Lírio entre espinhos

Uma família católica buscando a santidade

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Direção Espiritual: o diretor, parte 2

Tempo de leitura: 5 minutos

Continuando nossa série sobre Direção Espiritual, hoje trazemos a segunda parte do artigo sobre o Diretor. Se você perdeu a primeira parte, basta acessar esse link.

b) Qualidades morais do diretor

São aquelas que sem ser absolutamente indispensáveis para a técnica da direção espiritual, contribuem poderosamente em seu complemento e perfeição.

Intensa piedade. Segundo São João da Cruz o discípulo não é maior que o mestre, pelo qual devemos procurar um sacerdote de intensa piedade.

A razão disto é que ninguém pode dar o que não tem, nem mais do que tem. E se o mestre não tem vida interior ou é muito fraca, está radicalmente incapacitado para levar a maior altura seu discípulo.

Pode-se dizer que a santificação é obra do Espírito Santo mediante sua graça e que ela não precisamente se dispõe do instrumento para comunicar-se. Mas devemos dizer que:

1- Deus normalmente se acomoda às disposições próximas dos instrumentos que utiliza e não prescinde deles, a não ser por via de exceção e de milagre. 

2- aliás, se fosse assim estaríamos admitindo que não é necessária outra direção que a do Espírito Santo para a santificação, o qual é contrário a toda a tradição.

A piedade do diretor espiritual deve estar formada pelas grandes verdades da fé cristã:

– O centro de sua vida deve ser Cristo.

– Deve procurar a Glória de Deus, sobretudo.

– Deve ter um profundo sentimento de filiação adotiva, que lhe faça ver a Deus como seu pai e aos homens como seus irmãos.

– Deve ter um grande amor a Maria Santíssima.

– Deve praticar o recolhimento interior, o desprendimento das coisas da terra, deve ter um profundo espírito de oração.

Zelo ardente pela salvação das almas. E esta qualidade é uma consequência da anterior, porque quem tem piedade ardente, tem zelo pela salvação das almas. O amor de Deus nos impulsiona a trabalhar para estender seu reinado sobre as almas e o amor pelas almas faz que nos esqueçamos de nós mesmos para pensar somente na santificação das almas ante Deus e para Deus. Sem este zelo, a direção espiritual resultará ineficaz para a alma, já que faltará o estímulo do diretor espiritual para continuar apesar das dificuldades e se converterá para o diretor numa carga insuportável porque sua missão é dura e requer muita abnegação e espírito de sacrifício.

Bondade e suavidade de caráter. O zelo ardente, se não vai acompanhado da bondade corre o perigo de se transformar numa intransigência (Falta de tolerância) e incompreensão terrível, que nunca dá bons resultados. O diretor deve pensar que há de estar animado pelos mesmos sentimentos de Cristo, o Bom Pastor, que vai procurar a ovelha perdida; que não quebra o caniço rachado nem apaga a mecha que ainda fumega. E que acolhe a todos com imensa bondade e compaixão. Não deve esquecer como dizia São Francisco de Sales: “Se consegue mais com um pouco de mel que com um barril de fel”.

Disse o autor Ribert: “A perfeição é uma obra difícil, sobretudo em seus inícios, pelos temores que se inspira e os obstáculos que são preciso superar. Um rigor excessivo e reprovações intempestivas terão o efeito de desanimar as almas e comprometer, talvez para sempre, a obra de sua santificação. Isto é: particularmente nas almas fortemente tentadas, em espíritos poucos abertos, em caráteres suscetíveis, em naturezas débeis e inconstantes, a severidade lhes desconcerta, lhes exaspera, lhes impede a abertura do coração, a confiança e a esperança. A miséria humana e as dificuldades das virtudes recomendam, pois, no diretor, uma paciência inalterável”.

O diretor deve estar animado de sentimentos verdadeiramente paternais, deve ter a obsessão com uma missão de formar Cristo nas almas que Deus lhe confia, até pode dizer como São Paulo: “Filhinhos meus, por quem de novo sinto dores de parto, até que Cristo seja formado em vós” (Gl 4,19).

