Lírio entre espinhos

Uma família católica buscando a santidade

Tag: vida espiritual

O plano de vida

Tempo de leitura: 4 minutos

No post passado trouxemos a primeira parte de um texto do Padre Fuentes, IVE, sobre a reforma e o plano de vida. Hoje publicamos a continuação, que é também a parte final.

Com os elementos mais sobressalentes deste exame, cada um tem depois que elaborar um plano de vida realista. O plano de vida, como seu nome o indica, designa o projeto das principais atividades e objetivos que um sujeito tenta levar a cabo em um prazo determinado de tempo (o resto do ano, ou o biênio, ou o qüinqüênio, etc.). No plano espiritual é um programa de perfeição. O ter um plano de vida é conveniente não só para os religiosos e sacerdotes senão para todos os fiéis que querem santificar-se no meio do mundo; porque a santidade não se improvisa: quem quer obter algo na vida, já seja na ordem humana ou na sobrenatural, deve sentar-se e prever, pensar e planejar. Para nos santificar devemos aproveitar bem o tempo, sobrenaturalizar nossas obras e seguir um plano de formação e trabalho. Sem plano de vida se esbanja sem remédio muito tempo:

–surgem dúvidas sobre o que devemos fazer; gastamos tempo em deliberações supérfluas; apesar de muito deliberar estamos acostumados a ficar com dúvidas;

–descuidamos algumas de nossas obrigações por falta de previsão e de organização, por propor fins sem determinar os meios ou por tomar no momento meios ineficazes ou menos eficazes, etc.;

–e por este descuido, finalmente, expomo-nos à inconstância e ao abandono das obras empreendidas.

Pelo contrário, o plano de vida nos dá ordem, ajuda-nos a ganhar tempo, faz-nos sobrenaturalizar as obras (porque as fazemos por obediência ao plano, quer dizer, às decisões tomadas em consciência diante de Deus; sempre e quando o plano seja feito como Deus manda); tem também um grande valor educativo enquanto tempera nossa vontade (fazendo-a mais austera, livre de caprichos, submetendo-a a uma ordem e fazendo-a adquirir perseverança).

1) Características

Para que seja real todo plano de vida tem que ter certas qualidades:

–Deve estar acomodado aos deveres de estado, às ocupações habituais, às disposições de espírito, de caráter e temperamento de cada um, a suas forças e a seu estado atual de perfeição.

–Deve ser flexível e rígido à vez. Flexível para não escravizar a alma ao plano quando a caridade para o próximo, ou alguma circunstância grave imprevista, ou a obediência aos superiores faça irrealizável algum projeto. Com certa rigidez, para que o sujeito não o modifique segundo seus caprichos; é rígido se contiver todo o necessário para determinar pelo menos em princípio, o tempo e a maneira de fazer nossas diversas atividades, nossos deveres de estado, exercícios de piedade e a aquisição das virtudes mais necessárias para nosso temperamento.

–Deve ser feito de acordo com o diretor espiritual. Exige-o a prudência que nos ensina que um não é bom juiz em sua própria causa nem destro guia de si mesmo; também a obediência, pela qual, o plano de vida revisado e autorizado pelo diretor estende a ação de este ao resto de nossa vida.

2) O que deve abranger

Os principais elementos que devem estar presentes no plano são:

–O horário mais fundamental do dia: os religiosos isto já o têm estabelecido em sua casa religiosa. Porém pode ser necessário estabelecê-lo “ad hoc” quando se está de férias.

–Os projetos fundamentais: de todas as coisas que viu que tem que trabalhar deverá determinar qual é o objetivo mais urgente, e a ordem em que seguirá trabalhando com outros pontos que deve reformar em sua vida. O mais importante é a formação de propósitos concretos, reais, realizáveis e que vão à medula da vida espiritual, procurando erradicar o defeito dominante, alcançar as virtudes mais importantes para o sujeito em questão, etc. É importante sublinhar que o esforço principal (o trabalho diário) deve enfocar-se sobre um só propósito por vez (fazendo sobre isto o exame particular[1]). Uma vez conseguido o propósito, terá que trocar e se examinar sobre um novo objetivo. A mesma direção espiritual consiste em grande medida em ver o trabalho sobre esse propósito.

