Lírio entre espinhos

Uma família católica buscando a santidade

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Direção Espiritual: o diretor, parte 2

Tempo de leitura: 5 minutos

Continuando nossa série sobre Direção Espiritual, hoje trazemos a segunda parte do artigo sobre o Diretor. Se você perdeu a primeira parte, basta acessar esse link.

b) Qualidades morais do diretor

São aquelas que sem ser absolutamente indispensáveis para a técnica da direção espiritual, contribuem poderosamente em seu complemento e perfeição.

Intensa piedade. Segundo São João da Cruz o discípulo não é maior que o mestre, pelo qual devemos procurar um sacerdote de intensa piedade.

A razão disto é que ninguém pode dar o que não tem, nem mais do que tem. E se o mestre não tem vida interior ou é muito fraca, está radicalmente incapacitado para levar a maior altura seu discípulo.

Pode-se dizer que a santificação é obra do Espírito Santo mediante sua graça e que ela não precisamente se dispõe do instrumento para comunicar-se. Mas devemos dizer que:

1- Deus normalmente se acomoda às disposições próximas dos instrumentos que utiliza e não prescinde deles, a não ser por via de exceção e de milagre. 

2- aliás, se fosse assim estaríamos admitindo que não é necessária outra direção que a do Espírito Santo para a santificação, o qual é contrário a toda a tradição.

A piedade do diretor espiritual deve estar formada pelas grandes verdades da fé cristã:

– O centro de sua vida deve ser Cristo.

– Deve procurar a Glória de Deus, sobretudo.

– Deve ter um profundo sentimento de filiação adotiva, que lhe faça ver a Deus como seu pai e aos homens como seus irmãos.

– Deve ter um grande amor a Maria Santíssima.

– Deve praticar o recolhimento interior, o desprendimento das coisas da terra, deve ter um profundo espírito de oração.

Zelo ardente pela salvação das almas. E esta qualidade é uma consequência da anterior, porque quem tem piedade ardente, tem zelo pela salvação das almas. O amor de Deus nos impulsiona a trabalhar para estender seu reinado sobre as almas e o amor pelas almas faz que nos esqueçamos de nós mesmos para pensar somente na santificação das almas ante Deus e para Deus. Sem este zelo, a direção espiritual resultará ineficaz para a alma, já que faltará o estímulo do diretor espiritual para continuar apesar das dificuldades e se converterá para o diretor numa carga insuportável porque sua missão é dura e requer muita abnegação e espírito de sacrifício.

Bondade e suavidade de caráter. O zelo ardente, se não vai acompanhado da bondade corre o perigo de se transformar numa intransigência (Falta de tolerância) e incompreensão terrível, que nunca dá bons resultados. O diretor deve pensar que há de estar animado pelos mesmos sentimentos de Cristo, o Bom Pastor, que vai procurar a ovelha perdida; que não quebra o caniço rachado nem apaga a mecha que ainda fumega. E que acolhe a todos com imensa bondade e compaixão. Não deve esquecer como dizia São Francisco de Sales: “Se consegue mais com um pouco de mel que com um barril de fel”.

Disse o autor Ribert: “A perfeição é uma obra difícil, sobretudo em seus inícios, pelos temores que se inspira e os obstáculos que são preciso superar. Um rigor excessivo e reprovações intempestivas terão o efeito de desanimar as almas e comprometer, talvez para sempre, a obra de sua santificação. Isto é: particularmente nas almas fortemente tentadas, em espíritos poucos abertos, em caráteres suscetíveis, em naturezas débeis e inconstantes, a severidade lhes desconcerta, lhes exaspera, lhes impede a abertura do coração, a confiança e a esperança. A miséria humana e as dificuldades das virtudes recomendam, pois, no diretor, uma paciência inalterável”.

