasceu Vicente! “Contigo, Jesus, a dor é felicidade.”

Tempo de leitura: 6 minutos

O relato do parto do Vicente tem menos sobre o parto em si e bem mais a ver com as semanas que o antecederam. 

A gestação do Vicente veio poucos meses após a perda dos gêmeos. Descobrimos que eu estava gestando este filho quando estávamos de passeio nas casas de formação de nossa Família Religiosa. Isto para nós já foi uma mostra de grandes graças vindouras, além desta graça tão incomparável e imensurável que é receber um filho.

Mas como a matemática do Céu não funciona como a da terra, é bem verdade que grandes graças vêm acompanhadas de grandes cruzes, assim como a bonança só vem após a grande tempestade. De forma especial são as cruzes que nos preparam a receber as graças, seja porque nos purificam, seja porque dilatam o nosso coração. Assim como é bem verdade também que as consolações nos descansam e dão ânimo e energia para abraçar as cruzes.

Minhas gestações são sempre custosas fisicamente, pois fico debilitada pelos enjoos, pela rinite que se agrava, pela ferritina que cai, pelo corpo que fica sensível e mais uma boa parcela de incômodos que quando se juntam, muitas vezes desanimam e cansam. Mas a bondade divina até agora me favoreceu com gestações saudáveis e tranquilas, apesar das intempéries. 

No final da gestação nós pegamos Covid, minha sogra faleceu e a dona da casa onde moramos pediu a casa de volta e teríamos de nos mudar. Vocês imaginam quantas emoções passamos, né? E São José nos ajudou!

Bom, não estávamos esperando o Vicente para antes das 41s, que foi a idade gestacional que seus irmãos nasceram. Porém, quando eu estava para fazer 39s entrei em pródromos. Já liguei minhas anteninhas porque nas outras gestações eu tive pródromos de quinze dias e de uma semana. Pensei: talvez ele chegue antes.

Mas, contrariando as expectativas, eu fiquei em pródromos por quase 3 semanas. Todos os dias as contrações vinham ritmadas, de 10 em 10min. As vezes se intensificavam, mas passavam quando a noite chegava. Graças a Deus não eram doloridas e eu conseguia dormir bem durante as noites.

Eu percebia nitidamente meu corpo se preparando. O padrão das contrações mudava de um dia para o outro. As vezes doíam nas costas, outras no baixo ventre. As vezes se intensificavam. Eu sentia o Vicente descer e se acomodar na minha pelve em alguns dias, sentia ele se empurrando para baixo e tantas outras coisas que não havia percebido nos demais partos. 

Quem tem pródromos arrastados (alô minha amiga Anna Cenci 🤣), sabe que os primeiros dias a gente passa bem. Mas conforme os dias vão passando vamos ficando cansadas psicologicamente, nos sentindo presas na Terra do Nunca. 

Quando completei uma semana de pródromos entendi que as coisas poderiam demorar mais do que eu pensava e que então eu devia respeitar aquilo que a minha mente e o meu corpo pediam: descanso, tranquilidade, silêncio, oração. Eu percebi que havia um caminho espiritual e emocional a percorrer junto com a parte física.

Acabei me silenciando mais, afastando do apostolado, dos amigos e a ficar mais inserida de corpo e alma na minha vida de família. Comecei a ler o Caderno Amarelo das Obras Completas de Santa Teresinha onde estão as anotações de sua irmã sobre sua vivência dos últimos tempos de doença, quando já estava na enfermaria do Carmelo.

A leitura dessa obra me preparava interiormente, pois tantas vezes eu me encontrava naquilo que Teresa vivia. Situações tão distintas – ela próxima da morte, eu próxima da vida – mas com um desenrolar espiritual tão parecido – a seu modo.

Se no parto anterior eu desejava as dores de um novo nascimento, neste eu me encontrava em uma situação totalmente nova: certo medo da dor. Eu já conhecia a dor, já a tinha provado duas vezes e mesmo sabendo que ela era passageira eu a temia. Fisicamente eu não queria sentir tudo aquilo de novo.

Intercalado a esses sentimentos as vezes vinha um desejo ardente de sentir tudo de novo, de me entregar e trazer mais um filho ao mundo, de oferecer as dores por intenções particulares. E assim íamos caminhando.

Quando completei 41s, combinei com meu obstetra as induções naturais e a data de uma possível indução hospitalar. Como relata Teresinha, eu sentia que “o céu estava fechado para mim”, pois os dias passavam e eu não entrava em trabalho de parto. Pedia a Deus todos os dias a graça de um trabalho de parto espontâneo e já estava ficando sem esperanças, conformada com uma possível indução hospitalar.

Cheguei a uma parte onde Teresinha escrevia: 

“Lembra-Te de que a Tua Santa Vontade É meu repouso, minha única Ventura”. E esses foram os versos que embalaram a minha alma até o dia do parto do Vicente. Algo que aumentava a minha capacidade em ver o lado bom das coisas, afinal nenhuma contração é em vão e nada acontece sem que a Providência disponha para o nosso bem.

