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“O meu coração está pronto, meu Deus” (Salmos 57,8)

Talvez eu deva começar esse relato com um pouco da história do nosso pré-natal e a escolha do dr Frederico e da Pati, minha doula tão querida, que mais uma vez esteve conosco.
Quem leu o relato do parto do Bento viu que não tive um parto fácil e, na verdade, também nem tão humanizado assim, já que tivemos alguns problemas que não convém relatar aqui. O fato é que o primeiro parto, apesar de ter sido bom, me foi custoso por estar insegura e com medo. Mesmo tendo me preparado e estudado fui pega de surpresa por certas intervenções que me deixaram abalada, além dos pródromos quase eternos.
Então para este parto nós não pensamos duas vezes em procurar o dr Frederico, que, por já ter partejado amigas minhas e por acompanharmos seu trabalho maravilhoso, já tínhamos a confiança necessária e um princípio de vínculo que se estreitou durante os meses seguintes, tão importante para este momento. Isso foi decisivo para que eu tivesse uma experiência incrível do parto: me sentir segura com a equipe que me acompanhava.
Muitas pessoas me perguntam sobre ter uma doula. Eu espero em breve poder trazer para vocês um texto apenas sobre esse assunto. Mas, se posso adiantar algo, seria para dizer que ter uma doula é tudo de bom. Eu me lembro bem que antes de passar pela primeira experiência de parto eu ainda tinha minhas dúvidas e ressalvas a respeito de ter uma doula. Depois que a tive, eu recomendo para todo mundo! Em especial, Pati e eu temos uma relação tão bonita. Apesar do pouco convívio, tenho com ela uma conexão tão forte… ela sabe o que gosto, o que não gosto, meu ritmo, minhas fraquezas, minhas forças, sabe ser o silêncio que me conforta, a mão que me guia, o consolo que me alivia e tanto mais. Gabriel mesmo disse depois deste segundo parto que Pati e eu ”temos algo”. E é verdade. Ter uma doula é muito mais do que alguém para fazer exercícios e massagens. Mas isso é assunto pra depois.
As semanas foram passando, os incômodos finais da gestação chegando e os dias ficando literalmente mais pesados. No último mês a Maria Isabel já tinha descido tanto pela minha pelve que me era difícil andar e até mesmo virar na cama. Dias difíceis, mas bem aventurados os filhos gerados na Cruz, pois só a Cruz fecunda todas as obras.
Chegamos, pois, às 40 semanas e eu já estava fisicamente cansada. Então comecei a perder tampão na sexta feira, dia 22 de junho. Eu só pedia a Jesus que me desse a graça de entrar em trabalho de parto logo, porque não queria ficar dias em pródromos. Eu já estava cansada fisicamente e temia pelo cansaço psicológico. Mas seguia confiante, principalmente por contar com tantos amigos, entre eles seminaristas, padres, irmãs, monges, rezando pelo nosso momento. A sexta passou, as contrações tentavam um ritmo e paravam. Eu não sentia dor, apenas pressão no baixo ventre e incômodo na lombar.
Decidimos aproveitar o final de semana para curtir e passear, já que eu sabia que podia ficar dias assim. Então saímos, fomos ao parque, caminhamos, brincamos, comemos coisas gostosas e ficamos bem juntinhos, no nosso silêncio, na nossa intimidade.
Na segunda de manhã acordei com contrações sem ritmo mas, de certa forma, doloridas. Eu sabia que algo havia mudado. Fomos para a consulta, dr. Frederico me mandou catar conchinhas na praia (hahahahha), o que obviamente não fui fazer porque só queria ficar deitada. Gabriel ficou comigo o resto do dia e eu consegui descansar bem.
Rezei muito, cantei com a alma ao bom Deus dizendo que meu coração estava pronto. Eu queria este parto, eu desejava estas dores. Mas as contrações permaneciam sem ritmo e com incômodo.
Ao fim do dia, já não consegui jantar direito. Depois, colocamos o Bento para dormir. Mal ele pegou no sono e minhas contrações intensificaram. Enfim eu havia relaxado. Estavam de 1 em 1 minuto mas com pouca duração. Eu já não conseguia ficar deitada. Ligamos para o dr Frederico que enviou a Telemi (enfermeira) pra cá pra me avaliar. Eu estava com 8 cm. As contrações eram pouco doloridas, eu estava muito tranquila e conversávamos bastante entre elas. Contei casos e casos… (hahaha) Minha doula chegou logo depois e fomos para o hospital.