O diretor deve estar animado de sentimentos verdadeiramente paternais, deve ter a obsessão com uma missão de formar Cristo nas almas que Deus lhe confia, até pode dizer como São Paulo: “Filhinhos meus, por quem de novo sinto dores de parto, até que Cristo seja formado em vós” (Gl 4,19).

Deve ser o báculo que sirva para manter em pé, ou para ferir e lastimar. As almas que querem ser tratadas com bondade. Há de procurar o diretor atrair a sua confiança e obediência com uma imensa bondade e suavidade no seu trato, sem prejuízo de manter com energia inquebrantável os princípios mesmo da direção. Santa Joana de Chantal dizia: “À medida que vou vivendo mais vejo fazer-lhes cumprir seu dever sem tirania. Porque, afinal de contas, nossas irmãs são ovelhas de Nosso Senhor; está nos permitido conduzi-las, tocá-las com o cajado, mas não esmagá-las”.

Profunda humildade. O diretor necessita de uma grande dose de humildade por três razões:

Em primeiro lugar por ordem a Deus que “… Resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes” (1Pd 5,5). Sem as luzes de Deus não servem de nada todas as ciências e sabedoria humana na obra da santificação.

Em segundo lugar, por relação a si mesmo. O humilde desconfia de si mesmo não é audaz para resolver irreflexivamente as dificuldades que se lhe apresentam, estuda, medita, consulta se for preciso a outros mais doutos do que ele toma muitas preocupações para assegurar o acerto nas suas decisões.

Em terceiro lugar, por ordem das almas. A humildade atrai e cativa a todo o mundo. Uma repreensão feita com humildade se recebe com gosto e agradecimento; mas, se faz com soberba não é bem recebida e causa mais dano que ajuda.

O diretor deve imitar Jesus Cristo, que era “Manso e humilde de coração” (Mt 11,29) e só procurava o trato das almas a Glória de seu pai (Jo 8,50) sem deixar aquela energia divina que corrigia os vícios e pecados e manifestava ao mundo a verdade.

Perfeito desinteresse e desprendimento no trato com as almasO diretor deve amar as almas não pelas satisfações e consolos que possam lhe proporcionar, senão unicamente para levá-las a Deus.

Santo Agostinho adverte que “os que conduzem as ovelhas de Cristo como se fossem próprias e não de Cristo, demonstram que se amam a si mesmos e não ao Senhor”. E São Lourenço Justiniano cataloga semelhante proceder e roubo, sacrílego, já que reivindica para si mesmo o que é de Cristo e que Ele reclama imperiosamente.

Nem sequer deve lhe importar a gratidão ou ingratidão das almas. Deve deixar com serenidade que abandonem a direção espiritual para ir com outro diretor, sem ter lhes dado nem um motivo para isso. Jamais deve considerar aos outros diretores espirituais como rivais ou competidores, numa missão na qual ninguém pode ter a presunção de obter o monopólio e exclusividade.

Embora possa pedir-lhes a ajuda das orações, não lhes impunha jamais o menor sacrifico ou mortificação para seu proveito próprio. Sua norma única de conduta deve inspirar-se na fórmula sublime do Apocalipse: “Amém, louvor, glória, sabedoria, ação de graças, honra, poder e força ao nosso Deus pelos séculos dos séculos! Amém”.

Estas são as principais qualidades morais que deve ter o Diretor Espiritual. Precisamente por serem tantas e tão perfeitas, não é muito fácil encontrar um bom diretor. Assim pensam São João da Cruz, São João de Ávila,  São Francisco de Sales: devemos escolher um entre dez mil.

Entretanto, não devemos pensar que a alma que não pode ter um bom diretor espiritual, não possa chegar à perfeição. Porque se tem o ardente desejo de santificar-se e de ser em tudo fiel à graça de Deus, segundo as moções do Espírito Santo, não deixará de ser santa porque seu diretor espiritual não é competente.