–O desenvolvimento do projeto: com que meios vai alcançar o que projetou fazer (por exemplo, para alcançar tal virtude ou vencer tal defeito ou virtude: que atos se deve fazer? com que frequência?, etc.). O meio essencial e indispensável é o exame de consciência diário.

3) Modo de observá-lo

Se deve observar o plano, quer dizer cumpri-lo, íntegra e cristãmente. Integralmente quer dizer: em todas suas partes e com pontualidade. Porque se cumprirmos uns pontos e outros os deixamos de lado sem motivo razoável, caímos no capricho e, em definitiva, passamos a fazer nossa própria vontade em lugar da de Deus. Se deve evitar dois extremos: o escrúpulo e a tibieza. Não se deve ter escrúpulos em deixar de cumprir algum ponto particular do plano quando há motivos graves, especialmente quando nos exigem isso os deveres de caridade para o próximo ou urgências próprias de nossos deveres de estado (como atender doentes a horas inesperadas, ou quando se está rezando). Porém também se deve evitar a tibieza que tende a abandoná-lo tudo por motivos fúteis ou sofismas de nossa afetividade, encontrando falsas desculpas. Cumpri-lo cristãmente significa que a intenção que deve guiar a observância do plano de vida tem que ser o fazer a vontade de Deus. Esta pureza de intenção é a alma genuína de um plano de vida.

4) Rendição de conta

Finalmente, toda pessoa tem que prever com que frequência examinará o andar dos propósitos e projetos. Convém que isto se faça uma vez por mês; para os religiosos e seminaristas (ou inclusive seculares) que têm costume de realizar retiros mensais de um dia, essa será a oportunidade mais adequada. Seja quando for, em tais ocasiões têm que examinar o fato, tomar novas determinações se for necessário, impor-se algum castigo se a negligência ou preguiça ou desordem interior o conduz à inconstância, e examinar as etapas seguintes.


[1] Santo Inácio, EE, nº 24 a 31.

Blogue da família Zago, da terceira ordem do Verbo Encarnado.

Direção Espiritual: o que é?

Tempo de leitura: 4 minutos

Traremos no blog uma série de textos sobre Direção Espiritual, uma prática tão antiga e necessária para nossa santificação. Essa é a primeira parte!

1. Natureza da direção espiritual

“É a arte de conduzir as almas progressivamente desde os inícios da vida espiritual até os cumes da perfeição cristã.”

“É a arte…”: Utilizamos a expressão arte, em sentido puramente metafórico, porque na realidade a direção espiritual é uma ciência prática que, sob a direção da prudência sobrenatural, aplica a um caso concreto exposto por uma alma determinada os grandes princípios da teologia dogmática, moral e ascético-mística. Mas, metaforicamente, se pode chamar à direção espiritual arte, no sentido que tem por finalidade levantar até os céus um grande edifício sobrenatural.

“… de conduzir as almas…”: A direção espiritual é a arte de conduzir suavemente as almas à união com Deus. É um caminho que precisa ser percorrido pela alma, mas é necessário que alguém lhe marque o roteiro.

“… progressivamente…”: O caminhar deve ser firme e sem rodeios, mas também não devem existir sobressaltos nem imprudências nesse caminhar. O diretor deve exigir de cada alma segundo suas possibilidades.

“… desde os inícios da vida espiritual…”: A direção espiritual deve dar início quando uma alma decide começar o caminho da santificação.

“… até os cumes da perfeição cristã.”: É o fim da direção espiritual, alcançar a santidade.

2. Importância e necessidade

 Segundo o testemunho da tradição, a direção espiritual é moralmente necessária (quer dizer, para alcançar melhor o fim) para alcançar a perfeição cristã.