Não me lembro direito os horários em que as coisas foram se desenrolando, mas sei que o parto foi rápido, embora na minha cabeça pareça que durou uma eternidade. Dessa vez eu estava tão serena que até me assusto quando lembro. Eu conhecia o processo, eu havia aceitado e desejado estas dores e estava unida ao bom Jesus. Eu não cansava de repetir para mim mesma, neste santuário interior que é a minha alma, que o sacrifício por amor é gozo.
Chegando ao hospital, fomos direto para a sala de parto. Chuveiro, bola, dormi entre as contrações e percebi uma certa parada de progressão. Mas não me preocupei, confiava no meu corpo, na minha capacidade de dar à luz, a presença da Pati e da Telemi me eram toda conforto e calma. Rezava a Santa Coleta e a Santa Margarida. Dizia ao bom Jesus que queria subir o meu monte calvário e dar tudo.
Por fim só conseguia ficar na banqueta. A bolsa rompeu. As contrações apertaram e ficaram muito intensas. Mas nem por isso insuportáveis. O intervalo entre elas parecia uma eternidade. Eu dormia, conversava, ria e reclamava também: sentia um sono absurdo. Ficava perguntando quando ela ia nascer e por que não tinha pedido analgesia, que estava arrependida (hahahahaha). Esse período foi o mais longo. Nessa hora não queria ninguém a não ser o Gabriel. Louvado seja Deus pela presença firme, constante e segura do meu esposo durante os partos das nossas crianças. Definitivamente não me vejo passando por tudo isso sem tê-lo ao meu lado.
Até que eu senti ela girando e descendo de vez. Desesperador! Dei um berro, queria levantar e sair correndo. Dr Frederico era tão calmo que minha vontade era dar uns tapas nele. (hahaha, desculpa aí dr. Fred, nada pessoal!) Por fim, nasceu nossa menina! Lenta e serenamente veio ao mundo me trazendo tanta doçura. Veio em baixa luz, no silêncio absoluto que eu tanto amo, rodeada de amor, de respeito, de tempo, de paciência, de entrega. Nasceu às 1:28am do dia 26 de junho, com 41 semanas, 48 cm e 3870 kg, no dia de São Josemaria Escrivá, o santo do cotidiano.
No outro dia eu já queria parir de novo. Quando lembro do parto da Maria Isabel sou inundada por uma onda de doçura. Sinto-me impelida e desejosa de passar por isso tantas vezes quanto o bom Deus queira me abençoar. E também, medo, de ter sido a última vez. Sigo abandonada nas mãos Dele que me faz pequena diante de Seu grande amor.
Eu desejo a todas as mulheres não um parto sem dor, mas um parto onde a dor seja transformada em amor e então tudo se torna doce, embora não sem sofrer. Desejo que encontrem equipes tão maravilhosas quanto a que eu tive (e espero continuar tendo rsrsrs).
Há algo que nos faz genuinamente mulheres: gestar e dar à luz. Se há obra mais grandiosa e cheia da glória de Deus do que gerar uma criança, eu desconheço. Ser tabernáculo vivo, ter a mão divina tecendo um ser em nosso ventre, tocando o nosso corpo e infundido uma alma eterna neste pequenino confiado a nós, é não só maravilhoso, mas também impactante e radical, pois nos muda completamente. Trazer ao seio um milagre, um ser que com sua vida e desenvolvimento proclama a glória de Deus é algo estupendo que somente a bondade divina poderia criar. Receber este privilégio é um grande dom.
Não deixemos que passe a nossa vida, que passem os filhos que Ele nos quer dar. Não deixemos que nossa vida seja um rastro estéril e inútil. Estamos aqui para, morrendo, viver. Que pode haver de maior e mais feliz do que servir ao bom Deus, aceitando e realizando Sua Santíssima Vontade? Reclamemos, pois, o que verdadeiramente nos pertence: um corpo feito para dar vida; gerando, gestando, dando à luz e educando para o Céu.
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Contatos:
Patrícia Roshner- https://www.facebook.com/patriciarohsner.shantala
Dr. Frederico Bravim- https://www.facebook.com/drfredericovitorino/

Esposa, Mãe, Ordem Terceira VE

“Desejo que Jesus me triture interiormente para que eu me torne uma hóstia pura onde Ele possa repousar.” (Sta Teresa dos Andes)