A Direção Espiritual, enquanto é um meio muito útil e moralmente necessário para a santificação, não é absolutamente necessário. Se não encontrar o diretor adequado ou se a direção não for tão boa mesmo assim com a graça de Deus se pode alcançar a santidade.

Fonte:

Apostila de Espiritualidade, Instituto do Verbo Encarnado

Gabriel é esposo da Rayhanne e pai do Bento e da Maria Isabel! Além disso, é membro da Terceira Ordem da Família do Verbo Encarnado e diretor do Centro Anchieta. Trabalha como professor.

Verso L´Alto – Beato Pier Giorgio Frassati

Direção Espiritual: o diretor

Tempo de leitura: 8 minutos

Continuamos a série de posts sobre Direção Espiritual. No artigo da semana passada trouxemos em que consiste a prática da DE. Hoje falaremos um pouco sobre quem pode ser um diretor espiritual e quais qualidades deve reunir para exercer esta missão.

1. O diretor

Definição: “É o sacerdote encarregado de conduzir as almas até a perfeição cristã”.

Vamos explicar um pouco:

“O Sacerdote…”:

É necessário que o diretor seja um sacerdote? Ordinariamente devemos dizer que sim.

É muito conveniente pelas seguintes razões:

* Na ordem sobrenatural, o sacerdote tem o papel de mestre;

* Pela íntima fusão com o ofício de confessor;

* Pela melhor preparação teórica e prática para dirigir as almas que ordinariamente o sacerdote tem;

* Pela graça do estado sacerdotal;

* Pela prática da Igreja que proíbe a intromissão nas almas aos não sacerdotes (embora sejam superiores religiosos), que já tomou lições por causa dos inconvenientes que se originam disto.

Embora, por via de exceção, não haveria inconveniente em admitir que, em algum caso, haja direção voluntariamente escolhida de uma pessoa prudente e experimentada que não seja sacerdote.

Há alguns fatos históricos: entre padres do deserto e nos primeiros abades beneditinos, que não eram sacerdotes. Também, em épocas mais recentes, temos o exemplo de São Francisco de Assis e de Santo Inácio de Loyola, antes de 1537; e até não faltam casos de direção espiritual realizada por mulheres, como Santa Catarina de Sena e Santa Teresa de Jesus.

“… encarregado…”: Por quem? – Remotamente, quando se trata de um sacerdote, por Deus e pela Igreja, já que na mesma ordenação sacerdotal vai implícita a missão de santificar as almas por todos os meios possíveis; um dos quais é a direção espiritual.

Proximamente, a missão concreta e especial de dirigir a uma determinada alma supõe dois elementos essenciais: a livre escolha do dirigido e a livre aceitação do diretor.

– A livre eleição do dirigido. Nenhuma potestade pode obrigar a um determinado súdito a aceitar a direção de um determinado diretor. Quando a Igreja determina que um sacerdote seja confessor de uma casa de religiosas, é simplesmente para facilitar que as religiosas tenham a oportunidade de receber o Sacramento da reconciliação; mas isto não significa que não possam livremente se confessar com outro sacerdote com as devidas condições.

– A livre aceitação do diretor. A missão pastoral obriga ao pároco e a todos aqueles que por razão de seu cargo tem cura de almas, a ouvir “ex iustitia” (em virtude da justiça) as confissões de seus súditos sempre que o peçam de um modo razoável. A obrigação dos outros sacerdotes é só de caridade.

Mas sobre a direção espiritual, ainda naqueles casos em que se realiza ao mesmo tempo em que a confissão sacramental, é uma função inteiramente diferente da simples administração do sacramento. E não consta em nenhuma lei divina ou eclesiástica que o sacerdote tenha obrigação estrita de fazê-lo.

Fica, pois na liberdade de cada um, aceitá-la ou rejeitá-la, embora sempre será uma ótima obra de caridade se aceitar uma missão tão própria e proporcionada a suas funções sacerdotais.

