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Parto humanizado: custos, o apoio do marido e mais

Tempo de leitura: 7 minutos

Aparentemente há uma certa dificuldade geral em se buscar soluções diversas para um mesmo problema, como se para se chegar a determinado fim houvesse apenas um único meio.

Para ter um parto normal/humanizado é preciso pagar caro?

Acredito que antes de falar em preço, temos de elucidar que acompanhar um parto é um trabalho. O médico, a doula, a enfermeira, vão lá trabalhar, não fazer apostolado. Vão deixar as suas casas, suas famílias e dispor de horas a fio para que o seu trabalho de parto se desenrole da melhor forma (para você e seu bebê). Nem sempre encontrarão apoio nos hospitais, ficarão sem comer, sem ter um lugar para descansar. Mas estarão lá por você sem reclamar, sem deixar de sorrir e de apoiar. Sem colocar nas suas costas as culpas para as dificuldades que estão enfrentando para te proporcionar o melhor. E muitas vezes farão isso por dias devido a partos seguidos.

Acho importante enfatizar que o termo <<não tenho como pagar>> pode ser usado não só por quem realmente não tem condições para tal, mas para quem não elenca o parto como prioridade. Para mim isso se assemelha muito ao casamento. Muitos preocupam-se com festa, vestido, fotos, lua de mel e pouco ou nada com o Sacramento. Assim, no parto há muito espaço para o enxoval, fotos de gestante e newborn e pouco espaço para aquilo que não é acidental, mas fundamental e necessário.

Outro problema da elencada falta de dinheiro permanece residindo na falta de prioridade. Muitas famílias não querem abrir mão de certos confortos, não querem passar apertos financeiros ou simplesmente não fazem conta das coisas supérfluas em que gastam tanto dinheiro.

Eu já vi muitas mulheres terem seus partos mesmo sem dinheiro. Fizeram rifas, viajaram para outro estado, desenvolveram projetos, pediram empréstimo, pediram caridade, trabalharam mais do que de costume. Há maternidades públicas, há plantões obstétricos, há equipes que não cobram valores exorbitantes, há informação disponível e força de vontade em muitas mulheres que entenderam que há uma luta a travar contra um sistema e que não se conformam em serem enganadas e terem seus corpos mutilados por qualquer motivo. 

Outra questão é que muitas pessoas, mesmo tendo condições, não acham necessário pagar por uma boa equipe, no sentido de que pensam ser isso supérfluo e acabam passando por experiências infelizmente traumatizantes. Já ouvi argumentos do tipo: “a vontade de Deus irá me enviar o melhor médico”. E já vi situações em que os médicos fizeram atrocidades. A culpa foi de Deus? Não, afinal ele nos dá a capacidade de buscar os meios.

Há muitas maternidades públicas e de plano, profissionais que atuam no sistema público ou atendem planos de saúde que são verdadeiramente humanizados. Não necessariamente você terá de pagar algo particular para ter um parto normal e respeitoso. Há ainda opções de casas de parto e até mesmo o parto domiciliar. 

Não estamos defendendo partos normais a qualquer custo – de dinheiro ou de vida. Mas mostrando a relevância desse assunto. Sabemos e entendemos que a vontade de Deus pode incorrer em uma cesárea mesmo tendo feito todos os exercícios, dietas, contratado a melhor equipe. E daremos graças a Ele por ela existir. 

E quando o marido não apoia o parto normal?

Infelizmente a realidade de muitas mulheres é a de que seus maridos pouco se importam com o tipo de parto que elas terão, como se esse não fosse um assunto do casal, mas apenas um problema da mulher.

Parece que há, primeiramente, uma concepção errada do que é a comunhão de vidas que é o casamento. Muitos casais vivem vidas separadas, sofrem cada um sozinho suas angústias particulares, não auxiliam um ao outro, não se conhecem, não se interessam pelo mundo tão rico que o outro é. Muito me enterneceu quando li no livro História de uma Alma o relato de como São Luís Martin ajudava Santa Zélia a bordar as rendas para que ela pudesse dormir mais cedo e descansar, como ele sofria com sua enfermidade e suas preocupações, como amava estar com as crianças. E de como ela também se interessava por seu negócio, por suas preocupações. 

