Lírio entre espinhos

Uma família católica buscando a santidade

Tag: tradição

Direção Espiritual: o dirigido

Tempo de leitura: 7 minutos

Esperamos que esta sequência de artigos sobre a Direção Espiritual tenha sido de bom proveito! Rezem a São Francisco de Sales pedindo a graça de ter um santo diretor espiritual.


1) O dirigido

            Definição: É toda alma que, aspirando seriamente à perfeição cristã, voluntariamente se colocou sob o regime e governo de um diretor espiritual.

“Toda alma…”: Ninguém está excluído da necessidade moral de fazer direção espiritual. Nem sequer aqueles que são diretores espirituais, nem os teólogos, nem os Bispos, nem o Papa. Não só porque ninguém é bom juiz na sua própria causa, senão porque o valor da direção espiritual não reside unicamente na resolução teórica das dificuldades (que pode não ser necessária ou impossível quando o dirigido é mais preparado que o diretor); senão na força estimulante dos conselhos e exortações do diretor, a humildade, obediência e submissão do dirigido. Quem por crer-se superior aos demais despreza os conselhos de um prudente diretor, nunca alcançará a perfeição.

“… que, aspirando seriamente à perfeição cristã,…”: Se falta isto, a direção espiritual se torna inútil, porque lhe falta seu elemento essencial.

“… voluntariamente se colocou…”: A eleição do diretor espiritual é totalmente livre.

“sob o regime e governo de um diretor espiritual.”: Este governo se refere às coisas interiores e não às coisas externas. O diretor se deve adaptar às circunstâncias e deveres próprios do dirigido.

Qualidades e deveres do dirigido
a) Com relação à direção mesma:
  • Plena sinceridade e abertura de coração: É o primeiro e mais importante dos deveres do dirigido, sem o qual a direção espiritual se torna impossível. O diretor deve saber tudo o que acontece na nossa alma: as tentações e fraquezas, para que nos ajude a vencê-las e superá-las, os propósitos e resoluções, para submetê-los a seu exame e aprovação; as inclinações boas e más, para que fomente as primeiras e corrija as segundas; as dificuldades de estímulos; os triunfos e as derrotas; as esperanças e ilusões… Tudo deve ser manifestado com humildade e de um modo simples.

É um erro muito grande praticar um duplo jogo manifestando ao diretor espiritual somente as coisas boas, deixando para um confessor desconhecido as misérias e pecados. Assim é impossível a direção espiritual, porque o diretor deve conhecer os pecados e misérias do dirigido.

Embora não devemos exagerar, porque não é necessário manifestar coisas pequenas e detalhadas.

  • Plena docilidade e obediência: O dirigido não deve ao diretor uma obediência como a superior religioso. Embora o diretor não esteja num plano de igualdade ou de amizade com o dirigido, inclusive pelo seu mesmo cargo, tem certa superioridade sobre o seu filho/a espiritual (assim como o mestre ao educar o aluno), à qual deve corresponder uma verdadeira docilidade e submissão por parte do dirigido ou discípulo.

Esta atitude do dirigido pertence mais à prudência e humildade que a obediência. É muito importante esta docilidade, a tal ponto que o diretor deve exigir a obediência absoluta em todas as coisas que pertencem à direção espiritual, sob pena de negar-se a continuar a direção.

O dirigido deve submeter-se a seu diretor, porque a direção tem por finalidade a submissão a um guia de quem se aceitam as luzes, os conselhos e as ordens.

Muito pior que a desobediência é que o dirigido tente fazer de tudo para que o diretor lhe mande o que ele quer (esta atitude é duramente condenada por São João da Cruz). Mas não é contrário a esta obediência e docilidade, o fato de que o dirigido tome a iniciativa de manifestar atrativos e repugnâncias e até propor humildemente objeções com o ânimo de obedecer se o diretor insiste. A alma que obedece pode ter certeza que obedecendo sempre se manterá dentro do âmbito da vontade de Deus.

