família Zago e padres do IVE
Espiritualidade

Um chamado a mais – vocação de terciários

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A vocação matrimonial é um chamado que, em alguns casos, não se restringe a vida matrimonial em si. Ela comporta uma forma mais refinada de vida, iluminada pelos conselhos evangélicos adaptados a este estado de vida e a uma regra de vida em particular.

No Catecismo está escrito: “Além dos seus preceitos, a Lei nova inclui também os conselhos evangélicos. A distinção tradicional entre os mandamentos de Deus e os conselhos evangélicos estabelece-se por referência à caridade, perfeição da vida cristã. Os preceitos destinam-se a afastar tudo o que é incompatível com a caridade. Os conselhos têm por fim afastar o que, mesmo sem lhe ser contrário, pode constituir impedimento à expansão da caridadeOs conselhos evangélicos manifestam a plenitude viva da caridade, sempre insatisfeita por não dar mais. Atestam o seu ímpeto e solicitam a nossa prontidão espiritual. A perfeição da Lei nova consiste essencialmente nos preceitos do amor de Deus e do próximo. 

Os conselhos indicam caminhos mais diretos, meios mais adequados, e são praticáveis segundo a vocação de cada um:

«Deus não quer que cada um observe todos os conselhos, mas somente os que são convenientes, segundo a diversidade das pessoas, dos tempos, das ocasiões e das forças, consoante a caridade o requer; pois é ela que, como rainha de todas as virtudes, de todos os mandamentos, de todos os conselhos, em suma, de todas as leis e de todas as acções cristãs, lhes dá a todos e a todas o lugar, a ordem, o tempo e o valor»” [1]

“Muitas vezes e de diversos modos” [2] o Senhor inspirou, por meio da experiência de vida dos religiosos formas de espiritualidade laicais, ricas e atraentes. Desta ânsia e chamado em viver de forma mais perfeita e da união espiritual que alguns fiéis desenvolviam com Ordens Religiosas, surgiram as Ordens Terceiras. 

O desenvolver destas ordens não se deu de forma fácil, senão que perdurou por anos até chegar a aprovação da Santa Sé e a uma regra de vida harmônica para seus membros. A ordem terceira carmelita, por exemplo, em seus relatos traz que caminhou arduamente por mais de trinta anos e com o auxílio de diversos leigos até enfim dispor de uma regra de vida adequada a seus membros.

Alguns leigos, então, por um chamado e vocação especial participam do carisma das famílias religiosas, patrimônio comum do Povo de Deus, que se torna também para eles uma fonte de energia e uma escola de vida. Essa adesão dos leigos a um carisma especifico é encorajada e aprovada pela própria Igreja, que os convida a esforçarem-se para assimilar fielmente as características particulares da espiritualidade de tais famílias. [3]

Quando acessamos o Código de Direito Canônico, encontramos as seguintes orientações concernente às Ordens Terceiras: 

Na Igreja existem associações, distintas dos institutos de vida consagrada e das sociedades de vida apostólica, nas quais os fiéis quer clérigos quer leigos, quer em conjunto clérigos e leigos, em comum se esforçam por fomentar uma vida mais perfeita, por promover o culto público ou a doutrina cristã, ou outras obras de apostolado, a saber, o trabalho de evangelização, o exercício de obras de piedade ou de caridade, e por informar a ordem temporal com o espírito cristão.

As associações cujos membros, participando no século do espírito de algum instituto religioso e sob a sua alta orientação, levam uma vida apostólica e tendem à perfeição cristã, recebem o nome de ordens terceiras.

Todas as associações de fiéis, públicas ou privadas, qualquer que seja a designação, tenham estatutos próprios, nos quais se determinem o fim ou o objectivo social da associação, a sede, o governo, e as condições necessárias para a elas se pertencer, o modo de agir, tendo em atenção as necessidades ou a utilidade do tempo e do lugar.

Todas as associações de fiéis estão sujeitas à vigilância da autoridade eclesiástica competente, à qual pertence velar para que nelas se mantenha a integridade da fé e dos costumes, e cuidar que não se introduzam abusos na disciplina eclesiástica.

Estão sujeitas à vigilância da Santa Sé as associações de qualquer género; e à do Ordinário do lugar as associações diocesanas e também as outras associações na medida em que actuem na diocese.

Para alguém gozar dos direitos e privilégios da associação, das indulgências e outras graças espirituais à mesma concedidas, é necessário e suficiente ter sido, segundo as normas do direito e os estatutos, validamente admitido nela e não ter sido legitimamente demitido.