Deve ser o báculo que sirva para manter em pé, ou para ferir e lastimar. As almas que querem ser tratadas com bondade. Há de procurar o diretor atrair a sua confiança e obediência com uma imensa bondade e suavidade no seu trato, sem prejuízo de manter com energia inquebrantável os princípios mesmo da direção. Santa Joana de Chantal dizia: “À medida que vou vivendo mais vejo fazer-lhes cumprir seu dever sem tirania. Porque, afinal de contas, nossas irmãs são ovelhas de Nosso Senhor; está nos permitido conduzi-las, tocá-las com o cajado, mas não esmagá-las”.

Profunda humildade. O diretor necessita de uma grande dose de humildade por três razões:

Em primeiro lugar por ordem a Deus que “… Resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes” (1Pd 5,5). Sem as luzes de Deus não servem de nada todas as ciências e sabedoria humana na obra da santificação.

Em segundo lugar, por relação a si mesmo. O humilde desconfia de si mesmo não é audaz para resolver irreflexivamente as dificuldades que se lhe apresentam, estuda, medita, consulta se for preciso a outros mais doutos do que ele toma muitas preocupações para assegurar o acerto nas suas decisões.

Em terceiro lugar, por ordem das almas. A humildade atrai e cativa a todo o mundo. Uma repreensão feita com humildade se recebe com gosto e agradecimento; mas, se faz com soberba não é bem recebida e causa mais dano que ajuda.

O diretor deve imitar Jesus Cristo, que era “Manso e humilde de coração” (Mt 11,29) e só procurava o trato das almas a Glória de seu pai (Jo 8,50) sem deixar aquela energia divina que corrigia os vícios e pecados e manifestava ao mundo a verdade.

Perfeito desinteresse e desprendimento no trato com as almasO diretor deve amar as almas não pelas satisfações e consolos que possam lhe proporcionar, senão unicamente para levá-las a Deus.

Santo Agostinho adverte que “os que conduzem as ovelhas de Cristo como se fossem próprias e não de Cristo, demonstram que se amam a si mesmos e não ao Senhor”. E São Lourenço Justiniano cataloga semelhante proceder e roubo, sacrílego, já que reivindica para si mesmo o que é de Cristo e que Ele reclama imperiosamente.

Nem sequer deve lhe importar a gratidão ou ingratidão das almas. Deve deixar com serenidade que abandonem a direção espiritual para ir com outro diretor, sem ter lhes dado nem um motivo para isso. Jamais deve considerar aos outros diretores espirituais como rivais ou competidores, numa missão na qual ninguém pode ter a presunção de obter o monopólio e exclusividade.

Embora possa pedir-lhes a ajuda das orações, não lhes impunha jamais o menor sacrifico ou mortificação para seu proveito próprio. Sua norma única de conduta deve inspirar-se na fórmula sublime do Apocalipse: “Amém, louvor, glória, sabedoria, ação de graças, honra, poder e força ao nosso Deus pelos séculos dos séculos! Amém”.

Estas são as principais qualidades morais que deve ter o Diretor Espiritual. Precisamente por serem tantas e tão perfeitas, não é muito fácil encontrar um bom diretor. Assim pensam São João da Cruz, São João de Ávila,  São Francisco de Sales: devemos escolher um entre dez mil.

Entretanto, não devemos pensar que a alma que não pode ter um bom diretor espiritual, não possa chegar à perfeição. Porque se tem o ardente desejo de santificar-se e de ser em tudo fiel à graça de Deus, segundo as moções do Espírito Santo, não deixará de ser santa porque seu diretor espiritual não é competente.

A Direção Espiritual, enquanto é um meio muito útil e moralmente necessário para a santificação, não é absolutamente necessário. Se não encontrar o diretor adequado ou se a direção não for tão boa mesmo assim com a graça de Deus se pode alcançar a santidade.

