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Continuamos hoje a segunda parte do nosso texto sobre “Por que usamos roupas?”. Confira a primeira parte aqui.

A concupiscência do corpo

O pudor tem significado duplo: indica ameaça à dignidade e ao mesmo tempo preserva interiormente essa dignidade de si mesmo. O fato de o corpo humano, desde o momento em que nele nasce a concupiscência do corpo, conservar em si também a vergonha, indica que se pode e deve fazer apelo a ele quando se trata de garantir aqueles valores a que a concupiscência tira a sua original e plena dimensão.

A necessidade de esconder-se diante do outro demonstra a carência fundamental de confiança, o que por si indica o desabar da original relação “de comunhão”.

A vergonha, após o pecado original, é uma forma de autodefesa para evitar ser tratado como objeto de uso sexual. O homem, devido à concupiscência do corpo decorrente do pecado original, tende a objetificar os corpos das mulheres. E a mulher tende a gostar de ser tratada como objeto.

A luxúria masculina é frequentemente voltada para a gratificação física à custa da mulher, enquanto que a luxúria feminina é frequentemente voltada para um tipo de gratificação emocional à custa do homem.

O homem é aquele pelo qual a vergonha, unida a concupiscência, se tornará impulso para “dominar a mulher” (ele te dominará), isto é, uma relação de posse do outro à maneira de objeto do próprio desejo.

Se tal impulso prevalece por parte do homem, os instintos que a mulher dirige para ele muitas vezes antecipam este “desejo” do homem, tendendo a despertá-lo e dar-lhe impulso.

O homem, ao ver a primeira mulher, exclama estonteante a sua declaração: “Esta sim!” Mostrando que, apenas ao vê-la, foi capaz de reconhecer nela sua semelhante. Além disso, o ato de ver ou o sentido da visão, está claramente mais ligado ao homem do que à mulher. Ele foi o primeiro a ver. Dessa forma, participa da concupiscência do corpo “desejando” e “olhando para desejar”.

Se pararmos para ler as escrituras, veremos como a tradução sapiencial tinha particular unilateralidade admoestando os homens. Quanto à mulher, aparece mais frequentemente como ocasião de pecado ou mesmo como sedutora da qual é preciso fugir.

Dessa forma, os pecados da pornografia e da masturbação, sem excetuar a mulher, são tipicamente masculinos enquanto que as mulheres tendem mais ao pecado da imodéstia no vestir e aos jogos de sedução.

Nos pecados da pornografia e da masturbação, o homem usa a mulher como objeto para satisfação de sua luxúria. Ele olha o corpo e não enxerga nada além deste. De forma egoísta, busca apenas o prazer.

Na imodéstia no vestir, a mulher procura no homem uma satisfação para sua carência emocional. Então, a mulher mostra o seu corpo, porque sabe intuitivamente que este corpo atiça o sentido mais sensível do homem, que é a visão, e também para conseguir de forma mais rápida os elogios e a atenção que busca.

Além disso, está escrito: “tenderá ao teu marido e ele te dominará”. Dessa forma a mulher com seus jogos de sedução e imodéstia antecipa no homem o seu desejo de dominá-la. A mulher incita, desperta e impulsiona este instinto no homem.

A concupiscência leva a mulher a gostar e querer ser dominada, e, para isso se esvai de sua liberdade pessoal e, tornando-se objeto, busca esse domínio que o homem com a sua concupiscência exerce sobre ela.

Dessa forma, o homem usa o “amor” para obter sexo e a mulher usa o sexo para “se sentir amada”. Mas, ambos presos no pecado, nunca se saciam pois a concupiscência é como um fogo aceso que consome tudo ao redor. Ao invés de se saciar, deseja sempre mais e mais.

A relação entre homem e mulher não atinge mais a comunhão pois não sendo mais livres, tornam-se incapazes de serem dom um para o outro.

O Papa Paulo VI em sua encíclica Humanae Vitae, escreveu: “É ainda de recear que o homem, habituando-se ao uso das práticas anticoncepcionais, acabe por perder o respeito pela mulher e, sem se preocupar mais com o equilíbrio físico e psicológico dela, chegue a considerá-la como simples instrumento de prazer egoísta e não mais como a sua companheira, respeitada e amada.”

E, tamanha desordem do desejo, nomeado como Eros, leva até mesmo ao homem buscar relações com outro homem e mulher com mulher. Justamente porque a concupiscência decai cada vez mais e não se sacia, querendo buscar e encontrar nas situações aquilo que só o Criador é capaz de saciar no homem.

A finalidade das roupas

Entendemos então as inclinações que temos devido ao pecado original. Agora sabemos qual a raiz de muitos comportamentos que temos.

Vimos que, após o pecado original, homem e mulher cobriram-se com folhas de figueira. O motivo já sabemos bem: a visão ficou turva e ambos não eram mais capazes de ver através do corpo. A visão agora parava diante do corpo como diante de um muro, pois esse não era mais um intermediário que apontava para Deus. A força do Eros desordenou-se e o corpo agora buscava a satisfação pessoal, a luxúria.

Precisaram pedir emprestado à natureza o que por si já não podiam oferecer: um aspecto humano, pessoal a seus corpos. As roupas passam a ser, desde esse momento, o complemento necessário de um corpo que perdeu sua transparência natural, que para manifestar a pessoa que contém (e, por conseguinte, sua personalidade) há de ocultar-se em boa parte, desviar de si a atenção, porque senão, o olhar do outro pode pesar sobre ele e não alcançar o especificamente humano, a pessoa, o domínio do espírito. A roupa é o que, depois do pecado, se requer necessariamente para tratar-nos de um modo pessoal; não como animais, mas sim como pessoas.

”O traje revela a pessoa”, disse HAmlet. Acentua nossa dignidade de filhos de Deus. Por isso, uma mulher ou um homem cobrem o seu corpo não porque ele seja mau ou vergonhoso, mas sim porque ele é bom, tão bom, que temem que essa bondade possa ser não reconhecida ou até mesmo violada.

Segundo São João Paulo II, as roupas cobrem o corpo para nos deixar ver os valores da alma. A necessidade espontânea de ocultar os valores sexuais vinculados à pessoa é o caminho natural para revelar o valor da pessoa em si mesma.

O Papa Pio XII acrescenta ainda que o vestir obedece ao familiar requerimento da higiene, da decência e do adorno. A primeira é derivada da natureza física do homem; a segunda da sua natureza espiritual; a terceira da sua natureza psicológica e artística.

Referências

São João Paulo II, Teologia do Corpo

São João Paulo II, Amor e responsabilidade

Padre Antonio Orozco, Defensa del pudor

Padre Paulo Ricardo, Teologia do Corpo e Modéstia

Christopher West, Teologia do corpo para principiantes

Padre Lodi, Castidade

Papa Pio XII, Problemas morais nos estilos da moda