“… de conduzir as almas…”: Entendemos por conduzir a missão de guiar, orientar, marcar a uma alma o roteiro que deve seguir no seu caminho a Deus. Esta orientação deve referir-se aos obstáculos e perigos a evitar, como também às coisas positivas que deve praticar.

“… até a perfeição cristã.”: Esta é a diferença fundamental entre o ofício de confessor e diretor. O primeiro é um juiz que tem plena potestade no foro interno (conferida pela Igreja) e pode dentro do âmbito de sua jurisdição, obrigar estritamente ao penitente. Sua missão fundamental é perdoar, em nome de Deus, os pecados; para qual deve dispor ao penitente em ordem a receber a absolvição válida e frutuosamente.

O diretor espiritual, ao contrário, não tem nenhuma jurisdição no foro interno, quer dizer, não pode obrigar estritamente a seu dirigido. A sua missão é o aperfeiçoamento progressivo da alma em ordem a sua plena santificação.

2. Confissão e direção espiritual

É necessário ou conveniente que o diretor seja ao mesmo tempo o confessor ordinário do dirigido? Não estritamente necessário, mas é muito conveniente.

Não é estritamente necessário porque, às vezes, é materialmente impossível, como exemplo em casos de viagens, etc.

O confessor ordinário pode não reunir as condições de um bom diretor espiritual.

– Mas é muito conveniente:

* Pela íntima relação entre ambos os ministério;

* Para que o diretor tenha uma maior autoridade que enquanto diretor não tem nenhuma jurisdição sobre o dirigido;

* Pela conveniência de que a direção se faça no confessionário, sobretudo a de mulheres;

* Favorece muito à unidade da vida espiritual na alma do dirigido.

3. Qualidades do diretor

As dividiremos em dois tipos: as que são essenciais em ordem à técnica da direção espiritual e as que não são absolutamente necessárias, mas que constituem uma grande ajuda para uma boa direção espiritual.

a) Qualidades técnicas do diretor

Segundo Santa Teresa e São João da Cruz três são as qualidades de um bom diretor espiritual: ciência, discernimento e experiência.

Ciência: A ciência do diretor deve ser vastíssima (ampla). Deve conhecer bem a Teologia dogmática, Moral, Espiritual. Principalmente o referente aos princípios fundamentais da vida espiritual: em que consiste a perfeição, a quem e de que modo obriga, quais os obstáculos que devemos afastar, as ilusões que devem evitar, os elementos positivos que se devem fomentar.

Devem conhecer tudo relativo à vida de oração, seus diferentes graus ascéticos e místicos, as provas que Deus envia ou permite nas almas contemplativas (noite do sentido, do espírito, desolações, perseguições, assaltos diabólicos, etc.).

Devem conhecer perfeitamente a teoria dos diferentes temperamentos e caracteres; a influência do meio ambiente; a educação recebida, etc.

Devem conhecer perfeitamente os princípios da psicologia da psicopatologia, os casos anormais, as doenças nervosas e mentais mais frequentes.

Devem conhecer as regras de discernimento de espíritos, sobretudo se os dirigidos são almas com fenômenos extraordinários e graças “gratias datas”.

Se apesar a todos seus esforços um sacerdote vê que não possui o conhecimento ou a experiência necessária para entender uma alma determinada, deve ter a prudência de encaminhar seu dirigido a uma pessoa mais competente.

Discernimento: Essa palavra vem do latim Dicernere, que significa distinguir, separar, dividir. Com essa expressão se quer significar um conjunto de qualidades que ajudam ao diretor a ter clareza e penetração de juízo para distinguir em cada caso o verdadeiro do falso, o reto do que não é reto, o conveniente do prejudicial. É uma das qualidades mais importantes do diretor espiritual, e compreende três coisas: prudência nas decisões, clareza nos conselhos e firmeza e força em exigir seu cumprimento.