  • Perseverança: O dirigido deve ter perseverança nas seguintes coisas: Na entrevista, que deve ser frequente, nos exercícios, métodos e procedimentos de santificação; nos conselhos recebidos.
  • Ser discreto. O dirigido está obrigado a guardar segredo, e não confiar a ninguém os conselhos, normas práticas dadas pelo diretor. Nem sequer com o pretexto de edificar ou ajudar, porque o conselho dado a uma pessoa particular e em circunstâncias especiais podem não servir para outra pessoa e também pode trazer problemas com os outros dirigidos ou penitentes que o diretor tem.
b) Com relação ao diretor:
  • Respeito: O dirigido deve respeitar seu diretor e ver-lhe como um representante de Deus. E se não está conforme com ele por alguma coisa, antes de criticar lhe deve mudar de diretor.
  • Confiança: O dirigido deve ter uma confiança absoluta no seu diretor. Deve ser uma confiança filial, de tal modo que frente a ele se encontre com maior naturalidade, e sinceridade, disposto a se mostrar tal e como é; com suas fraquezas e misérias. Se faltar esta confiança, a direção espiritual é ineficaz.
  • Amor sobrenatural: Pode existir um amor sobrenatural ao diretor, como tem acontecido na vida de vários santos. Mas o difícil é que se mantenha sempre dentro dos limites do sobrenatural, por isso neste sentido sempre devemos nos esforçar para que seja um amor verdadeiramente de caridade.

2. Matéria da direção espiritual

Este ponto é muito importante porque nos mostra o que temos que falar na direção espiritual:

Como princípio geral é matéria da direção espiritual todos os assuntos interiores e exteriores da alma dirigida relacionadas com a perfeição cristã, segundo o estado e ofício de cada um.

– O Plano de vida (propósitos, a fidelidade a eles), a observância das regras.

– A paixão dominante, como combater os defeitos.

– As tentações.

– Mortificações e penitências.

– Inspirações e inclinações boas.

– A oração, como se está rezando, com que método.

– As devoções que pratica.

– As obras do ofício próprio.

– Exame particular.

3. Algumas coisas complementares

a) Eleição do diretor

“Convém muito à alma que quer adiantar no recolhimento e perfeição (ser santa) olhar em que mãos se põem, porque como for o mestre será o discípulo, e como for o pai, será o filho” (São João da Cruz).

Nem todas as almas podem escolher livremente o diretor espiritual, porque muitas têm o trato só com alguns sacerdotes (Religiosas de Clausuras, Aldeias pequenas etc.). Nestes casos devem aceitar a vontade de Deus, Ele se encarregará de suprir as deficiências do diretor se a alma procura ser fiel à graça de Deus e faz de sua parte tudo o que pode.

Mas fora destes casos excepcionais, para escolher o diretor espiritual se deve ter em conta as seguintes normas:

Pedir-lhe a Deus na oração as luzes necessárias para proceder bem em coisa tão importante.

Examinar quem tem mais prudência, bondade e caridade entre todos os sacerdotes que podemos escolher livremente.

– É preciso evitar que entrem na eleição as simpatias naturais ou ao menos que não sejam elas as que decidam como razão única e principal. Embora, não seja conveniente escolher alguém pelo qual se tem antipatia, porque isso dificultaria muito a direção (no que se refere à confiança e abertura de coração).

Não propor-lhe logo que seja o diretor espiritual. Convém experimentar um pouco de tempo, para ver se é uma verdadeira ajuda ou não.

– Em igualdade de circunstâncias, devemos escolher o mais santo para os casos ordinários e o mais sábio para os casos extraordinários, como se pode concluir da doutrina de Santa Teresa.

Uma vez feita à eleição, não será fácil mudar de diretor por razões inconsistentes.

b) Mudança de diretor

Se pode mudar quando há razões verdadeiramente de peso para fazê-lo. Não se deve mudar por qualquer motivo, porque isto faria ineficaz todo tipo de direção.

São motivos inadequados ou inconsistentes (segundo o mestre espiritual Tanquerey):

– A curiosidade por ouvir outros conselhos, porque há cansaço de ouvir sempre os mesmos.

– A inconstância, porque não persevera muito tempo nos exercícios de piedade.

– Querer ter como diretor àquele que tem mais fama (Soberba).

– Estar descontente com o diretor que se tem.

– Desejo de manifestar a vários confessores a própria consciência, para que se interessem por eles ou para ter mais segurança.

– Para ocultar ao confessor ordinário as faltas mais humilhantes.

Quais são os motivos verdadeiros?

Podem se reduzir a dois: quando a direção resulta inútil ou prejudicial.