Os Superiores e os religiosos mantenham fielmente a missão e as obras próprias do instituto; contudo adaptem-nas com prudência, tendo em consideração as necessidades dos tempos e lugares, e utilizando até meios novos e oportunos.

Os institutos que tiverem unidas algumas associações de fiéis auxiliem-nas com especial cuidado, a fim de que sejam impregnadas do genuíno espírito da sua família religiosa. [4]

As Ordens Terceiras mais antigas e conhecidas atualmente são a Carmelita, a Franciscana e a Dominicana. Mas hoje, a Igreja já conta com inúmeras instituições deste estilo provindas de diferentes Congregações, como a dos Arautos do Evangelho ou a do Instituto do Verbo Encarnado, da qual sou membro admitido.

Em resumo, uma Ordem Terceira é uma associação de Fiéis leigos que, vivendo no mundo e fazendo-se participantes da vida religiosa e apostólica de alguma Ordem Religiosa, segundo uma regra própria escrita pelo Fundador e aprovada pela Santa Sé, se esforçam por atingir a perfeição cristã sob a direção desta mesma Ordem.

O fim da Ordem Terceira é a santificação própria e a salvação das almas por meios adequados ao estado dos fiéis que vivem no século.

Os meios para conseguir esse fim são, além dos preceitos comuns a todos os fiéis e dos deveres do próprio estado: a fidelidade ao carisma da Família onde se ingressa, a observância das regras dispostas pelo Fundador, a obediência aos Superiores e o apostolado segundo a disposição do próprio estado, principalmente na Diocese na qual os membros estão inseridos.

Podem ser admitidos todos os fiéis de ambos os sexos, clérigos ou leigos, solteiros ou casados. Em algumas Ordens Terceiras há a possibilidade de professar votos como os religiosos, mas mantendo sua vivência no mundo, constituindo então o grupo dos leigos consagrados. E para os cônjuges, a maioria dispõe que não haja ingresso de apenas um dos consortes, mas apenas se for do interesse de ambos. 

Cada Ordem Terceira trará sua própria constituição, pois cada uma compreende um

Carisma único, variando portanto seus distintivos, suas regras, sua forma de apostolado e rito de ingresso, por exemplo. O que não muda em todas elas para o processo de admissão formal é a realização de um estágio probatório para que o fiel conheça mais sobre o carisma e a vivência do espírito da Família, bem como para ter um discernimento junto aos Superiores sobre se há uma vocação verdadeira ou se a pessoa está sendo movida por outros motivos. 

Ingressar em uma Ordem Terceira não compreende uma admissão irrevogável. O leigo pode pedir demissão ou até mesmo ser demitido pelo conselho superior. Também não compreende algo imprescindível a todos os solteiros ou casados, mas a um grupo que recebe esta vocação especial.

É importante ressaltar que embora haja submissão ao Superior, a pertença a Ordem Terceira concede aos próprios leigos uma ampla autonomia de iniciativa e de condução da vida privada. Ao contrário de diversas comunidades que são denominadas “de vida”, onde os leigos devem obediência cega e entregam ao conselho superior as decisões de sua vida pessoal, não é o que acontece nas Ordens Terceiras. 

Os leigos admitidos contam com o direito e o dever de serem assistidos pelos padres através da direção espiritual e recebem seus conselhos sobre várias áreas de sua vida pessoal, mas as decisões competem à própria pessoa e não ao instituto. Assim como também não há envio missionário, mas entende-se que os leigos “em sua rica atividade quotidiana, na família, no trabalho e na sociedade, procurem restaurar a unidade de uma vida que encontre no Evangelho inspiração e força para ser vivida em plenitude.” [5]

Os religiosos entendem que a participação dos leigos em sua família e carisma pode contribuir, como nos ensinam experiências do passado, com fecundos aprofundamentos de alguns aspectos do carisma, reinterpretando-os e impulsionando a novos dinamismos apostólicos também por meio da “preciosa contribuição da sua secularidade e do seu serviço especifico” [6] A Ordem, reconhecendo a sua vocação, acolhe aos leigos como família própria e comunica-lhes as riquezas da própria espiritualidade e tradição, tornando-os ainda participantes dos benefícios espirituais de toda a família religiosa.