Prudência nas decisões: A prudência definida por Aristóteles com a “recta ratio agibilium”, é a virtude moral que dirige o entendimento para que julgue corretamente sobre o que se deve fazer nos casos particulares. Tem muita importância na vida moral, por que ela deve regular o exercício e a prática de todas as virtudes. Deve brilhar nos governantes e é indispensável para o diretor espiritual.

A prudência verdadeira se divida em três espécies:

Natural ou adquirida: É a prudência humana que tendo por guia as luzes de reta razão, busca os meios mais oportunos para conseguir um fim honesto. O diretor espiritual pode e deve usar esta prudência no guiar das almas, fomentando e acrescentando-a com o estudo das ciências psicológicas, experimentais e com uma intensa e profunda reflexão pessoal.

Sobrenatural ou infundida: A prudência natural não é suficiente para a direção das almas; como isto é uma tarefa sobrenatural são necessários os princípios da fé, o qual é próprio da prudência sobrenatural.

O dom de conselho: Às vezes, nem sequer as luzes ordinárias da fé são suficientes para resolver determinados casos, especialmente à direção das almas heroicas. O Espírito Santo, principal diretor das almas, tem às vezes exigências que estão por acima não somente da razão, mas também das mesmas luzes ordinárias da fé. É necessária uma especial docilidade para se deixar levar pelo impulso divino, que parece loucura frente aos homens, mas que é profunda sabedoria frente a Deus (I Cor 3, 19). Isto é próprio do Dom de Conselho, que é um dos dons que com mais insistência e humildade deve pedir ao diretor espiritual para acertar no desempenho de sua missão.

Clareza nos conselhos: A segunda condição que deve ter o diretor espiritual é a clareza nos conselhos aos seus dirigidos e nas normas de conduta que marque:

Transparência no pensamento, de tal modo que se evite no dirigido toda classe de angústias e inquietudes na interpretação das normas e conselhos do diretor. Deve evitar o modo duvidoso de se expressar (Talvez, ”se lhe parece”…). Deve dar as normas claras, fixas, bem concretas e determinadas, que não admitam dúvidas nem interpretações duvidosas. Deve resolver os problemas do dirigido com um “sim” ou um “não” rotundos, embora depois de ter tomado o tempo necessário para uma madura reflexão se o caso o requer. Não deve deixar nunca algum problema sem ser resolvido. Se a alma percebe que o diretor duvida ou não está bem seguro do que diz, perderá a confiança nele e abandonará a direção ou a fará ineficaz

Plena sinceridade e franqueza. Para dizer ao dirigido a verdade, sem ter para nada em conta a respeitos ou motivos humanos. Faltaria muito gravemente ao seu dever de diretor espiritual quem por não magoar seu dirigido ou para não o trocar por outro; deixa de mostra-lhe suas faltas e erros, dissimula suas ilusões, seus defeitos e exagera as virtudes que pratica. Muitas almas vivem enganadas, pensando que são virtuosas, e não encontram ninguém que lhe fale que realmente não tem nenhuma virtude. Com prudência e mansidão, mas com força e fortaleza, o diretor deve manifestar-lhe a seu dirigido absolutamente toda a verdade. Não deve esquecer que está fazendo às vezes de Cristo, e que deverá dar conta a Deus da administração dos seus poderes sacerdotais. Quem não tem coragem de dizer a verdade a uma pessoa, embora seja superior ou uma autoridade eclesiástica, deve renunciar em absoluto a ser diretor espiritual dessa pessoa.

Firmeza e força em exigir seu cumprimento: O diretor deve ter cuidado de não se converter em dirigido. Há almas que tem a habilidade extraordinária de conseguir que o diretor lhes mande o que elas querem. Com suavidade o diretor deve evitar este abuso.

