Lírio entre espinhos

Uma família católica buscando a santidade

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O plano de vida

Tempo de leitura: 4 minutos

No post passado trouxemos a primeira parte de um texto do Padre Fuentes, IVE, sobre a reforma e o plano de vida. Hoje publicamos a continuação, que é também a parte final.

Com os elementos mais sobressalentes deste exame, cada um tem depois que elaborar um plano de vida realista. O plano de vida, como seu nome o indica, designa o projeto das principais atividades e objetivos que um sujeito tenta levar a cabo em um prazo determinado de tempo (o resto do ano, ou o biênio, ou o qüinqüênio, etc.). No plano espiritual é um programa de perfeição. O ter um plano de vida é conveniente não só para os religiosos e sacerdotes senão para todos os fiéis que querem santificar-se no meio do mundo; porque a santidade não se improvisa: quem quer obter algo na vida, já seja na ordem humana ou na sobrenatural, deve sentar-se e prever, pensar e planejar. Para nos santificar devemos aproveitar bem o tempo, sobrenaturalizar nossas obras e seguir um plano de formação e trabalho. Sem plano de vida se esbanja sem remédio muito tempo:

–surgem dúvidas sobre o que devemos fazer; gastamos tempo em deliberações supérfluas; apesar de muito deliberar estamos acostumados a ficar com dúvidas;

–descuidamos algumas de nossas obrigações por falta de previsão e de organização, por propor fins sem determinar os meios ou por tomar no momento meios ineficazes ou menos eficazes, etc.;

–e por este descuido, finalmente, expomo-nos à inconstância e ao abandono das obras empreendidas.

Pelo contrário, o plano de vida nos dá ordem, ajuda-nos a ganhar tempo, faz-nos sobrenaturalizar as obras (porque as fazemos por obediência ao plano, quer dizer, às decisões tomadas em consciência diante de Deus; sempre e quando o plano seja feito como Deus manda); tem também um grande valor educativo enquanto tempera nossa vontade (fazendo-a mais austera, livre de caprichos, submetendo-a a uma ordem e fazendo-a adquirir perseverança).

1) Características

Para que seja real todo plano de vida tem que ter certas qualidades:

–Deve estar acomodado aos deveres de estado, às ocupações habituais, às disposições de espírito, de caráter e temperamento de cada um, a suas forças e a seu estado atual de perfeição.

–Deve ser flexível e rígido à vez. Flexível para não escravizar a alma ao plano quando a caridade para o próximo, ou alguma circunstância grave imprevista, ou a obediência aos superiores faça irrealizável algum projeto. Com certa rigidez, para que o sujeito não o modifique segundo seus caprichos; é rígido se contiver todo o necessário para determinar pelo menos em princípio, o tempo e a maneira de fazer nossas diversas atividades, nossos deveres de estado, exercícios de piedade e a aquisição das virtudes mais necessárias para nosso temperamento.

–Deve ser feito de acordo com o diretor espiritual. Exige-o a prudência que nos ensina que um não é bom juiz em sua própria causa nem destro guia de si mesmo; também a obediência, pela qual, o plano de vida revisado e autorizado pelo diretor estende a ação de este ao resto de nossa vida.

2) O que deve abranger

Os principais elementos que devem estar presentes no plano são:

–O horário mais fundamental do dia: os religiosos isto já o têm estabelecido em sua casa religiosa. Porém pode ser necessário estabelecê-lo “ad hoc” quando se está de férias.

–Os projetos fundamentais: de todas as coisas que viu que tem que trabalhar deverá determinar qual é o objetivo mais urgente, e a ordem em que seguirá trabalhando com outros pontos que deve reformar em sua vida. O mais importante é a formação de propósitos concretos, reais, realizáveis e que vão à medula da vida espiritual, procurando erradicar o defeito dominante, alcançar as virtudes mais importantes para o sujeito em questão, etc. É importante sublinhar que o esforço principal (o trabalho diário) deve enfocar-se sobre um só propósito por vez (fazendo sobre isto o exame particular[1]). Uma vez conseguido o propósito, terá que trocar e se examinar sobre um novo objetivo. A mesma direção espiritual consiste em grande medida em ver o trabalho sobre esse propósito.