Inevitavelmente temos dias ruins e de desânimo, os quais são adocicados pela presença terna daqueles que nos amam e nos dão forças. Não posso deixar de agradecer ao companheirismo sem igual do meu esposo que me deu toda a força para seguir em frente quando eu queria desistir, que acolhia meus desabafos, que consolava minhas lágrimas, que racionalizava meus sentimentos. E também a minha amiga-doula, Willi, que subiu toda essa montanha comigo de mãos dadas. 

Em um dos dias finais de sua vida terrestre, Teresinha cercada de sofrimentos retrata que ela sentia como se fosse um tecido a ser esticado, esticado e esticado a ser bordado por Jesus. E eu assim me sentia. Sabe quando a vida vai acumulando toda uma sorte de dificuldades, dia após dia? No começo parecemos ir bem e depois vamos nos sentindo assim: esticados, até quase rasgar.

A ferro e fogo o tecido da nossa alma é passado para ficar mais esticadinho. É assim que o bom Deus vai nos preparando para um bordado mais complexo e mais bonito. Estejamos certos de que Ele nos estica sempre na medida de nossas forças. A Cruz nunca é pesada demais, exceto para aqueles que a carregam de qualquer jeito. O jeito mais leve de levá-la é abraçando bem de perto, bem forte, de corpo inteiro. 

Estamos sendo bordados. A nós cabe o silêncio, a quietude, a imobilidade de quem aceita o sacrifício e a dor de cada espetada da agulha. Debater-se atrapalha o bordado, faz a agulha entrar errado e mais vezes. Dói mais. O Divino Bordador precisa desfazer para refazer.

Que desenho Ele fará de nós? Só saberemos no fim da vida quando Ele erguer seu tecido bordado ao Alto. Ah, quisera ser um bordado simples, belo e agradável ao bom Deus… não perfeito, pois a perfeição não é deste mundo e vez ou outra haverá linhas que escapam, furos repetidos, pontos duplos… e o bom Deus aceita com grande ternura essas nossas imperfeições cheias de amor. O que Ele deseja é o nosso abandono em Suas Mãos.

Por fim, na sexta feira, quando estava com 41s4d fui sozinha ao Frederico fazer uma ultrassom. Acordei diferente nesse dia: pesada, triste. Saí de casa e resolvi ouvir uns xotes da época que eu era mais jovem. Fui ouvindo e lembrando de tantas coisas bacanas que vivi naquela época, cantei, sorri, e fui me entregando a essa leveza. Consultei e nessa consulta eu sentia um clima de “bye bye”. Não posso narrar aqui a delicadeza de sentimentos que Gabriel e eu temos pelo Frederico. Se eu dissesse O que sentimos, sinto que violaria o reino tão íntimo e belo do nosso interior e dos nossos sentimentos. E talvez eles até perdessem parte do seu nobre valor. O fato é que quando Frederico e eu nos despedimos na porta eu senti muito claro que algo em mim “estava consumado”. Acredito que nesse dia eu tenha fechado o ciclo emocional dessa gestação.

Saí dali muito alegre e o sentimento era exatamente este: “Tudo está consumado”. Eu tinha certeza de que tinha vivido tudo e chegado aonde eu devia chegar. Estava entregue, indiferente ao que aconteceria (natural, espontâneo, cesárea). O que me importava era meu bebê nascer e nascer bem.  Passei no supermercado e neste fim de dia eu sentia que deslizava ao invés de andar, tamanha leveza e paz tinha em meu coração.

Fomos dormir e 1:30 da madrugada eu acordei sentindo uns incômodos no baixo ventre e na lombar. Fui ao banheiro e vi que estava perdendo tampão com sangue. Tinha contrações mas curtas e tão espaçadas, mesmo assim nosso combinado era avisar logo a equipe já que meus partos costumam ser rápidos.

Telemi chegou e as contrações pegaram ritmo, mas ainda eram quase nada doloridas. Eu lembrava de Teresa: “minha barquinha ganhou de novo as ondas…”. Logo depois chegou a Willi e ficamos conversando, rindo, passando pelas contrações. Então senti um estalo dentro da pelve e a partir daí (eram 5 da matina) as contrações vinham quase sem intervalo, doloridas demais! Lembrei-me de oferecer estas dores por uma intenção particular.

Eu me recordava de Teresa e pensava: “de minuto em minuto se pode suportar muito”. Mas chegou a um ponto em que nem isso me ajudava! Era tanta dor que eu só pensava em desistir. Eu tentava me entregar à dor mas não conseguia e por fim só dizia o nome de Jesus. Era o meu único consolo e a minha única esperança. 

Tudo passou tão rápido e as 6:13 o Vicente nasceu! Com 54cm, 4460kg 😌 e eu não tive laceração! A fase ativa super rápida! Quando veio para o meu colo eu nem conseguia acreditar que ele estava ali! Como nos outros filhos, ofereci ao bom Deus este nosso menino. Poucos minutos após ele nascer, os irmãos acordaram e viram surpresos e encantados que o irmão havia chegado. Estavam mais empolgados com este presente vivo do que com os presentes de Natal hahaha.

Termino este relato testemunhando uma certeza: “Morrer de amor não é morrer em êxtases, mas crucificada.” (Santa Teresinha)

Esposa, Mãe, Ordem Terceira VE"Desejo que Jesus me triture interiormente para que eu me torne uma hóstia pura onde Ele possa repousar.'' (Sta Teresa dos Andes)

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