A direção resulta inútil, quando apesar da boa vontade do dirigido e sincero desejo de ir à frente na vida espiritual, não sente com respeito a seu diretor a confiança e franqueza tão necessárias na direção. Ou também, quando vê que não se atreve a corrigir os defeitos, não se preocupa por estimular no caminho da virtude, não soluciona os problemas, não mostra interesse pela santificação do dirigido.

A direção resulta prejudicial, quando:

a) Se advertem claramente que o diretor carece da ciência, prudência e discernimento necessários.

b) Quando fomenta a vaidade do dirigido, tolera facilmente as faltas e defeitos ou vê as coisas desde um ponto de vista muito humano.

c) Se o diretor sempre perde o tempo misturando conversações frívolas (sem importância), ou de simples curiosidade, ou totalmente fora do tema da direção. E com maior razão se isto manifesta um afeto demasiado sensível do diretor com respeito ao dirigido.

d) Se o diretor trata de impor cargas superiores às forças do dirigido ou incompatíveis com os deveres próprios do estado. Ou também se quiser atar o dirigido com votos ou promessas de não consultar com nenhum outro diretor as coisas da nossa alma.

e) Se se adverte claramente que os conselhos e normas dadas pelo diretor, longe de fazer adiantar o dirigido, o prejudicam espiritualmente tendo em conta seu temperamento e especial psicologia. Mas Devemos ter cuidado com as ilusões do amor próprio, que facilmente se podem misturar nestas apreciações. Antes de mudar de diretor por estes motivos, devemos conversar com ele a fim de usar outros procedimentos.


Fonte

Apostila de Espiritualidade, Instituto do Verbo Encarnado

Esposa, Mãe, Ordem Terceira VE

“Desejo que Jesus me triture interiormente para que eu me torne uma hóstia pura onde Ele possa repousar.” (Sta Teresa dos Andes)

Direção Espiritual: o diretor

Tempo de leitura: 8 minutos

Continuamos a série de posts sobre Direção Espiritual. No artigo da semana passada trouxemos em que consiste a prática da DE. Hoje falaremos um pouco sobre quem pode ser um diretor espiritual e quais qualidades deve reunir para exercer esta missão.

1. O diretor

Definição: “É o sacerdote encarregado de conduzir as almas até a perfeição cristã”.

Vamos explicar um pouco:

“O Sacerdote…”:

É necessário que o diretor seja um sacerdote? Ordinariamente devemos dizer que sim.

É muito conveniente pelas seguintes razões:

* Na ordem sobrenatural, o sacerdote tem o papel de mestre;

* Pela íntima fusão com o ofício de confessor;

* Pela melhor preparação teórica e prática para dirigir as almas que ordinariamente o sacerdote tem;

* Pela graça do estado sacerdotal;

* Pela prática da Igreja que proíbe a intromissão nas almas aos não sacerdotes (embora sejam superiores religiosos), que já tomou lições por causa dos inconvenientes que se originam disto.

Embora, por via de exceção, não haveria inconveniente em admitir que, em algum caso, haja direção voluntariamente escolhida de uma pessoa prudente e experimentada que não seja sacerdote.

Há alguns fatos históricos: entre padres do deserto e nos primeiros abades beneditinos, que não eram sacerdotes. Também, em épocas mais recentes, temos o exemplo de São Francisco de Assis e de Santo Inácio de Loyola, antes de 1537; e até não faltam casos de direção espiritual realizada por mulheres, como Santa Catarina de Sena e Santa Teresa de Jesus.

“… encarregado…”: Por quem? – Remotamente, quando se trata de um sacerdote, por Deus e pela Igreja, já que na mesma ordenação sacerdotal vai implícita a missão de santificar as almas por todos os meios possíveis; um dos quais é a direção espiritual.

Proximamente, a missão concreta e especial de dirigir a uma determinada alma supõe dois elementos essenciais: a livre escolha do dirigido e a livre aceitação do diretor.

– A livre eleição do dirigido. Nenhuma potestade pode obrigar a um determinado súdito a aceitar a direção de um determinado diretor. Quando a Igreja determina que um sacerdote seja confessor de uma casa de religiosas, é simplesmente para facilitar que as religiosas tenham a oportunidade de receber o Sacramento da reconciliação; mas isto não significa que não possam livremente se confessar com outro sacerdote com as devidas condições.

– A livre aceitação do diretor. A missão pastoral obriga ao pároco e a todos aqueles que por razão de seu cargo tem cura de almas, a ouvir “ex iustitia” (em virtude da justiça) as confissões de seus súditos sempre que o peçam de um modo razoável. A obrigação dos outros sacerdotes é só de caridade.

