Lírio entre espinhos

Uma família católica buscando a santidade

Natal, Papai Noel, São Nicolau, menino Jesus… e agora?

Tempo de leitura: 6 minutos

No Natal, durante muito tempo a nossa preocupação eram as passas no arroz e o pavê de sobremesa. Mas depois que os filhos chegam, deparamo-nos com uma questão importante: e o tal Papai Noel?

O que é o Natal

Acredito que seja conveniente relembrar o que nós, católicos, celebramos no Natal. Celebrar essa solenidade não significa simplesmente recordar um acontecimento do passado, mas algo que toca concretamente a nossa própria história.

Puer natus est nobis, “um menino nasceu” verdadeiramente! Não para servir de enfeite nos presépios, não para trazer um feriado de fim de ano, não para trocarmos presentes, mas “para nós”! Nasceu para nos salvar, para mudar e transformar por completo a nossa vida.

Papai Noel tornou-se um dos personagens mais emblemáticos das festas de final de ano. Nas últimas décadas, ganhou tanta fama e se tornou tão eficaz para representar a diversão e os presentes que desvia totalmente o foco da verdadeira razão da alegria: Jesus que nasce em Belém.

Da onde surgiu o Papai Noel?

De acordo com vários historiadores, Papai Noel é a distorção – primeiro literária e depois comercial – de São Nicolau, o generoso Bispo de Mira, padroeiro das crianças, dos marinheiros e dos cativos.

Há várias teorias sobre a origem do Papai Noel. A mais difundida é que foi a empresa Coca-Cola que inventou o personagem para promover o consumo de sua bebida em 1920.
Entretanto, no século 19, escritores de Nova Iorque tentaram dar um selo nacional às festas de Natal cheias de tradições cristãs dos migrantes europeus. Em pouco tempo, as celebrações deixaram de lado o caráter santo desta data e tornaram-se populares as festas desenfreadas, com bebedeiras e desordem pública.

Em 1821, foi publicado o livro de litografias para crianças “Papai Noel, o amigo das crianças”, no qual se apresentava um personagem que chegava do Norte em um trenó com renas voando. Esta publicação fez o personagem aparecer a cada véspera de natal e não no dia 6 de dezembro, dia da festa do santo bispo. Um poema anônimo e as ilustrações dessa publicação se tornaram a chave para a distorção de São Nicolau.

Segundo especialistas do ‘St. Nicholas Center’, foi a elite de Nova Iorque que conseguiu nacionalizar o Natal através do Papai Noel e do apoio de artistas e escritores como Washington Irving, John Pintard e Clement Clarke Moore.

Em 1863, durante a Guerra Civil, o caricaturista político Thomas Nast começou a desenhar Papai Noel com os traços que agora lhe atribuem: gorro vermelho, barba branca e barriga saliente. Junto com as mudanças de aparência, o nome do santo em inglês mudou para Santa Claus, uma alteração fonética do alemão “Sankt Niklaus”. Apenas em 1920, Papai Noel apareceu pela primeira vez em um anúncio da Coca Cola.

Sobre São Nicolau

Poucos santos gozam de tanta popularidade, e a muito poucos são atribuídos tantos milagres. De São João Damasceno há o seguinte elogio:

“Todo o universo tem em ti um rápido auxílio nas aflições, um estimulante nas tristezas, um consolo nas calamidades, um defensor nas tentações, um remédio nas enfermidades”.

São João Damasceno

Um dia ele conheceu três jovens que por serem pobres não encontravam pretendes para se casarem e o pai queria encaminhá-las para um má vida. Então, Nicolau foi até lá a noite e e colocou no quarto do homem um bolsa com moedas de ouro. Poucos dias depois, casava-se a filha mais velha. Repetiu Nicolau o gesto, e pouco depois se casava a segunda filha. No momento em que se preparava para fazê-lo pela terceira vez, foi descoberto. Saindo das sombras onde estava escondido, o pai se lançou aos pés de seu benfeitor. Chorando de arrependimento e gratidão. Desde então, não se cansou de apregoar por todas as partes os favores recebidos.

Em outra ocasião, ao embarcar em um navio, informou ao comandante que teriam uma violenta tormenta pelo caminho. O belho lobo do mar, recebeu com sorriso irônico esta previsão vinda de um simples passageiro. Não obstante, a tormenta não tardou… O temporal era tão terrível que todos creram que havia chegado o fim. Sabendo que um passageiro havia previsto o que estava ocorrendo, correram até ele pedindo ajuda.

Nicolau implorou a Deus e logo a tormenta cessou, acalmou-se o mar e o sol apareceu resplandecente… Converte-se assim no padroeiro dos marinheiros, que o invocam nos momentos de perigo.

São Boaventura narra que em uma pousada, o dono havia assassinado dois estudantes, que haviam se apoderado de seu dinheiro. Horrorizado por esse vil crime, São Nicolau ressuscitou os jovens e converteu o assassino.
No dia que foi consagrado bispo de Mira, recém-acabada a cerimônia, uma mulher se jogou a seus pés, com uma criança em seus braços, suplicando: “Dê vida a meu filhinho” Ele caiu no fogo e teve uma morte terrível.
“Tem piedade de mim, dá-lhe vida!”, gritava a mãe. Emocionado e compadecido das dores dela, fez o sinal da cruz sobre a criança, que ressuscitou em presença de todos os fiéis presentes na cerimônia de consagração.