Uma vez que já emitiu seu juízo ou deu seu conselho, de acordo com a prudência, não deve mudar por nada; salvo que mudem substancialmente as circunstâncias da situação. O dirigido deve saber que só tem duas opções, ou obedecer ou mudar de diretor espiritual. Este é o único modo de conservar a autoridade ao seu dirigido.

Por outro lado as exigências sempre devem ser de acordo com o temperamento, deveres, obrigações, forças e disposições atuais das almas. Não deve haver um rigor excessivo que atemorize as pessoas e as faça desistir do caminho da perfeição.

Experiência: Pode ser própria ou alheia:

Experiência própria. Para a direção das almas ordinárias é suficiente a experiência de qualquer sacerdote que viva dignamente seu ministério. Mas para guiar almas que estão muito adiantadas na vida espiritual é necessária alguma experiência da vida mística, segundo o ensinam Santa Teresa e São João da Cruz. Porque quando o Espírito Santo começa ir livremente numa alma se opera nela uma transformação total nos pensamentos e ações, que pode desorientar muito o diretor que não tem experiência pessoal daquilo.

O que deve fazer quem percebe que não está à altura de seu dirigido? Deve buscar o modo de orientá-lo para um diretor que seja mais preparado; e se não é possível, deve humilhar-se, pedir luzes a Deus, estudar e refletir muito e confiar na Divina Providência que ajudará a fazer o bem a essa alma.

Experiência alheia: Nem todas as almas são iguais, nem devem ser conduzidas pelos mesmos caminhos. Por isso ajuda muito a experiência de outras almas para poder fazer uma boa direção espiritual. Neste sentido nunca deve esquecer o diretor espiritual que o verdadeiro diretor das almas é o Espírito Santo e que ele simplesmente tem a missão de ajudar ao dirigido a que seja fiel a essa ação divina.

Continua no próximo post…

Esposa, Mãe, Ordem Terceira VE

“Desejo que Jesus me triture interiormente para que eu me torne uma hóstia pura onde Ele possa repousar.” (Sta Teresa dos Andes)

Direção Espiritual: o que é?

Tempo de leitura: 4 minutos

Traremos no blog uma série de textos sobre Direção Espiritual, uma prática tão antiga e necessária para nossa santificação. Essa é a primeira parte!

1. Natureza da direção espiritual

“É a arte de conduzir as almas progressivamente desde os inícios da vida espiritual até os cumes da perfeição cristã.”

“É a arte…”: Utilizamos a expressão arte, em sentido puramente metafórico, porque na realidade a direção espiritual é uma ciência prática que, sob a direção da prudência sobrenatural, aplica a um caso concreto exposto por uma alma determinada os grandes princípios da teologia dogmática, moral e ascético-mística. Mas, metaforicamente, se pode chamar à direção espiritual arte, no sentido que tem por finalidade levantar até os céus um grande edifício sobrenatural.

“… de conduzir as almas…”: A direção espiritual é a arte de conduzir suavemente as almas à união com Deus. É um caminho que precisa ser percorrido pela alma, mas é necessário que alguém lhe marque o roteiro.

“… progressivamente…”: O caminhar deve ser firme e sem rodeios, mas também não devem existir sobressaltos nem imprudências nesse caminhar. O diretor deve exigir de cada alma segundo suas possibilidades.

“… desde os inícios da vida espiritual…”: A direção espiritual deve dar início quando uma alma decide começar o caminho da santificação.

“… até os cumes da perfeição cristã.”: É o fim da direção espiritual, alcançar a santidade.

2. Importância e necessidade

 Segundo o testemunho da tradição, a direção espiritual é moralmente necessária (quer dizer, para alcançar melhor o fim) para alcançar a perfeição cristã.