Mas sobre a direção espiritual, ainda naqueles casos em que se realiza ao mesmo tempo em que a confissão sacramental, é uma função inteiramente diferente da simples administração do sacramento. E não consta em nenhuma lei divina ou eclesiástica que o sacerdote tenha obrigação estrita de fazê-lo.

Fica, pois na liberdade de cada um, aceitá-la ou rejeitá-la, embora sempre será uma ótima obra de caridade se aceitar uma missão tão própria e proporcionada a suas funções sacerdotais.

“… de conduzir as almas…”: Entendemos por conduzir a missão de guiar, orientar, marcar a uma alma o roteiro que deve seguir no seu caminho a Deus. Esta orientação deve referir-se aos obstáculos e perigos a evitar, como também às coisas positivas que deve praticar.

“… até a perfeição cristã.”: Esta é a diferença fundamental entre o ofício de confessor e diretor. O primeiro é um juiz que tem plena potestade no foro interno (conferida pela Igreja) e pode dentro do âmbito de sua jurisdição, obrigar estritamente ao penitente. Sua missão fundamental é perdoar, em nome de Deus, os pecados; para qual deve dispor ao penitente em ordem a receber a absolvição válida e frutuosamente.

O diretor espiritual, ao contrário, não tem nenhuma jurisdição no foro interno, quer dizer, não pode obrigar estritamente a seu dirigido. A sua missão é o aperfeiçoamento progressivo da alma em ordem a sua plena santificação.

2. Confissão e direção espiritual

É necessário ou conveniente que o diretor seja ao mesmo tempo o confessor ordinário do dirigido? Não estritamente necessário, mas é muito conveniente.

Não é estritamente necessário porque, às vezes, é materialmente impossível, como exemplo em casos de viagens, etc.

O confessor ordinário pode não reunir as condições de um bom diretor espiritual.

– Mas é muito conveniente:

* Pela íntima relação entre ambos os ministério;

* Para que o diretor tenha uma maior autoridade que enquanto diretor não tem nenhuma jurisdição sobre o dirigido;

* Pela conveniência de que a direção se faça no confessionário, sobretudo a de mulheres;

* Favorece muito à unidade da vida espiritual na alma do dirigido.

3. Qualidades do diretor

As dividiremos em dois tipos: as que são essenciais em ordem à técnica da direção espiritual e as que não são absolutamente necessárias, mas que constituem uma grande ajuda para uma boa direção espiritual.

a) Qualidades técnicas do diretor

Segundo Santa Teresa e São João da Cruz três são as qualidades de um bom diretor espiritual: ciência, discernimento e experiência.

Ciência: A ciência do diretor deve ser vastíssima (ampla). Deve conhecer bem a Teologia dogmática, Moral, Espiritual. Principalmente o referente aos princípios fundamentais da vida espiritual: em que consiste a perfeição, a quem e de que modo obriga, quais os obstáculos que devemos afastar, as ilusões que devem evitar, os elementos positivos que se devem fomentar.

Devem conhecer tudo relativo à vida de oração, seus diferentes graus ascéticos e místicos, as provas que Deus envia ou permite nas almas contemplativas (noite do sentido, do espírito, desolações, perseguições, assaltos diabólicos, etc.).

Devem conhecer perfeitamente a teoria dos diferentes temperamentos e caracteres; a influência do meio ambiente; a educação recebida, etc.

Devem conhecer perfeitamente os princípios da psicologia da psicopatologia, os casos anormais, as doenças nervosas e mentais mais frequentes.

Devem conhecer as regras de discernimento de espíritos, sobretudo se os dirigidos são almas com fenômenos extraordinários e graças “gratias datas”.

Se apesar a todos seus esforços um sacerdote vê que não possui o conhecimento ou a experiência necessária para entender uma alma determinada, deve ter a prudência de encaminhar seu dirigido a uma pessoa mais competente.

Discernimento: Essa palavra vem do latim Dicernere, que significa distinguir, separar, dividir. Com essa expressão se quer significar um conjunto de qualidades que ajudam ao diretor a ter clareza e penetração de juízo para distinguir em cada caso o verdadeiro do falso, o reto do que não é reto, o conveniente do prejudicial. É uma das qualidades mais importantes do diretor espiritual, e compreende três coisas: prudência nas decisões, clareza nos conselhos e firmeza e força em exigir seu cumprimento.

