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Esperamos que esta sequência de artigos sobre a Direção Espiritual tenha sido de bom proveito! Rezem a São Francisco de Sales pedindo a graça de ter um santo diretor espiritual.


1) O dirigido

            Definição: É toda alma que, aspirando seriamente à perfeição cristã, voluntariamente se colocou sob o regime e governo de um diretor espiritual.

“Toda alma…”: Ninguém está excluído da necessidade moral de fazer direção espiritual. Nem sequer aqueles que são diretores espirituais, nem os teólogos, nem os Bispos, nem o Papa. Não só porque ninguém é bom juiz na sua própria causa, senão porque o valor da direção espiritual não reside unicamente na resolução teórica das dificuldades (que pode não ser necessária ou impossível quando o dirigido é mais preparado que o diretor); senão na força estimulante dos conselhos e exortações do diretor, a humildade, obediência e submissão do dirigido. Quem por crer-se superior aos demais despreza os conselhos de um prudente diretor, nunca alcançará a perfeição.

“… que, aspirando seriamente à perfeição cristã,…”: Se falta isto, a direção espiritual se torna inútil, porque lhe falta seu elemento essencial.

“… voluntariamente se colocou…”: A eleição do diretor espiritual é totalmente livre.

“sob o regime e governo de um diretor espiritual.”: Este governo se refere às coisas interiores e não às coisas externas. O diretor se deve adaptar às circunstâncias e deveres próprios do dirigido.

Qualidades e deveres do dirigido
a) Com relação à direção mesma:
  • Plena sinceridade e abertura de coração: É o primeiro e mais importante dos deveres do dirigido, sem o qual a direção espiritual se torna impossível. O diretor deve saber tudo o que acontece na nossa alma: as tentações e fraquezas, para que nos ajude a vencê-las e superá-las, os propósitos e resoluções, para submetê-los a seu exame e aprovação; as inclinações boas e más, para que fomente as primeiras e corrija as segundas; as dificuldades de estímulos; os triunfos e as derrotas; as esperanças e ilusões… Tudo deve ser manifestado com humildade e de um modo simples.

É um erro muito grande praticar um duplo jogo manifestando ao diretor espiritual somente as coisas boas, deixando para um confessor desconhecido as misérias e pecados. Assim é impossível a direção espiritual, porque o diretor deve conhecer os pecados e misérias do dirigido.

Embora não devemos exagerar, porque não é necessário manifestar coisas pequenas e detalhadas.

  • Plena docilidade e obediência: O dirigido não deve ao diretor uma obediência como a superior religioso. Embora o diretor não esteja num plano de igualdade ou de amizade com o dirigido, inclusive pelo seu mesmo cargo, tem certa superioridade sobre o seu filho/a espiritual (assim como o mestre ao educar o aluno), à qual deve corresponder uma verdadeira docilidade e submissão por parte do dirigido ou discípulo.

Esta atitude do dirigido pertence mais à prudência e humildade que a obediência. É muito importante esta docilidade, a tal ponto que o diretor deve exigir a obediência absoluta em todas as coisas que pertencem à direção espiritual, sob pena de negar-se a continuar a direção.

O dirigido deve submeter-se a seu diretor, porque a direção tem por finalidade a submissão a um guia de quem se aceitam as luzes, os conselhos e as ordens.

Muito pior que a desobediência é que o dirigido tente fazer de tudo para que o diretor lhe mande o que ele quer (esta atitude é duramente condenada por São João da Cruz). Mas não é contrário a esta obediência e docilidade, o fato de que o dirigido tome a iniciativa de manifestar atrativos e repugnâncias e até propor humildemente objeções com o ânimo de obedecer se o diretor insiste. A alma que obedece pode ter certeza que obedecendo sempre se manterá dentro do âmbito da vontade de Deus.

  • Perseverança: O dirigido deve ter perseverança nas seguintes coisas: Na entrevista, que deve ser frequente, nos exercícios, métodos e procedimentos de santificação; nos conselhos recebidos.
  • Ser discreto. O dirigido está obrigado a guardar segredo, e não confiar a ninguém os conselhos, normas práticas dadas pelo diretor. Nem sequer com o pretexto de edificar ou ajudar, porque o conselho dado a uma pessoa particular e em circunstâncias especiais podem não servir para outra pessoa e também pode trazer problemas com os outros dirigidos ou penitentes que o diretor tem.
b) Com relação ao diretor:
  • Respeito: O dirigido deve respeitar seu diretor e ver-lhe como um representante de Deus. E se não está conforme com ele por alguma coisa, antes de criticar lhe deve mudar de diretor.
  • Confiança: O dirigido deve ter uma confiança absoluta no seu diretor. Deve ser uma confiança filial, de tal modo que frente a ele se encontre com maior naturalidade, e sinceridade, disposto a se mostrar tal e como é; com suas fraquezas e misérias. Se faltar esta confiança, a direção espiritual é ineficaz.
  • Amor sobrenatural: Pode existir um amor sobrenatural ao diretor, como tem acontecido na vida de vários santos. Mas o difícil é que se mantenha sempre dentro dos limites do sobrenatural, por isso neste sentido sempre devemos nos esforçar para que seja um amor verdadeiramente de caridade.

