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Parto humanizado: sobre a dor e a humanização da vida

Tempo de leitura: 6 minutos

Se tem algo que assombra e atemoriza a mulherada é a famigerada dor do parto. Praticamente só se ouve o quão insuportável e terrível são as dores das contrações, que nenhuma mulher deveria passar por isso, que é melhor escolher a cesárea (na esperança de uma dor menor) e etc.

A dor do parto

Em primeiro lugar temos de levar em conta o preceito divino quando deu a Eva este castigo. “Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores” (Gn 3,16). Ele não disse a Eva: “Não suportarás as dores do parto; elas serão tão terríveis que morrerás”. Apenas disse: terá dor. E naquela época nem havia analgesia. Portanto durante muito tempo os partos foram naturais. Além disso, se a dor do parto fosse tão impossível e insuperável, essa consequência não estaria atrelada à ordem “crescei e multiplicai-vos”.

Por que hoje então há tanta sombra e pavor quanto a dor do parto? Não podemos deixar de nos atentar ao fato de que a nossa cultura é extremamente cômoda e qualquer micro sofrimento é para nós como um grande tormento. Por isso, qualquer menção à dor nos faz querer fugir para as colinas. As intervenções contra a dor no parto são quase indispensáveis hoje em dia não porque a dor seja insuportável, mas porque nós somos medrosos e mais moles do que antigamente. E muitas dessas sombras foram criadas para que as mulheres tivessem medo de ter filhos e assim se pudesse instaurar um controle de natalidade velado. 

É preciso então entender, antes de tudo, que o parto normal é um processo fisiológico e não patológico. São João Paulo II, na Carta Mulieris Dignitatem, nos diz: “A análise científica confirma plenamente o fato de que a constituição física da mulher e o seu organismo comportam em si a disposição natural para a maternidade, para a concepção, para a gestação e para o parto da criança”.

Quando o assunto é dor do parto, temos de levar em conta não só que é uma dor suportável, embora seja uma dor grande, mas também que há meios para lidar com essa dor. O primeiro meio é o próprio balanço hormonal que o corpo faz, proporcionando prazer e descanso após a contração que dói. O segundo são as estratégias não farmacológicas para alívio dessa dor: massagens, exercícios, respiração, aromaterapia, água quente, entre outros. O terceiro é o método farmacológico, que é a analgesia. O quarto método (e não estou elencando em ordem hierárquica ou de prioridade) é o psicológico, de acolhimento da equipe e do acompanhante, de se sentir segura no ambiente, de ouvir palavras incentivadoras e de entender que a dor não é algo ruim no parto. A dor no parto é boa, ela traz o nosso bebê ao mundo. O quinto método é a transcendência, que une a nossa dor a dor de Cristo Padecente e usa dela como meio de elevação espiritual do nosso ser, como forma de oração, de união com Deus, de expiação dos pecados.

“O parto é também um acontecimento que goza de sacralidade. Embora as dores agonizantes que muitas mulheres suportam sejam uma terrível consequência do pecado original, a beleza do ensinamento da Igreja Católica deixa claro que seus esforços femininos e seus gritos de agonia, que precedem a chegada ao mundo de outra pessoa humana, têm um profundo sentido simbólico. Assim como Cristo sofreu as dores agonizantes da crucifixão para reabrir as portas dos céus para nós, assim também a mulher recebeu o rico privilégio de sofrer para que outra criança feita à imagem e semelhança de Deus possa entrar no mundo.” (dra Alice)

É um equívoco se pensar que a escolha pelo parto normal deva ser para passar pela dor e que os métodos de alívio não devam ser usados. Se fosse assim deveríamos abolir toda a medicina. Mas também não devemos pensar que os métodos de alívio precisam ser usados, porque isso depende do limiar de dor de cada uma. Há mulheres que sentem pouca dor, há mulheres que sentem muita. Há mulheres que suportam muita dor, há mulheres que não. 

A escolha pelo parto normal se dá porque ele foi criado por Deus. Essa foi a maneira pensada pelo Criador para que os bebês viessem ao mundo. E por isso, porque é a melhor maneira tanto para o bebê, quanto para a mãe, quanto para a família. 

Tenho visto algumas teorias que garantem um parto sem dor e eu, particularmente, não gosto dessa abordagem. Tenho amigas que tiveram partos quase indolores e, portanto, atesto que eles existam, mas que são raros. Essas abordagens acabam gerando muita expectativa nas mulheres e pode ser bem frustrante quando a hora chegar e você vir que há dor sim. Diferentemente de você entender que essa dor faz parte. Além do que ela passará e nos trará nosso filho. E depois nem lembraremos dela.

“Quando a mulher está para dar à luz, sofre porque veio a sua hora. Mas, depois que deu à luz a criança, já não se lembra da aflição, por causa da alegria que sente de haver nascido um homem no mundo.” (João 16,21)

Há inúmeros relatos de partos em que as mulheres entenderam e se relacionaram bem com a . O parto é um acontecimento feliz!