–O desenvolvimento do projeto: com que meios vai alcançar o que projetou fazer (por exemplo, para alcançar tal virtude ou vencer tal defeito ou virtude: que atos se deve fazer? com que frequência?, etc.). O meio essencial e indispensável é o exame de consciência diário.

3) Modo de observá-lo

Se deve observar o plano, quer dizer cumpri-lo, íntegra e cristãmente. Integralmente quer dizer: em todas suas partes e com pontualidade. Porque se cumprirmos uns pontos e outros os deixamos de lado sem motivo razoável, caímos no capricho e, em definitiva, passamos a fazer nossa própria vontade em lugar da de Deus. Se deve evitar dois extremos: o escrúpulo e a tibieza. Não se deve ter escrúpulos em deixar de cumprir algum ponto particular do plano quando há motivos graves, especialmente quando nos exigem isso os deveres de caridade para o próximo ou urgências próprias de nossos deveres de estado (como atender doentes a horas inesperadas, ou quando se está rezando). Porém também se deve evitar a tibieza que tende a abandoná-lo tudo por motivos fúteis ou sofismas de nossa afetividade, encontrando falsas desculpas. Cumpri-lo cristãmente significa que a intenção que deve guiar a observância do plano de vida tem que ser o fazer a vontade de Deus. Esta pureza de intenção é a alma genuína de um plano de vida.

4) Rendição de conta

Finalmente, toda pessoa tem que prever com que frequência examinará o andar dos propósitos e projetos. Convém que isto se faça uma vez por mês; para os religiosos e seminaristas (ou inclusive seculares) que têm costume de realizar retiros mensais de um dia, essa será a oportunidade mais adequada. Seja quando for, em tais ocasiões têm que examinar o fato, tomar novas determinações se for necessário, impor-se algum castigo se a negligência ou preguiça ou desordem interior o conduz à inconstância, e examinar as etapas seguintes.


[1] Santo Inácio, EE, nº 24 a 31.

Blogue da família Zago, da terceira ordem do Verbo Encarnado.

Direção Espiritual: o dirigido

Tempo de leitura: 6 minutos

Esperamos que esta sequência de artigos sobre a Direção Espiritual tenha sido de bom proveito! Rezem a São Francisco de Sales pedindo a graça de ter um santo diretor espiritual.


1) O dirigido

            Definição: É toda alma que, aspirando seriamente à perfeição cristã, voluntariamente se colocou sob o regime e governo de um diretor espiritual.

“Toda alma…”: Ninguém está excluído da necessidade moral de fazer direção espiritual. Nem sequer aqueles que são diretores espirituais, nem os teólogos, nem os Bispos, nem o Papa. Não só porque ninguém é bom juiz na sua própria causa, senão porque o valor da direção espiritual não reside unicamente na resolução teórica das dificuldades (que pode não ser necessária ou impossível quando o dirigido é mais preparado que o diretor); senão na força estimulante dos conselhos e exortações do diretor, a humildade, obediência e submissão do dirigido. Quem por crer-se superior aos demais despreza os conselhos de um prudente diretor, nunca alcançará a perfeição.

“… que, aspirando seriamente à perfeição cristã,…”: Se falta isto, a direção espiritual se torna inútil, porque lhe falta seu elemento essencial.

“… voluntariamente se colocou…”: A eleição do diretor espiritual é totalmente livre.

“sob o regime e governo de um diretor espiritual.”: Este governo se refere às coisas interiores e não às coisas externas. O diretor se deve adaptar às circunstâncias e deveres próprios do dirigido.

Qualidades e deveres do dirigido
a) Com relação à direção mesma:
  • Plena sinceridade e abertura de coração: É o primeiro e mais importante dos deveres do dirigido, sem o qual a direção espiritual se torna impossível. O diretor deve saber tudo o que acontece na nossa alma: as tentações e fraquezas, para que nos ajude a vencê-las e superá-las, os propósitos e resoluções, para submetê-los a seu exame e aprovação; as inclinações boas e más, para que fomente as primeiras e corrija as segundas; as dificuldades de estímulos; os triunfos e as derrotas; as esperanças e ilusões… Tudo deve ser manifestado com humildade e de um modo simples.

