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Em nossa cultura não temos o bom hábito de nos vestirmos bem para ficar em casa. Na verdade, infelizmente, de uns anos para cá, nem de sair para a rua. Se tem algo que tem decaído de forma rápida e absurda é a forma como as pessoas se vestem. Basta fazer uma autocrítica ou perguntar a um grupo de pessoas (principalmente mulheres) e descobriremos que a maioria de nós usa qualquer coisa para estar no lar.  Seja pela escolha de peças mais confortáveis ou pelo pensamento de que roupas velhas, surradas, manchadas e rasgadas são para serem usadas em casa.  O fato é que, para nós brasileiros, estar arrumado em casa é algo que ficou reservado para as pessoas de alto padrão financeiro, além de ser um mau hábito arraigado em nós. Mas isso é um grande erro.

Mudança de hábito

Para estar bem arrumado em casa não é necessário ter um alto padrão financeiro. Estar sempre bem arrumado significa ter o cabelo penteado, estar com a higiene feita, para os homens a barba feita, para as mulheres um batonzinho, roupas limpas e decorosas, essas coisas. E isso não significa em um lugar específico. Devemos estar sempre assim, pois faz parte da higiene. Muitas pessoas tem a ideia errada do que é estar arrumado e confundem isso com estar vestido como ir para uma festa. ”Simplicidade não é o mesmo que negligência.”1

Inclusive, em nosso país, em sua maior parte, as pessoas acreditam que devam se arrumar apenas para ir para festas e investir em roupas boas e bonitas para essas ocasiões ‘outside‘ (do lado de fora). Acabamos comprando qualquer peça para ficar em casa e então quando vamos ver acaba que as peças não se combinam entre si, por serem de má qualidade logo ficam surradas pois são lavadas várias vezes e daí vem uma série de consequências.

Além disso, é tão decadente a forma de se vestir do brasileiro que, atualmente, nem para sair as pessoas se arrumam. Mesmo estando vestida de forma simples, em geral, na maioria das ocasiões estou destoante das pessoas simplesmente pelo fato de que elas vão para a padaria, para uma festa de aniversário ou para a Santa Missa da mesma forma: de shorts e havaianas.

”Mas o exterior não tem importância!” dirá você, talvez. Mas, diga-me: você pode imaginar Nosso Senhor usando vestes sujas e rasgadas ao ensinar a multidão?” (Tihamer Toth)

”O homem não é só alma, senão também corpo; o que se passa na alma transparece de maneira visível no corpo e os fenômenos próprios da alma refletem-se também no exterior. (…) É preciso que o exterior – as roupas e o asseio corporal – correspondam à ordem interior, à disciplina dos pensamentos, ao asseio moral. Cada vez que vejo alguém com aspecto negligente – sapatos enlameados, rosto mal lavado, unhas de luto, cabelos em desordem, roupas cheias de manchas,- não posso deixar de pensar na desordem ou mesmo na sujeira que lhe deve encher o interior.

Uma aparência exterior agradável tem, pois, a sua importância, é preciso cultivá-la. Mas não lhe digo para seguir todas as loucuras da moda e utilizar todos os requintes da cosmética. O que desejo é asseio do corpo e do vestuário.

O asseio corporal tem sua importância não somente pela saúde mas também para o senso estético. Pouco importa que as roupas sejam novas, mas todos podem cuidar da sua roupa usada, remendada talvez, mas sem manchas nem rasgões, sem nódoas de gordura ou camadas de pó. ”2

Para quem nos arrumamos?

A apresentação pessoal configura a primeira imagem que projetamos aos outros. Se fizermos um exame crítico a respeito da forma com que ficamos em casa, que mensagem estaremos passando aos que amamos? Será que é uma mensagem de cuidado e zelo ou de desleixo e desimportância?