A violência obstétrica

Quem estragou o parto foi a humanidade, a cultura da morte, a política, o dinheiro. Transformaram o nascimento em lucro, em potencial esterilização em massa das mulheres, em controle de natalidade velado. Tiraram o encanto e colocaram medo, perda de dignidade e até mesmo violência.

Infelizmente a violência obstétrica existe e ela não é causada pela via de parto em si, mas pela falta de entendimento da dignidade da pessoa humana e consequentemente pela má assistência de saúde e a falta de políticas que favoreçam o respeito pela mulher e pelo nascimento dos bebês.

A violência se dá de diversas formas: verbal, intervenções desnecessárias, violência física, negando atendimento adequado e intervenções justas, não ser ouvida, não ser atendida, ser obrigada a ficar só, impedida de beber água ou se alimentar, ser submetida a exposição de várias pessoas (diferentes médicos, enfermeiros, estudantes e todos podendo tocar seu corpo como se fosse uma aula prática), até mesmo obrigando a gestante a prosseguir um parto normal mesmo sem conseguir mais ou a fazer uma cesárea mesmo sem motivo. E elas não terminam nessa breve citação de exemplos.

O que fazer então? Partindo do princípio que nos casamos e a abertura à vida é algo indispensável para todo matrimônio, já sabemos de antemão que a solução não está em parar de ter filhos nem em restringir seu número. Portanto, cabe a nós travar essa luta de diferentes formas: denunciando as violências, estudando e se informando, buscando profissionais e maternidades que tenham políticas e práticas mais favoráveis à mulher e ao nascimento, denunciando maternidades e profissionais. 

Quanto às feridas psicológicas, às vezes será necessário buscar tratamento, sobretudo espiritual, buscando a cura para essas feridas e a ressignificação dessas experiências, até mesmo na vivência do perdão. Muitas pessoas podem até mesmo inconscientemente acabar atribuindo essas más experiências à vontade divina e se revoltar contra Deus.

Além disso, é necessário contribuir com a cultura da vida, não fazendo pânico nas mulheres gestantes ou que ainda vão engravidar, não assombrando-as com nossas experiências terríveis. É melhor apenas alerta-las e preveni-las de forma razoável do que atuar desmotivando que as pessoas tenham filhos. O mundo já faz isso muito bem sozinho.

A humanização da vida

Muito se fala de humanização do parto normal, mas esse assunto não deve se encerrar aí. A cesárea também pode e deve ser humanizada, a começar por ter real indicação e evitar procedimentos e afastamentos desnecessários com o bebê.

Quando o assunto é perda gestacional ou neonatal, o assunto fica menos humanizado ainda seja porque muitos profissionais não consideram a perda do filho, seja porque as mulheres são submetidas a processos invasivos e dolorosos para retirada desses bebês, seja porque os hospitais e a legislação não versam positivamente sobre a morte de bebês (por exemplo em alguns lugares não é possível enterrar o bebê provido de uma perda gestacional, ele é descartado), seja porque o luto não é levado em consideração ou por outros motivos. 

O processo físico natural de expulsão do bebê, na maior parte das vezes, é negado à gestante ou sequer é apresentado, principalmente se o bebê ainda não tiver chegado às 12 semanas. E esse processo, na minha opinião, é essencial para a vivência do luto. Assim como o parto normal, passar por essa experiência conduz o corpo, a mente e a alma a finalizar um ciclo. 

Sobretudo, não podemos acreditar e nos acomodar numa humanização do parto que venha de mãos dadas com a concepção de que abortar também é humanizar. Aborto é um crime, é a desumanização em mais alto grau por não considerar humano quem já é um filho, por não considerar vida quem já é vivo e matar conscientemente este ser inocente e que sequer pode se defender.

Além disso, é preciso uma humanização da fertilidade feminina, não a tratando como algo patológico e remediável, mas como algo próprio da mulher, algo saudável, algo feliz, algo necessário até mesmo para o bom funcionamento do seu organismo. 

É preciso trabalhar para mudar toda uma cultura que trabalha a favor da morte. Ela começa ao considerar a fertilidade uma doença, passa por tratar o nascimento como um evento qualquer, as perdas gestacionais como se não fossem vida e chega ao cume quando trata os filhos como empecilhos passíveis de serem mortos pelos próprios pais. No fim, tudo isso está arquitetado para esterilizar a sociedade e bestializa-la. Já vemos o começo: humanos escolhendo ser pais de animais, crianças expulsas de restaurantes e praças de alimentação próprias para cães. 

Essa luta é nossa: dos filhos da luz. Não nos esquivemos dela. Coragem e avante! Verso l’alto!

Esposa, Mãe, Ordem Terceira VE"Desejo que Jesus me triture interiormente para que eu me torne uma hóstia pura onde Ele possa repousar.'' (Sta Teresa dos Andes)

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