É um erro muito grande praticar um duplo jogo manifestando ao diretor espiritual somente as coisas boas, deixando para um confessor desconhecido as misérias e pecados. Assim é impossível a direção espiritual, porque o diretor deve conhecer os pecados e misérias do dirigido.

Embora não devemos exagerar, porque não é necessário manifestar coisas pequenas e detalhadas.

  • Plena docilidade e obediência: O dirigido não deve ao diretor uma obediência como a superior religioso. Embora o diretor não esteja num plano de igualdade ou de amizade com o dirigido, inclusive pelo seu mesmo cargo, tem certa superioridade sobre o seu filho/a espiritual (assim como o mestre ao educar o aluno), à qual deve corresponder uma verdadeira docilidade e submissão por parte do dirigido ou discípulo.

Esta atitude do dirigido pertence mais à prudência e humildade que a obediência. É muito importante esta docilidade, a tal ponto que o diretor deve exigir a obediência absoluta em todas as coisas que pertencem à direção espiritual, sob pena de negar-se a continuar a direção.

O dirigido deve submeter-se a seu diretor, porque a direção tem por finalidade a submissão a um guia de quem se aceitam as luzes, os conselhos e as ordens.

Muito pior que a desobediência é que o dirigido tente fazer de tudo para que o diretor lhe mande o que ele quer (esta atitude é duramente condenada por São João da Cruz). Mas não é contrário a esta obediência e docilidade, o fato de que o dirigido tome a iniciativa de manifestar atrativos e repugnâncias e até propor humildemente objeções com o ânimo de obedecer se o diretor insiste. A alma que obedece pode ter certeza que obedecendo sempre se manterá dentro do âmbito da vontade de Deus.

  • Perseverança: O dirigido deve ter perseverança nas seguintes coisas: Na entrevista, que deve ser frequente, nos exercícios, métodos e procedimentos de santificação; nos conselhos recebidos.
  • Ser discreto. O dirigido está obrigado a guardar segredo, e não confiar a ninguém os conselhos, normas práticas dadas pelo diretor. Nem sequer com o pretexto de edificar ou ajudar, porque o conselho dado a uma pessoa particular e em circunstâncias especiais podem não servir para outra pessoa e também pode trazer problemas com os outros dirigidos ou penitentes que o diretor tem.
b) Com relação ao diretor:
  • Respeito: O dirigido deve respeitar seu diretor e ver-lhe como um representante de Deus. E se não está conforme com ele por alguma coisa, antes de criticar lhe deve mudar de diretor.
  • Confiança: O dirigido deve ter uma confiança absoluta no seu diretor. Deve ser uma confiança filial, de tal modo que frente a ele se encontre com maior naturalidade, e sinceridade, disposto a se mostrar tal e como é; com suas fraquezas e misérias. Se faltar esta confiança, a direção espiritual é ineficaz.
  • Amor sobrenatural: Pode existir um amor sobrenatural ao diretor, como tem acontecido na vida de vários santos. Mas o difícil é que se mantenha sempre dentro dos limites do sobrenatural, por isso neste sentido sempre devemos nos esforçar para que seja um amor verdadeiramente de caridade.

2. Matéria da direção espiritual

Este ponto é muito importante porque nos mostra o que temos que falar na direção espiritual:

Como princípio geral é matéria da direção espiritual todos os assuntos interiores e exteriores da alma dirigida relacionadas com a perfeição cristã, segundo o estado e ofício de cada um.

– O Plano de vida (propósitos, a fidelidade a eles), a observância das regras.

– A paixão dominante, como combater os defeitos.

– As tentações.

– Mortificações e penitências.

– Inspirações e inclinações boas.

– A oração, como se está rezando, com que método.

– As devoções que pratica.

– As obras do ofício próprio.

– Exame particular.

3. Algumas coisas complementares

a) Eleição do diretor

“Convém muito à alma que quer adiantar no recolhimento e perfeição (ser santa) olhar em que mãos se põem, porque como for o mestre será o discípulo, e como for o pai, será o filho” (São João da Cruz).