O casamento é esse amor mútuo incomparável, essa delicadeza de alma. Não é um serviço, um contrato, uma liberação social para ter sexo, morar na mesma casa e colocar bebês no mundo. É uma via de união e santidade, uma representação do matrimônio eterno entre o bom Deus e cada alma. 

Entendo que às vezes as mulheres possam ter sonhos impossíveis e cabe ao homem trazê-las à razão, como o caso de uma impossibilidade financeira real. Ou então a mulher que gasta muito e não quer economizar para pagar seu parto. 

Acredito que o diálogo é indispensável, porque a mulher é aquela que é capaz de ampliar o horizonte do homem e emprestar o seu coração terno ao coração endurecido do seu companheiro. Oração, evidências, diálogo, vivência sadia do matrimônio são o caminho. 

E aos homens, que não amem da boca para fora, que não vejam suas mulheres e filhos como qualquer coisa. Eles merecem o melhor, sempre. A sua esposa é carne da sua carne e é o seu papel lutar por ela, defendê-la, ajudá-la, apoiá-la. Por isso não importa apenas oferecer profissionais de qualidade, mas estar com ela e por ela. 

A cesárea amiga

Há três formas de ir para uma cesárea: querer uma cesárea e agendar, querer um parto normal e ter cesárea por ser enganada ou ter uma cesárea necessária intraparto de emergência ou por motivos prévios.

A cesárea salva vidas. Existem sim casos de necessidade e graças a Deus por ela existir. Mas a maioria das justificativas aparecem só durante o trabalho de parto. E mesmo as cesáreas eletivas (marcadas) podem esperar este momento para ter certeza que o bebê está pronto para nascer.

O Brasil é um dos recordistas mundiais em número de cesarianas. Enquanto a OMS recomenda que 15% dos partos sejam feitos desta forma, no Brasil a taxa já passa dos 80%.

Há muitos relatos de consequências no bebê e na mãe por causa do parto normal, mas isso acontece não pela via de parto em si, mas pela má assistência. Sabemos que ainda há muitos problemas nesse ponto que podem ser solucionados com opções citadas nos posts passados.

A crença de muitas mulheres e de muitos profissionais da saúde de que a cesariana é mais segura que o parto normal é infundada. A cesariana é um tipo de cirurgia de grande porte, que acarreta riscos e exige indicação clínica cuidadosa. Há várias complicações maternas, perinatais e para as crianças tanto em curto como em longo prazo com cesarianas desnecessárias, incluindo alterações do microbioma, risco de alergia, asma e obesidade, morte perinatal, morte fetal, morte neonatal precoce, hospitalização em UTI neonatal por mais de sete dias e complicações perinatais graves. A cicatrização inevitável do útero está associada com aumento do risco de sangramento, desenvolvimento e implantação anormal da placenta, gravidez ectópica, natimorto e parto prematuro em gestações subsequentes.

Muitas mulheres desejam um parto normal, lutam por ele e precisam de uma cesárea. Inevitavelmente o sentimento será de tristeza por não ter conseguido, mas isso deve ser superado porque, embora queiramos muitas coisas, temos de entender e aceitar que a realidade pode exigir outras coisas diferentes. E é uma graça poder ter a cesárea para salvar vidas. 

Defender o parto normal não é uma questão de ideologia, de moda, de fetiche, de sonho. É escolher o melhor para o bebê e para a mãe e aceitar que a realidade do que é melhor para ambos pode sim incorrer em uma cesárea de emergência. Cada um carregue a <<sua>> Cruz e entenda que a <<sua>> Cruz não é a Cruz de todos e isso não te faz pior ou menor, apenas te faz feliz por cumprir plenamente a vontade de Deus. É oferecer a vontade, fazendo aquilo mesmo sem querer. E oferecer especialmente os sofrimentos, porque cesárea dói e santifica também. 