Prudência nas decisões: A prudência definida por Aristóteles com a “recta ratio agibilium”, é a virtude moral que dirige o entendimento para que julgue corretamente sobre o que se deve fazer nos casos particulares. Tem muita importância na vida moral, por que ela deve regular o exercício e a prática de todas as virtudes. Deve brilhar nos governantes e é indispensável para o diretor espiritual.

A prudência verdadeira se divida em três espécies:

Natural ou adquirida: É a prudência humana que tendo por guia as luzes de reta razão, busca os meios mais oportunos para conseguir um fim honesto. O diretor espiritual pode e deve usar esta prudência no guiar das almas, fomentando e acrescentando-a com o estudo das ciências psicológicas, experimentais e com uma intensa e profunda reflexão pessoal.

Sobrenatural ou infundida: A prudência natural não é suficiente para a direção das almas; como isto é uma tarefa sobrenatural são necessários os princípios da fé, o qual é próprio da prudência sobrenatural.

O dom de conselho: Às vezes, nem sequer as luzes ordinárias da fé são suficientes para resolver determinados casos, especialmente à direção das almas heroicas. O Espírito Santo, principal diretor das almas, tem às vezes exigências que estão por acima não somente da razão, mas também das mesmas luzes ordinárias da fé. É necessária uma especial docilidade para se deixar levar pelo impulso divino, que parece loucura frente aos homens, mas que é profunda sabedoria frente a Deus (I Cor 3, 19). Isto é próprio do Dom de Conselho, que é um dos dons que com mais insistência e humildade deve pedir ao diretor espiritual para acertar no desempenho de sua missão.

Clareza nos conselhos: A segunda condição que deve ter o diretor espiritual é a clareza nos conselhos aos seus dirigidos e nas normas de conduta que marque:

Transparência no pensamento, de tal modo que se evite no dirigido toda classe de angústias e inquietudes na interpretação das normas e conselhos do diretor. Deve evitar o modo duvidoso de se expressar (Talvez, ”se lhe parece”…). Deve dar as normas claras, fixas, bem concretas e determinadas, que não admitam dúvidas nem interpretações duvidosas. Deve resolver os problemas do dirigido com um “sim” ou um “não” rotundos, embora depois de ter tomado o tempo necessário para uma madura reflexão se o caso o requer. Não deve deixar nunca algum problema sem ser resolvido. Se a alma percebe que o diretor duvida ou não está bem seguro do que diz, perderá a confiança nele e abandonará a direção ou a fará ineficaz

Plena sinceridade e franqueza. Para dizer ao dirigido a verdade, sem ter para nada em conta a respeitos ou motivos humanos. Faltaria muito gravemente ao seu dever de diretor espiritual quem por não magoar seu dirigido ou para não o trocar por outro; deixa de mostra-lhe suas faltas e erros, dissimula suas ilusões, seus defeitos e exagera as virtudes que pratica. Muitas almas vivem enganadas, pensando que são virtuosas, e não encontram ninguém que lhe fale que realmente não tem nenhuma virtude. Com prudência e mansidão, mas com força e fortaleza, o diretor deve manifestar-lhe a seu dirigido absolutamente toda a verdade. Não deve esquecer que está fazendo às vezes de Cristo, e que deverá dar conta a Deus da administração dos seus poderes sacerdotais. Quem não tem coragem de dizer a verdade a uma pessoa, embora seja superior ou uma autoridade eclesiástica, deve renunciar em absoluto a ser diretor espiritual dessa pessoa.

Firmeza e força em exigir seu cumprimento: O diretor deve ter cuidado de não se converter em dirigido. Há almas que tem a habilidade extraordinária de conseguir que o diretor lhes mande o que elas querem. Com suavidade o diretor deve evitar este abuso.

Uma vez que já emitiu seu juízo ou deu seu conselho, de acordo com a prudência, não deve mudar por nada; salvo que mudem substancialmente as circunstâncias da situação. O dirigido deve saber que só tem duas opções, ou obedecer ou mudar de diretor espiritual. Este é o único modo de conservar a autoridade ao seu dirigido.

Por outro lado as exigências sempre devem ser de acordo com o temperamento, deveres, obrigações, forças e disposições atuais das almas. Não deve haver um rigor excessivo que atemorize as pessoas e as faça desistir do caminho da perfeição.