Nem todas as almas podem escolher livremente o diretor espiritual, porque muitas têm o trato só com alguns sacerdotes (Religiosas de Clausuras, Aldeias pequenas etc.). Nestes casos devem aceitar a vontade de Deus, Ele se encarregará de suprir as deficiências do diretor se a alma procura ser fiel à graça de Deus e faz de sua parte tudo o que pode.

Mas fora destes casos excepcionais, para escolher o diretor espiritual se deve ter em conta as seguintes normas:

Pedir-lhe a Deus na oração as luzes necessárias para proceder bem em coisa tão importante.

Examinar quem tem mais prudência, bondade e caridade entre todos os sacerdotes que podemos escolher livremente.

– É preciso evitar que entrem na eleição as simpatias naturais ou ao menos que não sejam elas as que decidam como razão única e principal. Embora, não seja conveniente escolher alguém pelo qual se tem antipatia, porque isso dificultaria muito a direção (no que se refere à confiança e abertura de coração).

Não propor-lhe logo que seja o diretor espiritual. Convém experimentar um pouco de tempo, para ver se é uma verdadeira ajuda ou não.

– Em igualdade de circunstâncias, devemos escolher o mais santo para os casos ordinários e o mais sábio para os casos extraordinários, como se pode concluir da doutrina de Santa Teresa.

Uma vez feita à eleição, não será fácil mudar de diretor por razões inconsistentes.

b) Mudança de diretor

Se pode mudar quando há razões verdadeiramente de peso para fazê-lo. Não se deve mudar por qualquer motivo, porque isto faria ineficaz todo tipo de direção.

São motivos inadequados ou inconsistentes (segundo o mestre espiritual Tanquerey):

– A curiosidade por ouvir outros conselhos, porque há cansaço de ouvir sempre os mesmos.

– A inconstância, porque não persevera muito tempo nos exercícios de piedade.

– Querer ter como diretor àquele que tem mais fama (Soberba).

– Estar descontente com o diretor que se tem.

– Desejo de manifestar a vários confessores a própria consciência, para que se interessem por eles ou para ter mais segurança.

– Para ocultar ao confessor ordinário as faltas mais humilhantes.

Quais são os motivos verdadeiros?

Podem se reduzir a dois: quando a direção resulta inútil ou prejudicial.

A direção resulta inútil, quando apesar da boa vontade do dirigido e sincero desejo de ir à frente na vida espiritual, não sente com respeito a seu diretor a confiança e franqueza tão necessárias na direção. Ou também, quando vê que não se atreve a corrigir os defeitos, não se preocupa por estimular no caminho da virtude, não soluciona os problemas, não mostra interesse pela santificação do dirigido.

A direção resulta prejudicial, quando:

a) Se advertem claramente que o diretor carece da ciência, prudência e discernimento necessários.

b) Quando fomenta a vaidade do dirigido, tolera facilmente as faltas e defeitos ou vê as coisas desde um ponto de vista muito humano.

c) Se o diretor sempre perde o tempo misturando conversações frívolas (sem importância), ou de simples curiosidade, ou totalmente fora do tema da direção. E com maior razão se isto manifesta um afeto demasiado sensível do diretor com respeito ao dirigido.

d) Se o diretor trata de impor cargas superiores às forças do dirigido ou incompatíveis com os deveres próprios do estado. Ou também se quiser atar o dirigido com votos ou promessas de não consultar com nenhum outro diretor as coisas da nossa alma.

e) Se se adverte claramente que os conselhos e normas dadas pelo diretor, longe de fazer adiantar o dirigido, o prejudicam espiritualmente tendo em conta seu temperamento e especial psicologia. Mas Devemos ter cuidado com as ilusões do amor próprio, que facilmente se podem misturar nestas apreciações. Antes de mudar de diretor por estes motivos, devemos conversar com ele a fim de usar outros procedimentos.