Fonte:

Apostila de Espiritualidade, Instituto do Verbo Encarnado

Gabriel é esposo da Rayhanne e pai do Bento e da Maria Isabel! Além disso, é membro da Terceira Ordem da Família do Verbo Encarnado e diretor do Centro Anchieta. Trabalha como professor.

Verso L´Alto – Beato Pier Giorgio Frassati

As mortificações para alcançar a paciência

Tempo de leitura: 4 minutos

 

No último post falamos um pouco sobre os meios de  viver a paciência: ir além de suportar, saber esperar, saber calar, saber falar. Hoje trataremos do último meio: as mortificações para alcançar paciência.

Algumas dessas mortificações que podemos oferecer diariamente a Deus:

  • Fazer o esforço de escutar pacientemente a todos (ao menos durante um tempo prudencial), sem deixar que se apague o sorriso dos lábios, nem fazer expressão de tédio ou indiferença;
  • Não andar comentando a toda hora e com todos, sem razão plausível nem necessidade, as nossas dores e mal estares; propondo-nos firmemente a não nos queixarmos da saúde, do calor, do frio, do abafamento no ônibus lotado, do tempo que levamos sem comer nada…;
  • Renunciar decididamente a utilizar frases típicas do dicionário da impaciência: ”Você sempre faz isso”, ”De novo, já é a terceira vez que você faz isso”, ”Outra vez!”, ”Já estou cansado”;
  • Evitar cobranças insistentes e antipáticas e prontificar-nos a ajudar os outros;
  • Não implicar com pequenos maus hábitos dos outros;
  • Saber repetir calmamente as nossas explicações a quem não as entender;
  • Aceitar as contrariedades com alegria;
  • Não reclamar;
  • E tantas outras!

Após identificar as situações que nos impacientam, devemos esforçar-nos por ser pacientes justamente nessas situações específicas. Na maior parte das vezes teremos de dar mais do que o nosso 100%. E justamente por isso a mortificação é um sacrificar-se.

Um pequeno caso

Uma mãe impaciente tornou-se <<rezadora>>. Uma mulher de nervos frágeis tinha se proposto rezar a Nossa Senhora a jaculatória: ”Mãe de Misericórdia, rogai por nós (por mim e por esse moleque danado!)” a cada grito das crianças. Quando começava a ferver uma crise conjugal, tinha igualmente preparada uma oração própria que dizia: ”Meu Deus, que eu veja aí a cruz e saiba oferecer-Vos essa contrariedade! Rainha da Paz, rogai por nós!” E quando ia ficando enervada e ríspida, rezava: ”Maria…., vida, doçura e esperança nossa, rogai por mim!”. Depois, comentava com certo espanto: – Sabe que dá certo? Fico mais calma!. E ficava mesmo, conta o padre Francisco Faus.

“Recomendo que tenhas calma com os filhos, que não lhes dês uma bofetada por uma ninharia. Os filhos ficam irritados, tu aborreces-te, sofres porque gostas muito deles e, ainda por cima, tens de te acalmar. Tem um bocadinho de paciência, chama-lhes a atenção quando já te tiver passado a irritação, e sem ninguém por perto. Não os humilhes diante dos irmãos. Fala com eles apresentando algumas razões, para que se dêem conta de que devem atuar de outra maneira., porque assim agradam a Deus”. (São Josemaria Escrivá)

Quando começamos a meditar sobre as nossas impaciências, descobrimos que a única coisa que as pessoas nos estão pedindo a toda a hora (mesmo quando não nos pedem nada) é precisamente o nosso amor. Na realidade, todos os exercícios de paciência consistem em exercícios de amor.

Padre Francisco Faus diz que ”é possível que, ao voltarem a casa com toda a carga do cansaço do dia, se vá rezando o terço no trânsito ou carreguem consigo um livro de pensamentos espirituais, para lerem e meditarem uma ou outra frase ao pararem no semáforo demorado ou no engarrafamento incontornável. Ao mesmo tempo, vão espremendo os seus cansados miolos, tentando concretizar: “Que iniciativa, que detalhe, que palavra posso preparar para que a minha chegada a casa seja um motivo de alegria para a minha mulher, ou para o meu marido, e para os meus filhos?” E, assim, homens e mulheres cujo retorno ao lar era antes soturno e irritado, tornam-se – em virtude do amor a Deus e aos outros, que se esforçam por cultivar – corações pacientes, que espalham a paz e a alegria à sua volta.”