Em geral, quando precisamos sair, seja para o supermercado ou para uma festa, não saímos de qualquer modo. Penteamos os cabelos, cuidamos do rosto, vestimos uma roupa adequada, colocamos um brinco, essas coisas. Então por que para ficar em casa escolhemos a pior forma? Quando trabalhamos fora não nos vestimos de qualquer jeito. Há empregos que exigem até um dress code como uniformes, jalecos,  então porque para o trabalho no lar nos permitimos usar pijamas e moletons?

Quando nos casamos, nosso marido ou esposa tornam-se a pessoa mais importante para nós aqui nessa terra. Então, com que cuidado não deveríamos nos esmerar em estar bem arrumados uns para os outros? Na verdade, cuidamos tanto disso durante o namoro e noivado e, depois do casamento, para muitos é como uma carta de alforria para não mais precisar se cuidar. São Josemaria nos lembra: ”É próprio dos enamorados o cuidado dos detalhes, mesmo nas ações sem importância. Para que no matrimonio se conserve o encanto do começo, a mulher deve procurar conquistar o seu marido cada dia; e o mesmo teria que dizer ao marido com relação à mulher. O amor deve ser renovado dia a dia; e o amor se ganha com sacrifício, com sorrisos e com arte também.”3

Ele continua dizendo: ”Quando o marido chega do trabalho, da sua tarefa profissional, que não te encontre reclamando. Arruma-te, fica bonita, e quando passarem os anos, arruma um pouquinho mais a <<fachada>> como se fazem com as casas. Seu marido agradecerá tanto! Nada imuniza tanto o homem contra outras atrações sexuais que o amoroso entusiasmo por uma determinada mulher: sua esposa. É um ato de virtude – da virtude da castidade, em concreto – fazer tudo o que está em nossas mãos para aumentar a atração a e de nosso cônjuge. <<A mulher bem posta tira o homem de outra porta>> ”4

Muitas mulheres reclamam que seus maridos não tem interesse nelas ou que o amor esfriou e muitas vezes, infelizmente, de casos de infidelidade. Mas imagine sair de casa e encontrar dezenas de mulheres cheirosas, agradáveis e bem arrumadas na rua e quando regressar, encontrar uma mulher descabelada, sem escovar os dentes, reclamona e com roupas rasgadas? Não estou dizendo que o amor esteja baseado em aparências, mas sim que o amor exige delicadeza e cuidado. Amar ao outro é querer dar a ele o melhor de mim.

O mesmo vale para os maridos, que tantas vezes acreditam que já ter uma esposa é sinônimo de não precisar se cuidar, achando normal engordar sem parar, andar sem camisa, não ter bons hábitos de higiene e por aí vai.

Por isso atrevo-me a afirmar que as mulheres têm a culpa de oitenta por cento das infidelidades dos maridos, porque não sabem conquistá-los em cada dia, não sabem ter pequenas amabilidades e delicadezas. A atenção da mulher casada deve-se centrar no marido e nos filhos. Assim como a do marido se deve centrar na mulher e nos filhos. E para fazer isto bem é preciso tempo e vontade. Tudo o que torne impossível esta tarefa é mau, não está bem. 5

A educação para a beleza

Algo tão difícil de desenvolvermos hoje é o senso de beleza. Mas ela permanece sendo uma das faces de Deus, ”beleza tão antiga e tão nova” como exclama Santo Agostinho. Temos tanto cuidado em fazer o caminho de volta e aprender a apreciar a arte, a música, a literatura, mas será que já paramos para pensar sobre o que ensinamos aos nossos filhos quando nos vestimos de qualquer maneira?

De fato, o bom gosto é algo que, em si mesmo, requer formação no sentido mais amplo do termo. Como diz o Papa, «prestar atenção à beleza e amá-la ajuda-nos a sair do pragmatismo utilitarista. Quando não se aprende a parar a fim de admirar e apreciar o que é belo, não surpreende que tudo se transforme em objeto de uso e abuso sem escrúpulos>>. Ninguém nasce com o bom gosto já formado, pois é parte da educação que se recebe desde pequeno, através da contemplação da beleza na natureza – da sua diversidade e harmonia –, a apreciação de uma obra de música clássica, uma escultura, etc.”