São Vicente Ferrer disse: “Nunca Jesus Cristo dará sua graça, sem a qual nada podemos fazer, a quem, tendo a sua disposição um homem capaz de instruir-lhe, despreza esta ajuda persuadindo-se de que se bastará a si mesmo e de que encontrará por si mesmo tudo o que é útil para sua salvação.” (Tratado da vida espiritual)

A necessidade moral da direção espiritual para nossa Salvação se pode provar:

* Pela autoridade da Sagrada Escritura. Não há na Sagrada Escritura nenhum texto claro e terminante que aluda a esta questão, mas insinua suficientemente a multidão de textos. Por exemplo:

“Busca sempre o conselho junto ao sábio…” (Tb 4,19);

“Se um vem a cair, o outro o levanta. Mas ai do homem solitário: se ele cair não há ninguém para levantá-lo…” (Ecl 4,10);

“Quem vos ouve, a mim me ouve…” (Lc 10,16);

“Portanto, desempenhamos o encargo de embaixadores em nome de Cristo, e é Deus mesmo que exorta por nosso intermédio.” (2Cor 5,20);

Também… (At 10,5 e 9,6…).

* Pela autoridade da Igreja. A Igreja sempre rejeitou a emancipação do diretor espiritual pregada por muitos falsos místicos, com o pretexto de ficar mais livre para a ação do Espírito Santo. E por outro lado, também, sempre recomendou a obediência e submissão a um diretor espiritual.

“Os que tratam de santificar- se, pelo mesmo que tratam de seguir um caminho pouco frequentado, estão mais expostos a perder-se, e por isso precisam mais que os outros de um doutor e guia. E este modo de proceder sempre se viu na Igreja; esta doutrina foi professada unanimemente por todos os que, no transcorrer dos séculos, floresceram pela sua sabedoria e santidade; e os que rejeitarem não poderão fazê-lo sem temeridade e perigo…”. (Papa Leão XIII)

* Pela prática universal da Igreja. Desde os tempos apostólicos se encontra na Igreja a prática da direção espiritual. É verdade que há exemplos de santos e santas que alcançaram a santidade sem um diretor, o qual prova que ela não é absolutamente necessária para alcançar a perfeição; mas a lei geral é que ao lado de uma alma santa há um sábio diretor. Por exemplo: São Jerônimo e Santa Paula; O Beato Raimundo de Cápua e Santa Catarina de Sena; São João da Cruz e Santa Tereza; São Francisco de Sales e Santa Joana Chantal; São Vicente de Paula e Santa Luísa de Marilac, etc.

Pela Natureza mesma da Igreja. Na qual o ensino e o governo se realizam por via de autoridade. Nada mais oposto ao espírito do cristianismo que o buscar em si mesmo a regra de vida. Tal foi o erro dos protestantes, que abriu a porta aos excessos do livre exame (Livre interpretação da Sagrada Escritura) e o iluminismo (novos caminhos de espiritualidade diferente dos caminhos tradicionais).

* Pela mesma psicologia humana. Ninguém é bom juiz de si mesmo, ainda que pressupondo a máxima sinceridade e boa fé. Quando se nos expõe com clareza, compreendemos muito melhor os estados das almas alheias que os da nossa própria.

A mesma situação, clara e fácil quando se trata dos demais, vem a resultar escura e complicada quando se trata de nós mesmos. Isto porque não podemos prescindir de uma série de fatores sensíveis, de imaginação, de egoísmo, de interesse, de gosto e afeições, ou de escrúpulos e preocupações excessivas, que vem a perturbar a ordem e a clareza da visão de nós mesmos. O qual faz difícil um juízo apropriado.

Portanto aparece muito claro que a direção espiritual é moralmente necessária para nos santificar.

Também, é verdade, que quando Deus permite que nos falte a ajuda da direção espiritual, Ele com suas inspirações guia a alma no caminho da santidade.


Fonte

Apostila de Espiritualidade, Instituto do Verbo Encarnado

Esposa, Mãe, Ordem Terceira VE

“Desejo que Jesus me triture interiormente para que eu me torne uma hóstia pura onde Ele possa repousar.” (Sta Teresa dos Andes)

“Rogai ao Senhor da messe para que envie trabalhadores”: A Maternidade Espiritual

Tempo de leitura: 10 minutos

“O que me tornei e como, o devo à minha mãe!” (Santo Agostinho)

Há muito tempo atrás, antes mesmo de namorar o Gabriel, conheci uma orientação (de 2007) da Congregatio pro Clericis que se chama Adoração Eucarística pela Santificação dos Sacerdotes e Maternidade Espiritual. Quando li esse documento, senti verdadeiramente uma vocação. Desde então abracei o chamado de rezar e oferecer sacrifícios pelos sacerdotes.