Experiência: Pode ser própria ou alheia:

Experiência própria. Para a direção das almas ordinárias é suficiente a experiência de qualquer sacerdote que viva dignamente seu ministério. Mas para guiar almas que estão muito adiantadas na vida espiritual é necessária alguma experiência da vida mística, segundo o ensinam Santa Teresa e São João da Cruz. Porque quando o Espírito Santo começa ir livremente numa alma se opera nela uma transformação total nos pensamentos e ações, que pode desorientar muito o diretor que não tem experiência pessoal daquilo.

O que deve fazer quem percebe que não está à altura de seu dirigido? Deve buscar o modo de orientá-lo para um diretor que seja mais preparado; e se não é possível, deve humilhar-se, pedir luzes a Deus, estudar e refletir muito e confiar na Divina Providência que ajudará a fazer o bem a essa alma.

Experiência alheia: Nem todas as almas são iguais, nem devem ser conduzidas pelos mesmos caminhos. Por isso ajuda muito a experiência de outras almas para poder fazer uma boa direção espiritual. Neste sentido nunca deve esquecer o diretor espiritual que o verdadeiro diretor das almas é o Espírito Santo e que ele simplesmente tem a missão de ajudar ao dirigido a que seja fiel a essa ação divina.

Continua no próximo post…

Esposa, Mãe, Ordem Terceira VE

“Desejo que Jesus me triture interiormente para que eu me torne uma hóstia pura onde Ele possa repousar.” (Sta Teresa dos Andes)

Direção Espiritual

Tempo de leitura: 4 minutos

Recebi com alegria o convite de meus queridos filhos espirituais, Gabriel e Rayhanne, para compartilhar um pouco a minha modesta experiência de diretor espiritual. Considerei bem oportuno aos leitores deste blog falar sobre direção espiritual (DE), já que esta é uma ferramenta eficaz para o cultivo da vida espiritual, infelizmente desconhecida e pouco utilizada pelos cristãos de hoje, que mais do que nunca necessitam de ajuda para discernir o trigo do joio, para precaver-se de tantos erros, para adiantar na virtude e para formar os santos que o mundo tanto precisa. Devido a urgência e importância do assunto em questão, propus ao casal de abordá-lo em duas breves partes: a primeira, uma exposição sobre a natureza da DE; a segunda, um pouco da minha experiência como diretor espiritual de leigos, especialmente jovens e casais.

Para a primeira parte, mais teórica, prescindo mais de mim e me baseio em quase toda a exposição no esplêndido e atualizado livro do Pe. Miguel Ángel Fuentes, colega sacerdote do Instituto do Verbo Encarnado, que hábil e sabiamente como ninguém, oferece aos diretores espirituais La ciencia de Dios, manual para diretores espirituais1 (San Rafael, Argentina, EDIVE, 3ª ed., 2013).

A Direção Espiritual

A prática da DE é um dos tesouros mais valiosos destes dois mil anos de tradição da Igreja, é uma sementeira de vocações à vida consagrada, de sacerdotes fervorosos, de leigos de alto voo e incidência social, de apóstolos de todo gênero, enfim, de genuínos Santos.

O que é a DE

A DE consiste na arte de guiar acertada e progressivamente as almas ao fim da vida espiritual, quer dizer, à perfeição; também pode definir-se como a ajuda que se presta a um cristão para que amadureça em sua fé e vida espiritual. Este ofício exige tanta preparação do diretor que, adverte São João de Ávila, se chama ‘arte de artes’”2.
Hoje, como sempre, –ou talvez mais que nunca– é necessário promover a genuína DE, quer dizer, a guia sobrenatural de almas de maneira séria, científica e exigente, ou simplesmente, católica.

Necessidade da DE

A necessidade da DE tem seu fundamento remoto na Sagrada Escritura, sua proclamação na Tradição da Igreja e sua razão íntima na natureza de nossa vida espiritual e no modo ordinário de obrar da Providência divina.

O Magistério da Igreja confirmou esta prática com sua autoridade, recomendando-a e inclusive prescrevendo-a em determinados casos.