Como diz Santo Tomás de Aquino, ”manifestum est quod patientia a caritate causatur”: ”é evidente que a paciência é causada pelo amor”, ou, por outras palavras, ”só o amor é causa da paciência”.  Esse grande amor que, com a ajuda da graça divina, nos dá forças para aceitar, sorrindo e com os olhos fixos em Jesus, as pequenas contrariedades e também as grandes dores. Esse grande amor que nos dá energia para sermos fiéis e persistir pacientemente na luta um dia após outro, é o mesmo amor que acende na alma os grandes ideais e nos impele a realizá-los com a maior vibração e prontidão possíveis.

A mesma paciência que aceita,  torna-se divinamente impaciente em seus desejos de amar. Não se atira atabalhoadamente à ação, mas quer andar, como dizia São Josemaria Escrivá, “ao passo de Deus”, ao ritmo das graças e das oportunidades que o Senhor dá, sem nada perder, sem nada atrasar. Tem uma serena e enérgica prontidão em se doar e aceitar aquilo que o Senhor manda.

”A paciência! Não é por certo a virtude que no decorrer do dia se oferece com maior freqüência à mãe de família, qual fruto esplêndido e fecundo? Colhei este fruto celeste avidamente e fazei penetrar até o íntimo da vossa alma. Ele vos fará morrer para vós mesmas! O exercício dessa virtude mudará de fato o curso de vossa vida, para reconduzi-la ao domínio do Pai Celeste. (…) Ah! como a vida das mães, geralmente sobrecarregadas de trabalho e renúncia, tonar-se-ia doce e até mesmo jubilosa, se elas vivessem o seu cristianismo! A dificuldade do momento, longe de ser um obstáculo à sua ascensão, passaria a ser, em vez disso, como um sorriso de Deus, um apelo para o Alto, um motivo a mais de esperança infinita!” (G. Joannés)

O cultivo da paciência é um exercício diário. Muitas vezes, o processo é lento, mas nem por isso devemos desanimar. Deus é extremamente paciente com as nossas limitações. Cabe a nós uma vontade firme de seguir adiante, não importa quão difícil ou quanto demore! A graça de Deus vem sempre em nosso auxílio! Peçamos incessantemente ao bom Deus que nos dê um coração dócil, terno, ”manso e humilde”, semelhante ao de Nosso Senhor.

Referências

São Josemaria Escrivá, Bell-lloc del Plá (Gerona), 24-XI-1972

A paciência, padre Francisco Faus

Padre Paulo Ricardo

Suma Teológica, Santo Tomás de Aquino

Esposa, Mãe, Ordem Terceira VE

“Desejo que Jesus me triture interiormente para que eu me torne uma hóstia pura onde Ele possa repousar.” (Sta Teresa dos Andes)

Os meios para se viver a paciência

Tempo de leitura: 6 minutos

“Vale mais ter paciência do que ser valente; é melhor saber se controlar do que conquistar cidades inteiras” (Provérbios 16,32).

Não há uma fórmula mágica para viver a paciência, principalmente se o egoísmo tem raízes em nosso coração. Mas, se há amor, então vão nos ocorrendo mil maneiras de exercitar a paciência. Quem luta por viver em Deus, sabe que o amor cristão é movido por duas asas: a da oração e a da mortificação. Por isso, todo o exercício da paciência comportará necessariamente o movimento de uma dessas asas, ou, o que será mais frequente, de ambas ao mesmo tempo.