Há algum tempo atrás, durante o noivado, um grande amigo me enviou novamente esse material. Definitivamente Deus me chamava a ser mãe espiritual não só de sacerdotes mas também de religiosos e religiosas, e, talvez não a toa, eu tenha tantos e tantos amigos padres, seminaristas, noviços, noviças, religiosas! Na semana passada, as Irmãs Servidoras (Servidoras do Senhor e da Virgem de Matará) lançaram um vídeo com o Projeto 40 horas. Foi novamente um chamado que ardeu em meu peito e, por isso, decidi escrever sobre a maternidade espiritual, tão esquecida e tão pouco difundida.

É nítido que o nosso clero anda passando por uma tempestade, mas em vez de só chorarmos nossas pitangas, por que não levantamos um exército de mulheres fortes que bradem a Deus que envie operários santos para Sua messe? Por que não abraçamos nossa totalidade da missão maternal e nos oferecemos pelo aumento e santificação das vocações sacerdotais e religiosas? Por que não nos oferecemos como vítimas para expiação das ofensas que os maus religiosos cometem contra o Divino Amor? Esse é o objetivo do post de hoje: apresentar à você, mulher, alma feminina queridíssima por Deus, a beleza da maternidade espiritual e encorajá-la a abraçar essa missão, caso se sinta chamada.

A vocação a ser mãe espiritual para os sacerdotes é muito pouco conhecida, insuficientemente compreendida e, portanto, pouco vivida, apesar de sua vital e fundamental importância. Essa vocação muitas vezes está escondida, invisível ao olho humano, mas voltada a transmitir vida espiritual.

(…) independentemente da idade e do estado civil, todas as mulheres podem se tornar mãe espiritual para um sacerdote e não somente as mães de família. É possível também para uma mulher doente, para uma moça solteira ou para uma viúva. João Paulo II agradeceu até mesmo uma menina pela sua ajuda materna: “Exprimo a minha gratidão também à beata Jacinta de Fátima pelos sacrifícios e orações oferecidas pelo Santo Padre, que ela tinha visto em grande sofrimento”. (13 de maio de 2000).

Cada sacerdote é precedido por uma mãe, que amiúde também é uma mãe de vida espiritual para seus filhos. Giuseppe Sarto, por exemplo, o futuro Papa Pio X, logo depois de ser consagrado bispo, foi visitar sua mãe, na época com setenta anos de idade. Ela beijou respeitosamente o anel do filho e de repente, tornando-se meditativa, indicou seu pobre anel nupcial de prata: “Sim, Peppo, mas você agora não estaria usando esse anel se eu antes não tivesse usado meu anel nupcial”. São Pio X, justamente, confirmava a partir da sua experiência: “Cada vocação sacerdotal vem do coração de Deus, mas passa através do coração de uma mãe!”.

Uma ótima prova disto é a vida de Santa Mônica. Santo Agostinho escreveu em suas ‘Confissões’: “… Tu estendeste tua mão do alto e tiraste minha alma destas densas trevas, pois minha mãe, tua fiel, chorava por mim.Após a conversão ele disse com gratidão: “Minha santa mãe, tua serva, nunca me abandonou. Ela me pariu com a carne para essa vida temporal e com o coração para a vida eterna. O que me tornei e como, o devo à minha Mãe!”.

Eliza Vaughan: ”Doemos nossos filhos a Deus.”

Oferece-nos um exemplo muito significativo a inglesa Eliza Vaughan, mãe de família e mulher dotada de espírito sacerdotal, que rezou muito para as vocações.

Eliza provinha de uma família protestante, a dos Rolls, que posteriormente fundou a indústria automobilística Rolls-Royce, mas quando jovem, durante sua permanência e educação na França, havia ficado muito impressionada pelo exemplar empenho da Igreja católica para com os pobres.