A vocação dos leigos é a de transformar o mundo secular[7]. Portanto, os terciários se caracterizam pela secularidade, ou seja, por viverem no mundo e não em casas religiosas; e são chamados a tratar corretamente das coisas do mundo e a ordená-las segundo a vontade de Deus. Vivem no século em meio ao povo, dedicados às ocupações e ofícios do mundo, nas condições ordinárias e peculiaridades da família e da sociedade. São, portanto, convidados por Deus a contribuir para a santificação do mundo, empenhando-se no seu trabalho com o espírito do Evangelho. Sua vocação é iluminar e ordenar as atividades do mundo, de modo que se realizem segundo Cristo e assim sejam o louvor da glória do Criador [8].

Como ensinava São Francisco de Sales, os cristãos realizam a comum vocação à santidade de modo específico: ‘’Na criação, Deus mandou às plantas produzir seus frutos, cada uma segundo sua espécie (Gn (1,11).’’ O mesmo mandamento dirige aos cristãos, que são plantas vivas de sua igreja, para que produzam frutos cada um segundo seu estado e condição.

Na exortação apostólica Gaudete et exultate do Papa Francisco está escrito: ‘’Deus chama a todos e a alguns com uma missão específica, pensada pessoalmente para eles. “«Cada um por seu caminho», diz o Concílio. Por isso, uma pessoa não deve desanimar, quando contempla modelos de santidade que lhe parecem inatingíveis. Há testemunhos que são úteis para nos estimular e motivar, mas não para procurarmos copiá- los, porque isso poderia até afastar-nos do caminho, único e específico, que o Senhor predispôs para nós. Importante é que cada crente discirna o seu próprio caminho e traga à luz o melhor de si mesmo, quanto Deus colocou nele de muito pessoal (cf. 1 Cor 12, 7), e não se esgote procurando imitar algo que não foi pensado para ele. Todos estamos chamados a ser testemunhas, mas há muitas formas existenciais de testemunho. De fato, quando o grande místico São João da Cruz escrevera o seu Cântico Espiritual, preferia evitar regras fixas para todos, explicando que os seus versos estavam escritos para que cada um os aproveitasse «a seu modo». Pois a vida divina comunica-se «a uns duma maneira e a outros doutra»”.

Falando especificamente a respeito do matrimônio, não podemos esquecer que o primeiro apostolado do casal é o seu lar. O cumprimento de sua vocação está na fiel execução dos seus deveres de estado. Qualquer atividade que atrapalhe as funções estabelecidas por Deus para o matrimônio está errada.

Tenho ficado surpresa ao conhecer tantos relatos de casais que passam mais tempo na igreja do que com os filhos, que a “missão” ocupa muito tempo, que as comunidades da qual fazem parte decidem até onde a família vai morar e quando vai se mudar para uma nova cidade, que os coordenadores criticam e não “permitem” que sejam abertos à vida pois atrapalha a “missão”, que falta diálogo em casa porque o apostolado exige muito tempo e por aí vai. Este não costuma ser o caso de fiéis leigos ingressos em Ordens Terceiras regulamentadas pela igreja, porque seus fundadores juntamente com a hierarquia da Igreja não estabelecem uma norma de vida contrária aos preceitos divinos, mas sim uma forma de vida mais perfeita e adaptada ao estado em que o leigo se encontra. Contudo, este pode ser um problema em que muitas novas Comunidades esbarrem por uma compreensão errônea a respeito das vocações e da santidade. 

Independente de qual chamado particular cada um de nós tenhamos, todos somos chamados à santidade. Como ensinava São João Paulo II, todo chamado de Deus é uma história de amor única e irrepetível. Por isso, precisamos de uma vida interior e sacramental verdadeira, para que possamos sempre ouvir Àquela Voz que nos chama.


  1. Catecismo, pontos 1973 – 1974
  2. Regra do Carmo, 1; cfr. Hb 1,1
  3. cfr. Apostolicam Actuositatem
  4. Código de Direito Canônico, 298, 303 – 306, 677.
  5. cfr Christifideles laici, 34.
  6. Vita Consecrata, 55.
  7. J. Chalmers, Na terra do Carmelo, carta à Família Carmelitana, n.40.
  8. cfr. Lumen Gentium 31;36

Gabriel é esposo da Rayhanne e pai do Bento e da Maria Isabel! Além disso, é membro da Terceira Ordem da Família do Verbo Encarnado. Trabalha como professor.Verso L´Alto - Beato Pier Giorgio Frassati

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