Fonte

Apostila de Espiritualidade, Instituto do Verbo Encarnado

Esposa, Mãe, Ordem Terceira VE

“Desejo que Jesus me triture interiormente para que eu me torne uma hóstia pura onde Ele possa repousar.” (Sta Teresa dos Andes)

Direção Espiritual: o diretor, parte 2

Tempo de leitura: 5 minutos

Continuando nossa série sobre Direção Espiritual, hoje trazemos a segunda parte do artigo sobre o Diretor. Se você perdeu a primeira parte, basta acessar esse link.

b) Qualidades morais do diretor

São aquelas que sem ser absolutamente indispensáveis para a técnica da direção espiritual, contribuem poderosamente em seu complemento e perfeição.

Intensa piedade. Segundo São João da Cruz o discípulo não é maior que o mestre, pelo qual devemos procurar um sacerdote de intensa piedade.

A razão disto é que ninguém pode dar o que não tem, nem mais do que tem. E se o mestre não tem vida interior ou é muito fraca, está radicalmente incapacitado para levar a maior altura seu discípulo.

Pode-se dizer que a santificação é obra do Espírito Santo mediante sua graça e que ela não precisamente se dispõe do instrumento para comunicar-se. Mas devemos dizer que:

1- Deus normalmente se acomoda às disposições próximas dos instrumentos que utiliza e não prescinde deles, a não ser por via de exceção e de milagre. 

2- aliás, se fosse assim estaríamos admitindo que não é necessária outra direção que a do Espírito Santo para a santificação, o qual é contrário a toda a tradição.

A piedade do diretor espiritual deve estar formada pelas grandes verdades da fé cristã:

– O centro de sua vida deve ser Cristo.

– Deve procurar a Glória de Deus, sobretudo.

– Deve ter um profundo sentimento de filiação adotiva, que lhe faça ver a Deus como seu pai e aos homens como seus irmãos.

– Deve ter um grande amor a Maria Santíssima.

– Deve praticar o recolhimento interior, o desprendimento das coisas da terra, deve ter um profundo espírito de oração.

Zelo ardente pela salvação das almas. E esta qualidade é uma consequência da anterior, porque quem tem piedade ardente, tem zelo pela salvação das almas. O amor de Deus nos impulsiona a trabalhar para estender seu reinado sobre as almas e o amor pelas almas faz que nos esqueçamos de nós mesmos para pensar somente na santificação das almas ante Deus e para Deus. Sem este zelo, a direção espiritual resultará ineficaz para a alma, já que faltará o estímulo do diretor espiritual para continuar apesar das dificuldades e se converterá para o diretor numa carga insuportável porque sua missão é dura e requer muita abnegação e espírito de sacrifício.

Bondade e suavidade de caráter. O zelo ardente, se não vai acompanhado da bondade corre o perigo de se transformar numa intransigência (Falta de tolerância) e incompreensão terrível, que nunca dá bons resultados. O diretor deve pensar que há de estar animado pelos mesmos sentimentos de Cristo, o Bom Pastor, que vai procurar a ovelha perdida; que não quebra o caniço rachado nem apaga a mecha que ainda fumega. E que acolhe a todos com imensa bondade e compaixão. Não deve esquecer como dizia São Francisco de Sales: “Se consegue mais com um pouco de mel que com um barril de fel”.

Disse o autor Ribert: “A perfeição é uma obra difícil, sobretudo em seus inícios, pelos temores que se inspira e os obstáculos que são preciso superar. Um rigor excessivo e reprovações intempestivas terão o efeito de desanimar as almas e comprometer, talvez para sempre, a obra de sua santificação. Isto é: particularmente nas almas fortemente tentadas, em espíritos poucos abertos, em caráteres suscetíveis, em naturezas débeis e inconstantes, a severidade lhes desconcerta, lhes exaspera, lhes impede a abertura do coração, a confiança e a esperança. A miséria humana e as dificuldades das virtudes recomendam, pois, no diretor, uma paciência inalterável”.

O diretor deve estar animado de sentimentos verdadeiramente paternais, deve ter a obsessão com uma missão de formar Cristo nas almas que Deus lhe confia, até pode dizer como São Paulo: “Filhinhos meus, por quem de novo sinto dores de parto, até que Cristo seja formado em vós” (Gl 4,19).