No verão de 1830, após o casamento com o coronel John Francis Vaughan, Eliza, apesar da forte resistência de seus parentes, converteu-se ao catolicismo. Havia tomado essa decisão com convicção e não somente por ter entrado a ser parte de uma famosa família inglesa de tradição católica. Os antepassados Vaughan, durante a perseguição dos católicos ingleses sob o reinado de Elisabeth I (1558-1603), preferiram sofrer a expropriação dos bens e a prisão antes que renunciar à própria fé. Courtfield, a residência originária da família de seu marido, tornara-se, durante as décadas de terror, um abrigo para os sacerdotes perseguidos, um lugar onde celebrava-se a Santa Missa. Desde então haviam passado três séculos, mas nada mudara no espírito católico da família.

Convertida no fundo do coração, cheia de zelo, Eliza propôs ao marido de doar os filhos a Deus. Essa mulher de elevadas virtudes rezava cada dia durante uma hora frente ao Santíssimo Sacramento na Capela da residência de Courtfield, pedindo a Deus uma família numerosa e muitas vocações religiosas entre seus filhos. Foi atendida! Teve 14 filhos e morreu pouco depois do nascimento do último filho em 1853. Dos 13 filhos vivos, entre os quais 8 homens, 6 se tornaram sacerdotes: dois em ordens religiosas, um sacerdote diocesano, um bispo, um arcebispo e um cardeal. Das cinco filhas, quatro se tornaram religiosas.

Que bênção para a família e quais efeitos para toda a Inglaterra! Todos os filhos da família Vaughan tiveram uma infância feliz, porque na educação sua santa mãe possuía a capacidade de associar de modo natural a vida espiritual e as obrigações religiosas com as diversões e a alegria. Por vontade da mãe faziam parte da vida quotidiana as orações e a S. Missa na capela da casa, bem como a música, o esporte, o teatro amador, a equitação e as brincadeiras. Os filhos não se entediavam quando a mãe lhes contava as vidas dos santos, que aos poucos se tornaram para eles amigos íntimos. Eliza levava consigo os filhos também nas visitas e nos cuidados aos doentes e aos sofredores das vizinhanças, para que pudessem nestas ocasiões aprender a serem generosos, a fazer sacrifícios, a doar aos pobres suas poupanças e seus brinquedos.

Vilarejo de Lu Monferrato

O pequeno vilarejo de Lu está localizado na Itália. Este pequeno vilarejo teria ficado desconhecido se em 1881 algumas mães de família não tivessem tomado uma decisão que iria ter “grandes repercussões”.

Muitas dessas mães tinham no coração o desejo de ver um de seus filhos tornar-se sacerdote ou uma de suas filhas entregar-se totalmente ao serviço do Senhor. Começaram então a reunir-se todas as terças-feiras para a adoração do Santíssimo Sacramento, sob a guia de seu pároco, Monsenhor Alessandro Canora, e a rezar para as vocações. Todos os primeiros domingos do mês recebiam a Comunhão com essa intenção. Após a Missa todas as mães rezavam juntas para pedir vocações sacerdotais. Graças à oração cheia de confiança destas mães e a abertura de coração destes pais, as famílias viviam num clima de paz, de serenidade e de alegre devoção que permitiu aos filhos discernir com maior facilidade seu chamado.

Quando o Senhor disse: “Muitos são os chamados, mas poucos os eleitos” (Mt 22,14), devemos entendê-lo desta maneira: muitos serão chamados, mas poucos responderão. Ninguém podia pensar que o Senhor teria atendido tão amplamente o pedido desta mães. Deste vilarejo emergiram 323 vocações à vida consagrada: 152 sacerdotes (e religiosos) e 171 religiosas pertencentes a 41 diferentes congregações. Em algumas famílias houve até três ou quatro vocações.

O exemplo mais conhecido é o da família Rinaldi. O Senhor chamou sete filhos desta família. Duas filhas entraram para as irmãs Salesianas e, enviadas a Santo Domingo, tornaram-se pioneiras e missionárias corajosas. Entre os homens, cinco tornaram-se sacerdotes Salesianos. O mais conhecido dos cinco irmãos, Filippo Rinaldi, foi o terceiro sucessor de Dom Bosco, beatificado por João Paulo II aos 29 de abril de 1990.