Santo Afonso de Ligório nos diz:  “Não nos irritemos com nenhum incidente; se às vezes nos vemos surpreendidos pela raiva, recorramos logo a Deus, e abstenhamo-nos de agir e falar, até termos a certeza de que já foi embora”. Quando nos sentimos à beira de uma crise de impaciência, devemos fazer o esforço de nos calarmos. Melhor será fazer o sacrifício de guardar silêncio, de sair, se for preciso, de perto do foco do atrito e de rezar bem devagar alguma oração, como, por exemplo o Pai Nosso. Após essa oração, que pode ser também uma sequencia de jaculatórias, de invocações breves, pedindo paciência a Deus e já com a alma mais tranquila, poderemos discernir o que nos convém fazer. Não duvidemos que o esforço de guardar silêncio, unido ao esforço de fazer oração, sempre conduzirá para a paciência real e prática.

Ao lado da oração, mas sem deixá-la de lado, exercitamos a paciência por meio da prática voluntária, consciente, amorosa, de um sem fim de pequenos sacrifícios que são uma gota de paz, de afabilidade, de bondade, sobre as incipientes ebulições da impaciência.

Falando de forma mais prática

a) É preciso aprender a ir além de suportar

Papa Bento XVI falava dessa sabedoria: ”A paciência é o rosto cotidiano do amor. Nela, a fé e a esperança também estão presentes. Porque, sem a esperança que vem da fé, a paciência seria apenas resignação e perderia o dinamismo que a faz ir além do esforço de suportar uns aos outros, para ir ao esforço de ser uns o suporte dos outros. Jesus conduz-nos para a paciência que suporta e apoia o outro”.  É isso o que são Paulo nos pede na Carta aos Gálatas: ”Levai os fardos uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo” (Gl 6,2).

Na maioria das vezes sequer chegamos ao ponto de suportar. Precisamos ser realistas, pois é bem verdade que tudo nos incomoda e na maioria das vezes nem pensamos em quanto somos capazes de incomodar os outros também. Quanto mais nos recordarmos de nossas misérias e nos esforçarmos em sofrer as demoras, os nossos egoísmos, as nossas irritações, tanto mais nos assemelharemos ao Cristo, que tudo suportou por amor a nós. E, acredite, tanto mais fácil será a vida em família.

Se cada um esforçar-se em suportar o outro e melhorar a si mesmo, a harmonia familiar será sempre fácil de alcançar. O problema é que preocupamo-nos mais em corrigir o outro do que a nós mesmos, em reclamar das situações do que suportá-las ou resolvê-las. Um simples exemplo: se todos os dias ao invés de gastar meia hora reclamando com meu esposo do sapato que fica na porta eu simplesmente pegá-lo e guardá-lo, terei economizado 29 minutos, evitado estresse e ainda crescido em humildade e sacrifício. E, mais, por experiência própria: na maior parte das vezes conseguimos algo dando o exemplo e não através das palavras.

Se a impaciência vem da nossa incapacidade de sofrer, suportar é nosso ato voluntário de aceitar sofrer e  não só isso, mas sofrer com amor. Não dá para aceitar sofrer com cara feira, emburrada, com indiretas, com vitimismo. E isso também não é algo que se consiga do dia para a noite, mas é fundamental que possamos ser sinceros e identificarmos essa coisas em nós que precisam ser melhoradas.

Além disso, devemos esforçar-nos em suportar as situações onde não há solução e oferecer amor. Como em caso de adultério, é sempre necessário ir além de suportar. É preciso perdoar. Também aos filhos, com suas dificuldades e incapacidades, que exigem de nós muitas vezes mais do uma boa dose de paciência.

b) É preciso saber esperar

”Sede pacientes, irmãos. Vede como o lavrador aguarda o precioso fruto da terra e tem paciência até receber a chuva temporã e a tardia. Tende também vós paciência e fortalecei os vossos corações” (Tg 5,7-8).

São Josemaria fala dessa sabedoria: ‘‘Quem sabe ser forte não se deixa dominar pela pressa em colher o fruto da sua virtude; é paciente. A fortaleza leva-o a saborear a virtude humana e divina da paciência… E é esta paciência a que nos leva também a ser compreensivos com os outros, persuadidos de que as almas, como o bom vinho, melhoram com o tempo”.