Mesmo para quem já teve múltiplas cesáreas ainda é possível ter parto normal, a depender do histórico pessoal de cada mulher. Devemos louvar especialmente as corajosas mães que passaram por muitas cesáreas, ou que, antes disso, já não tinham mais a opção de tentar um parto normal e ainda assim continuam oferecendo seus corpos em oblação para gerar vidas e trazê-las ao mundo.

Uma questão de sentimentos

Falar sobre parto é difícil para muitas pessoas porque ele carrega um peso emocional. Portanto, é preciso dissociar a ciência do sentimento, a experiência pessoal do bem geral.

É importante entender também que quando falamos sobre vias de parto, estamos falando sobre futuro, não sobre o passado. Não estamos colocando o dedo na ferida de quem foi enganada, de quem optou por uma cesárea, de quem não teve conhecimentos, de quem sofreu violência, de quem teve consequências, para magoar e menosprezar. Entendo o quanto dói tudo isso e todos nós temos nossas dores. Só em Cristo elas terão significado. Estamos dizendo: há um outro caminho que é possível. 

Não podemos pautar nossa vida pela experiência de outras pessoas. Cada um de nós tem uma história única e, portanto, únicos também são nossos filhos e partos. Não vivemos nas décadas passadas em que as mulheres tinham partos desassistidos em casa e morriam com seus bebês. Vivemos em uma época em que a cultura da vida deve ser defendida e a do nascimento, mudada. 

Eu sinto muito que muitas tenham passado por péssimas experiências, mas essa não é a realidade de todas as pessoas. Há fatalidades em todas as vias de parto, sejam porque tinham de acontecer, sejam por erros médicos. E é assim com toda a medicina. Por isso é importante uma visão realista da situação, mudar a rota e procurar quem quer fazer esse caminho conosco buscando profissionais e lugares que sejam favoráveis.

Não podemos ficar diante das pessoas exigindo que elas validem nosso sofrimento ou nos sentindo ofendidas se agem diferente de nós. Temos de sofrer com grandeza de espírito: isso me aconteceu, era minha circunstância, mesmo que ninguém entenda eu estou em paz porque cumpri a vontade de Deus.

Sei que há situações onde o parto normal não é uma opção, mesmo onde há desejo, seja por motivos de deslocamento, financeiro, histórico pessoal, saúde etc. Portanto, é preciso assumir sua situação sem vitimismo. Oferecer ao bom Deus a sua vontade e fazer do seu corpo a sua oferta e não usar esse argumento para se justificar e não ter mais filhos. Além disso, você terá de lutar para que o sistema não te engula também, porque na segunda ou terceira cesárea já vão querer te esterilizar.

E ainda que você queira a cesárea, há que ser honesto e dizer: mesmo sabendo de todos os benefícios do parto normal, de que é possível, eu escolho a cesárea sabendo dos riscos e não querendo me esforçar por opção pessoal, para que depois não saia por aí com orgulho ferido.

Às vezes se cai numa cesárea por cansaço, por medo, por desistência, porque chegou ao seu limite físico e psicológico. E está tudo bem. Somente é preciso reconhecer com honestidade as nossas misérias e fraquezas para não nos revoltarmos contra a coisa errada, para não ofendermos quem não tem nada a ver com nossas escolhas. Não posso dizer que o parto normal é ruim somente porque o meu foi ruim. Há muitos outros relatos de partos bons. 

Sobretudo, sejamos humildes. Porque é preciso humildade para reconhecer a verdade e aceitá-la, para abraçá-la com amor e sofrer, para não jogar nos outros as nossas culpas, para ser honesto e reconciliado com nossas escolhas e circunstâncias. E somente pela humildade seremos capazes de nos resignar à vontade divina seja ela qual for, nos desbancando de tudo o que não vem dEle.

Continua no próximo post.

Esposa, Mãe, Ordem Terceira VE"Desejo que Jesus me triture interiormente para que eu me torne uma hóstia pura onde Ele possa repousar.'' (Sta Teresa dos Andes)

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