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Parto humanizado: um direito de toda mulher

Tempo de leitura: 6 minutos

Ter um parto humanizado deveria ser um direito de toda mulher, assim como deveria ser uma luta de cada mulher. Mas infelizmente grande parte das mulheres – e de seus obstetras, esposos e família – ainda não se convenceu de que o parto é algo importante.

Dentro do meio católico ainda há bastante preconceito quanto ao mundo humanizado do parto. Aparentemente qualquer coisa relativa a isso gera desconforto, desconfiança e rejeição. Acredito que isso aconteça porque é uma bandeira levada por movimentos e crenças opostas às nossas. E eu digo: era para essa luta ser nossa.

Nenhum grupo deveria ter mais interesse em defender o parto humanizado do que os católicos abertos à vida, já que, acima de tudo, partos normais sucessivos favorecem quem deseja ter uma família numerosa. Mas também, deveria ser algo defendido por todo católico, já que há um grande motivo sobrenatural em passar pelo parto normal.

O parto normal é antes de tudo algo criado por Deus. Foi assim que o Criador pensou que os bebês deveriam vir ao mundo, e, após o pecado original, que deveriam vir “em dores de parto”. O parto não é um assunto ideológico, mas natural, pois existe desde a criação. 

Na Sagrada Escritura está escrito: “examinai tudo e guardai o que for bom”. Essa deve ser a nossa ação diante das coisas em vez de agir como crianças e rejeitar tudo o que fere nossa sensibilidade. Devemos reter e retomar aquilo que nos pertence, aquilo que é naturalmente bom, que conduz ao Bem: o parto que respeite o processo fisiológico natural, que tenha uma equipe médica competente e honesta, que se baseie em evidências científicas e que proporcione não só à mulher, mas também ao bebê e à família uma experiência feliz.

Temos de mudar essa cultura de que dar à luz é algo somente feito de sombras e de dor. De que o parto é algo sem importância e que os bebês podem vir ao mundo de qualquer jeito. De que investir em uma equipe especializada é dinheiro jogado fora enquanto sustentar luxos e comodidades não é. 

A minha experiência pessoal

Muitas pessoas podem pensar que eu não tive problemas no parto e por isso fale desse assunto. Vocês podem ler meus relatos de parto aqui e aqui. 

Se vocês lerem, verão que tive problemas no meu primeiro parto devido à má assistência. Não tive uma péssima assistência, mas tive certas violências. Fui submetida a inúmeros toques ante parto e intraparto, dolorosíssimos e desnecessários. Passei por um procedimento para “induzir o parto” quando ainda tinha 40 semanas (40s), sem ser esclarecida sobre o que era, seus riscos e nem que havia procedimentos naturais que poderiam ser feitos antes, que foi justificado pela premissa “você está perto de 41s e quando chegar lá não poderá mais esperar um parto normal porque é muito arriscado”. Depois de sofrer dois dias com dores intensas por causa do tal procedimento, estouramos a bolsa para ver se o parto progrediria porque eu já estava há dois dias sem dormir. Tinha mecônio e ouvi: talvez tenha de ser cesárea, está com mecônio. Depois descobri que o mecônio era pouco, claro e fluido e não precisava de cesárea. Por fim, entrei em trabalho de parto ativo e a pressa da médica a fez terminar de abrir meu colo ao invés de esperar a dilatação total. Depois fui submetida ao tal “faz força porque se ele ficar aí mais dez minutos vai sofrer danos graves”. E o meu filho nasceu e eu tive uma super laceração. E eu paguei esse profissional que me enganou ao se dizer humanizado. Eu tive amigas que me alertaram que não era tão humanizado assim, mas eu não quis procurar outro, não quis investigar nem pagar um melhor.

Depois disso fiquei meses tendo pesadelos com parto. Chorava ao pensar em engravidar de novo, não pelo bebê, mas pelo parto. Pensar em trazer outro filho ao mundo me dava tremores. Meu coração estava fechado. Então rezei, rezei muito pedindo a Deus a graça de ter essa ferida curada e de abrir meu coração a uma nova experiência. Conversei com Gabriel, decidimos nos informar melhor e contratar o melhor médico que tem por aqui, um que já tinha partejado amigas minhas e eu tinha absoluta certeza de que era bom. Economizamos, ouvimos várias críticas e piadas de que iríamos gastar dinheiro atoa, que tínhamos de ir para um plantão qualquer. Mas nós, que tínhamos vivido o parto como ele não devia ser e queríamos desde aquela época uma família numerosa, sabíamos que tínhamos tomado a melhor decisão. 

Então, lembro como se fosse hoje, meses depois do Bento ter nascido meu coração se abriu. Comecei a desejar de novo passar por um novo parto.

Quando engravidei da Maria Isabel eu já não tinha medo de um novo parto e, em grande parte, isso foi devido ao apoio do meu marido e do meu obstetra, Dr. Frederico Bravim (fica a dica para as grávidas do ES). O que mais me encantou no Dr. Frederico foi ver a verdadeira vocação que ele tem à obstetrícia. Ele tem prazer, alegria e realização em fazer o seu trabalho bem feito. Não te olha como mais uma paciente, mas como uma história única. É honesto, atualizado, cheio de evidências científicas e responsável em fazer de cada gestação o melhor tanto para o bebê, quanto para a mãe e a família. 