2. Matéria da direção espiritual

Este ponto é muito importante porque nos mostra o que temos que falar na direção espiritual:

Como princípio geral é matéria da direção espiritual todos os assuntos interiores e exteriores da alma dirigida relacionadas com a perfeição cristã, segundo o estado e ofício de cada um.

– O Plano de vida (propósitos, a fidelidade a eles), a observância das regras.

– A paixão dominante, como combater os defeitos.

– As tentações.

– Mortificações e penitências.

– Inspirações e inclinações boas.

– A oração, como se está rezando, com que método.

– As devoções que pratica.

– As obras do ofício próprio.

– Exame particular.

3. Algumas coisas complementares

a) Eleição do diretor

“Convém muito à alma que quer adiantar no recolhimento e perfeição (ser santa) olhar em que mãos se põem, porque como for o mestre será o discípulo, e como for o pai, será o filho” (São João da Cruz).

Nem todas as almas podem escolher livremente o diretor espiritual, porque muitas têm o trato só com alguns sacerdotes (Religiosas de Clausuras, Aldeias pequenas etc.). Nestes casos devem aceitar a vontade de Deus, Ele se encarregará de suprir as deficiências do diretor se a alma procura ser fiel à graça de Deus e faz de sua parte tudo o que pode.

Mas fora destes casos excepcionais, para escolher o diretor espiritual se deve ter em conta as seguintes normas:

Pedir-lhe a Deus na oração as luzes necessárias para proceder bem em coisa tão importante.

Examinar quem tem mais prudência, bondade e caridade entre todos os sacerdotes que podemos escolher livremente.

– É preciso evitar que entrem na eleição as simpatias naturais ou ao menos que não sejam elas as que decidam como razão única e principal. Embora, não seja conveniente escolher alguém pelo qual se tem antipatia, porque isso dificultaria muito a direção (no que se refere à confiança e abertura de coração).

Não propor-lhe logo que seja o diretor espiritual. Convém experimentar um pouco de tempo, para ver se é uma verdadeira ajuda ou não.

– Em igualdade de circunstâncias, devemos escolher o mais santo para os casos ordinários e o mais sábio para os casos extraordinários, como se pode concluir da doutrina de Santa Teresa.

Uma vez feita à eleição, não será fácil mudar de diretor por razões inconsistentes.

b) Mudança de diretor

Se pode mudar quando há razões verdadeiramente de peso para fazê-lo. Não se deve mudar por qualquer motivo, porque isto faria ineficaz todo tipo de direção.

São motivos inadequados ou inconsistentes (segundo o mestre espiritual Tanquerey):

– A curiosidade por ouvir outros conselhos, porque há cansaço de ouvir sempre os mesmos.

– A inconstância, porque não persevera muito tempo nos exercícios de piedade.

– Querer ter como diretor àquele que tem mais fama (Soberba).

– Estar descontente com o diretor que se tem.

– Desejo de manifestar a vários confessores a própria consciência, para que se interessem por eles ou para ter mais segurança.

– Para ocultar ao confessor ordinário as faltas mais humilhantes.

Quais são os motivos verdadeiros?

Podem se reduzir a dois: quando a direção resulta inútil ou prejudicial.

A direção resulta inútil, quando apesar da boa vontade do dirigido e sincero desejo de ir à frente na vida espiritual, não sente com respeito a seu diretor a confiança e franqueza tão necessárias na direção. Ou também, quando vê que não se atreve a corrigir os defeitos, não se preocupa por estimular no caminho da virtude, não soluciona os problemas, não mostra interesse pela santificação do dirigido.

A direção resulta prejudicial, quando:

a) Se advertem claramente que o diretor carece da ciência, prudência e discernimento necessários.

b) Quando fomenta a vaidade do dirigido, tolera facilmente as faltas e defeitos ou vê as coisas desde um ponto de vista muito humano.

c) Se o diretor sempre perde o tempo misturando conversações frívolas (sem importância), ou de simples curiosidade, ou totalmente fora do tema da direção. E com maior razão se isto manifesta um afeto demasiado sensível do diretor com respeito ao dirigido.

d) Se o diretor trata de impor cargas superiores às forças do dirigido ou incompatíveis com os deveres próprios do estado. Ou também se quiser atar o dirigido com votos ou promessas de não consultar com nenhum outro diretor as coisas da nossa alma.

e) Se se adverte claramente que os conselhos e normas dadas pelo diretor, longe de fazer adiantar o dirigido, o prejudicam espiritualmente tendo em conta seu temperamento e especial psicologia. Mas Devemos ter cuidado com as ilusões do amor próprio, que facilmente se podem misturar nestas apreciações. Antes de mudar de diretor por estes motivos, devemos conversar com ele a fim de usar outros procedimentos.


Fonte

Apostila de Espiritualidade, Instituto do Verbo Encarnado

Esposa, Mãe, Ordem Terceira VE

“Desejo que Jesus me triture interiormente para que eu me torne uma hóstia pura onde Ele possa repousar.” (Sta Teresa dos Andes)