Encontrar os pais sempre polidamente arrumados ensina as crianças não só a apreciar a beleza da ordem, mas também do dever da higiene e da caridade em dar ao outro o melhor de mim. Também educa a respeito da dignidade do corpo e do cuidado com este, que é templo do Espírito Santo. Deus habita em mim e devo dar a Ele uma morada tão boa quanto possa: tanto na alma quanto no corpo.

”Toda mulher entregue – esposa e mãe – deve ter a convicção firme e inamovível de que melhora sua beleza radicalmente humana na exata medida em que torna sua doação ao marido e aos filhos mais atual e operativa. O amor é a nascente da beleza.” (Tomás Melendo) 6

Além disso, especialmente para as mulheres, arrumar-se é um grande ponto para a auto estima. Muitas vezes tantas coisas vão mal porque a mãe vai mal e um ótimo começo é cuidar de si, que, além de ajudar a si mesma, é um ato de doação, de sacrifício, de entrega. São Josemaria diz: ”Fico muito feliz em dizer que a maternidade embeleza. Há algumas que, por egoísmo, pensam que sua formosura vai se estragar. E não. Sois muito mais bonitas as que tivestes muitas vezes o dom da maternidade! ”7

Uma mortificação

Muitos dizem que não se arrumam para estar em casa porque dá trabalho, porque faz muito calor ou frio, porque precisa ter dinheiro, porque precisa ter tempo, e tantas outras desculpas. Realmente usar um pijama ou uma roupinha qualquer confortável certamente é mais agradável. Mas nem por isso significa que é o melhor.

Se é tão custoso arrancar de nós um mau hábito e crescer em virtude, devemos aprender a olhar com olhos espirituais e tomar isto como uma mortificação, um sacrifício. 20 minutos por dia são suficientes para arrumar-se de forma simples, modesta e bela e não há ponto negativo que venha junto com este hábito.

O cuidado especial com a Santa Missa

São Jose maria Escrivá em uma de suas fantásticas homilias, recordando seus tempos de infância, disse: “Lembro-me de como as pessoas se preparavam para comungar: havia esmero em arrumar bem a alma e o corpo. As melhores roupas, o cabelo bem penteado, o corpo fisicamente limpo, talvez até com um pouco de perfume. Eram delicadezas próprias de gente enamorada, de almas finas e retas, que sabiam pagar Amor com amor.”

Afirma ainda: “Quando na terra se recebem pessoas investidas em autoridade, preparam-se luzes, música e vestes de gala. Para hospedarmos Cristo na nossa alma, de que maneira não devemos preparar-nos?” 8

Indico estes dois vídeos para reflexão:

 

Pequena dica prática

Aqui nós usamos em casa as mesmas roupas que usamos para trabalhar fora (no caso do Gabriel) e, no meu caso, para ir ao supermercado e afins. Também são as roupas que naturalmente estamos vestidos quando recebemos visitas.

As roupas de Missa são as mesmas que usamos para passeios e festas mais simples, conhecidas como ”roupas de domingo.”

Para eventos mais chiques, como formaturas, casamentos, temos uma ou duas roupas específicas para essas ocasiões. Aqui quanto melhor a qualidade da roupa, mais tempo irá durar. Serão anos e anos indo a casamentos com a mesma roupa e não há problema algum nisso.

Faça o desafio de por uma semana empenhar-se em ficar bem arrumada em casa e veja florescer a auto estima, o relacionamento com o esposo e filhos, a disposição e as virtudes.

Referências

1- Tihamer Toth, A boa educação

2- Idem

3, 4, 5 – São Josemaria, Temas actuais do cristianismo , 107

6 – São Josemaria e família, Lares luminosos e alegres

7 – São Josemaria, encontro realizado em SP

8 – São Josemaria, Homilias sobre a Eucaristia

Esposa, Mãe, Ordem Terceira VE

“Desejo que Jesus me triture interiormente para que eu me torne uma hóstia pura onde Ele possa repousar.” (Sta Teresa dos Andes)