Muitos casamentos passam por grandes crises porque os esposos ocupam-se demais em mudar o outro. Além disso, nós, mulheres, somos especialistas em ocupar-nos com ninharias. Não nos casamos com uma pessoa perfeita e nem nós somos esta pessoa perfeita para o outro. É preciso aprender a ajudar o outro a crescer, o que não significa que ele será como eu espero que ele seja. Cada pessoa é única e irrepetível, somente Deus sabe o que é melhor para ela.

Se estamos diante de uma falta grave, devemos corrigir as pessoas com amor e oferecer uma solução para remediar aquele problema. Não é com brigas, gritos, discussões e reclamações cotidianas e frequentes que a mudança vem. Além disso, precisamos saber esperar o tempo de que as flores floresçam e os frutos possam ser colhidos. Muitas vezes não teremos a graça de colhê-los. Recordo-me bem do exemplo da Elisabeth Leseur que tendo uma vida interior intensa e profunda, morreu sem ver seu esposo convertido. Mas, após sua morte, ao ler seu diário espiritual, ele se converteu e tornou-se sacerdote. Deus tem seus caminhos.

Além disso, esperar também no sentido de viver o sofrimento que se manifesta em forma de dificuldade, como uma doença, um imprevisto, e tantas outras coisas, com serenidade.

c) É preciso saber calar

Como é importante calar quando a ira ou a impaciência fervilham dentro de nós. «Não repreendas quando sentes a indignação pela falta cometida. – Espera pelo dia seguinte, ou mais tempo ainda. – E depois, tranquilo e com a intenção purificada, não deixes de repreender. – Conseguirás mais com uma palavra afetuosa do que com três horas de briga» (São Josemaria Escrivá)

Falar, retrucar e cair no bate-boca: por não saber calar é que vem o descontrole e a briga.

Paciência, escreveu Papa Francisco, “não é deixar que nos maltratem permanentemente, nem tolerar agressões físicas, ou permitir que nos tratem como objetos”, mas “o amor tem sempre um sentido de profunda compaixão que leva a aceitar o outro como parte deste mundo, também quando atua de um modo diferente ao qual eu desejaria”. “O problema surge quando exigimos que as relações sejam idílicas, ou que as pessoas sejam perfeitas, ou quando nos colocamos no centro e esperamos que se cumpra unicamente a nossa vontade. Então tudo nos impacienta, tudo nos leva a reagir com agressividade.”

d) É preciso saber falar

Quando a impaciência nos ataca, a primeira coisa que deveríamos fazer, depois de esforçar-nos por calar, é falar com Deus. Nunca falemos só “conosco”, com esses debates íntimos da imaginação esquentada, que só aumentam a fúria e a amargura íntima. Menos ainda falemos, irados, com a pessoa que provocou a impaciência, querendo mostrar-lhe que nós temos razão e ela não.

Primeiro, portanto – e às vezes por muito tempo –, falemos com Deus, fazendo oração: procurando ver com Ele a verdadeira dimensão das coisas, pedindo-lhe forças para carregar a Cruz com serenidade, suplicando-lhe que nos comunique um pouco da paciência com que Cristo enfrentou o juízo iníquo, o caminho da Cruz e a crucifixão.

Experimentemos também invocar a nossa Mãe, Maria Santíssima, dizendo-lhe: “Rainha da paz, rogai por nós!”

E também será oportuno, muitas vezes, falar com quem nos possa orientar espiritualmente e aconselhar a melhor maneira de santificar as contrariedades.

O último meio são as mortificações da paciência. Esse é o assunto do próximo post!

 

Referências

Caminho, São Josemaria Escrivá

Amigos de Deus, São Josemaria Escrivá

A paciência, padre Francisco Faus

Padre Paulo Ricardo

Suma Teológica, Santo Tomás de Aquino

Homilia, Papa Francisco

Esposa, Mãe, Ordem Terceira VE

“Desejo que Jesus me triture interiormente para que eu me torne uma hóstia pura onde Ele possa repousar.” (Sta Teresa dos Andes)

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