Estamos ainda mais realizados por estarmos amparados não só por ele, mas também pela Telemi Flor de Lira que é enfermeira obstétrica e parceira de trabalho dele. Desde a época do parto da Isabel ela também esteve conosco. Na perda dos gêmeos veio até a minha casa me socorrer, ver se estava tudo bem e de brinde com um belo soro restaurador! Telemi é aquela que te olha com o olhar mais humano e incentivador que poderia haver. Tudo nela é paz e tranquilidade.

E para fechar o pacote dos presentes divinos, tive a graça não só de encontrar a Williana, uma doula competente e do mesmo credo que o meu, mas também de poder chamá-la de amiga. E estamos ansiosas para viver este novo parto juntas!

O parto da Isabel para mim foi uma experiência deliciosa. Se o parto do Bento foi natural, mas muito dolorido pelo peso psicológico, o dela foi, além de natural, um oásis. Sequer as dores eram tão doloridas. Eu tinha o coração pronto e a serenidade de quem queria estar ali. Desejava aquele parto e aquelas dores. E por fim, quando ela nasceu, eu queria mais. Eu queria ter mais partos, sentia prazer e doçura ao lembrar do nascimento dela. 

Depois disso, engravidei dos gêmeos e eles foram para o Céu. Frederico me aconselhou esperar a expulsão natural, que era melhor tanto fisicamente quanto psicologicamente. E então adentrei a um mundo desconhecido.

Enfim passei pela expulsão depois de quase um mês de aborto retido. O processo é difícil, o sangramento é intenso ao ponto de quase desmaiarmos e dura dias. Dói no corpo porque são contrações como as de parto, sem os hormônios do prazer. E dói na alma, pois é preciso fortaleza para deixar o filho partir. Mas quando acaba há uma alegria e um alívio em ter trazido estes filhos ao mundo, ainda que já tenham partido para a eternidade. 

Ao contrário do processo de curetagem, por exemplo, que além de ser desumano e cheio de riscos (até mesmo de perder o útero), espiritualmente rouba à mulher o tempo de processar sua perda e arranca seu filho à força. O processo natural nos dá a oportunidade de digerir a perda e entregar este filho dizendo como Jó: “O senhor deu, o Senhor tirou. Bendito seja Deus”!

Agora estou gestando meu quinto filho e me preparando para mais um parto, certa de que, venha o que vier, o meu coração segue pronto e disposto, ainda que seja para uma cesárea de emergência, mesmo que esse não seja o meu plano inicial.

Falar sobre parto pode ser complicado

Falar sobre parto pode causar muito siricutico e eu entendo que isso aconteça por falta de conhecimentos e pelo peso emocional que o assunto tem.

Precisamos definir as coisas como são. Quando defendemos o parto normal não estamos falando de pessoas melhores que outras, mas de um meio de nascimento que é melhor do que o outro. Não estamos criticando pessoas e suas experiências, mas trabalhando com evidências científicas a respeito da melhor forma de um bebê vir ao mundo.

O parto normal é a melhor via de nascimento para o bebê, para a mãe, para o país, para o sistema de saúde. Mas acho que os únicos conscientes disso às vezes são os bebês que insistem em continuar nascendo por via vaginal independente do que digam as vãs ideologias ou preconceitos rs.

Não há uma guerra entre parto normal e cesárea para nós católicos do ponto de vista ideológico. Pode haver entre outros grupos que defendam a cesárea a qualquer custo porque querem esterilizar as mulheres ou que defendam o parto normal a qualquer custo porque querem empoderamento. Nós católicos defendemos o parto normal porque ele foi criado por Deus e é o melhor e a cesárea foi criada por mãos humanas, com permissão divina, para salvar vidas em risco. Ela é necessária em casos de emergência e somos gratos ao bom Deus por ela ser usada.

Lutar por um parto normal não significa consegui-lo, porque as circunstâncias envolvidas não dependem apenas da nossa vontade e esforço. Nós dispomos os meios, mas as vezes o bebê vai entrar em sofrimento (ou outro motivo) e precisaremos de uma cesárea. O que não precisa acontecer são as cesáreas eletivas, as intervenções desnecessárias e as mentiras que enganam as mulheres.

Outro ponto é a mudança de uma cultura. Lutar contra o sistema é difícil e não pense que um parto normal cairá nos seus braços de mão beijada. Há uma diferença entre a conformidade com a vontade divina e um conformismo nada virtuoso que aceita qualquer coisa só para não ter de fazer esforço. A cultura do nosso país é cesarista. Aqui o “normal” é fazer cesárea e o anormal é ter parto normal. Aqui as equipes te enganam, agendam cesáreas desnecessárias, te enchem de pavor e medo. Aqui muitas famílias não apoiam essa luta porque consideram algo naturalista e hiponga. Aqui há muitos mitos e preconceitos e se você não se informar e não querer realmente, nada irá acontecer.

Não podemos nos conformar com esse mundo.

Continua no próximo post.

Esposa, Mãe, Ordem Terceira VE"Desejo que Jesus me triture interiormente para que eu me torne uma hóstia pura onde Ele possa repousar.'' (Sta Teresa dos Andes)

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