A oração que as mães de família rezavam em Lu era breve, simples e profunda:

“Senhor, fazei que um de meus filhos se torne sacerdote!  Eu mesma quero viver como boa cristã e quero conduzir meus filhos ao bem para obter a graça de poder oferecer a Vós, Senhor, um sacerdote santo. Amém”.

Venerável Conchita: ”Mãe, ensina-me a ser sacerdote!”

Maria Concepción Cabrera de Armida, Conchita, esposa e mãe de numerosos filhos, é uma das santas modernas que Jesus preparou para uma maternidade espiritual para os sacerdotes.

Jesus uma vez explicou para Conchita: “Tu serás mãe de um grande número de filhos espirituais, mas eles custarão ao teu coração como mil martírios. Oferece-te como holocausto, une-te ao Meu sacrifício para obter as graças para eles”.

A jovem Conchita rezava com freqüência frente ao Santíssimo: “Senhor, sinto-me incapaz de Te amar, portanto quero casar. Doa-me muitos filhos. Assim, que eles possam te amar mais de quanto eu sou capaz.” De seu casamento muito feliz nasceram nove filhos, duas mulheres e sete homens. Ela os consagrou todos a Nossa Senhora: “Entrego-os completamente a Ti como se fossem Teus filhos. Tu sabes que eu não os sei educar, pouco sei do que significa ser mãe, mas Tu, Tu o sabes”.

Conchita viu morrer quatro de seus filhos e todos tiveram uma morte santa. Conchita foi realmente mãe espiritual para o sacerdócio de um de seus filhos e sobre ele escreveu: “Manuel nasceu na mesma hora em que morreu Padre José Camacho. Quando ouvi a noticia, roguei a Deus que meu filho pudesse substituir este sacerdote no altar. Desde quando o pequeno Manuel começou a falar, rezamos juntos para a grande graça da vocação ao sacerdócio… No dia de sua primeira Comunhão e em todas as festas importantes renovei a súplica… Aos dezessete anos entrou na Companhia de Jesus”.

Em 1906, da Espanha, onde estava, Manuel comunicou-lhe sua decisão de se tornar sacerdote e ela lhe escreveu: “Doa-te ao Senhor com todo o coração sem nunca negar-te! Esquece as criaturas e principalmente esquece a ti mesmo! Não posso imaginar um consagrado que não seja um santo. Não é possível doar-se a Deus pela metade. Procura ser generoso com Ele!”.

Em 1914, Conchita encontrou Manuel na Espanha pela última vez, porque ele não voltou nunca mais ao México. Naquela época o filho lhe escreveu: “Minha querida, pequena mãe, me indicaste o caminho. Tive a sorte, desde pequeno, de ouvir de teus lábios a doutrina salutar e exigente da cruz. Agora queria pô-la em prática”. 

Dia 23 de julho de 1922, uma semana antes da ordenação sacerdotal, Manuel, então com trinta anos de idade, escreve para sua mãe: “Mãe, ensina-me a ser sacerdote! Fala-me da imensa alegria de poder celebrar a S. Missa. Entrego tudo em tuas mãos, como me protegeste no teu peito quando eu era criança e me ensinaste a pronunciar os belos nomes de Jesus e Maria para introduzir-me nesse mistério. Sinto-me realmente como uma criança que pede preces e sacrifícios… Assim que eu for ordenado sacerdote, te mandarei a minha benção e depois receberei ajoelhado a tua”.

O Senhor fez com que Conchita compreendesse para o seu apostolado: “Confio-te mais um martírio: tu sofrerás aquilo que os sacerdotes cometem contra mim. Tu viverás e oferecerás pela infidelidade e pelas misérias deles”. Esta maternidade espiritual para a santificação dos sacerdotes e da Igreja a consumiu completamente. Conchita morreu em 1937 aos 75 anos.