Em alguns países da Europa, é costume que algumas pessoas troquem presentes no dia de sua festa, 6 de dezembro. Peçamos a ele, pois, não apenas bens materiais, mas sobretudo grandes dons espirituais.

Aqui nós lemos a história de São Nicolau e damos moedinhas de chocolate!

Indico os posts da Luciana Lachance.

Um problema moral

Mais cedo ou mais tarde, as crianças perguntarão: papai Noel existe mesmo? Os pais ficarão embaraçados e terão de dizer que não.

Se esta atitude fosse apenas um desmanchar de sonho infantil, as coisas até seriam mais fáceis. Mas, que grande surpresa será para as crianças o deparar-se com uma grande mentira dos pais que estendeu-se durante anos enganando-os!

Como ficarão confusos, perplexos! Minará a confiança dos filhos em seus pais e da autoridade desses. As crianças sentir-se-ão liberadas a mentir também.

Reflexão

Então, que tal deixar essa história de Papai Noel para lá e contar a verdade? Não há problema algum em dizer que ele é apenas um personagem criado pelo comércio para ganhar dinheiro.

Afinal, falar da pobreza de um menino que nasceu numa estrebaria e foi envolto em faixas e deposto numa manjedoura não faria grande sentido para quem quer lucrar, não é?

Mas, o problema maior está em mentir para as crianças, em desfigurar a verdadeira história de São Nicolau e em retirar Jesus do centro.

Muitas pessoas alegam que não falar de Papai Noel seria retirar a magia do Natal, seria tirar o lúdico das crianças e atrapalhar sua imaginação. Eu discordo.

Não posso imaginar nada mais mágico, e neste sentido de magia evoco os escritos de Chesterton sobre os contos de fadas, do que o mistério do Deus encarnado. Nada mais mágico do que um pai adotivo virgem procurando lugar para sua mulher virgem grávida, gestando o Deus feito homem. E não encontrando quem os acolhesse, nasceu um menino Deus de uma mãe Virgem num pobre estábulo. Era tamanha a pobreza que ele foi envolto em faixas e deposto em uma manjedoura. Havia pastores que passavam a noite nos campos, tomando conta do seu rebanho.

Um anjo do Senhor apareceu aos pastores, a glória do Senhor os envolveu em luz, e eles ficaram com muito medo. O anjo, porém, disse aos pastores: “Não tenhais medo!“ E, de repente, juntou-se ao anjo uma multidão da corte celeste. Cantavam louvores a Deus, dizendo: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados”. E ainda, uma estrela aparece a três reis magos que a vão seguindo até encontrar Jesus para adorá-Lo e presenteá-Lo.

Inclusive sobre os presentes, em alguns países a tradição é que se troquem presentes no dia 6 de janeiro, Epifania, já que o menino Jesus recebeu presentes dos Reis Magos.

A grande magia do Natal não está nos pisca-piscas, nos biscoitos amanteigados, nem nos bonecos de neve, nos duendes, no Papai Noel, no trenó, nem nos presentes.

Está, como escreve Santo Afonso em Tu scende dalle stelle:

“Tu desces das estrelas, ó Rei do céu
E vens a uma gruta no frio e no gelo.
Ó Menino meu divino, eu Te vejo aqui a tremer;
Ó Deus beato, quanto Te custou haver-me amado!

A Ti, que és do mundo o Criador,
Faltam agasalhos e fogo, ó meu Senhor.
Querida e eleita criança, esta Tua pobreza me apaixona
Pois foi o amor que Te fez pobre novamente.

Tu deixas as delícias da intimidade divina
Para vir a sofrer sobre essa palha.
Doce amor do meu coração, aonde Te levou o amor?
Ó meu Jesus, por que tanto sofrer? Por meu amor!

Mas se sofres por Tua própria vontade,
por que então este choro, por que estes gemidos?
Meu Jesus, eu Te entendo sim! Ah, meu Senhor!
Tu choras não de dor, mas de amor!

Tu choras ao ver a minha ingratidão,
Um amor tão grande e tão pouco amado!
Ó amado do meu coração,
se fui assim outrora, hoje somente por Ti eu anseio
Querido, não chores mais, pois eu Te amo, Te amo.

Enquanto dormes, meu Menino, o coração
não dorme, não, mas vigia a todo momento
Vai, meu querido e puro Cordeiro,
Em que pensas? Dize-me Tu. Ó amor imenso,
um dia em morrer por ti, respondes, é o que eu penso.

Então, pensas em morrer por mim, ó Deus
Que mais posso eu amar fora de Ti?
Ó Maria, esperança minha,
se pouco eu amo o teu Jesus, não te indignes
de amá-Lo tu por mim, se eu não O sei amar!”

Referências

  • Padre Paulo Ricardo
  • Felipe Aquino

Esposa, Mãe, Ordem Terceira VE

“Desejo que Jesus me triture interiormente para que eu me torne uma hóstia pura onde Ele possa repousar.” (Sta Teresa dos Andes)

1 Comment

  1. Ótimo texto. É triste ver que as comemorações estão se tornando cada vez mais “comerciais”. É preciso fazer esforço e pensar todos os dias no que consiste o Natal, de fato. Deus abençoe vocês. 🙂

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