Por exemplo, o Catecismo da Igreja Católica diz:

O Espírito Santo dá a certos fiéis dons de sabedoria, de fé e de discernimento em vista do bem comum que é a oração (direção espiritual). Aqueles e aquelas que têm esses dons são verdadeiros servidores da tradição viva da oração:

Por isso, se a alma deseja avançar na perfeição, conforme o conselho de S. João da Cruz, deve “considerar bem em que mãos se entrega, pois, conforme o mestre, assim será o discípulo; conforme o pai, assim será o filho”. E ainda: “O diretor deve não somente ser sábio e prudente, mas também experimentado… Se o guia espiritual não tem a experiência da vida espiritual, é incapaz de nela conduzir as almas que Deus chama, e nem sequer as compreenderá”3.

A Exortação Pastores dabo vobis, falando da DE, diz:

“É preciso redescobrir a grande tradição do acompanhamento espiritual pessoal, que sempre deu tantos e tão preciosos frutos, na vida da Igreja: esse acompanhamento pode, em determinados casos e em condições bem precisas, ser ajudado, mas não substituído, por formas de análise ou de ajuda psicológica. As crianças, os adolescentes e os jovens sejam convidados a descobrir e a apreciar o dom da direção espiritual, e a solicitá-lo com confiante insistência aos seus educadores na fé. Os sacerdotes, pela sua parte, sejam os primeiros a dedicar tempo e energias a esta obra de educação e de ajuda espiritual pessoal: jamais se arrependerão de ter transcurado ou relegado para segundo plano muitas outras coisas, mesmo boas e úteis, se for necessário para o seu ministério de colaboradores do Espírito na iluminação e guia dos chamados”4.

O que falar na DE

O objeto ou matéria da DE são todos os assuntos relacionados a saúde da alma onde tem lugar o desenvolvimento da perfeição cristã. Santo Afonso Maria de Ligório falando aos confessores resume dizendo: “Quatro pontos principalmente atenderá o confessor na direção das almas espirituais: a meditação, a contemplação, a mortificação e a frequência dos sacramentos”5. Outros acrescentam também a prática das virtudes e a santificação das ações ordinárias6. Pode-se acrescentar ainda o trabalho para moldar o próprio caráter e temperamento, discernimento de situações meramente humanas como relacionamentos, decisões, estudo, trabalho, mas que poderiam afetar direta ou indiretamente a vida espiritual ajudando-a ou atrapalhando-a.

Finalidade da DE

A DE tem como fim último levar as almas à perfeição. Tem também fins intermédios, segundo as diversas etapas da alma. Podemos indicar quatro finalidades subordinadas, que são curar e fortalecer as fraquezas humanas, precaver dos perigos, discernir os espíritos que movem à alma e prepará-la para que responda com docilidade às exigências da graça.

Qualidades da DE

A DE para que seja autêntica e frutuosa tem que reunir várias características. As principais com relação ao diretor são: que seja científica, prudente, firme, caridosa e adaptada ao dirigido.

Quem pode ser diretor espiritual

Ordinariamente o sacerdote porque se dá propriamente um encargo por parte da Igreja; ele exerce uma direção ministerial, cuja missão está implícita na missão de santificar às almas por todos os meios possíveis, que recebe no momento da ordenação sacerdotal.

Qualidades do diretor espiritual

As qualidades do bom diretor espiritual se deduzem das qualidades que deve ter a boa DE: santidade, prudência, experiência, ciência e qualidades humanas7 , como: um sadio e cordial afeto, o dom de entender às pessoas, a arte de sugerir com simplicidade e eficácia, a magnanimidade e a confiança.

 

Se Deus quiser, em breve votarei para falar um pouco da minha experiência como diretor espiritual de leigos, especialmente jovens e casais.

Que Deus abençoe você!

Pe. Fábio Vanderlei, IVE


Referências

  1. La ciencia de Dios, manual para diretores espirituais.
  2. São João de Ávila, Audi filia, 4.
  3. Catecismo da Igreja Católica, nº 2690.
  4. São João Paulo II, Pastores dabo vobis, 40.
  5. Santo Afonso María de Ligorio, A prática do confessor, nº 99. Cf. 100-133.
  6. Cf. Garrigou-Lagrange, As tres idades da vida interior, Vol, I.
  7. Cf. Mendizábal, Dirección espiritual.

Gabriel é esposo da Rayhanne e pai do Bento e da Maria Isabel! Além disso, é membro da Terceira Ordem da Família do Verbo Encarnado e diretor do Centro Anchieta. Trabalha como professor.

Verso L´Alto – Beato Pier Giorgio Frassati