Deve ser o báculo que sirva para manter em pé, ou para ferir e lastimar. As almas que querem ser tratadas com bondade. Há de procurar o diretor atrair a sua confiança e obediência com uma imensa bondade e suavidade no seu trato, sem prejuízo de manter com energia inquebrantável os princípios mesmo da direção. Santa Joana de Chantal dizia: “À medida que vou vivendo mais vejo fazer-lhes cumprir seu dever sem tirania. Porque, afinal de contas, nossas irmãs são ovelhas de Nosso Senhor; está nos permitido conduzi-las, tocá-las com o cajado, mas não esmagá-las”.

Profunda humildade. O diretor necessita de uma grande dose de humildade por três razões:

Em primeiro lugar por ordem a Deus que “… Resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes” (1Pd 5,5). Sem as luzes de Deus não servem de nada todas as ciências e sabedoria humana na obra da santificação.

Em segundo lugar, por relação a si mesmo. O humilde desconfia de si mesmo não é audaz para resolver irreflexivamente as dificuldades que se lhe apresentam, estuda, medita, consulta se for preciso a outros mais doutos do que ele toma muitas preocupações para assegurar o acerto nas suas decisões.

Em terceiro lugar, por ordem das almas. A humildade atrai e cativa a todo o mundo. Uma repreensão feita com humildade se recebe com gosto e agradecimento; mas, se faz com soberba não é bem recebida e causa mais dano que ajuda.

O diretor deve imitar Jesus Cristo, que era “Manso e humilde de coração” (Mt 11,29) e só procurava o trato das almas a Glória de seu pai (Jo 8,50) sem deixar aquela energia divina que corrigia os vícios e pecados e manifestava ao mundo a verdade.

Perfeito desinteresse e desprendimento no trato com as almasO diretor deve amar as almas não pelas satisfações e consolos que possam lhe proporcionar, senão unicamente para levá-las a Deus.

Santo Agostinho adverte que “os que conduzem as ovelhas de Cristo como se fossem próprias e não de Cristo, demonstram que se amam a si mesmos e não ao Senhor”. E São Lourenço Justiniano cataloga semelhante proceder e roubo, sacrílego, já que reivindica para si mesmo o que é de Cristo e que Ele reclama imperiosamente.

Nem sequer deve lhe importar a gratidão ou ingratidão das almas. Deve deixar com serenidade que abandonem a direção espiritual para ir com outro diretor, sem ter lhes dado nem um motivo para isso. Jamais deve considerar aos outros diretores espirituais como rivais ou competidores, numa missão na qual ninguém pode ter a presunção de obter o monopólio e exclusividade.

Embora possa pedir-lhes a ajuda das orações, não lhes impunha jamais o menor sacrifico ou mortificação para seu proveito próprio. Sua norma única de conduta deve inspirar-se na fórmula sublime do Apocalipse: “Amém, louvor, glória, sabedoria, ação de graças, honra, poder e força ao nosso Deus pelos séculos dos séculos! Amém”.

Estas são as principais qualidades morais que deve ter o Diretor Espiritual. Precisamente por serem tantas e tão perfeitas, não é muito fácil encontrar um bom diretor. Assim pensam São João da Cruz, São João de Ávila,  São Francisco de Sales: devemos escolher um entre dez mil.

Entretanto, não devemos pensar que a alma que não pode ter um bom diretor espiritual, não possa chegar à perfeição. Porque se tem o ardente desejo de santificar-se e de ser em tudo fiel à graça de Deus, segundo as moções do Espírito Santo, não deixará de ser santa porque seu diretor espiritual não é competente.

A Direção Espiritual, enquanto é um meio muito útil e moralmente necessário para a santificação, não é absolutamente necessário. Se não encontrar o diretor adequado ou se a direção não for tão boa mesmo assim com a graça de Deus se pode alcançar a santidade.

Fonte:

Apostila de Espiritualidade, Instituto do Verbo Encarnado

Gabriel é esposo da Rayhanne e pai do Bento e da Maria Isabel! Além disso, é membro da Terceira Ordem da Família do Verbo Encarnado e diretor do Centro Anchieta. Trabalha como professor.

Verso L´Alto – Beato Pier Giorgio Frassati

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