Na prática

”Rogai, portanto, ao Senhor da messe para que envie trabalhadores para a sua messe!”. Significa que: a messe existe, mas Deus quer servir-se dos homens, a fim de que ela seja levada ao celeiro. Deus tem necessidade de homens. Precisa de pessoas que digam: Sim, estou disposto a tornar-me o teu trabalhador na messe, estou disposto a ajudar a fim de que esta messe que está a amadurecer nos corações dos homens possa verdadeiramente entrar nos celeiros da eternidade e tornar perene comunhão divina de alegria e de amor. “Rogai, portanto, ao Senhor da messe”! Isto quer dizer também: não podemos simplesmente “produzir” vocações, elas devem vir de Deus. Não podemos, como talvez noutras profissões, por meio de uma propaganda bem orientada, mediante, por assim dizer, estratégias adequadas, simplesmente recrutar pessoas. O chamado, partindo do coração de Deus, deve sempre encontrar o caminho até ao coração do homem. E, contudo: exatamente para que chegue aos corações dos homens é necessária também a nossa colaboração. Antes de tudo, rogar ao Senhor da messe significa certamente rezar para isso, despertar o coração e dizer: “fazei por favor! Incentivai os homens! Acendei neles o entusiasmo e a alegria pelo Evangelho! Fazei-lhes entender que este é o tesouro mais precioso do que todos os outros tesouros e que quem o descobriu deve transmiti-lo!” (Papa Emérito Bento XVI)

Todas nós, mulheres, inclusive as virgens consagradas, precisamos ser mães espirituais. Não existe mulher madura que não seja mãe. Assim também são os homens. Os padres não têm filhos biológicos, mas precisam assumir um coração paterno.

Para ser mãe espiritual de sacerdotes, uma mulher não precisa ser mãe física de um sacerdote. Todas as mulheres podem tornar-se mães espirituais dos sacerdotes, ou seja, mulheres solteiras, mães de família, viúvas, religiosas e consagradas. E não só dos sacerdotes, mas também de todas as vocações religiosas masculinas e femininas.

Uma mãe de família pode oferecer, como dádiva espiritual aos sacerdotes, o seu quotidiano, com todos os seus deveres e renúncias. Até mesmo uma breve oração no momento da Sagrada Comunhão ou quando se passa em recolhimento uma hora junto de Deus, diante do Santíssimo, se reza o terço e se oferece este tempo de oração pelos sacerdotes. Também é possível oferecer os sacrifícios pelo aumento e santificação do clero, pelo êxito do trabalho pastoral de cada sacerdote e pelo envio de numerosas e santas vocações.

Os comoventes exemplos destas mães devem encorajar-nos a acreditar, de forma muito mais viva, no poder da maternidade espiritual, invisível mas inteiramente real, principalmente pelos sacerdotes.

Se cada uma de nós abraçar essa missão, como as mães do vilarejo italiano, e fizermos todo mês 40 horas de orações pelas vocações, quão grande bem espiritual faremos a nós mesmas, aos nossos filhos, às almas e ao mundo! É possível reunir, como estão fazendo as irmãs servidoras, 40 mulheres e cada uma ficar responsável por uma hora de oração que pode ser em frente ao Santíssimo, rezando o santo terço ou oferecendo as atividades realizadas naquela hora específica. Ou então adotar espiritualmente um sacerdote, religioso ou religiosa e se comprometer a rezar especificamente por aquela pessoa durante toda a sua vida!

É na família que a vocação sacerdotal e religiosa encontra o terreno fértil no qual a disponibilidade à vontade de Deus pode enraizar-se e tirar o indispensável alimento. Ao mesmo tempo, cada vocação representa, também para a própria família, uma novidade irredutível, que foge dos parâmetros humanos e chama a todos, sempre, para a conversão. Nesta novidade, a participação das mães dos sacerdotes é única e especial.  Toda mãe, de fato, só pode alegrar-se ao ver a vida do próprio filho, não somente repleta, mas cheia de uma especialíssima predileção divina que abraça e transforma pela eternidade.

”Desejo com todo o coração encorajar e agradecer especialmente todas as mães dos sacerdotes e dos seminaristas e – com elas – a todas as mulheres, consagradas e leigas, que acolheram o dom da maternidade espiritual dos chamados ao ministério sacerdotal, tornando-se assim partícipes, de modo especial, da maternidade da Santa Igreja, que tem o seu modelo e a sua realização na divina maternidade de Maria Santíssima”. (Card. Piacenza )

 

Referências

Esposa, Mãe, Ordem Terceira VE

“Desejo que Jesus me triture interiormente para que eu me torne uma hóstia pura onde Ele possa repousar.” (Sta Teresa dos Andes)