São Vicente Ferrer disse: “Nunca Jesus Cristo dará sua graça, sem a qual nada podemos fazer, a quem, tendo a sua disposição um homem capaz de instruir-lhe, despreza esta ajuda persuadindo-se de que se bastará a si mesmo e de que encontrará por si mesmo tudo o que é útil para sua salvação.” (Tratado da vida espiritual)

A necessidade moral da direção espiritual para nossa Salvação se pode provar:

* Pela autoridade da Sagrada Escritura. Não há na Sagrada Escritura nenhum texto claro e terminante que aluda a esta questão, mas insinua suficientemente a multidão de textos. Por exemplo:

“Busca sempre o conselho junto ao sábio…” (Tb 4,19);

“Se um vem a cair, o outro o levanta. Mas ai do homem solitário: se ele cair não há ninguém para levantá-lo…” (Ecl 4,10);

“Quem vos ouve, a mim me ouve…” (Lc 10,16);

“Portanto, desempenhamos o encargo de embaixadores em nome de Cristo, e é Deus mesmo que exorta por nosso intermédio.” (2Cor 5,20);

Também… (At 10,5 e 9,6…).

* Pela autoridade da Igreja. A Igreja sempre rejeitou a emancipação do diretor espiritual pregada por muitos falsos místicos, com o pretexto de ficar mais livre para a ação do Espírito Santo. E por outro lado, também, sempre recomendou a obediência e submissão a um diretor espiritual.

“Os que tratam de santificar- se, pelo mesmo que tratam de seguir um caminho pouco frequentado, estão mais expostos a perder-se, e por isso precisam mais que os outros de um doutor e guia. E este modo de proceder sempre se viu na Igreja; esta doutrina foi professada unanimemente por todos os que, no transcorrer dos séculos, floresceram pela sua sabedoria e santidade; e os que rejeitarem não poderão fazê-lo sem temeridade e perigo…”. (Papa Leão XIII)

* Pela prática universal da Igreja. Desde os tempos apostólicos se encontra na Igreja a prática da direção espiritual. É verdade que há exemplos de santos e santas que alcançaram a santidade sem um diretor, o qual prova que ela não é absolutamente necessária para alcançar a perfeição; mas a lei geral é que ao lado de uma alma santa há um sábio diretor. Por exemplo: São Jerônimo e Santa Paula; O Beato Raimundo de Cápua e Santa Catarina de Sena; São João da Cruz e Santa Tereza; São Francisco de Sales e Santa Joana Chantal; São Vicente de Paula e Santa Luísa de Marilac, etc.

Pela Natureza mesma da Igreja. Na qual o ensino e o governo se realizam por via de autoridade. Nada mais oposto ao espírito do cristianismo que o buscar em si mesmo a regra de vida. Tal foi o erro dos protestantes, que abriu a porta aos excessos do livre exame (Livre interpretação da Sagrada Escritura) e o iluminismo (novos caminhos de espiritualidade diferente dos caminhos tradicionais).

* Pela mesma psicologia humana. Ninguém é bom juiz de si mesmo, ainda que pressupondo a máxima sinceridade e boa fé. Quando se nos expõe com clareza, compreendemos muito melhor os estados das almas alheias que os da nossa própria.

A mesma situação, clara e fácil quando se trata dos demais, vem a resultar escura e complicada quando se trata de nós mesmos. Isto porque não podemos prescindir de uma série de fatores sensíveis, de imaginação, de egoísmo, de interesse, de gosto e afeições, ou de escrúpulos e preocupações excessivas, que vem a perturbar a ordem e a clareza da visão de nós mesmos. O qual faz difícil um juízo apropriado.

Portanto aparece muito claro que a direção espiritual é moralmente necessária para nos santificar.

Também, é verdade, que quando Deus permite que nos falte a ajuda da direção espiritual, Ele com suas inspirações guia a alma no caminho da santidade.


Fonte

Apostila de Espiritualidade, Instituto do Verbo Encarnado

Esposa, Mãe, Ordem Terceira VE

“Desejo que Jesus me triture interiormente para que eu me torne uma hóstia pura onde Ele possa repousar.” (Sta Teresa dos Andes)

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